quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Tempo: Jóia Preciosa

O Tempo: Jóia Preciosa

Rev. Ricardo Rios Melo

A ceia está posta à mesa. Os convivas chegaram e as fragrâncias dos perfumes se confundem em meio ao salão. Os sorrisos e o brilho estampado nos rostos revelam uma grande expectativa. O esvoaçar dos vestidos e as roupas ajustadas e com brilhos, muitas de cor branca, revelam crenças, esperanças e costumes. As horas passam e os minutos são contatos como nunca antes fora. De repente, alguém pede atenção de todos e em coro começam a contar: dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um! Concomitantemente ao som de um estouro de um champanhe e de fogos aos céus, ouve-se: Feliz ano novo! Os cumprimentos se intensificam em abraços e, por telefone, se fala com aqueles que estão distantes, desejando-lhes um feliz ano novo! Ao som de “adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize, no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”, as esperanças são renovadas no infante ano. Essa história se repete ano após ano. As pessoas criam uma expectativa exacerbada sobre o ano que se inicia, como se tudo fosse mudar: não terão mais dívidas; a paz mundial existirá; terão paz na família e os sonhos e projetos se realizarão.

A comemoração do ano novo é praticada em diversos países. Alguns dizem que começou por volta do ano 2000 a.C., na Babilônia, quando acontecia o equinócio. Diz-se ainda que foram os romanos que criaram uma data especial para esse fim, por volta do ano 753 a.C. Na ocasião, comemorava-se o ano vindouro no dia 1º de março. Contudo, com a mudança para o calendário gregoriano, o dia passou a ser 1º de janeiro. Os judeus comemoram entre setembro e outubro. Os chineses comemoram essa data no final de janeiro e bem no início de fevereiro. A eles, os chineses, são creditados a idéia de soltar fogos e de shows pirotécnicos. Ao que parece, a queima de fogos foi introduzida como um ritual para afastar maus espíritos.

É notório que ao final de cada ano as pessoas projetam planos e buscam resolver algumas situações pendentes. Como cristãos, nós não temos nenhum pensamento ingênuo sobre o ano novo, pois se as pessoas são as mesmas, provavelmente o novo ano não mudará nada. É como as dietas de segundas-feiras; todas começarão nesse dia, mas nunca começam, pois a disposição para começar a dieta pertence ao indivíduo. A esperança depositada em um dia novo é vazia se não é acompanhada de uma mudança radical do indivíduo. Se alguém quer fazer um regime, por exemplo, não importa o dia, importa a disposição para aderir à dieta. O mesmo acontece com o ano novo. Se você não mudar seus pensamentos e atitudes, comemorar todos os dias o ano novo não fará diferença, pois você continuará sendo velho; velho nos pensamentos e atitudes.

Os cristãos, mesmo que não tenham um pensamento místico sobre o ano vindouro, podem aprender muito com a passagem de ano. Podemos aprender que o tempo é algo precioso e que, a cada nascer do sol, uma porção do tempo se vai. E o que você fez com ele, o tempo, é que faz toda a diferença. Todos nós vivemos em um mesmo espaço e tempo. Não importa o calendário que sigamos, estamos sujeitos ao espaço e ao tempo. O ano novo mostra que se passou 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46,04 segundos de sua vida. Isso deve lhe fazer refletir sobre o aproveitamento do seu tempo.

Você, no final desse ano, não se vestirá de branco, pois Jesus já lhe deu vestes brancas: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos” (Ap 7.9) Sua vida deve refletir essa pureza que Jesus lhe concedeu na Cruz. Você não soltará fogos de artifícios para expulsar os maus fluidos e iluminar os céus, pois sua vida já reflete a glória de Deus que brilha mais do que qualquer estrela. Jesus, que é a luz do mundo, lhe disse: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte” (Mt 5:14). Não precisará de sal grosso para qualquer tipo de descarrego, pois Jesus se tornou maldição por nós: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro)” (Gl 3.13). Você não precisará de um ano novo para renovar suas esperanças, pois as coisas velhas já passaram desde que se converteu a Cristo: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5.17). Por isso, tudo para você é novo e você segue para o alvo: (...) mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3. 13,14).

Após ter refletido no que não fará nesse fim de ano, você deverá refletir sobre o que fazer. A Bíblia fornece conceitos imprescindíveis à nossa vida. O texto de Efésios 5.16 chama-nos atenção para remirmos o tempo: “remindo o tempo, porque os dias são maus”. Esse texto é precedido da seguinte exortação: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios” (Ef 5.15). A idéia do texto é dizer que os néscios desperdiçam seu tempo com seus prazeres carnais e pecaminosos, enquanto os sábios devem remir seu tempo. Os sábios compram o tempo; andam na luz e aproveitam melhor o tempo porque os dias são maus. “Nenhum de nós pode esticar o tempo. As pessoas sábias, porém, o empregam com o maior proveito possível. Sabem que o tempo está passando, e também que os dias são maus. Deste modo, agarram cada oportunidade fugaz enquanto ainda podem. Uma vez tendo passado, até as pessoas sábias não podem reavê-la. Alguém colocou um anúncio, certa vez, da seguinte forma: ‘PERDIDAS, ontem, nalgum lugar entre o nascer e o pôr do sol, duas horas de ouro, cada uma cravejada com sessenta minutos de diamante. Nenhuma recompensa é oferecida, pois foram-se para sempre’” (John Stott, A Mensagem de Efésios, 6ª ed. São Paulo, 2001, p. 151).

O tempo é uma jóia preciosa! Por isso, nesse ano reflita sobre sua vida e aproveite melhor seu tempo. Glorifique a Deus com o seu tempo! Tenha tempo para Deus, pois já pensou se Deus não tivesse tempo para você? Muitas pessoas se esquecem que o Criador do tempo pode chamá-lo a Sua presença a qualquer instante. Ele cobrará cada milésimo de segundo que lhe deu! O que você tem feito com o seu tempo? Tem dedicado a Deus? Será que você está muito ocupado para Deus? Muitas vezes as pessoas só dão o que sobra para Deus. Por exemplo, se for o dízimo, só o entregam depois que sobra alguma coisa. Se for uma oferta, só se sobrar e olhe lá! E o tempo? O tempo é a sobra da sobra. A desculpa é a qualidade do tempo! Vá para sua empresa, diga a seu chefe que você trabalhará 30 minutos por dia, pois o importante é a qualidade do tempo! O que ele lhe dirá?

Pois é, muitas vezes estamos ocupados demais para ouvirmos a voz de Deus nos cultos, na escola dominical, nos estudos de doutrina e nas reuniões de casa em casa, pois a desculpa é: o importante é a qualidade do tempo. Percebem? A questão não é de qualidade de tempo. A questão é que estão ocupados demais para ler a Bíblia, orar, cultuar. O trabalho está acima de Deus, a faculdade está acima de Deus, os encontros em família estão acima de Deus; aniversários, festas, cursos de pós-graduação, cansaço, projetos pessoais, qualquer coisa é desculpa para dizer: não tenho tempo!!!

Caríssimos, não estou dizendo que você levará sua cama para a igreja e mudará seu endereço para lá, não! Contudo, conquanto toda e qualquer atividade que façamos deva glorificar a Deus, temos que compreender que as reuniões solenes (Hb 10.25) e os meios de graça são imprescindíveis para o crescimento espiritual. Tudo isso passará! Mas, tudo o que você faz tem conseqüências eternas. O sábio Salomão disse: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ec 3.1). Dedique toda sua vida, atividade e pensamento a Deus. Mas, separe um tempo especial para pensar, louvar, ouvir exclusivamente a Deus, porque “preciosas são as horas na presença de Jesus”. Lembre-se "As quatro coisas que não voltam para trás: A pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida e o tempo passado." Jeremy Taylor disse uma vez: “Deus deu ao homem um tempo curto aqui na terra; não obstante, é deste curto período que depende a eternidade”.

“Deus não se curvou à nossa pressa nervosa, nem adotou os métodos de nossa era mecânica. O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo” (A. W. Tozer).


“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).


Feliz ano novo!


Rev. Ricardo Rios Melo.

Nossa Suficiência em Cristo from vitor andrade on Vimeo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra”

Colossenses 3:2

Rev. Ricardo Rios Melo

Como é fácil sermos iludidos pela cosmovisão mundana. Parece muitas vezes que estamos participando de um “cabo de guerra” e a corda da brincadeira somos nós. Levados de um extremo ao outro. Pior, somos levados por nossa carnalidade ou por falta de ouvirmos o Espírito e darmos ouvidos às astutas ciladas do diabo (Ef 6.11).

Dr. Lloyd Jones diz-nos que há, pelo menos, duas maneiras do mundanismo se manifestar: quando damos ouvidos à sabedoria do mundo em lugar da sabedoria de Deus revelada em Suas Escrituras ou quando somos dominados por aquilo que é lícito. Para melhor entendermos a segunda forma, veja o que Jones nos diz:

“Há, porém, outra maneira pela qual a mudaneidade se manifesta. Tudo neste mundo tem sido dado por Deus, e é destinado para o nosso uso. Na verdade, tudo é destinado para nosso desfrute. Tudo é feito e criado por Deus, e assim sendo, obviamente todas as coisas não apenas são boas, como também são legítimas para o cristão. O uso destas coisas se torna mundano quando permitimos que aquilo que é correto e legítimo consuma demasiadamente o nosso tempo, a nossa atenção, o nosso interesse e o nosso entusiasmo. Isso se aplica à literatura, à arte, à música, às diversões – qualquer coisa que possamos imaginar. (..) o cristão não deve privar-se delas; não deve segregar-se e sair da vida; não tem por que dizer que não se interessa pela cultura geral, pelas coisas dadas por Deus. Todas as habilidades, todo poder que o homem já exerceu, todas essas coisas vêm de Deus, em última instância. Tudo que é produzido por estes poderes é reto em si mesmo, a menos, é claro, que seja dirigido a propósitos e usos pecaminosos. Mas passa a ser mundanismo se nos absorve demais. Se o meu interesse por estas coisas se tornar central em minha vida e tomar o primeiro lugar, ou eliminar o espiritual e a minha concentração no eterno, serei culpado de mundanismo.”[1]

Estamos sendo atacados pelas duas formas de mundanismo de maneira muito forte. Já não pensamos como as Escrituras em coisas corriqueiras da igreja:

· No tratamento com os irmãos, muitas vezes somos egoístas e grosseiros e hipócritas e não seguimos as orientações das Escrituras: Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (MT 5.23,24). “Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão (Mt 18:15);

· Nas resoluções da vida somos altamente secularistas;

· Em relação ao sustento da igreja e dos que vivem dela, pensamos sempre no mínimo necessário ou que as pessoas devam passar necessidades para experimentarem a verdadeira vida espiritual, contrariando a idéia bíblica e a própria experiência do apóstolo Paulo: “Recebi tudo e tenho abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me passou às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (Fp 4:18), “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Tm 5.17);

· Em relação ao respeito às autoridades da igreja (Pastor, Presbítero, Diácono), muitos crentes já foram sucumbidos pelo espírito mundano e de um sindicalismo pecaminoso incorrendo no erro relatado por Judas: Ora, estes, da mesma sorte, quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como também rejeitam governo e difamam autoridades superiores” (Judas 1.8);

· Muitos são mexeriqueiros e promotores de contendas, O mexeriqueiro revela o segredo; portanto, não te metas com quem muito abre os lábios” (Pv 20.19). Dividem a igreja em partidos “Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?”(1Co 1. 11-13);

· Em relação ao culto a Deus, estamos sempre querendo nos agradar ao invés de agradarmos a Deus; somos amantes de nós mesmos (Cl 2.23);

· Antinomistas e transgressores das leis de Deus.

São muitos exemplos que mostram como a igreja está secularizada ao tentar modificar sua forma estrutural para agradar aos homens ou pensando somente nas coisas terrenas e vivendo a natureza terrena e pecaminosa da qual o apóstolo Paulo nos adverte contra: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Cl 3. 5-6).

Precisamos de uma igreja sincera e de um amor sem hipocrisia (Rm 12.9). Necessitamos de um contato com a cultura sem que a cultura nos domine. Enquanto utilizarmos das mesmas armas do mundo e de satanás, seremos levados de uma lado para outro do “cabo de guerra”.

O apóstolo Paulo, escrevendo à igreja dividida de Coríntios, disse: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão” 2 Co 10.4-6).

Precisamos olhar para o alto! É preciso olhar para as coisas que edificam e deixar de brincar de igreja. Devemos levar a sério a Noiva de Cristo, pois o Noivo a ama tanto que deu Sua vida por ela. Deixo as palavras de Lloyd-Jones e A. W Tozer:

o diabo, que pode transformar-se em anjo de luz, nem sempre nos incita ao pecado óbvio. Ele sabe que, se aproximasse de certo tipo de cristão e o confrontasse com algum pecado terrível, este recuaria. Por isso, simplesmente o persuade a ser negligente, a não ser entusiasta, a não ser muito zeloso, ‘a não fazer ridículo’ como alguns outros cristãos para quem ele aponta. E assim a vítima se torna indolente e não faz nada; e aos poucos baixa toda a temperatura da sua vida, e finalmente ele caiu em pecado. Quando ao outro homem, que vive das suas atividades, podemos aplicar o que o apóstolo Paulo diz acerca dos seus patrícios: “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Romanos 10:2). Zelo não basta, estar sempre ocupado não basta, atividade não basta. Não permita Deus que você viva da sua própria atividade. Se esta se levanta entre você e um conhecimento do Senhor, um crescimento na graça e um desenvolvimento espiritual, não passa de uma das “astutas ciladas do diabo” para mantê-lo ignorante e atrofiado”.[2]

A . W. Tozer nos adverte sobre os crentes que querendo acertar erram:

Há áreas em nossa vida em que, no nosso esforço para fazer o certo, acabamos errando tão errado que chegamos ao ponto de dano espiritual. Isso acontece em situações como:

1. Quando, na nossa determinação de sermos ousados, nos tornamos atrevidos.

2. Quando, no nosso desejo de sermos francos, nos tornamos grosseiros.

3. Quando, no nosso esforço para sermos atenciosos, nos tornamos desconfiados.

4. Quando querendo nos tornar sérios, nos tornamos sombrios.

5. Quando desejamos ser cuidadosos, mas viramos fiscalizadores.[3]

Queridos, nunca nos esqueçamos que ninguém ama mais a Igreja do que o SENHOR! Portanto, Ele nos observa e o mundo também!

Rev. Ricardo Rios Melo



[1] D. M. Lloyd- Jones, O Combate Cristão, São Paulo, PES, 1991, p. 323,324.

[2] D. M. Lloyd- Jones, O Combate Cristão, São Paulo, PES, 1991, p. 318,319.

[3] -- A. W. Tozer from That Incredible Christian. Christianity Today, Vol. 29, no. 17.
(Veja Isa 65:5; Mt 23:23; Col 2:20) in
http://www.hermeneutica.com/ilustracoes/zelo.html



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O efeito pêndulo

O efeito pêndulo


Rev. Ricardo Rios Melo


Segundo a BBC, “um monge ortodoxo da Geórgia decidiu se isolar do mundo e morar no topo de uma rocha. Maxime Kavtaradze, de 55 anos, está reconstruindo um monastério em Chiatura, uma área remota do país. A maioria dos georgianos é ortodoxa. Cerca de 450 prédios, entre igrejas e monastérios, foram reconstruídos no país nos últimos cinco anos, com financiamento do governo. Mas, o trabalho no topo da rocha é mais difícil e já dura 13 anos. O monge leva para o alto cada uma das pedras usadas na construção.[1]”;

Essa reportagem me fez pensar na igreja moderna e seu efeito pêndulo: balançando entre as extremidades. Com o afã de agradar o mundo e seus modismos, a igreja hodierna tem se aventurado pelo insaciável caminho do entretenimento. Não é raro vermos modismos nas igrejas com intuito de agradar o público. Os líderes dizem que é a tentativa de se comunicar com o mundo. Contudo, o que podemos constatar é um processo de aculturamento e, muitas vezes, vê-se pouco dos vestígios do Evangelho.

Do outro lado do pêndulo, percebemos uma igreja apática diante da realidade. Parece muito com o mosteiro do Sr. Maxime Kavtaradze, a diferença é que não está em cima de uma rocha alta e de difícil acesso. Está distante em relação à comunicação e à sensibilidade. Outra diferença é que esses mosteiros na Geórgia fazem sucesso e atraem a atenção do mundo. O mosteiro evangélico tem afastado as pessoas de Cristo. O monge Maxime Kavtaradze tem até dado entrevistas e fortalecido a sua fé na igreja Ortodoxa. Os nossos “monges” não raramente aparecem para macular a já mal falada igreja.

A igreja moderna tem exercido fascínio e atraído multidões para seus shows “espirituais”, enquanto a igreja “tradicional” tem expulsado milhares de pessoas com sua fria indiferença. O que fazer então? Aderir ao movimento emergente que fala de uma sã doutrina e tem um culto insano? Ou continuar fingindo que a nossa igreja pouco freqüentada está passando por um breve colapso? Difícil escolha não acham?

Para avaliarmos essa questão, podemos observar alguns aspectos. Começaremos analisando o aspecto social e psicológico. As pessoas gostam de novidade. Vejam as expressões: última moda, modelo novo de carro, última tecnologia, sucessos da semana, o mais moderno... A dificuldade é que toda moda um dia vira démodé. Ela pode até voltar, mas será um revival. “A rotina cansa”, “a rotina mata” são frases atraentes para o agitado cidadão.

Outro aspecto para avaliação é a idéia de que nossa cultura é melhor do que qualquer outra. Essa soberba é chamada pelos antropólogos de etnocentrismo. Esse pensamento se torna pernicioso na avaliação do que é cultural e do que é princípio na Bíblia, pois passamos de um lado para o outro e o resultado, em alguns casos, é terrível. A afirmação de que muitos líderes de igreja interpretam a Bíblia sob o prisma da cultura moderna está longe de ser exagerada. E, sendo assim, desprezam princípios importantes e indispensáveis para o Evangelho.

Será que na época do evangelho não havia nenhum modismo? Será que não existia nenhuma pressão cultural? Seria a nossa época a pior e a melhor de todas? Não posso crer nisso à luz das Escrituras.

O apóstolo Paulo nos diz que os judeus pediam sinais e os gregos, sabedoria (1 Co 1.22). Os cultos pagãos eram regados a muita bebida e orgias, principalmente o culto a Baco.

Novamente, cabe-nos entender que também existia êxodo na igreja, pois não é sem motivos que o autor aos Hebreus exorta que o povo se congregue (Hb 10.25). Que dilema, hein? Existe a pressão dos coríntios, inclusive, dissensões, brigas, partidos e divisões litúrgicas. Paulo fala sobre isso em suas duas cartas.

Queridos, acredito que tudo que é novo fica velho e tudo que é velho pode ser reformado. As pessoas estão procurando novidade para seus corações e, sem querer generalizar, precisam ser novas criaturas. Particularmente, acredito na teologia reformada e no culto reformado. No entanto, minha discussão não é litúrgica. Acredito que boa parte do que está acontecendo na igreja de hoje é fruto de corações inconstantes e que precisam do encher do Espírito (Ef 5.18). Não estou falando só de regeneração, mas de conversão. Conversão de nossos desejos pecaminosos e insaciáveis pela novidade. A pergunta que deveríamos fazer não é se a igreja me agrada, mas se nós estamos agradando a Deus e se minha vida corresponde ao chamado salvador do Bom Pastor. Mas, se eu preciso de entretenimento para ficar alegre... ah, queridos, algo está de errado comigo. Reafirmo: não estou tratando de liturgia e do culto, mas do adorador. Quando precisamos de algo externo para nos motivar a adorar a Deus com alegria, é porque estamos precisando reavaliar nossa fé.

Existem pessoas eufóricas nas igrejas emergentes e nas novas comunidades que estão longe da alegria do Espírito. Existem pessoas frias nas igrejas reformadas e nas tradicionais que estão longe do Senhor.

O crente deveria poder adorar a Deus independentemente dos estímulos externos, pois o maior motivo é: Ele morreu por nós! Ele morreu por nós!

Enquanto alguns homens buscam seus mosteiros, pessoas vão caminhando para o populoso inferno. Enquanto a igreja vive na dicotomia: religião X cultura, a cultura assola a igreja e transforma-a em paganismo.

No período católico, várias datas e festas foram cristianizadas, hoje vários cultos estão sendo paganizados.

A igreja corre um sério risco de ser diluída naquilo que sociólogos contemporâneos chamam de sociedade líquida e, ao mesmo tempo, corre o risco de se isolar em um mosteiro moderno, onde a maior distância são os nossos comportamentos e a frieza em face do outro. Mosteiros construídos por pedras frias e sem vida não falam.

Tradição sem o Espírito é farisaísmo. Igreja sem tradição não é igreja.

“De fato, eu vos louvo porque, em tudo, vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei” (1 Co 11.2).

“Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Ts 2.15).

Dá-nos sabedoria, Senhor!

Rev. Ricardo Rios Melo

sábado, 16 de outubro de 2010

Para quem iremos?



Essa pergunta de Pedro a Jesus no evangelho de João demonstra o total estado de abandono do ser humano e a solução eterna em Jesus: “Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). Após Jesus ter feito o milagre da multiplicação dos pães e peixes, o povo foi em busca do alimento e dos milagres que ele realizava. Contudo, Jesus foi mui duro com o povo ao enfatizar o caráter messiânico do seu ministério. Jesus não era um simples milagreiro, é o Santo de Deus: “(...) nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.69).

Quando Pedro entende seu abandono, seu vazio, sua falta de solução a quem recorrer, ele enxerga em Jesus a solução. Pois Ele é o Santo de Deus. Não é mais homem comum e finito. É o Santo de Deus, a solução para o abandono do homem e do seu vazio existencial. A quem eles iriam recorrer? Quem reunia as qualidades de Jesus e era o Santo de Deus? Pedro direciona certamente seus passos ao seguir a Jesus e a começar, mesmo que ainda não completamente, a entender a missão do Messias.

O apóstolo Paulo entende profundamente o que Cristo fez por ele ao declarar que estar com Cristo é “ (...) incomparavelmente melhor” (Fp 1.23) e ao viver para Cristo: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). Paulo entendeu o que Cristo fez por ele; entendeu que Cristo foi condenado em seu lugar. O apóstolo sabia que ninguém poderia fazer isso por ele: “Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer” (Rm 5.7) A quem Paulo recorreria? Quem poderia receber a punição de Deus em seu lugar? Quem seria suficiente para Deus?

Quando se tem a verdadeira dimensão da obra de Cristo, a pergunta retórica que fazemos é essa: “para quem iremos?”. Contudo, mesmo sabendo disso, da impotência do homem em relação à salvação e ao requisito indispensável para obtê-la: Cristo, muitos estão procurando pessoas ou coisas para depositarem suas esperanças.

O mundo vive um caos em relação aos exemplos de pessoas para se espelhar. Há uma crise na política e em todos os meios. Os valores são trocados por moedas corroídas facilmente pelo tempo e a moral vendida por um repasto. O messianismo popular elege personalidades para salvar a pátria, mas, quanto mais buscam ídolos humanos, mais se descobrem nesse espelho imperfeito; a palavra de Jesus sempre é bem-vinda: “Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (Jo 8.7).

Para o ser humano, é mais fácil buscar o semelhante, pessoas imperfeitas como nós, pois assim não nos sentimos mal; “ele é gente com a gente” – essa frase resume perfeitamente o nosso modus operandi: buscamos nos imperfeitos o conforto de sermos iguais a eles. A simples idéia de existir alguém perfeito e sem pecado leva-nos ao grande mal-estar de nos encontrarmos em falta, em pecado, imperfeitos. Precisamos constantemente dos “gigantes de pés de barro”.

Um exemplo interessante é Mahatma Gandhi (1869-1948) que, apesar de toda a sua fama pacifista e de homem bom, deixou que sua mulher morresse de pneumonia em 1942 impedido-a de tomar remédios por contrariar a fé. Contudo, semanas após, ele contraiu malária e se rendeu aos remédios. “Todos temos nosso calcanhar de Aquiles”. Isso nos identifica e nos aproxima. Gandhi era bom, na medida em que o homem pode ser bom diante de seus próprios olhos. Ao Jovem rico, ao perguntar o que faria de bom para herdar a vida eterna, Jesus responde: “(...) Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um” (Mt 19.17)”.

Queridos, Jesus é único que pode perguntar: Quem dentre vós me convence de pecado? (Jo 8.46); é o único que pode dizer que não teve pecado, portanto, o único que satisfaz a justiça santa do Pai.

Resta-nos fazer a pergunta: para quem você irá?

Deus os ilumine!
Rev. Ricardo Rios Melo

sexta-feira, 6 de agosto de 2010


Por que sofremos?

As pessoas sempre nos perguntam: se Deus é bom, por que existe o sofrimento? Essa pergunta é inquietante. Quando respondemos que o sofrimento tem sua origem no início de tudo, quando o homem desobedeceu a Deus no jardim do Éden, parece que o homem moderno a ridiculariza. “A resposta cristã - a de que usamos nosso livre-arbítrio para nos tornar muito maus – é tão conhecida que é quase desnecessário mencioná-la. Contudo, é bem difícil reavivar essa doutrina na mente dos homens de hoje e até mesmo dos cristãos de nossos dias. Quando os apóstolos pregavam, eles poderiam supor até mesmo em ouvintes pagãos uma real consciência de merecimento da cólera Divina. Os mistérios pagãos existiam para aliviar essa consciência, e a filosofia epicurista afirmava libertar os homens do medo do castigo eterno. Foi contra esse pano de fundo que o Evangelho surgiu na forma de boas-novas de uma cura possível a homens que se sabiam mortalmente doentes. Mas tudo isso mudou. O Cristianismo hoje tem de anunciar o diagnóstico – em si mesmo, uma notícia muito ruim – antes de conquistar ouvintes dispostos a ouvir sobre a cura” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.65, 66).

O homem moderno se distanciou da perspectiva de quem ele é e para o que ele é foi criado. Aliás, uma grande parte da humanidade contemporânea tem acreditado que não fomos criados, mas, somos frutos de uma explosão (Big Bang) e da evolução, contrariando a lei da entropia que diz que tudo tende a se desorganizar. O homem orgulhoso diz: “eu vim do nada. Quando o nada explodiu, criou a possibilidade de minha existência. Eu mesmo me criei, sou auto-criado, pois minhas moléculas foram se juntando e formando células e organismos mais simples, até chegar a quem eu sou: um deus”. Portanto, para uma boa parte dos indivíduos hodiernos, nós somos frutos do acaso e da auto-criação.

Entender a causa do sofrimento dentro dessa perspectiva (evolucionista) torna-se muito difícil, pois teríamos, no mínimo, que afirmar que existia maldade nas partículas iniciais da vida humana em meio à adversidade ambiental que existia no início de tudo. Se assim o fosse, seríamos, de certa forma, obrigados a dizer que a ameba era má em sua gênese. Mas se, por outro lado, respondermos de maneira antropológica ou sociológica, poderíamos entender o mal como uma conseqüência do instinto de sobrevivência humana que leva o homem a ser egoísta e burlar os tratados sociais que ele mesmo interpôs. Isso não responde os sentimentos de amor, compaixão, solidariedade, saudade, tristeza, gratidão etc. É claro que não pretendemos minimizar a argumentação evolucionista ou ridicularizá-la, mas, no mínimo, devemos entender que ela não responde o porquê da existência do sofrimento e, muito menos, da maldade ou bondade humana.

A Bíblia nos conta que o sofrimento dos homens é decorrente da desobediência ao Criador: Deus. O homem vivia em um jardim perfeito e com toda a provisão necessária (Gn 2. 4-17). Mas, assim que o pecado entrou no homem (Gn 3.1-24), o homem foi expulso e passou a sofrer as conseqüências do seu pecado. Podemos dizer, ainda que cientes da soberania de Deus, que o homem é o causador do seu próprio sofrimento. “Foi o ser humano, e não Deus, que produziu torturas, açoites, escravidão, armas, baionetas e bombas. É pela avareza e pela estupidez humana, e não pela sovinice da natureza, que temos pobreza e exploração do trabalho” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p. 101).

Um questionamento sempre feito a nós é sobre a permissão de Deus. Se Deus é soberano, muitos dizem, ele é o responsável direto pela queda do homem. Essa decorrência lógica foge, de certo modo, do entendimento do Ser de Deus e de sua bondade. Deus não é o autor direto da criação do mal, Ele permitiu, dentro do seu decreto permissivo, a entrada da maldade. Essa idéia foi bem tratada por Agostinho, quando diz que o mal não é uma substância, mas a distorção do bem; e a mentira, a distorção da verdade. Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, Deus é criador do bem e da verdade. O mal foi a distorção causada por Satanás do bem, e a mentira foi a distorção da verdade criada por ele. Não é sem motivo que, no relato de João, a Bíblia diz que ele, o diabo, é o pai da mentira (Jo. 8.44).

Segundo Lewis, “Deus poderia ter refreado esse processo por um milagre, mas isso – para utilizar uma metáfora um tanto irreverente – teria sido evitar o problema que Deus impusera a Si ao criar o mundo, o problema de exprimir Sua bondade por meio completo de um mundo que continha agentes livres, a despeito de sua rebelião contra ele e por meio dela (...) Com efeito, é evidente que Deus viu a crucificação no ato de criar a primeira nebulosa” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.95).

O mais fantástico disso tudo é que, juntamente com os nossos pecados, está cravejado o sofrimento. Cristo sofre na cruz por causa dos nossos pecados e garante-nos que os sofrimentos da horrenda cruz livrou-nos do sofrimento eterno e nos livrará dos sofrimentos presentes. Pois Jesus sabe o que é padecer (Is 53.1-12).

A maldita cruz nos abençoou. É na maldição da cruz que temos por certo o fim dos sofrimentos humanos. Mas, para que isso seja uma realidade na sua vida, você precisa acreditar que “o bem perfeito de uma criatura consiste em se entregar ao seu Criador, isto é, colocar em prática, em termos intelectuais, volitivos e emocionais, aquele relacionamento intrínseco ao simples fato de ela ser uma criatura” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.103). Você precisa ser arrebatado, arrastado para a Cruz de Cristo e escondido sob o Seu sangue e sofrimento.

Todos deveríamos enxergar em Cristo o tamanho do amor de Deus. Todos deveríamos olhar para o sofrimento humano e entender que Cristo escolheu a cruz, o sofrimento, para nos livrar da perdição eterna e do sofrimento eterno. Diante de tudo isso, devemos permanecer “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2).

Rev . Ricardo Rios Melo

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre o abismo do mundo

Entre o abismo do mundo

Lá estava um homem, velho. Olhando para longe. Entre ele e um ponto distante, havia um abismo. Com bastante persistência, ele percebe que ao longe não era um ponto que ele mirava, mas pessoas que, de tão distantes que estavam, pareciam formigas se movimentando.

De repente, surge no horizonte um perigo terrível. Aquelas pessoas que estão do outro lado do abismo serão destruídas. O homem tenta de todas as maneiras avisar sobre o perigo iminente: brada, pula, acena, mas sem êxito. Em desespero, tenta fazer uma ponte para alcançar o outro lado do abismo. Ele passa um bom tempo fazendo isso. Ao final, consegue chegar perto daquelas pessoas. Vê, em cada rosto, sua semelhança. Ele se espanta ao perceber que as pessoas são tão semelhantes, mas não entendem nada do que ele fala. É a mesma língua, são os mesmos sinais, contudo não conseguem compreendê-lo. Então, ele apela para recurso visual, tenta pintar em cores vivas o perigo que lhes sobrevém. Eles olham para a tela, acham bonita a pintura e o artista, mas não entendem a mensagem que ele quer passar. O homem se entristece. Chora, pois terá que voltar sozinho.

A essa altura, ele já se apegou àquela gente. Fez amizades. Construiu laços. Teria sido, o seu esforço, em vão? Ele não se contenta. Busca incessantemente comunicar a mensagem para eles. Então, tem uma idéia: que tal decodificar os símbolos? Bom, se eles não entendem o que falo, falando-lhes a mesma língua, é porque, na verdade, nós não falamos a mesma língua (refletiu). Pensou mais ainda: se eles não percebem a profundidade da minha pintura, é porque não estou pintando corretamente.

Aquele homem passou um bom tempo aprendendo a língua local, pediu emprestadas as tintas e pincéis dos moradores do lugar. No primeiro momento, ele tentou fazer uma pintura que aquele povo estava acostumado e gostava, mas o resultado foi desastroso. Quase o bom homem se manchou com as tintas de maneira permanente. Depois, usou as tintas e os pincéis, e pintou uma tela da forma que deveria ser, mas com uma clareza impressionante. Tentou novamente se comunicar.

Para sua surpresa, as pessoas ficaram desesperadas pela notícia da destruição que viria sem demora. Perguntaram-lhe, o que poderiam fazer para escapar da destruição. Ele lhes respondeu: – Nada! – Nada? Assustaram-se com a resposta. Podemos reunir um exército tão numeroso que nada ou ninguém poderá nos derrotar. O bom homem respondeu: nenhuma força humana poderá aplacar a destruição. – Então (intercalou o povo) porque nos mostrou com cores tão vivas a destruição de nosso povo, se não temos como fugir? Respondeu o homem: – Eu disse que não podem fazer nada pelo seu próprio esforço, mas tem uma pessoa que pode fazer por nós. Ele é tão poderoso que poderá aplacar a ira e receber sobre si a morte que era para nós. Basta que se arrependam dos seus pecados, do seu orgulho e creiam nEle de todo o coração.

Após ter dito essas coisas, muitos aceitaram o aviso e acreditaram na mensagem, outros não. Aquele homem guiou os que a aceitaram para o lugar em que ele morava, enquanto os outros foram destruídos por um fogo que nunca, jamais homem algum poderia imaginar.

Quero lhes contar outra história, na verdade, devo dar créditos ao autor, Jesus:

“Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós. Então, replicou: Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna, porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento. Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos. Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16. 19- 31).

Primeiro gostaria de ressaltar as diferenças entre as histórias acima contadas. A primeira é totalmente ficção, mas a moral desta história é uma realidade para nós. A segunda é uma parábola de Jesus, portanto é a Palavra de Deus.

Na primeira história, o homem bom pôde passar o abismo e comunicar o perigo. O primeiro abismo que ele rompeu foi o abismo da própria comunicação. Depois, conseguiu romper o abismo das terras e resgatar alguns que estava do outro lado do abismo.

Na segunda história, a coisa é muita mais forte, pois o homem rico não pode superar o abismo da morte. Ele não podia voltar à vida ou aparecer como um fantasma, ou guia espiritual qualquer, para anunciar aos seus sobre os tormentos do inferno. Aliás, a parábola diz que eles tinham a mensagem dos vivos escrita para ouvir: Moisés e os Profetas. Não há nenhum sentido em ressuscitar alguém que morreu, pois se eles não conseguiam ouvir a Bíblia, ou seja, Moisés e os Profetas, “tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”.

Querido irmão, se não entender a linguagem da nossa sociedade, você continuará gritando no vazio. Anunciará uma mensagem tão preciosa e importante para a vida eterna sem que ninguém consiga entender.

Querido amigo, na primeira história, as pessoas tiveram tempo para se salvarem. Na parábola de Jesus, o tempo que você tem é hoje, é agora: “porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2 Co 6.2).

Rev. Ricardo Rios Melo

quinta-feira, 1 de julho de 2010

SER MEMBRO DE UMA IGREJA, EU PRECISO DISSO?



SER MEMBRO DE UMA IGREJA, EU PRECISO DISSO?

Quem nunca ouviu alguma dessas frases: “eu creio do meu jeito” ou “não preciso ir à igreja para ser crente ou para crer em Deus”? Recentemente, essas frases ganharam um grande reforço por intermédio de publicações de livros que incentivam as pessoas a não buscaram a igreja. A idéia é que não existe respaldo para uma religião constituída. Bom, é verdade que a Bíblia não estipulou que a igreja seria Presbiteriana, Batista, Assembléia, Metodista ou qualquer outra denominação, não! Mas, será verdade afirmar que não precisamos da Igreja? E, se precisamos da igreja, o que ela realmente é?

Segundo Don Kistler, “As igrejas do Novo Testamento eram igrejas visíveis e locais. Elas se reuniam em lugar específico. Mateus 18.20 fala de umas poucas duas ou três reuniões no nome de Cristo. Atos 11.26 fala que a igreja de Antioquia, onde os discípulos foram pela primeira vez chamados de cristãos, reunia-se com o propósito de ser ensinada. Paulo escreveu suas epístolas a igrejas específicas, em lugares específicos, com pastores e presbíteros (ou supervisores) pastoreando seus rebanhos”.[1]

Podemos entender, claramente, nas Escrituras que Deus envia seu Filho para salvar seu povo (Mt 1.21). Cristo veio salvar o coletivo. É claro que Deus nos trata individualmente também, mas enviou Seu filho para salvar Sua Igreja: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

O apóstolo Paulo fala que a Igreja é Coluna e Baluarte da Verdade: Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (I Tm 3.14,15). Aliás, deveríamos entender que: manter, propagar e viver a verdade devem ser um dos principais quesitos na escolha de uma igreja.

Gordon D. Fee faz uma afirmação perturbadora para os nossos dias: “Uma pessoa sozinha está sentada em casa à frente da televisão; um programa cristão está no ar, um sermão é pregado, um convite é feito, e a pessoa responde ‘aceitando a Cristo’. Mas a única ‘igreja’ que a pessoa ‘freqüenta’ é por acaso a da televisão, sem nenhuma conexão com um corpo local de crentes. A pergunta: esta pessoa está salva? Eu responderia: somente Deus sabe; porém tal salvação está totalmente fora da visão salvífica do Novo Testamento. Um dos membros certos da moderna ‘trindade’ do mundo, ao lado do relativismo e secularismo é individualismo.”[2]

Esse individualismo “denunciado” por Fee, não é novidade. Os pensadores contemporâneos tratam dessa individualização como uma das marcas do pós-modernismo. Na esteira desse pensamento e, citando Tocqueville, Zygmunt Bauman diz que “o indivíduo é o pior inimigo do cidadão”[3].

Nessa sociedade individualista, “Narciso acha feio o que não é espelho”.[4] Entretanto, ao defrontar-se com o espelho, se encontra vazio. “Quanto mais a cidade desenvolve as possibilidades de encontros, mais os indivíduos se sentem sós; quanto mais as relações se tornam livres, emancipadas das antigas restrições, mas rara se torna a possibilidade de conhecer uma relação intensa. Por outro lado há solidão, vazio, dificuldade de sentir, de ser transportado para fora de si mesmo; daí uma fuga para as ‘experiências’, que apenas traduz a busca de uma ‘experiência’ emocional forte”.[5]

É dentro desse contexto individualista, da era dos telefones celulares, que não ligamos mais para a casa ou família de alguém, mas para alguém individualmente. Na era dos iPOD’S, em que não se compartilha a música com o ambiente, mas apenas com seu dono; na era das comunidades virtuais que são efêmeras e de interesses diversos e circunstanciais, se tenta criar uma igreja da mesma forma. Uma igreja para o indivíduo e não para coletividade – uma igreja que sacie os interesses narcísicos.

A igreja apostólica, tecnicamente falando, se constitui de uma assembléia de pecadores redimidos. Desde o Antigo Testamento, Deus está reunindo um povo zeloso de boas obras:o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas Obras” (Tt 2.14).

Deus enviou seu único Filho para morrer pela Igreja, o Israel de Deus. Conquanto a responsabilidade do arrependimento seja individual, Deus nos chamou para a comunhão real, não virtual, e jamais individual.

A essa altura, você me perguntaria: preciso filiar-me a uma igreja já que não existe denominação na Bíblia? A resposta é simples: igreja, como instituição humana e falível, não salva ninguém. Mas, a Igreja que Deus tem reunido desde os tempos da existência humana usa uma Igreja invisível, no sentido de que não conhecemos todos os seus membros, mas que se manifesta visivelmente agregando pessoas de diversas denominações que professam Cristo como Senhor e Salvador, que foi constituída por Deus na Sua multiforme sabedoria, permitindo que haja diferenças entre elas, cujo centro é Cristo. Sem essa filiação você não será salvo.

Portanto, você precisa de dois pertencimentos segundo a Bíblia, 1) pertencer a uma igreja, seja qual for a denominação ou local, Éfeso, Antioquia, Presbiteriana, Batista, Assembléia, Metodista, seja qual for a igreja e o local, é necessário participar de uma que pregue verdadeiramente o Evangelho com fidelidade;

2) o mais importante de tudo isso é ter as duas presenças confirmadas, e a segunda presença é o seu nome arrolado no Livro da vida; é ser membro da Igreja dos Céus, onde não existe mais grego, judeu, brasileiro, americano, africano etc. “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

Queridos, só existe um só jeito de ser crente, o jeito de Cristo!

Que Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo



[1] Don Kistler, Benditos Laços, In: Avante, Soldados de Cristo, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 66.

[2] Gordon D. Fee, Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, Campinas- SP, United Press, 1997, p. 69.

[3] Vd. Zygmunt Bauman, A Sociedade Individualizada, Rio de Janeiro, 2008, p. 60-77.

[4] Caetano Veloso, Sampa.

[5] Gilles Lipovetsky, A Era Do Vazio, Barueri, SP, Manole, 2006, p. 57,58.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sou Cristão, e daí?

Sou Cristão, e daí?

Há muito que ser cristão não passa apenas, para muita gente, de uma pergunta respondida em fichas de emprego ao se perguntar sobre religião. As pessoas respondem as fichas de emprego ou as perguntas de curiosos.

Depois de se identificarem como cristãs, as pessoas definem que tipo de cristão são: católicos, presbiterianos, batistas, pentecostais, tradicionais etc. Bom, após essa identificação mais precisa, deveríamos pensar que já poderíamos traçar um perfil comportamental da pessoa, pois religião tem a ver com implicações profundas na personalidade de alguém. Não é sem motivo que Max Weber elabora uma tese reconhecida e estudada mundialmente avaliando o comportamento dos calvinistas puritanos: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Contudo, dizer ser cristão no século XXI não tem surtido muito efeito. As pessoas falam: sou cristão, e daí? Se alguém fosse considerado cristão, seguidor de Cristo, no primeiro século no período de Jesus, isso significaria: perseguição e até morte. Na negação de Pedro, vemos o medo dele se manifestando em Mateus 26.69-75: Ora, estava Pedro assentado fora no pátio; e, aproximando-se uma criada, lhe disse: Também tu estavas com Jesus, o galileu. Ele, porém, o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes. E, saindo para o alpendre, foi ele visto por outra criada, a qual disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. E ele negou outra vez, com juramento: Não conheço tal homem. Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia. Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente”.Vejamos que na negação de Pedro existiam elementos comportamentais que o identificavam com aqueles que andavam com Jesus.

Hoje, o nosso problema poderia ser identificado como crise de identidade. Ser cristão não quer dizer mais nada. Já que não corremos o risco de morremos e sermos aprisionados pelo simples fato de sermos cristãos, presenciamos o apogeu da licenciosidade, do descompromisso e da falta de crédito perante a sociedade.

Ser cristão em nossos dias, em muitos e muitos casos, em nada nos faz lembrar o caráter de Cristo e sua mensagem. A mansidão, abnegação, longanimidade, simplicidade, obediência ao Pai, amor incondicional, mensagem do Reino, santidade etc., indiscutivelmente presentes em Cristo, pouco são sentidos em nossos dias.

Há, claramente, uma tentativa conciliatória entre a cosmologia do mundo e a cosmologia cristã. Os cristãos de nossos dias estão se escondendo com facilidade. Pedro se esforçou para negar a Cristo, pois as pessoas o identificaram. Em nossa nova cristandade, não é preciso esforço para ser confundido.

Muitos cristãos, principalmente os mais antigos, há muito transformaram o cristianismo em uma religião fria que não passa de uma tradição. Portanto, não é de se admirar que seus filhos estejam saindo das igrejas ou tentando transformar a igreja em um parque de diversão.

Ser cristão não deveria ser apenas uma opção social sem nenhuma expressão, deveria modificar hábitos, pensamentos e modificar o mundo.

O nosso desafio é feito pelo apóstolo Paulo em Romanos 12.1-2: Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

Sou cristão, e daí? Tudo em minha vida mudou, “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gálatas 2.20).

No amor de Cristo,

Rev. Ricardo Rios Melo

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...