quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Com que armas lutaremos?



Cornelius Van Til (1895-1987), antigo professor de apologética do Westminster Theological Seminary, apesar de não ser tão conhecido em nosso cenário e nem traduzido, se faz presente na epistemologia reformada e, principalmente, na formação de seu talentoso aluno, Francis Schaeffer (1912-1984).

Em sua “Apologetics”, obra não publicada em português, Van Til nos diz que a defesa da fé não deve ser apenas nas “trincheiras”, aguardando os ataques dos inimigos. Nós devemos ir ao campo inimigo como “espias” que sempre carregam suas armas para possíveis confrontos. Se guardarmos bem a nossa fortaleza e usarmos dos recursos disponíveis para a defesa de nosso “forte” (o Teísmo Cristão), “não haverá, então, lugar para o inimigo. Nós travamos uma guerra tanto ofensiva como defensiva. As duas coisas não podem ser separadas. Mas, nós não precisamos deixar o forte para travarmos uma batalha ofensiva” (Cornelius Van Til, Christian Apologetics, New Jersey, Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1976, p. 4). Em outras palavras, devemos partir para o ataque sem descuidarmos do forte.

A idéia inicial de Van Til em seu trabalho apologético é nos dizer que existe uma guerra. Não existe neutralidade nessa guerra. Esse combate, apesar de ter sido ilustrado de modo bélico, é espiritual em primeira instância, mas também atinge o campo epistemológico, pois todo o nosso conhecimento a priore não é imune aos nossos conceitos e pré-conceitos religiosos, filosóficos, históricos, emocionais, vivenciais. Portanto, todas as pessoas partem de um princípio para estabelecer sua teia de conhecimento e, conseqüentemente, suas ações. Todo pensamento humano é composto de pressupostos.

Seguindo essa premissa, percebemos que, de modo prático, a nossa batalha passa por várias esferas. Primeiramente, é necessário conhecermos o cristianismo e algumas de suas premissas básicas: 1) a existência de Um Deus Trino que é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente. Ele é distinto de sua criatura em essência, magnitude, poder e por vários aspectos do Seu ser: imutável, independente, Uno (não é composto de partes); 2) o cristianismo acredita na existência e possibilidade do conhecimento da Verdade, que é absoluta e objetiva, e crê na real possibilidade de comunhão com Deus e de conhecê-lo – na metafísica cristã, Deus é qualitativamente distinto dos demais seres – isso é uma diferença radical, uma vez que, na Teogonia de Hesíodo ou na Odisséia de Homero, os deuses gregos são reflexos dos seus adoradores.

Platão, usufruindo da graça comum, adverte seus contemporâneos para a essência de Deus: “E Deus é essencialmente simples e verdadeiro, em atos e palavras. Deus não muda de forma e não engana os outros, nem por simulacros nem por discursos nem pelo envio de sinais, no estado de vigília ou nos sonhos” (Platão, A República de Platão, São Paulo, Nova Cultura, 1999, p. 72). Platão, sem conceito nenhum do Cristianismo, pois o mesmo ainda não existia, e sem nem mesmo partilhar do conceito monoteísta judaico, faz uma afirmação confrontadora e polêmica para sua época: “mendigos e adivinhos vão às portas dos ricos tentar persuadi-los de que têm o poder, outorgado dos deuses devido a sacrifícios e encantamentos, de curar por meio de prazeres e festas, com sacrifícios, qualquer crime cometido pelo próprio ou pelos seus antepassados e, por outro lado, se quiser fazer mal a um inimigo, mediante pequena despesa, prejudicarão com igual facilidade justo e injusto, persuadindo os deuses a serem seus servidores – dizem eles – graças a tais ou quais invocações e feitiçarias. Para todas estas pretensões, invocam os deuses como testemunhas, uns sobre o vício, garantindo facilidades (...). Outros, para mostrar como os deuses são influenciados pelos homens, invocam o testemunho de Homero, pois também ele disse: ‘Flexíveis até os deuses o são. Com as suas preces, por meio de sacrifícios, votos aprazíveis, libações, gordura de vítimas, os homens tornam-nos propícios, quando algum saiu do seu caminho e errou’ (Ilíada IX. 497-501)” (Platão, A República, 7ª ed. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, (1993), 364 c-e).

Essa afirmação atribuída a Sócrates, na República de Platão, revela a dificuldade que Sócrates tinha em conceber um deus que errava, mentia, caluniava e tinhas reações humanas. Essa visão dos deuses refletia a própria decadência dos profetas e dos poetas que retratavam em suas penas e com esplendida verve o panteão grego; eles eram a imagem e a semelhança do homem. Totalmente contrários ao pensamento Cristão-Judaico o qual diz que nós é que somos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26).

Esses conceitos levantados por Plantão são, no mínimo, uma prova do que chamamos de sensus divinitatis (senso divino) que Deus cravou no homem (Rm 2.14). Isso nos leva de volta a Van Til e sua apologética, quando afirma que, por natureza, o homem deve buscar o transcendente. Não existe coerência em um mundo apenas limitado à esfera física. A metafísica é necessária para explicar o conceito de causalidade e da fenomenologia. Toda as vezes em que um cientista lançar uma dúvida para o campo do “mistério”, necessariamente, ele tem que admitir que a questão está acima de sua razão, acima de sua compreensão. Sendo assim, é inevitável que ele admita a contradição: como algo pode ser racional e irracional ao mesmo tempo? Como posso compreender a questão temporal dos fatos que, para o senso comum, são dirigidos pelo acaso? Como responsabilizar o acaso por alguns fatos e, ao mesmo tempo, dizer que o homem é autodeterminante? Portanto, é vital buscar a solução para esse problema: se a “realidade última das coisas”, segundo a filosofia e ciência modernas, é impossível de ser encontrada pelo homem, logo, por questão de lógica, devemos admitir que existe uma dimensão da realidade que está além da racionalidade humana.

O dever do cristão é usar as armas que Deus nos deu! Essas armas devem ser regidas e totalmente movidas pelos conceitos eternos e imutáveis da Palavra de Deus. Se queremos nos comunicar verdadeiramente com o homem hodierno, devemos “espiar”, com “armas em punho”, o seu território. Podemos utilizar algumas armas dadas por Deus que nos fez seres pensantes e criativos sem perder, em momento algum, a pressuposição de que Deus é quem se revela aos corações empedernidos.

Dentre diversas abordagens apologéticas que podemos fazer, fica uma sugestão reformada dada por Van Til: que todo método pressupõe “a verdade ou a falsidade do teísmo cristão”. (...) qual é o ponto de referência final requerido para tornar os ‘fatos’ e ‘leis’ inteligíveis. A questão versa sobre o que são realmente os “fatos” e “leis”. São o que a metodologia não-cristã presume que sejam? São o que a metodologia teísta cristã presume que sejam?”(Cornelius Van Til, Christian Apologetics, New Jersey, Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1976, p. 62). Esses questionamentos andarão em círculos e só serão solucionados após a aceitação de umas das posições. “Ficará evidente, então, que o teísmo cristão, que de início fora rejeitado por causa de seu suposto caráter autoritário, é a única posição que dá, à razão humana, campo para uma operação bem sucedida e um método de verdadeiro progresso em conhecimento” (Cornelius Van Til, Christian Apologetics, New Jersey, Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1976, p. 62).

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, (2 Co 10.4).

Que Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Autonomia: a prisão da liberdade e a solidão social


Século 21; era dos telefones celulares que são verdadeiros computadores de bolso. Época da evolução dos Mp3’s, aparelhos de TV individual nos celulares e em tamanho que cabe em uma mão; óculos com TV e amizades virtuais pela internet, inclusive jogos de computador com o qual o jogador pode criar uma segunda vida (Second Life) virtual e viver e relacionar-se com personagens criados eletronicamente. A Internet diminuiu o mundo em um simples clicar.

O encurtamento das distâncias geográficas, entretanto, não significa que as pessoas se tornaram mais felizes ou menos solitárias. Apesar dos avanços tecnológicos, houve uma regressão nos relacionamentos interpessoais. Os indivíduos se tornaram cada vez mais individualistas e avessos às leis. O curioso dessa aversão às leis é que não existe liberdade sem legislação que garanta essa liberdade. É só repensar a história que veremos que direitos foram conquistados com lutas e com leis que garantem esses direitos.

Na era do vazio, como bem falou Gilles Lipovetsky, as pessoas se tornaram mais hedonistas e narcisistas. Até em seus relacionamentos, as pessoas buscam quem pareçe com consigo mesmas. “A cultura pós-moderna é a cultura do felling e da emancipação individual estendida a todas as categorias de idade e de sexo. A educação, antes autoritária, tornou-se altamente permissiva, atenta aos desejos das crianças e dos adolescentes enquanto, por toda a parte, a onda hedonista elimina a culpa do tempo livre e encoraja a nossa entrega a ele sem entraves e o aumento da quantidade de lazeres. A sedução: uma lógica que segue seu caminho, que não poupa mais nada e que, assim, fazendo, cria uma socialização suave e tolerante, dedicada a personalizar-psicologizar o indivíduo” (Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo, Barueri, SP, Manole, 2006, p. 5).

A palavra autonomia é originária do grego e significa a faculdade de se governar por si mesmo. Esse princípio foi usado por Adão quando Deus ordenou que não comesse do fruto da árvore do bem e do mal. Ele ouviu sua mulher, que já fora antes seduzida pela serpente, transgrediu a lei de Deus e seguiu sua própria lei (Gn 3.17).

Quanto mais o homem busca a autonomia, ele se torna escravo de sua própria lei. Os homens de hoje são egoístas e individualistas. Esse egoísmo e aversão às leis e principalmente à lei de Deus têm feito o homem refém do pecado e de suas conseqüências hedônicas. Hoje o homem é escravo dos seus prazeres e de seus vícios. A autonomia tão esperada e celebrada gerou uma sociedade presa do medo, vazia e solitária. As pessoas ouvem músicas sozinhas em seus Mp3’s e o telefone celular substituiu o telefone da família, pois esssa não existe mais.

As leis do país são transgredidas em prol da “liberdade individual” e do interesse pessoal em detrimento do coletivo. Muitos políticos são egoístas e usam o dinheiro “público” para seu bel-prazer. A educação libertária aprisionou nossos filhos à rebeldia, à falta de respeito e ao egocentrismo. Até na igreja do Senhor Jesus, algumas pessoas utilizam o nome de Deus para enriquecimento próprio e autopromoção.

Caríssimos, não devemos sucumbir à autonomia pecaminosa e contrária a Deus. Devemos nos submeter à lei de Deus; às autoridades civis; às autoridades da igreja; à constituição do Brasil e à constituição da nossa Igreja. Ninguém com pretexto da “liberdade” ou democracia pode prescindir das normas da Igreja e principalmente da Lei de Deus. Autonomia é pecado e leva à solidão social, pois, sem regras sociais não existem relacionamentos. “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Tm 3. 1-5). Aos gálatas, Paulo adverte: “Tomara até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia. Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5.12,13).

Soli Deo Gloria

Rev. Ricardo Rios Melo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Aborto; aborte essa idéia!


O aborto não é novidade no mundo. Parece que, desde a antiguidade, era praticado por alguns povos. Os gregos usavam como controle de natalidade. “Era preconizado por Aristóteles como método eficaz para limitar os nascimentos e manter estáveis as populações das cidades gregas. Por sua vez, Platão opinava que o aborto deveria ser obrigatório, por motivos eugênicos, para as mulheres com mais de 40 anos e para preservar a pureza da raça dos guerreiros. Sócrates aconselhava às parteiras, por sinal profissão de sua mãe, que facilitassem o aborto às mulheres que assim o desejassem. Já Hipócrates, em seu juramento, assumiu o compromisso de não aplicar pessário em mulheres para provocar aborto” (Néia Schor & Augusta T. de Alvarenga In: O Aborto: Um Resgate Histórico e Outros Dados, http://www.fsp.usp.br/SCHOR.HTM, acesso em 18/10/2007).

Parece que, ao longo dos séculos, o aborto se tornou mais comum em vários países, seja por motivos econômicos e sócio-demográficos ou pela liberdade individual. Percebe-se que as restrições a essa prática dão lugar àquilo que se denominou de “direito da mulher sobre seu corpo”. A partir da década de 70, “2/3 da população mundial já viviam em países que apresentaram as leis mais liberais, mais da metade delas foi aprovada nesta última década. Mas, há também casos de países que voltaram às leis anteriores, como aconteceu com a Romênia, Bulgária e Hungria (razões de ordem demográfica) e com Israel (motivos político-religiosos)”. (Néia Schor & Augusta T. de Alvarenga In: O Aborto: Um Resgate Histórico e Outros Dados, http://www.fsp.usp.br/SCHOR.HTM, acesso em 18/10/2007.

No Brasil, essa temática retorna com força total em nossa época. A liberdade sexual, tão festejada pela sociedade hodierna, trouxe consigo a velha questão: uma mulher tem direito de interromper uma gravidez indesejada? Dentro do Código Penal Brasileiro datado de 07 de dezembro 1940, o aborto está qualificado como Crime Contra a Vida: “Infanticídio: Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque: Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos. Aborto provocado por terceiro. Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos. Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Parágrafo único - Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de 14 (quatorze) anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência. Forma qualificada - Art. 127 - As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em conseqüência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte. Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: § 4º - No homicídio culposo, a pena é aumentada de um terço, se o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir as conseqüências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio, a pena é aumentada de um terço, se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. 28 § 5º acrescentado pela Lei nº 6.416, de 24.05.77. Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”. Vê-se, então, que apesar de apenar alguns casos, o código penal brasileiro passou por uma flexibilização da lei, ao permitir o aborto em alguns casos. Hoje, novamente, se busca não só uma flexibilização da lei, mas, uma legalização do aborto.

Marta Suplicy, ministra do turismo, aponta para a legalização do aborto como uma necessidade social: "Por mais que se queira condenar a prática ou não entender os motivos, fica claro que milhares de mulheres, a cada ano, realizam o aborto. Com ou sem atendimento médico. Aliás, a maioria, em más condições, sujeitas a seqüelas de saúde física e mental. E por quê? Seria irresponsabilidade de tantas mulheres? Insensibilidade? Falta de moral? Não cabe julgar de forma linear alguém por um ato que diz respeito a uma decisão muito pessoal e íntima. Quem trabalha diretamente com as mulheres conhece suas realidades: falta acesso a informações e a métodos contraceptivos eficazes; falta suporte psicológico em situações e contextos de extrema pobreza, sobram carências ou dificuldades pessoais de diferentes naturezas (abandono, pressão social e familiar etc.)” (Marta Suplicy, Aborto História de Muitas Histórias, http://www2.fpa.org.br/portal/uploads/marta.pdf , acesso em 18/10/2007). Para a atual ministra, com a legalização do aborto o controle seria maior e diminuiria o índice. Entretanto, parece que ao final do seu arrazoado, entendendo a polêmica que envolve o assunto, ela declara: “E, fundamentalmente, cabe ao Poder Executivo assegurar condições objetivas de acesso às informações e métodos contraceptivos. Cumpre-lhe garantir adequada educação sexual nas escolas. Essas são condições essenciais para se prevenir o aborto” (Marta Suplicy, Aborto História de Muitas Histórias, http://www2.fpa.org.br/portal/uploads/marta.pdf , acesso em 18/10/2007).

Após esse extenso histórico, temos que nos posicionar como cidadãos brasileiros e principalmente como Cristãos Protestantes. Dentro do conceito bíblico o aborto é explicitamente condenado. A palavra muwth tem um sentido pejorativo em Nm 12.12 é a mesma que aparece no Sl 31.13 tendo o sentido de tirar a vida, matar, executar, despachar, levar a morte prematuramente. No Sl 58.8, a palavra utilizada é nephel, significa nascimento fora de tempo. Contudo, dentro do contexto do salmo, a idéia é de morte, pois o salmista quer que eles nunca vejam a luz do sol. Esse sentido de nascer morto ou nunca chegar a vida também é presente nos textos de Jó 3.16, Ec 6. 3. Mais explicitamente temos: Ex 21.22: “Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem”; Ex 23.26: “Na tua terra, não haverá mulher que aborte (shakol – estar enlutado, ficar sem filhos), nem estéril; completarei o número dos teus dias”. No Novo testamente Paulo usa a expressão aborto (ektroma) para falar que ele viu Cristo, após todos os outros discípulos e testemunhas, “como por um nascido fora de tempo” (1 Co 15.8), um filho temporão.

O texto de Ex 21.22 pune o aborto causado por terceiros, enquanto o texto de Ex 23.26 remete aos textos Gn 1. 22; 1.28, 8.17; 9.1,7; 47.27; Lv. 26.9; Ez 36. 11 que trazem a idéia bíblica de que a fecundidade e multiplicação da raça humana é uma dádiva de Deus. O contraste é o seguinte: a morte veio com o pecado de Adão e é uma pena aplicada à desobediência a Deus. Deus fez o homem para crescer, multiplicar, ser fecundo e encher e povoar a terra e viver eternamente. O aborto “aborta” essa possibilidade. Desobedece à ordem divina e é contrário até ao senso natural de cada ser humano que luta pela vida. Acertadamente, o Código Penal Brasileiro qualifica o aborto como crime contra a vida. Deus fala de vida. O aborto fala de morte.

Pela própria natureza humana, que luta pela sobrevivência, já poderíamos ser contrários a esse crime. Infelizmente, no Brasil levanta-se a questão da legalização do aborto. Para nossa surpresa, alguns “cristãos” se colocam favoráveis a esse crime. Alguns mais audaciosos e, porque não dizer, descomprometidos com o ensinamento bíblico, emitem suas opiniões em livros, revistas de circulação nacional e na televisão invocando de modo blasfemo o nome de Deus. Exprimem não um pensamento das Escrituras, mas, uma preocupação meramente política.

Se a Bíblia fosse favorável ao aborto, certamente um dos casos de clara gravidez indesejada, como foi o adultério do rei Davi com Bate-Seba, seria facilmente acobertado pelo aborto, já que o envolvido era nada mais nada menos que o rei de Israel. Todavia, o relato das Escrituras mostra que Davi tentou acobertar seu pecado de todas as maneiras, inclusive, colocando Urias na frente de batalha para que fosse morto. Porém, o aborto nunca foi uma opção (2 Sm 11. 1-27).

A opinião pró-aborto é aceita e maximizada por muitos tidos como “intelectuais” modernos e descomprometidos com a Bíblia e com o cristianismo. É o caso do articulista André Petry, que coloca a legalização do aborto como necessária e de caráter igualitário, pois, segundo ele, só as mulheres pobres são condenadas pelo crime. Ao retratar o caso da menina Michele, que foi jogada pela mãe em um ribeirão poluído de Belo Horizonte, o douto jornalista deixa transparecer claramente que se ela fosse rica praticaria esse ato sem qualquer problema, pois teria dinheiro suficiente para realizar o aborto em uma clínica clandestina: “as brasileiras mais abastadas se não querem uma gravidez que não puderem evitar, dispõem dos meios para abortar. Há clínicas clandestinas que fazem o serviço pelo Brasil inteiro. Mas cobram caro. Jamais uma brasileira abastada, sem outra opção que não o aborto, se verá levada á demência de jogar um bebê pela janela. Justamente porque o aborto se lhe apresenta como solução anterior a esse estágio de completo desespero e delírio. (...) Elisabete Que matou a filha, vai para a cadeia. Deve pegar mais que os oito anos de Simone, que jogou a filha na Lagoa da Pampulha. É justo. Elisabete cometeu um crime repulsivo. É assassinato. Vivendo a mesma asfixia infernal de Elisabete, tantas outras mulheres jogam seus filhos fora. É justo que, mesmo sendo pobres, tivessem outra opção.” (Veja, O Aborto e a Igualdade, 10 de outubro de 2007, p. 70).

A questão que foi levantada por André não passa em nenhum momento pelo crivo da simples racionalidade e lógica humana. É uma posição simplesmente desprovida, inclusive, de dados verdadeiros, visto que se o aborto supostamente praticado pelas mulheres mais abastadas é clandestino, como ele fez essa verificação e estatística? Tendo em vista que o Código Penal vigente proíbe tal monstruosidade, qualquer pessoa que saiba de um caso desses e não denuncie torna-se cúmplice de crime. Portanto, algo está de errado com esse argumento. Levantam-se outros questionamentos, como por exemplo, a idéia de que a mulher pode praticar o aborto porque o corpo é dela e ela tem direito de fazer o que quiser consigo. Esse argumento é interessante, mas ela tem direito sobre o corpo de outra pessoa? Ela tem o direito de matar uma criança alegando essa premissa? Os métodos contraceptivos realmente não são 100% eficazes, mas isso justifica o aborto? Qual é a melhor alternativa, abortar ou ter o direito suficiente do seu corpo a tal ponto de dizer não a um ato sexual ou de realizá-lo com total consciência das possíveis conseqüências? Quer dizer que a única e melhor solução para uma gravidez “indesejada” é o aborto? E por falar em indesejada, será que uma mulher que tem coragem e juízo para abortar uma criança indefesa, não tem coragem ou juízo de praticar o famoso “sexo seguro”? As colocações do jornalista não só foram ilógicas e sem sentido, foram desumanas e egoístas, pois se a mãe dele tivesse praticado o aborto, ele não estaria vivo para escrever tamanha bobagem!

Ao que parece, é mais fácil jogar a responsabilidade no Estado e na criança, do que admitir que a única coisa que a liberdade sexual trouxe para nossa sociedade foi: doenças, promiscuidade, infidelidade conjugal, depravação e aborto. O único sexo seguro que existe é o antigo e desprestigiado pela sociedade, casamento - com fidelidade conjugal, é claro!

Quer-se com a defesa da legalização do aborto transmitir a falsa premissa de que esse ato macabro faz parte do direito e da valorização da mulher. O que precisamos é de mais moralidade, saúde, educação, controle de natalidade, distribuição de renda e de uma sociedade que assuma suas responsabilidades, inclusive de cuidar e criar seus filhos ao invés de matá-los com a desculpa de “mal necessário”.

Entendendo que o mundo todo não vai aderir ao cristianismo como filosofia de vida e muito menos se converterá a Cristo, “porque a fé não é de todos (2 Ts 3.2)”! Temos que, no mínimo, como cidadãos brasileiros, lutar pela vida!

Por último, temos que salientar que as discussões pertinentes ao momento em que existe a vida dentro do útero de uma mãe são inúmeras, controversas e permeadas de pressupostos. Por isso devemos ficar com ensinamento do salmista que nos mostra que antes do parto, já existimos: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Aborto; aborte essa idéia! Diga não à violência contra as crianças que não são consultadas sobre se querem ou não viver! Preserve a vida! E, acima de tudo, obedeça a Deus! “Não Matarás (ratsach: matar, assassinar, cometer homicídio)" (Ex 20.13).

Rev. Ricardo Rios Melo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O Cristianismo sem Cruz



Milhares de anos se passaram e um evento histórico nunca foi esquecido. Primeiramente, um personagem histórico chamado Jesus. Homem simples, mas que arrogava para si o título de Deus. Para muitos de sua época, era apenas o filho do Carpinteiro. Contudo, para aqueles que andavam com ele, chamados de discípulos, era o Filho de Deus. Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, mudou a história da humanidade. Para aqueles que não acreditaram em sua mensagem, apenas um homem. Mas, para os que creram em sua pregação, simplesmente: “o caminho, a verdade e a vida”.

Dentro da história polêmica desse personagem, existiram fatos significativos e, por que não dizer, cruelmente fantásticos. Um desses fatos é a morte dele. Segundo as Escrituras Sagradas, Ele era Justo, bom, íntegro e puro. Entretanto, se entregou voluntariamente nas mãos perversas de seus algozes, pois ele mesmo disse: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.17,18).

Nessa entrega voluntária de Jesus, houve o ato mais desumano possível da história: a injustiça da crucificação. Em julgamento injusto, pessoas corrompidas pelo poder e movidas pelo ódio e pelos seus pecados levaram-No à morte de cruz. Desde então, o cristianismo nunca mais pôde ser visto sem a cruz. A cruz tornara-se o símbolo do cristianismo. O túmulo vazio é o símbolo da vitória de Cristo sobre a morte, pois nem a morte conseguiu detê-lo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”(1 Co 15.55). Contudo, não haveria ressurreição sem cruz. A cruz é símbolo da vitória de Cristo sobre o pecado. A cruz diz para nós que, com Cristo, foi crucificado o nosso velho homem. Na cruz, Cristo cravou os nossos pecados e nos libertou pagando o preço amargo para nos salvar.

Em nossa vida, temos que, constantemente carregar a cruz. Carregar a cruz significa autonegação. Significa mortificar o ego e exaltar a pessoa de Cristo em nossa vida. Paulo traduz isso em uma passagem que poderia lhe servir de auto-exaltação por ter feito tanto no trabalho de Deus, mas, porém, ele diz: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo”(1 Co 15.10). A cruz nos leva a uma sublime humilhação.

Infelizmente, vivemos um cristianismo sem cruz. As pessoas não abdicam de nada por Cristo. Poucos são os que se submetem ao Senhorio de Cristo e à maravilhosa subserviência da cruz. Os “cristãos” de hoje só pensam em bens materias, emocionais e bem-estar em geral. As igrejas históricas, como a nossa, sofrem de uma letargia. A pergunta nostálgica que fazemos é essa: onde está o cristianismo da cruz? Onde estão os crentes que fariam tudo para adorarem e honrarem seu Senhor? Onde estão os fiéis que glorificavam a Deus por terem sido afrontados por causa do nome de Cristo (At 5.41)? Onde estão os fiéis que morreriam pelo nome de Cristo? Onde estão os fiéis que morreriam por um pedaço pequeno das Escrituras? Que saudade de Policarpo, que em 155 depois de Cristo, ao ser levado com outros cristãos para o martírio em um estádio, nos deu esse testemunho: “Fazem 86 anos que o sirvo, e ele nada fez de errado para comigo; como posso blasfemar contra o meu Rei e Salvador”.

Queridos, não existe cristianismo sem Cruz!

Deus nos abençoe e reavive em nós o amor a Cristo!

Rev. Ricardo Rios Melo.

Os Sete Pecados



Há algum tempo, venho pensando em escrever sobre esse tema que tomou força na exibição da novela global que tem o mesmo nome. Aliás, é justo admitir que foi a novela a inspiradora desse pequeno arrazoado.

Essa idéia dos sete pecados capitais foi introduzida desde o ano de 400, com João Cassiano, e culminou em torno de 604 com o Papa Greogório Magno. A história mostra que Tomás de Aquino (1225-1274) propulsor de grande acuidade e perspicácia teológica, é que dá corpo a essa doutrina. Outro personagem importante na divulgação é Dante Alighieri (1265-1321), com sua obra literária: A Divina Comédia. Essa obra, que já foi chamada antes de Comédia ou apenas de Dante, recebeu esse nome atual por “Boccaccio, o do Decamerão, que iniciou suas leituras no domingo, 23 de outubro. E foi Boccaccio, dos primeiros ardorosos intérpretes e divulgadores do poema, que lhe alterou o nome entendendo-a imensurável pelo nível artístico, pelo tema, pela ambientação, pela atualidade e o endereçamento certo à imortalidade, carimbou-o com o adjetivo que lhe pareceu mais cabível: Divina, Divina Comédia. A primeira edição veneziana, de Giolito, impressa em 1555, traz esse título. E assim ficou sendo” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. XIII).

Certamente, a Divina Comédia inspirou o diretor da novela Sete Pecados. No mínimo, quanto a alguns nomes dos personagens. Para lembrá-los um pouco da obra de Dante, ela nos fala da viagem de Dante (personagem com o mesmo nome do autor do livro) que percorrerá o seguinte itinerário: Inferno-Purgatório-Paraíso. Nessa viagem, ele terá três guias: “Virgílio, o maior dos Poetas para o poeta Dante, ao longo do Inferno e pelo Purgatório; Beatriz, do paraíso terrestre, subindo pelas esferas celestes, até o Empíreo; São Bernardo, que vai postar o peregrino à face de Deus” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. XIII).

A novela não segue todos os detalhes do Poema, mas, tenta chegar a alguns pontos de convergência, como é o caso da luta de Dante contra um dos sete pecados. Na Divina Comédia, isso é tipificado pela viagem do personagem principal, assim como na novela. Os sete pecados da Divina Comédia encontram sua purificação no Purgatório em suas três divisões. “No primeiro círculo purificam-se os soberbos; no segundo, os invejosos; no terceiro, os coléricos, e pelos círculos seguintes: os preguiçosos, os avarentos e os pródigos, os gulosos, os luxuriosos” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. 20).

Bom, como a novela fará paralelo ao poema ou se fará, eu não sei. O que sei é que algumas coisas devemos perceber nessa “inocente novela”: ela quer passar uma mensagem ou várias mensagens. E parece-nos certo dizer que a novela faz uma apologia ao pecado. Talvez mude no seu decorrer. Todavia, a própria música de abertura cantada por Zélia Duncam, Carne e Osso, ressalta a “alegria que o pecado dá ao ser humano”. Essa alegria é cantada nos versos da música que diz que quem encontrou um “jeito de ser perfeito, encontrou um jeito insosso para não ser de carne osso”.

Vamos à análise desse tema:
1) a Bíblia não nos dá nenhum respaldo para a doutrina dos sete pecados. Apesar de serem pecados horríveis, a Bíblia só nos autoriza a dizer que existem pecados mais hediondos que outros. Isso é retratado pelo nosso Catecismo Maior na pergunta 150, cf. Jo 19.11, Ez 8.6,13,15; 1Jo 5.16; Sl 78.17,32,56. Entretanto, todos são pecados merecedores de castigo e carentes do perdão de Deus. A doutrina Católica Romana fala de pecado mortal e pecado venial, contudo isso não encontra eco na Bíblia. Johannes Geerhard Vos, falando sobre pecado para morte retratado em 1Jo 5.16, diz: “entende-se comumente que o ‘pecado para morte’ significa uma forma de pecado que resulta inevitavelmente na morte eterna, pois exclui qualquer possibilidade de arrependimento; isto é: a rejeição deliberada, definitiva e continuada do evangelho de Jesus Cristo, quando o Espírito Santo, por fim, deixa de pleitear com a pessoa e a abandona à dureza pecaminosa do seu próprio coração. Somos ordenados a nem mesmo orar por alguém assim. Esse ‘pecado para morte’ não pode se cometido por um verdadeiro crente em Cristo, nascido de novo, mas pode ser cometido por crentes nominais, que jamais nasceram de novo de verdade” (Johannes Geerhard Vos, Catecismo maior de Westminster Comentado, São Paulo, Os Puritanos, 2007, p 469). A doutrina dos setes pecados e do pecado mortal e venial são acréscimos da tradição e devem ser rejeitados;

2) devemos avaliar que a viagem de Dante reflete o pensamento medievalista de sua época tomista e romanista e que é um poema e deve ser lido como tal. Mas, a novela, de maneira demoníaca, faz uma apologia subversiva ao pecado. Dizer que o pecado faz parte da essência humana é acusar a Deus de pecado. A música e a novela mostram uma confusão típica de nossa época enfronhada na maldade. Deus fez o homem puro, perfeito e à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Após o pecado, é que o homem passa conviver com a malignidade (Gn 3). A novela fala de relacionamentos de anjos com seres humanos, típicos de Homero e comuns na mitologia grega. Isso deixa claro que ninguém consciente ou inconscientemente está livre de pressupostos. A novela é um atentando à moral e uma exaltação aos vícios. Só tem uma coisa acertada na música e na novela; é que, após o pecado ninguém é perfeito e que nossa sociedade vive destituída da moral e preocupação com Deus. Contudo, o remédio para o pecado não é alegria em praticá-lo. Não é a constatação de que todos erram que justifica meus atos pecaminosos e maléficos. O que a humanidade precisa é de tristeza pela desobediência a Deus, conversão. Precisa confessar a Deus seus e pecados para que tenha a verdadeira a alegria, e não o prazer infernal do pecado. “Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniqüidade e em cujo espírito não há dolo. Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado. Sendo assim, todo homem piedoso te fará súplicas em tempo de poder encontrar-te. Com efeito, quando transbordarem muitas águas, não o atingirão. Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento. Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho. Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem. Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia o assistirá. Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração” (Sl 32).

Queridos, que a nossa alegria seja de uma vida santa a Deus! “Porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16).

Rev. Ricardo Rios Melo.


sábado, 28 de julho de 2007

Aceitando a Vontade de Deus



Você já conheceu alguém que perdeu tudo na vida? Alguém de posição social e de recursos e que perdeu tudo? Ou conheceu alguém que perdeu sua família, seus filhos? Pois bem, provavelmente você conheceu alguém que se encaixa em parte nesse quadro. Esse quadro pintado em cores acinzentadas e tristes. Mas, se essa pessoa além de perder tudo, perdesse a saúde? Que quadro de desespero! Que situação lastimável!

Eu gostaria de lhe apresentar um homem que viveu tudo isso: seu nome era Jó. Esse homem foi retratado na Bíblia como um homem temente a Deus e justo em tudo. Até que um dia, satanás, que não estava feliz com a prosperidade e comunhão de Jó com Deus, diz a Deus que Jó só era fiel porque tinha tudo. Após esse diálogo de Deus com satanás, a vida de Jó dá um giro de 180º (Jó 1.1-22). Nunca mais a vida de Jó seria a mesma. Ele perde bens, família, e a única coisa que resta para ele é uma mulher néscia que diz a ele para amaldiçoar o Deus dele e morrer. A ênfase do Livro de Jó está na reação dele a todo infortúnio de sua vida. A resposta que ele dá a sua esposa é maravilhosa! “ Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre. Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2. 9-10). Ainda no capítulo um ele responde: “Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma (Jó 1.20-22).

Esse livro de Jó vem em minha mente em um momento em que a tragédia da TAM não sai de nossa cabeça e dos brasileiros em geral. Fiquei pensando: “se fosse um parente nosso?”, “esposa e filhos?”, ou se fosse a nossa hora de partir? Estaríamos preparados para tudo isso? Estaríamos preparados para responder como Jó?

Queridos, como é difícil aceitar a vontade de Deus em nossa vida! Às vezes nas pequenas coisas, não aceitamos. Diante de qualquer coisa que contrarie a nossa vontade, agimos como crianças malcriadas que fazem escândalos em locais públicos: choramos, emburramos e agimos com rispidez ao menor desagrado de nossa vontade. Então, como aceitar a vontade de Deus em nossa vida, se nas mínimas coisas somos mimados?

Creio que muitos de nós entraríamos em desespero se estivéssemos no lugar de Jó! E é bom salientar que Jó não sabia de seu futuro, como nós sabemos o que aconteceu com ele. Ele aceitou a vontade de Deus, porque ele tinha convicção que a vontade de Deus é perfeita, agradável. Ainda que pareça algo desastroso aos nossos olhos, Deus vê além de nossa visão embaçada pelo pecado que ainda reside mesmo nos regenerados.

Jó tinha certeza que Deus estava no controle! Que sua vida jamais saiu das mãos carinhosas de seu Pai. Por isso, ele estava pronto para receber o bem e o mal. Jó não se resignou com sua dor, não! Ele confiou que Deus é bom e faz o bem para os que confiam nEle. É na confiança de que tudo que Deus faz é bom, que Paulo pode exclamar: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) .

Aceitar a vontade de Deus passa pela autonegação, pois é preciso negar minha vontade e dizer: “a vontade do Senhor é perfeita”; “nada foge à Sua Vontade!”. Imagine, apenas uma hipótese, que uma pessoa estivesse pronta para pegar aquele avião da TAM, mas por um motivo alheio a nossa compreensão, ela não conseguiu. Se essa pessoa aceita a vontade de Deus, ela diria: “fiz tudo o que minha responsabilidade humana poderia fazer, mas, não deu para pegar o avião, portanto foi a vontade do Senhor que eu não viajasse”. Imagine uma segunda situação, essa pessoa fizesse um escândalo enorme para viajar, esperneasse, chorasse, fizesse diversos tipos de birras e escândalos, mas, mesmo assim, não viajasse. Hoje ela diria: “foi Deus”! Mas, precisava disso tudo para ela saber que os nossos dias estão contados e que ela deve descansar no Senhor? Será que muitas pessoas precisam bater a cabeça e brigar com os outros para saberem que Deus realiza sua vontade independentemente de nós?

Creio que existe muitos crentes que querem viver como Jonas. Fugindo da vontade de Deus e tendo que ser levados de volta à vontade Deus de maneira drástica. Acredito que temos muitos mais crentes Jonas do que crentes Jó.

Seja um crente Jó, pois a vontade de Deus será realizada e é melhor você recebê-la com a certeza de que é melhor do que a sua. “Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte” (Pv 16.25).

Quando você aprende a aceitar a vontade de Deus, você pode dizer: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42:5).

Aprenda a aceitar a vontade de Deus nas mínimas coisas da vida, para que, quando chegue a grande provação, você possa dizer: ...temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Deus nos faça aceitar a sua vontade assim como Cristo nos ensina no Pai Nosso: “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo




quarta-feira, 25 de julho de 2007

Como lidar com a dor?


Mais um desastre aéreo. Desalento, tristeza, consternação e sentimento de incapacidade. Na busca de entender o que aconteceu, hipóteses são levantadas: erro humano? Fatalidade? Muita água na pista? Defeito na reforma da pista? Todas essas hipóteses são possíveis. Entretanto, nada disso poderá acalentar o coração daqueles familiares que esperavam ansiosos no aeroporto pelos seus entes queridos! Nada disso poderá consolar alguém que terá que conviver com o triste fato de não ter mais ao seu lado as pessoas que amava.

Talvez se descubra as causas do acidente e os parentes das vitimas sejam indenizados. Entretanto, nada poderá reparar a dor e a ausência. Mas, como lidar com esse vazio? Como lidar com esse sentimento que enlutou um país? Mesmo para os que confiam no Senhor, a dor não e fácil! Contudo, há um consolo inconfundível: é o conforto do Espírito Santo de Deus em nossa vida. Esse conforto só tem aqueles que estão em Cristo.

Eu sempre me impressiono com a história de Davi e seu filho: “Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá. Então, Natã foi para sua casa. E o SENHOR feriu a criança que a mulher de Urias dera à luz a Davi; e a criança adoeceu gravemente. Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra. Então, os anciãos da sua casa se achegaram a ele, para o levantar da terra; porém ele não quis e não comeu com eles. Ao sétimo dia, morreu a criança; e temiam os servos de Davi informá-lo de que a criança era morta, porque diziam: Eis que, estando a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança é morta? Porque mais se afligirá.Viu, porém, Davi que seus servos cochichavam uns com os outros e entendeu que a criança era morta, pelo que disse aos seus servos: É morta a criança? Eles responderam: Morreu. Então, Davi se levantou da terra; lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na Casa do SENHOR e adorou; depois, veio para sua casa e pediu pão; puseram-no diante dele, e ele comeu. Disseram-lhe seus servos: Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste pão. Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? 23 Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim”. A certeza de Davi de que seu filho pertencia à aliança do Senhor fez com que ele se lavasse, trocasse suas roupas, comece e se refizesse. Esse conforto só pode sentir quem tem uma convicção no coração da vida após a morte, do reencontro na eternidade e pela certeza de que seu ente amado saiu de nossos braços pequenos e frágeis para os braços fortes do nosso Pai eterno. Lá, ele está consolado! A dor não existe e o vazio não existe, pois Deus os preenche, e é um em todos.

Outro texto bíblico que me chama muita atenção é o texto de Lucas 16.25, quando Jesus diz que o tempo deve ser vivido quando se está vivo, pois o que fazemos na vida conta para eternidade: “Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos”. Isso nos leva a uma outra questão: aproveitemos os momentos, pois eles poderão não se repetir. Isso não quer dizer que você viverá em busca do prazer e sem planejar o futuro, não! Isso quer dizer que o tempo que você tem com seus queridos deve ser aproveitado, pois pode ser que seja o último aqui nessa terra! Ame mais! Perdoe mais! Viva melhor com as pessoas, pois pode ser que você não consiga dizer o que tem que dizer! Pode ser que você não consiga restaurar relacionamentos que você rompeu pelo seu orgulho ou por motivos banais. Mas, acima de tudo, restaure sua vida com Deus! Pois, depois da morte, não há mais nada a fazer! “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27. Não existe segunda chance! A chance é agora! E Cristo reivindica sua vida para Ele! Confesse Cristo como Salvador e Senhor de toda sua vida e viva eternamente. E se você já é crente, não deixe de anunciar a salvação eterna para seus queridos, pois pode ser que seja tarde demais! Talvez você não tenha chance de falar amanhã ou mais tarde. Mas, se você cumpre o ministério que Cristo nos chama de anunciar o evangelho, você poderá pedir o consolo do Espírito, pois Ele nos confortará da saudade dizendo em nosso coração: ele foi para o Pai! Está nos braços amorosos do Pai! Nada poderá arrebatá-lo de suas mãos! O Pai o ama, cuida dele e consola! Ele está consolado! E você poderá se consolar nessa certeza!

Devemos então lidar com a dor da perda de modo preventivo. Se firmando na verdade e pregando a verdade. Devemos lidar com a saudade clamando a Deus: “É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2 Co 1.4).

Tenho certeza de que a dor só sabe quem sente. Entretanto, chamo a atenção para Aquele que voluntariamente se entregou para sofrer em nosso lugar, Jesus. Ele é um homem de dores e que sabe o que é padecer: “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is 53.3).

O país está de luto. Nós também! Mas, já passou da hora de lavarmos o rosto, comermos o nosso pão e dizer ao mundo que o Senhor habita com o contrito e que restaura a sorte dos que confiam nEle: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).

Deus conforte o coração das famílias que perderam os seus queridos e nos ensine a lidar com a dor preventivamente!

Rev. Ricardo Rios Melo.





quarta-feira, 6 de junho de 2007

“A Volta da Família Careta”



Queridos, devemos esse excelente título a Lia Luft (Veja, seis junho, 2007, p. 26). Em sua matéria, ela ressalta a importância de uma criação “careta” – é claro que ela diz que o “careta” ficou pelo acréscimo de alguns leitores insatisfeitos. Essa brilhante escritora nos traz sérias reflexões e mostra que a sociedade clama por uma família diferente do que se tem hoje.

Seria extremamente gratificante se pudéssemos avaliar a história da família durante a História. Dando uma olhada superficial, não sei se vamos encontrar tanta degradação, desafeto, desrespeito, desvios, incompreensão e violência. Apesar de comumente as gerações presentes serem exageradas e passionais em sua avaliação própria, acho que não seria exagero dizer que vivemos o que Paulo disse dos últimos tempos: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Tm 3. 1-5). Será que encontramos alguma semelhança com os tempos de hoje?

O artigo, tão bem escrito por Luft, traz em seu bojo princípios que, mesmo que ela queira ou não, são princípios tradicionais judaico-cristãos. Não estou nem falando de princípios extremamente bíblicos, mas, de princípios que foram norteados pela Torá e pela Bíblia como um todo influenciando as civilizações. Vejamos algumas idéias que foram levantadas por ela: “acredito profundamente que ter filho é ser responsável, que educar o filho é observar, apoiar, dar colo de mãe e ombro de pai, quando preciso. E é também deixar aquele ser humano crescer e desabrochar. Não solto, não desorientado e desamparado, mas amado com verdade e sensatez. Respeitado e cuidado, num equilíbrio amoroso dessas duas coisas” (Veja, seis junho, 2007, p. 26). Não seria forçoso dizer que ela está ecoando princípios bíblicos: 1) O pai deve ensinar o caminho que o filho deve andar (Pv 22.6); 2) os filhos devem honrar pai e mãe (Ef 6.2); 3) os pais não devem provocar a ira dos filhos (Ef 6.4). É claro que, mais adiante, na mesma matéria citada, ela diz que cada pai saberá fazer como bem-entender, e ela acrescenta: “Quem não souber que não tenha filhos”. Já as Escrituras não nos deixa alternativa, pois é uma ordenança de Deus criar nossos filhos na admoestação do Senhor.

Pensemos um pouco sobre o que a “nova” criação de filhos trouxe para a sociedade. Falando apenas no aspecto educacional comum e não bíblico. Analisemos o que os “pais amigos”, aqueles que são “parceiros dos filhos” (não estou dizendo que não devemos ser amigos de nossos filhos, mas que somos mais que amigos, somos pais!) trouxeram de contribuição para os nossos jovens. Você já percebeu que o índice de alcoolismo, de viciados em droga e de delinqüência aumentou assustadoramente? Não seria ilegítimo dizer que em Salvador você encontra pessoas bebendo e consumindo todo tipo de droga de segunda-feira a segunda-feira. Eu não me lembro disso em épocas passadas! Talvez esteja sofrendo de memória seletiva, mas não encontro paralelo com nenhuma outra época, a não ser nos movimentos hippies e coisas semelhantes, mas, mesmo assim, eram movimentos. Hoje, os jovens não fazem parte de movimento algum, têm uma ideologia hedônica, semelhantes aos hippies, mas com uma grande diferença: fazem isso não por convicções ou rebeldia ou coisa parecida, mas fazem por fazer, porque são “jovens”.

Observe, novamente, o que Lya Luft de modo apropriado diz: “assim como não considero bons pais ou mães os cobradores ou policialescos, também não acho que os do tipo ‘amiguinho’ sejam muito bons pais. Repito: pais que não sabem onde estão seus filhos de 12 ou 14 anos, que nunca se interessam pelo que acontece nas festinhas (mesmo infantis), que não conhecem nomes de amigos ou da família com quem seus filhos passam fins de semana (não me refiro a nomes importantes, mas seres humanos confiáveis), que não sabem de sua vida escolar, estão sendo tragicamente irresponsáveis. Pais que não arranjam tempo para estar com os filhos, para saber deles, para conversar com eles... não tenham filhos. Pois, na hora da angústia, não são os amiguinhos que vão orientá-los e ampará-los, mas o pai e a mãe – se tiverem cacife. (...) mães que se orgulham de vestir roupeta da filha adolescente, de freqüentar os mesmos lugares e até de conquistar os colegas delas são patéticas. Pais que se consideram parceiros apenas porque bancam os garotões, idem. Nada melhor do que uma casa onde se escutam risadas e se curte estar junto, onde reina a liberdade possível. Nada pior do que a falta de uma autoridade amorosa e firme” (Veja, 6 junho, 2007, p. 26).

Pois bem, irmãos, a crença de Lya Luft, confesso que não sei. Só sei dizer uma coisa: a sociedade carece de um padrão de família. Talvez, para aqueles que não aceitam a Bíblia como palavra de Deus, seja necessário um retorno “à família careta”, aquela família onde existe afeto, respeito, autoridade paterna e cuidado constante. Isso já ajudaria muito, contudo, Deus requer mais de você que é crente! Ele quer que você mostre ao mundo a beleza de uma família que segue os padrões dEle. Deus requer de nós não uma família careta, mas a “Família da Aliança”: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). “O Ministério da Saúde Espiritual adverte: famílias desestruturadas e fora dos caminhos e dos preceitos da aliança de Deus geram morte eterna!” Reestruture sua família, ainda há tempo de restaurar relacionamentos e curar feridas. Lembre-se de que tempo gasto com a família não é tempo perdido, é investimento. Muitas pessoas deixam de freqüentar algumas igrejas e de até se comprometerem com a fé porque os próprios crentes se tornam tropeço em seu caminho.

Deus nos abençoe e restaure as famílias!

Rev. Ricardo Rios Melo.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Diálogo com o Ego


Perguntaram ao ego: “Ego, quem fez aquela maravilhosa obra que é vistosa aos olhos?” Ele respondeu: “Claro que fui eu quem fez, quem poderia mais fazê-la?” Outra pergunta então foi feita ao Sr. Ego: “Ego, você parece tão perfeito, você tem algum defeito ou já cometeu algum erro? Se sim, me diga algum.” Sr. Ego prontamente responde: “claro que sim! Todos nós erramos e temos defeitos! Mas, agora assim, de imediato, eu não sei lhe dizer. Talvez eu tenha sido bondoso e generoso demais com as pessoas e elas se aproveitem disso. Acho que também tenho outro erro: sou muito responsável, sincero demais, amoroso demais e não gosto de injustiça”. O diálogo se estende e o Sr. Ego faz suas ponderações: “acho que um mundo precisa de homens como eu. Pessoas que respeitem as outras e que tenham opiniões fortes, pois eu sou assim! Quando decido uma coisa, ninguém a demove!Minhas opiniões são sempre abalizadas por minhas longas jornadas empíricas. O mundo precisa de mais pessoas que se amem! Eu mesmo me olho no espelho e os meus olhos brilham ao enxergarem tão grande perfeição em uma pessoa só. Erros? Agora, pesando melhor, acho que o meu maior erro é conviver com pessoas tão falhas! Creio que preciso renovar meu círculo de amizades, pois a insignificância é contagiosa!”

Esse diálogo com o ego parece uma brincadeira ou uma piada, mas a verdade é que essa palavra tão pequena: ego , oriunda do latim, significa o eu de um indivíduo. O ego sempre se apresenta nas horas mais inconvenientes. Naqueles momentos em que temos que tomar decisões em grupo sendo a decisão do grupo mais importante para o todo, o ego diz: “pobres mortais, não sabem que o melhor para eles é a minha opinião”. O ego é um dos princípios motores da discórdia (Pv 13.10), da guerra, do ódio, da inveja e de todos pecados mesquinhos que possamos relatar.

O ego não tem autocrítica. Ele não sofre de baixa-auto-estima. Ele não passa por crise de identidade. Ele sempre se apresenta bem. Afinal, ele é perfeito! Quando alguma coisa acontece de ruim para o ego, pergunte-o o que acha e ele responderá: “eu não mereço isso!”. Ego é aquele que sempre está pronto a dar conselhos aos outros com um olhar de cima para baixo: “eu sei que isso é difícil, mas você deve fazer assim, pois é assim que é o certo”. O ego sempre diz: “olhe para mim! Eu sou o paradigma a seguir!” O ego gosta de seguidores e serviçais e brinca com as pessoas sem elas saberem, pois são marionetes em suas mãos”. Vejam o exemplo de Hitler, um lunático que conduziu uma nação e o mundo ao caos! Como tantas pessoas seguiram um lunático que tinha a pretensa ambição de dominar o mundo? O ego faz essas coisas. Ele encontra meios de obter seguidores, e faz isso com naturalidade, pois sempre que olhamos para o ego de alguém, nos enxergamos nele! Por isso, seguir um ególatra é seguir a si mesmo no outro! Conhecer a soberba de alguém é enxergar nitidamente a nossa, pois todos nós estamos sujeitos a isso!
Faça um teste: você já percebeu que ninguém é melhor do que você em alguma tarefa? Você já aconselhou alguém dizendo que isso o tempo mudará, como se você já tivesse vencido aquilo? Importante lembrar que quando a Bíblia nos fala de exortarmos o irmão ela diz: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12) (grifos meus).

“Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). Que palavra forte de Paulo! Falando sobre os judaizantes e o possível retorno de suas práticas, que em Cristo foram canceladas e do julgamento que os judaizantes faziam dos outros pela bebida ou comida e outras práticas, Paulo exorta-os a terem cuidados com essas coisas. Uma dessas coisas terríveis que o apóstolo fala é o culto de si mesmo. Parece que os Colossenses estavam prestes a voltarem aos rudimentos do mundo e a cultuarem a Deus segundo os pensamentos ascéticos dos religiosos da época. Vejamos os versículos anteriores: “Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.20-23).

A egolatria se faz presente não só quando somos soberbos em determinadas situações, mas também quando definimos que ser crente ou cultuar a Deus só poderá ser da nossa forma! A egolatria se faz também quando temos uma aparência de humildade, e nisso todos nós temos grande chances de nos formar com honra ao mérito. Certa feita, antes de ir ao seminário, uma pessoa me aconselhou: “cuidado com o conhecimento que você aprenderá, pois poderá gerar soberba em seu coração, eu mesmo tive que lutar muito contra isso, mas venci”. Diante dessa declaração logo me veio à mente: “ele tem orgulho de ser humilde”.

Muitas vezes, nos orgulhamos de vitórias obtidas na vida espiritual, e quando achamos que vencemos certa batalha espiritual contra determinado pecado, caímos, pois a soberba diz; “eu venci”. Quando Paulo vencia alguma coisa, ele dizia: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” 1 Co 15.10). Paulo sabe que trabalhou mais do que todos eles. No início, parece que ele caiu na soberba, mas, imediatamente, ele diz: todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.

Queridos o ego será aniquilado de maneira plena na volta de Jesus, mas, enquanto vivermos, temos que orar conjuntamente com Davi e clamar: “Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão” (Sl 19.13). E nunca se esqueça: “Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” Tg 4.6).

Que Deus nos livre de sermos ególatras!

Rev. Ricardo Rios Melo.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A Navalha e o Machado


Mais uma bomba explodiu no tão desgastado cenário político e econômico brasileiro. Aliás, não é uma bomba, é uma navalha! Uma operação da Polícia Federal, chamada Operação Navalha, debelou uma quadrilha de corrupção que atuava espoliando os cofres públicos por intermédio de licitações milionárias e fraudulentas e que usava o velho adágio popular: “é dando é que se recebe”. Valendo-se desse lema, a quadrilha subornou políticos e autoridades que jamais imaginaríamos.

Segundo a Polícia Federal e noticiários da imprensa falada e escrita, “o líder do esquema, apontado como ‘chefe dos chefes’ no despacho do Superior Tribunal de Justiça que autorizou as prisões, era o empreiteiro Zuleido Soares Veras, 62 anos, dono da empresa Gautama, com sede em Salvador e tentáculos por todo o Nordeste” (Veja, 23 de maio de 2007, p. 57). Só por curiosidade, o nome Gautama, segundo o empresário, foi dado em homenagem a Sidarta Gautama (Siddhartha Gautama - 560-477 a.C.) que, posteriormente, foi chamado de Buda (Budha). A curiosidade reside no fato de que Sidarta, oriundo do sul do Nepal, na Índia, após o nascimento do seu primeiro filho, abandonou o luxo do palácio de seu pai, que era rei do clã Shakya, para viver uma vida contemplativa e ascética, com total desapego à vida material.

Essa operação da Polícia Federal trouxe à tona, mais uma vez, o descalabro de nossa sociedade que vive como que em uma instituição formal aparentemente ilibada, mas cuja raiz está podre. Dentro da ótica humana e superficial, vamos presenciar mais um escândalo das dezenas de escândalos que permeia nossa conjuntura política, social, jurídica. Todas as esferas, aparentemente, estão envolvidas nos esquemas de corrupção, segundo consta nos noticiários. Os jornalistas televisivos já nos informaram que até a Polícia Federal que desbaratou a quadrilha será investigada por vazamento de informações. Pode uma coisa dessas? A Polícia desvenda um caso tão complicado, com cenas parecidas com as dos filmes Hollywoodianos sobre o FBI, e ainda será investigada por vazamento de informações. A respeito disso, não cabe a nós, “reles” mortais, opinar, porque, afinal de contas, os políticos, salvo exceções, não estão nem um pouco preocupados com as nossas opiniões. Eles só nos procuram nas eleições.

A Operação Navalha pode não aprofundar o corte em sua ação, pois essa navalha é humana e sujeita aos erros, julgamentos e condescendências políticas, chamadas pelo escritor português José Saramago de “caciquismo brasileiro”. Contudo, existe uma operação mais profunda que começou há mais de dois mil anos. Operação essa que chamaremos, com toda reverência, de Operação Machado. Ela foi deflagrada não por uma autoridade humana, mas começou profetizada pela boca de um profeta de Deus: “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10). Dessa operação, ninguém pode escapar! É uma operação internacional, pois todos os homens, de toda parte do planeta, terão que passar pelo crivo do machado.

Todo aquele que não produzir frutos de arrependimento será lançado ao fogo! Essa expressão é muito forte! Ela diz que o corte é profundo. Será feito à raiz da árvore. Não serão cortados apenas os galhos e a folhagem, não! Deus cortará pela raiz todo o homem que não estiver dando frutos. E, para que renda frutos, o ser humano tem que crer em Cristo. Essa palavra de João Batista é acompanhada do encontro que ele tem com Jesus. Jesus é o dono do machado e Deus é o Supremo Agricultor. No restante dos versículos, Mateus nos revela: “A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12). O trigo, nessa passagem, representa as pessoas que se arrependeram de seus pecados e do pecado mais horrendo que existe que é a pretensão e soberba de viver a vida em desobediência a Deus e sem Deus. Essas pessoas disseram sim a Jesus e a uma vida de lutas contra os pecados e as vicissitudes do mundo. Disseram sim a Jesus, porque Jesus, antes de tudo, tinha dito sim a elas no processo amoroso de Deus na conversão. A palha representa todo aquele que permanece altivo diante de Deus e diz em seu coração: não há Deus! “O perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações” (Sl 10.4). Se você vive sem Deus ou cogita a inexistência de Deus ou, quem sabe, acredita na existência de Deus, mas não na obediência - você se enquadra na palha que será queimada no último dia. Crer e obedecer são inerentes, ninguém pode crer sem obedecer e ninguém pode obedecer sem crer. Obediência sem fé é mera religião vazia! E esse texto nos fala disso também. Dentre os ouvintes de João Batista, nesse texto de Mt 3, haviam os Fariseus, religiosos de plantão e outro grupo mais herético: os Saduceus, que não acreditavam na ressurreição. Todos eles formam uma boa representação de uma religião vazia. João diz a essas pessoas: “Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). Por outro lado, a fé sem obediência é hipocrisia também: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21).

Queridos, a Operação Navalha talvez “acabe em pizza”, como muitos sem esperança já dizem. Pode até fazer cortes profundos na corrupção que corrói o cenário nacional e a crença de uma população desgastada, dorida e já há muito sem esperança. Todavia, essa operação jamais atingirá a raiz de todos os males: o pecado! Para se cortar essa raiz, só Jesus com sua obra substitutiva na cruz! Entretanto, esse mesmo Jesus que salva pecadores é Aquele que veio colher o seu trigo e lançar a palha no fogo inextinguível. Cuidado! Sua religiosidade não poderá salvá-lo; sua descrença apenas aquecerá mais o seu terror, aumentando seu juízo certo; sua “fé” desobediente encontrará fim na ordem inequívoca e inquestionável de Deus: “Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23).

Amados, da Navalha, alguém pode escapar, mas, do Machado, ninguém escapará! Agora mesmo se pergunte: você é trigo ou palha? Se você é palha, será apenas o combustível do fogo que não se apagará, mas, se é trigo, Deus o abençoe e preserve-o na verdadeira e única fé. E não se esqueça: enquanto há fôlego de vida em suas narinas, você poderá se arrepender de seus pecados e produzir frutos para glória de Deus!

Cuidado! Pois Já está posto o machado à raiz!

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo

Tudo bem!


Em uma das inúmeras propagandas de carro de uma marca famosa, foi retratado um personagem interessante: uma jovem que se contentava com tudo. Ela queria algo maior e melhor, mas, quando recebia menos do que queria, dizia; “tudo bem!”. Eu fiquei pensando nessa propaganda e achei boa para retratar o perfil de alguns irmãos. Esses irmãos são bem interessantes. Quando perguntamos para eles: você está bem? Eles dizem “tudo bem”, quando de fato, não está nada bem. Geralmente, seu casamento está um fardo; suas tribulações deixaram que se afastasse de uma vida mais devotada a Deus; alguns estão lutando contra o pecado de maneira derrotada e outros estão totalmente frios na fé. E sempre que perguntamos como estão, eles dizem: “tudo bem!”.

“Chega de tudo bem!”, diz a propaganda. E eu lhes digo também a mesma coisa! Quando as coisas vão mal, devemos encará-las de maneira séria e não tentando amenizá-las. Quando alguém não recorre à outra pessoa para pedir socorro é porque alguma coisa está de errado com sua percepção ou com sua compreensão cristã. Fomos colocados em um só corpo para sermos membros uns dos outros. Se não está bem para você, não pode estar bem para mim! “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Ef 4.25 ). Quando digo para uma pessoa que as coisas vão bem, quando na verdade nada está bem, eu estou mentindo. E o pai da mentira é o diabo! Se as coisas andavam ruins, agora é que piorou!

Certamente, você me dirá: “mas, pastor eu não vou contar minha vida para todo mundo!” Com certeza, não! Nem é isso que estou querendo. Você deve buscar auxílio do seu pastor e dos presbíteros, para poder compartilhar suas dores. Suas dores não são suas, são nossas. Se você não está bem com seu cônjuge, isso certamente refletirá em sua adoração e em sua recepção da mensagem bíblica, como em toda a igreja, pois todos estaremos sofrendo. A igreja é um reflexo de nossas famílias! Se não estamos bem em casa, como ficaremos bem na igreja? Se você briga direto com seus filhos e se há um desentendimento em casa, como você falará de amor, compreensão, respeito e perdão na igreja?

Antes de continuarmos, tenho que fazer uma advertência. Falar a verdade não quer dizer machucar o irmão a qualquer custo. Devemos falar a verdade em amor (Ef. 4.15). Isso muda tudo! Se um irmão estiver errado, irei falar com ele a verdade, e essa verdade será temperada com amor! Contudo, meu assunto principal aqui nessa pastoral não se refere à verdade que você tem que dizer ao irmão que está errado, mas, à verdade que você tem que dizer quando está errado; doente, frio na fé, caindo, pecando. Muitas pessoas hoje estão frias na fé por causa dos seus pecados de estimação (pecados que nunca abandonaram) e estão dizendo: “tudo bem”! Tudo bem, nada! A Bíblia diz que os sem fervor, os mornos serão vomitados da boca do Senhor: “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.14-16).

O hino Vivificação (133) do Novo Cântico diz algo muito forte na sua terceira estrofe: “Quantos que corriam bem, de ti longe agora vão! Outros seguem, mas, também, sem fervor vivendo estão” (H. M. Wright). Essa é uma verdade! Muitos que corriam bem já não estão em nosso meio e muitos que estão em nosso meio estão vivendo sem fervor. E fervor aqui não significa gritos, mãos levantadas, euforia, pois muitos quando Jesus entrou em Jerusalém gritaram: “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21.9), e depois foram os mesmos que gritaram: “crucifica-o!” (Lc 23.21). Nunca confunda fervor com euforia. Cada pessoa tem um jeito. Conversando com membros da igreja e com meus alunos do seminário, reparei um certo equívoco em muitos deles. Por exemplo, ao falarem de pregadores bons, eles dizem que gostam dos pregadores fervorosos! E os fervorosos para eles são os que gritam! Fiquei preocupado com esse tipo de análise. Se olharmos para o exemplo de Jesus pregando, teremos sérias dificuldades de entender que Jesus andava gritando! Já pensou Jesus proferindo seu célebre Sermão do Monte gritando? Será que combina com Jesus? A propósito, eu acho que Paulo também não gritava, pois os Coríntios diziam que ela era fraco em sua oratória: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível” ( 2Co 10.10). Aliás, a Bíblia nos fala de ordem e decência para que os de fora não pensem que estamos loucos! O culto deve ser inteligível (1Co 14.23). Também não quero dizer que os nossos amados irmãos oradores que usam do recurso do grito estão errados. Errado é avaliar um pregador pelo grito. Nós não vamos ganhar no grito! Isso não confere espiritualidade a ninguém! O fervor é medido espiritualmente, tanto do pregador como do ouvinte. O irmão que está vivendo sem fervor é sentido em sua praxe; em sua rotina de vida, a sua frieza é demonstrada. Entretanto, quando perguntamos para ele se está tudo bem, ele responde: “está tudo bem”!

Esse jogo social de parecermos fortes para a sociedade adentrou a igreja e fez com que as pessoas usassem as máscaras da felicidade. Todo mundo está bem! O irmão diz sorrindo: “só umas enfermidades, falta de dinheiro e harmonia, mas, tudo bem!”. O sorriso no rosto virou uma máscara social para enganar os irmãos da igreja ou para dizer, esse irmão sempre sofre, mas nunca reclama! Ele é forte! Ele é o espiritual! Destarte, a Bíblia nos diz: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10 ). É quando reconhecemos nossas fraquezas que somos fortes, pois nossa força vem de Deus! Enquanto você achar que é o supercrente, você estará na realidade sendo o super-hipócrita! Por outro lado, não seja também o “crente dodói”, aquele que só faz reclamar da vida e não age nem faz nada para mudar sua inércia. Vive a vida toda do favor dos irmãos e da igreja e culpa a igreja, o sistema, o país de sua falta de sorte: “oh dia, oh hora, oh azar”. Esse é o lema do “crente dodói”: reclamar! Se ele está frio na fé, a culpa é do pastor, da igreja, do irmão que falou duramente com ele. Se ele está passando necessidade material, a culpa é dos irmãos que não lhe estenderam a mão! Entretanto, ele certamente vive nessa condição há muitos anos e nunca saiu, pois nunca encarou o problema com autenticidade! Nunca disse: “a começar em mim, quebra coração”; “a culpa é minha!”; “vou mudar”. Ele deve pensar assim, pois, no dia do juízo, seremos responsabilizados individualmente. Não adiantará dizer: “a culpa foi de fulano”, pois cada um dará conta de si!

Queridos, termino essa pastoral dizendo que devemos fazer o que Paulo nos orienta: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade (Rm 12.13); e “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15). Para que isso aconteça, precisamos saber se está tudo bem com você realmente! Como vai você? Está tudo bem?

Que Deus retire as nossas máscaras sociais e nos faça irmãos sinceros!

Rev. Ricardo Rios Melo.


Religião, Religiosidade e Espiritualidade

O que é a religião? Se formos à etimologia da palavra, podemos definir a Religião como o Re-ligare = ligar o homem a Deus ou ao divino. A religião é inerente ao homem. Desde sua gênese, o homem é um ser religioso. Deus implantou no coração dos homens a sua lei e esse homem sabe que precisa adorar um ser maior que ele. Mas, sem a revelação especial de Deus, que é a Bíblia, esse homem se desvia de adorar o Deus verdadeiro (Rm 1.18-32).

A religião sozinha não leva ninguém a Deus! É necessário que haja uma modificação no interior do ser humano para que essa Religião possa fazer sentido. Se tivermos uma religião apenas de aspectos exteriores e formais, estamos sendo religiosos, mas não temos vida em nós mesmos. Essa era a acusação de Jesus aos Fariseus, um partido que ganhou força nos tempos dos Macabeus, nos 400 anos de silêncio profético. Eles transformaram o judaísmo em uma religião de aparências. “Eles seguiam a lei de Moisés e as tradições de seus antepassados”, contudo viviam uma religiosidade vazia: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt 23.27).

Os Judeus tinham seu formalismo até na oração. Segundo o Rev. Herminsten M. P. Da Costa, em seu livro Oração do Pai Nosso, o formalismo judaico se estendia em 4 esferas: 1) quanto ao tempo, pois eles oravam “três vezes ao dia: às três, às seis e às nove horas”; 2) quanto ao lugar principal que deveria ser o Templo ou a Sinagoga; 3) quanto à forma da oração, os judeus tinham duas orações principais: Shemá (Ouve), que era o credo dos Judeus e Shemone Esreh (dezoito Bênçãos); 4) quanto à extensividade da oração - muitos judeus achavam que suas orações deveriam ser longas e repetitivas (ver COSTA, Herminsten P, Oração do Pai Nosso, São Paulo, Cultura Cristã, 2001, p. 14-16) .

Cristo rechaça o formalismo judaico e principalmente o dos fariseus em diversos momentos. Em um desses momentos, Jesus propõe uma parábola extremamente educativa e exortativa: “Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18. 9-16).

A religião do estereótipo transforma as formalidades em espiritualidade. Deus acusa seu povo, diversas vezes, de ser formal sem espiritualidade. Eles eram circuncidados na carne, mas seus corações estavam distantes do Senhor; transformaram a devoção a Deus em uma questão formal: “Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16); “Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?” (Is. 1. 12). Jesus ecoa essa mensagem ao dizer: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15.8).

Quando Jesus se encontra com a mulher samaritana no capítulo quatro de João, ele faz o contraste da verdadeira religião, quando ele diz à mulher que chegou a hora em que a adoração não seria mais uma questão formal ou circunscrita a um monte. Ele diz nos versículos 23, 24: “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores”. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Esse texto é muito importante para entendermos o que é adoração a Deus. Segundo o entendimento desse texto, Jesus diz que a adoração não é mais restrita ao povo judeu e nem ao local de adoração, mas que Deus faria de cada um de nós local de adoração, pois a adoração é em Espírito, ou seja, por intermédio do Espírito Santos. Ninguém pode clamar Senhor, Senhor, se não for pelo Espírito de Deus, e na mediação da Verdade, que é Cristo, pois Ele afirma: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Algumas pessoas discordam dessa interpretação e dizem que a Verdade nesse texto é o Cânon; o fechamento da Escrituras, entretanto o Cânon ainda não tinha sido fechado e no NT a adoração se alicerça em princípios e não em normas claras e pré-estabelecidas. Além disso, a pergunta da mulher samaritana a Jesus é reveladora: “Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.25,26), eis a verdade tão esperada! Jesus é o meio que nos conduz a Deus e o Espírito é que aplica essa Verdade. Não existe adoração verdadeira sem ser conduzida pelo Espírito na mediação de Cristo.

A verdadeira espiritualidade passa pelo crivo interno e não do exterior. Mas, você poderá me perguntar, então, se não devo ter uma religião formal! Sim e não. Você deve ter uma religião formal que exteriorize a sua espiritualidade, pois a maneira que você tem de mostrar que é espiritual passa por alguns aspectos: 1) vida diária com Deus externando espiritualidade nos mínimos detalhes: comprando com espiritualidade, vendendo com espiritualidade, comendo, bebendo, vestindo, se divertindo, ou seja, todos os aspectos da vida devem ser espirituais: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). Esse ponto é tão essencial que Paulo diz aos candidatos ao presbiterado que eles não poderiam ser Presbíteros se não governassem bem a sua casa: “pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1 Tm 3.5); 2) a segunda parte desse aspecto espiritual passa por um quê de formalidade. É dentro de uma religião formalmente estabelecida que eu professo crer em Jesus; é nessa profissão conjunta que a igreja mostra que é uma organização, ou melhor, mais do que isso, é um organismo vivo! A Igreja “formal” é a bandeira da Verdade no mundo caótico e sem Deus, e essa igreja, conquanto seja Instituição formal diante dos homens, permanece espiritual, pois a unidade dela visível deve representar a obra invisível de Deus nos corações! É por isso que a Bíblia exorta que não devemos deixar de nos reunirmos para adorarmos a Deus! (Hb 10.25). Nesse ponto é muito fácil oscilarmos de um lado para outro: sermos legalistas como fariseus e de sermos licenciosos. Creio que hoje estamos nesse processo, pois muitos já não enxergam a necessidade que temos de estar unidos e reunidos para adoração ao Senhor. Criaram a religião solitária! E essa religião é uma espécie de formalismos às avessas, pois ela formalizou que a informalidade deve ser o padrão, ou seja, o não padrão virou padrão. Por outro lado, existem muitos irmãos que se tornaram formais, pois quando vão aos cultos ou às reuniões semanais, vão como uma espécie de obrigação formal, pois se eles não estiverem nesses locais no horário e não passarem o tempo que eles determinaram que deveriam passar, não são espirituais. E, muitas vezes, acusam os outros de não serem espirituais, fazendo o papel do fariseu em Lucas 18. 9-16.

Meus irmãos, creio que estamos mais para licenciosos do que para legalistas, pois é só fazermos um apanhado de nossas freqüências para percebermos o descaso de alguns irmãos. Muitos transformaram os encontros com Deus em encontros formais, pois quando alguém não vai a uma reunião e, principalmente aos cultos aos domingos na igreja, por qualquer motivo banal, é como se dissesse indiretamente que aquele momento de culto na igreja é um momento apenas religioso e não espiritual, pois não fará diferença em minha vida. Já criamos até o turismo espiritual, onde o irmão fica visitando igrejas durante os dias de programação da nossa igreja e depois reclama que muitos estão faltando. Existem até aqueles que dizem assim: “fui visitar o pastor cicrano”, e eu fico pensando que devem ter ido à casa do pastor, mas não! Eles foram à igreja respectiva. Ou seja, o compromisso com a igreja local não existe. E não vou nem falar do compromisso com nossa denominação, pois, se falar, a situação ficará muito mais complicada. É fácil perceber que as pessoas mudam de igreja como mudam de roupa. Ainda existem aqueles que decidem ir apenas em um horário, ou pela manhã ou pela tarde, e ficam satisfeitas, porque já fizeram sua devoção religiosa naquele dia.

Queridos, temos que ter muito cuidado com os extremos! Legalismo é pecado! Licenciosidade também o é! Temos que pedir a Deus discernimento espiritual para não oscilarmos de um lado ao outro. Espiritualidade tem a ver com a vida no Espírito. Faça um teste para saber em que grau está sua espiritualidade! Você é um religioso? Ou você é espiritual? Mede as pessoas pelo seu crivo ou pelas Escrituras? Faz da religião um amuleto quando precisa ou tem prazer na adoração ao Senhor? Termino essa extensa pastoral com o alerta de Calvino: “Somente aquele que tem recebido o verdadeiro conhecimento de Deus, por meio da Palavra do Evangelho, pode chegar a ter comunhão com Cristo. O apóstolo disse que ninguém que não tenha posto de lado a velha natureza, com sua corrupção e suas concupiscências, pode dizer que tenha recebido o verdadeiro conhecimento de Cristo. O Conhecimento de Cristo é só uma crença perigosa, não importando o quão eloqüentes possam ser as pessoas que o têm. O evangelho não é uma doutrina da fala, mas de vida. Não se pode assimilá-lo por meio da razão e da memória, única e exclusivamente, pois só se chega a compreendê-lo totalmente quando Ele possui toda alma e penetra no mais profundo do coração. Os cristãos nominais devem para de insultar a Deus jactando-se de serem aquilo que não são. Devemos nos ater em primeiro lugar ao conhecimento de nossa fé, pois esta é o princípio de nossa salvação. A menos que nossa fé ou religião promovam uma mudança em nosso coração e em nossas atitudes nos transformando em novas criaturas, não nos será de muito proveito” (CALVINO, João, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 25).

Deus nos livre do que sempre somos propensos: aos extremos!

Rev. Ricardo Rios Melo.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Púlpito ou Divã?

Meus queridos irmãos, nunca se pregou tanto sobre culpa, auto-ajuda, comportamento (do ponto de vista psicológico) como hoje. O púlpito se transformou em um verdadeiro divã, onde o pregador é o Psicólogo e os ouvintes são os pacientes.

É comum ouvirmos: “você deve liberar o perdão!”, “você deve ministrar graça na vida das pessoas!”; não que isso em si não seja verdade; o fato é que falar de pecado hoje, se tornou démodé. As pessoas querem ouvir sobre suas emoções, sobre seus conflitos, dúvidas, anseios e dificuldades emocionais. E os pregadores, no intuito de não perderem sua “audiência”, estão cada vez mais atraídos pela nova forma de abordagem. O texto bíblico é apenas um pretexto para suas mensagens de auto-ajuda. O perdão ao próximo é tão enfatizado, que podemos até fazer uma análise de suas pregações. É até possível perguntar: será que o pregador tem algum problema nessa área? Como o nosso papel não é analisar ninguém, devemos apenas passar essas mensagens pelo crivo da Escritura; são bíblicas? Será que estão coerentes e sendo verdadeiras com o ensino bíblico? Muitas dificuldades seriam resolvidas se nossas igrejas começassem a indagar sobre este assunto, se nossos membros fossem como os crentes de Beréia Atos 17:11 : “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.”

Vejam que importante passagem! Eles examinavam para ver se de fato era mesmo como o Apóstolo estava falando! Paulo não era só um Pastor ele era também um Apóstolo. Ele poderia achar uma afronta que seus ensinos fossem confrontados, mas, ao contrário, ele elogia aqueles irmãos pelo zelo e pela verificação da Palavra: “... para ver se as coisas eram, de fato, assim.”

Quero, contudo, ressaltar, que o pregar sobre perdão não é antibíblico. A Palavra de Deus tem muitos ensinos que nos ajudam a enfrentar a vida e suas dificuldades. Mas, a ênfase em determinado ensino em detrimento de outro é infidelidade ao ensino geral das Escrituras. Jesus Cristo nunca negociou Seu ensino. Vejam o que Ele diz em Jo 6. 26: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes.”

Jesus Cristo faz um discurso duro para aquelas pessoas que só queriam o alimento “físico, material” e não o alimento espiritual. Levando-se em consideração as devidas proporções, talvez essas pessoas sejam, nos tempos de hoje, aquelas que querem satisfazer suas necessidades através do Evangelho e da igreja. Esse discurso também pode ser usado em relação às pessoas que fazem da igreja um instrumento de auto-ajuda, ao invés de pregar o Senhorio de Cristo e de dizer que a maior ferida que uma pessoa pode ter, não é a ferida emocional, não é a ferida da fome, não é a ferida da culpa (no sentido do remorso), mas sim, a ferida da alma! A ferida aberta que o pecado traz e que só Jesus Cristo pode sarar de vez! Na realidade, não é só uma ferida, é um corpo “morto em seus delitos e pecados”. Como Lázaro, se faz necessário que Jesus Cristo chame o “morto” para fora de seu túmulo, ressuscitando-o dentre os mortos: João 11:43 : “E, tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora!”.

Quando a Palavra de Deus é pregada com fidelidade, feridas são fechadas para sempre, mortos voltam a viver e a auto-ajuda é trocada pela constante operação do Espírito Santo de Deus que age graciosamente na vida do pecador. Não há traumas! Não há problemas emocionais que não possam ser resolvidos pelo sangue de Jesus Cristo na cruz do calvário. Mudar essa perspectiva é mudar completamente a mensagem purificadora e regeneradora do Evangelho; é transformá-lo em mais uma disciplina ou mais uma moda passageira: “ingerindo doses maciças do dogma da psicologia, adotando a ‘sabedoria’ secular e tentando santificá-la, chamando-a de cristã. Os valores mais fundamentais do evangelismo, portanto, estão sendo redefinidos. ‘Saúde mental e emocional’ é a nova moda. Não se trata de um conceito bíblico, embora muitos pareçam equalizá-lo com a integridade espiritual. O pecado recebe o nome de doença, e forma que as pessoas acham que precisam de terapia e não de arrependimento. O pecado habitual recebe o nome de vício ou de comportamento compulsivo, e muitos presumem que a solução está no cuidado médico e não na correção moral. As terapias humanas são abraçadas com avidez pelos espiritualmente fracos, aqueles que são superficiais ou ignorantes no tocante à verdade bíblica e que não estão dispostos a aceitar o caminho do sofrimento que conduz à maturidade espiritual e a uma comunhão mais profunda com Deus. O infeliz efeito disso é que as pessoas permanecem imaturas, ficam presas a uma dependência auto-imposta, a algum método pseudo-cristão ou ao psicocharlatanismo que, em última análise, asfixia o crescimento genuíno.”[1]

Se negarmos o ensino verdadeiro das Escrituras, estaremos negando o poder que Deus tem de curar seus filhos; estaremos equiparando a Bíblia com outro livro qualquer; estaremos negociando o ensino do Evangelho em prol do antropocentrismo e da terapia secular (que a cada dia que passa tem colhido seus amargos frutos). A própria sociedade diz que seus problemas são gerados por sentimentos egoístas e megalomaníacos. Na realidade, esses problemas são resultado de uma sociedade que cada vez mais corre para perdição e distanciamento de Deus, que procura achar respostas para a decadência cada vez mais latente e agonizante. Uma sociedade fracassada, onde os conceitos morais, éticos e familiares estão quase que totalmente distorcidos; onde o desfecho podemos presumir em curto prazo. Onde estão as técnicas e soluções do homem moderno? Onde está a solução para crise mundial? Essas respostas não são encontradas pelo o homem moderno, mas, mesmo assim, a igreja tenta imitá-los trazendo o fracasso do mundo para dentro dela e tentando trocar a única verdade que é a Palavra de Deus pelo secularismo moribundo e fadado ao fracasso.

A igreja tenta negociar seu ensino para atrair ou segurar seus membros opondo-se ao Supremo Pastor, o nosso Paradigma, o nosso maior exemplo, o nosso Senhor Jesus Cristo que disse àqueles discípulos que reclamavam de Seu duro discurso - Jo 6. 60 – 69: “ Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido. À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus.” (grifos meus).

Vejam! Jesus não negociou Seu ensino em prol da adesão de seus discípulos. Ao contrário, Ele deu uma resposta dura para eles. Em outras palavras, podemos dizer que Ele disse que só poderiam ser seus discípulos se tivessem dispostos a cumprir as exigências de seu ensino: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? (Lucas 6:46). Os discípulos deveriam estar dispostos a abandonarem sua vida e seguir a Cristo considerando todas as outras coisas como ”refugo” em comparação ao amor de Jesus; deveriam reconhecer o Senhorio de Cristo, isto é, reconhecer o governo de Jesus sobre a vida deles. Não bastava andar com Jesus, não bastava ouvir as palavras de Jesus, não bastava participar do grupo dos discípulos. Era preciso mais. Eles deveriam abandonar o que eles achavam de mais sublime em prol de uma verdadeira vida cristã; “Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.” Lucas 9:23.

O Evangelho de Cristo não é mais uma terapia em um mundo “paranóico”. O Evangelho do nosso Senhor é “vida dentre os mortos”. Só podem ser discípulos de Cristo aqueles que, no final, mesmo a despeito de sua vontade tomam as palavras de Pedro para si e dizem: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna.”

Que o Senhor nos abençoe e nos leve a cada dia a uma vida de santidade e de busca incessante da Sua Palavra; que abandonemos nossas invenções e busquemos a única solução para o pecador: a Palavra de Deus ministrada com fidelidade e simplicidade mostrando que o “Evangelho é loucura para os que se perdem, mas salvação para os que crêem” e que não devemos negociar a verdadeira pregação, sob o risco de estarmos corrompendo e corroborando para o distanciamento da verdadeira mensagem da cruz.
Que Deus nos auxilie e nos livre de “uma vez tendo pregado, não sejamos nós mesmos reprovados”.

Que os crentes de hoje não pensem que são diferentes daqueles que andavam com Cristo, daqueles que sofreram as perseguições após a morte de Jesus. Todos somos sujeitos aos mesmos problemas e tentações. Busquemos os exemplos da Bíblia e recorramos a Ela a cada dia, pois “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16 –17).

Que Deus nos abençoe;
Amém!
Rev. Ricardo Rios Melo


[1] John F. Macarthur, Jr. Nossa Suficiência em Cristo, São José dos Campos, SP, Editora Fiel, 1995; p. 55.

Se existisse o Se?

Quem nunca se entristeceu com uma alternativa errada na vida? Quem nunca titubeou diante da bifurcação de um caminho? Quem nunca olhou para trás e disse: “se eu não tivesse feito isso? Se eu não tivesse agido assim? Esse tema parece tão inquietante para o homem que até uma propaganda recente do G1, canal de notícias da Globo.com, lançou esse tema aterrador nas consciências de seus telespectadores: “se o homem soubesse que iria chover, não se molharia. Se ele soubesse que haveria guerras, ele não teria inventado a pólvora...ele sofreria menos...”

O Se tem acompanhado as mentes humanas desde a sua gênese. Certamente, muitas pessoas se martirizam mais pelo Se do que pelo que fizeram. A possibilidade de se pensar no Se e a impossibilidade do Se existir como opção real fazem com que muitos sejam ansiosos e frustrados.

O Se tem muito mais a ver com o remorso do que com o arrependimento. Percebam que as pessoas que se concentram no Se geralmente se entristecem pelo não feito, mas muitas vezes não mudam de atitude. O arrependimento é a conscientização do erro cometido e a mudança de atitude ante os fatos ocorridos. O arrependido tenta nunca mais cometer o mesmo erro. A pessoa que é condoída pelo remorso apenas se martiriza, se entristece, mas nunca deixa de cometer novamente os mesmos erros. Se olharmos o exemplo de Judas que cometeu suicídio, veremos que a atitude dele é mais um remorso do que um arrependimento. Se ele tivesse se arrependido, teria mudando o rumo de sua vida e não cometeria tal desatino. Mas, novamente vemos a possibilidade impossível desse Se.

O Se é tão curioso que algumas pessoas depreendem outro Se do Se. Quando pensam no Se, dizem: “mas Se isso acontecesse, poderia ser que outra coisa acontecesse e Se acontecesse isso...”.

A verdade é que o único que pode saber do Se é Deus. Um texto que demonstra esse conhecimento de Deus é o texto de Mt 11.21: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza” (grifos meu). Jesus demonstra claramente que conhece a possibilidade, pois o próprio Deus que decretou a história é o mantenedor e condutor da mesma.

Essa doutrina é encontrada na teologia dentro do estudo do Ser de Deus no que tange ao aspecto do conhecimento de Deus. Ele conhece as possibilidades. Ele conhece o que poderia ter acontecido. Explicando o texto de Mt 11.21, Heber Carlos de Campos diz: “Deus conhece o que hipoteticamente teria acontecido, se... Essa partícula ‘se’ indica que Deus saberia o que aconteceria mesmo sob outras circunstâncias. Esse conhecimento é também chamado de ‘conhecimento das coisas possíveis’. (...) Jesus sabia o que aconteceria naquelas cidades gentílicas se os milagres acontecessem lá. Era algo perfeitamente possível, mas não aconteceu porque não foi o propósito divino, mas Deus tem conhecimento da possibilidade” (Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e os Seus Atributos, São Paulo, CEP, 1999, p. 217,218).

Sabedores que o Se só é possível a Deus conhecer e que nós somos limitados em nosso espaço e tempo não podendo voltar o relógio do tempo e consertar ou achar que se está consertando algo, podemos aduzir desse tema algumas considerações:
  1. Não andemos ansiosos de coisa alguma (Mt 5.25). Basta a cada dia seu próprio mal (Mt 6. 34). Nenhuma de nossas preocupações mudará nosso curso. Não devemos nos inquietar com as possibilidades, devemos fazer escolhas, em tempo, pelo que o Senhor nos conduz na Palavra e no discernir do Espírito. Essas escolhas em Deus nos trarão tranqüilidade e não pensaremos no Se. Contudo, se você tomou um rumo errado em um momento de sua vida, arrependa-se! Mude de atitude em relação aos fatos e não tenha apenas um remorso que só lhe trará angústia. A angústia do arrependimento leva ao perdão de Deus e a paz no coração e na mente, pois sabemos que se pecarmos, temos um advogado junto ao Pai: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo 2:1); o arrependimento leva à mudança de atitude e ao perdão de Deus. O remorso leva a autocomiseração e à estagnação das atitudes, que certamente voltarão a acontecer;
  2. Outra coisa que podemos considerar é que Deus sabe o Se e que algumas dessas possibilidades que denominamos de Se Ele nos revela nas Escrituras e diz a você que ainda não mudou de atitude em relação á sua rebeldia diante de Deus e sua desobediência: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo 10.9). Existe uma possibilidade agora! O Se se apresenta para você da seguinte forma: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3. 36). Se Você crer, tem a vida eterna hoje e agora; Se você não crer, não verá a vida e está e estará para sempre debaixo da ira divina.

    Deus nos Abençoe e nos faça descansar em suas seguras mãos!

    Rev. Ricardo Rios Melo

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