terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Mais um ano se passou



As esperanças se renovam a cada ano que se anuncia. As pessoas renovam suas esperanças. A crise e a recessão, apesar de dar calafrios, são esquecidas momentaneamente, pois a expectativa de um ano melhor é melhor do que o pessimismo.

O governo anuncia um crescimento pálido, mas é um crescimento! A indústria automobilística anuncia suas perdas, mas suas esperanças são renovadas pelos pacotes do governo e a ajuda vinda dos EUA.

“A Toyota anuncia seu primeiro prejuízo em 70 anos de história” [1], nada mal para quem faturou por 70 anos consecutivos, não acham?

O crédito para pessoas físicas, que inicialmente foi ameaçado aqui no Brasil, mostra substancial crescimento: “Com o crescimento do estoque do mês passado, o volume total de crédito do sistema financeiro ultrapassou a marca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) - novo recorde histórico. O BC já esperava que esta marca fosse ultrapassada até o fim deste ano. O volume total atingiu 40,3% do PIB em novembro, contra o número revisado de 39,6% em outubro”.[2]

O comércio, inicialmente apreensivo, mostra sinal de melhora em suas vendas: "Eu esperava um Natal muito pior com esta crise mundial. Mas, a verdade é que vamos vender o mesmo que o Natal passado", explicou o gerente da Borges Calçados do Salvador Shopping, James Santos.”[3]

O papa Bento XVI conclama sua igreja, a Igreja Católica Apostólica Romana, como também a humanidade, para uma defesa da “ecologia humana”. Nesse discurso, o pontífice católico reforça a posição da “Santa Sé” contra o a prática homossexual: “Ele afirmou que os comportamentos que vão além das relações heterossexuais são "a destruição do trabalho de Deus". Durante o discurso contra o homossexualismo, Bento XVI defendeu a criação de uma "ecologia humana", dizendo que a Igreja não pode se limitar a transferir a seus fiéis a mensagem da salvação, mas que também tem uma responsabilidade sobre a criação - (A Igreja) também deve proteger o homem da destruição de si mesmo. Um tipo de ecologia humana é necessário - afirmou. - Não é o homem que decide, é Deus que decide quem é homem, quem é mulher. ”[4]

Parece que o fim de ano é momento de reafirmar as esperanças e as convicções. Há uma nuvem de esperança no ar. As pessoas ficam mais acessíveis e misericordiosas. Por um pequeno instante, parece que o ser humano fica mais humano nesse período de natal e véspera de ano novo.

As festas estão marcadas para “enterrar” o ano de 2008 e dar boas-vindas a 2009. Os fogos, que dantes eram usados para afugentar os maus espíritos, fazem o seu papel pirotécnico. A música agitada e o olhar sempre atento ao relógio confirmam que essa data tem algo diferente, “meio mágico”. O champanhe está borbulhando em expectativa para romper a barreira da rolha que o impede de estourar. Feliz ano novo! São os gritos de sempre. Abraços, beijos e cumprimentos calorosos e felizes pelo ano nascente são de praxe.

Queridos, diante de tanta expectativa, projetos e esperança renovada, como deve se comportar a igreja de Cristo? Como é que você recebe o novo ano? Quais são os seus anelos? Quais foram os projetos traçados por você para 2009? Certamente, você sabe de tudo isso que foi relatado nesse boletim: crise, recessão, crescimento, comércio esperançoso, papa declarando “guerra ao homossexualismo” e outros relatos que foram omitidos pelo curto espaço que temos para expô-los.

No entanto, o que nos interessa saber é se dentro dos diversos projetos que você traçou, há lugar para Deus neles? Será que, ao traçar objetivos para 2009, você traçou mais comunhão com o Pai, santidade, evangelização, adoração, tempo para meditar em Sua Palavra, compromisso mais sério com sua igreja local, dedicação a obra do Senhor, oração por sua igreja e liderança local, fidelidade na vida e nos dízimos e ofertas, amor a seu irmão, assiduidade aos cultos e programações de sua igreja? Será, querido irmão, que você incluiu em seu projeto do ano novo a gratidão pela providência diária de Deus?

Ano após ano, as pessoas renovam suas esperanças e as alicerçam em lastros efêmeros. Plantam suas raízes em terreno rochoso ou sem profundidade. Suas casas são construídas na areia da praia e sua confiança repousa no braço fraco dos homens. Planejam suas vidas apenas na perspectiva plana, horizontal, terrena. Esquecem-se de Seu Criador. De repente, vem uma crise que põe em cheque tudo o que foi planejado. Vem uma enfermidade e mostra o quanto somos frágeis; uma catástrofe abala nossas esperanças e, muitas vezes, na hora de renovarem suas esperanças em Deus, perguntam-se: “onde está Deus que não viu isso tudo acontecer?” “Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus.”( Sl 14.2 )

Sabe qual é o pior disso tudo? É que muitos crentes apóiam suas esperanças nas mesmas coisas que os descrentes: emprego, plano de governo, inteligência, força, capacidade pessoal, empresa, casamento, família, filhos, discurso político etc. Planejam suas vidas sem Deus. “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo” (Tg 4. 13-15). Elaborar planos sem Deus é como escrever um projeto de vida ou construir um castelo de areia na areia na praia. Logo virá a onda e levará seus planos e projetos de uma vida inteira.

Devemos perceber que o ano é passageiro e que o tempo corrido em que vivemos faz com que anos e dias pareçam mais curtos, pois nós preenchemos todos os horários que antes eram disponíveis.

No mundo globalizado, a informação é rápida e os relacionamentos de igual modo. Os compromissos se avolumam a tal proporção que, se você não parar para respirar, será consumido pela “tirania do urgente”.

Nesse ritmo frenético, as pessoas não têm tempo mais para Deus. Os próprios crentes deixam de lado sua comunhão com o Criador, e correm atrás do vento: “Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14); “Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a saber o que é loucura e o que é estultícia; e vim a saber que também isto é correr atrás do vento” (Ec 1.17); “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2.11); “Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 2.17) ; “Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus. Também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 2.26); “Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 4.4) “Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento” (Ec 4.6); “Era sem conta todo o povo que ele dominava; tampouco os que virão depois se hão de regozijar nele. Na verdade, que também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 4.16); “Melhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da cobiça; também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 6.9).

Que nesse ano de 2009, você não corra atrás do vento. Faça diferença: seja crente! “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt 16.26).

Que Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo.


[1] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ - acesso em 23 de dezembro de 2008.
[2]http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL933109-9356,00- CREDITO+VOLTA+A+SUBIR+EM+NOVEMBRO+E+ULTRAPASSA+DO+PIB.html - acesso em 23 de dezembro de 2008.
[3] http://www.atarde.com.br/jornalatarde/economia/noticia.jsf?id=1036504 – acesso 23 de dezembro de 2008.
[4] http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2008/12/22/papa-compara-protecao-as-florestas-combate-ao-homossexualismo-587504787.asp - acesso em 23 de dezembro de 2008.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Secularização – desafio da igreja moderna



A palavra secularização tem seu significado definido pelo Aurélio, da seguinte forma: [De secularizar + -ção.] S. f. 1. Ato ou efeito de secularizar(-se). 2. Fenômeno histórico dos últimos séculos, pelo qual as crenças e instituições religiosas se converteram em doutrinas filosóficas e instituições leigas. 3. Transferência de um bem clerical a uma pessoa jurídica de direito público. 4. Tomada de terras e bens da Igreja pelos nobres, ocorrida durante a Reforma Protestante. Os Guinness a define o termo como sendo o “processo pelo qual a influência decisiva de idéias e instituições religiosas foi neutralizada em sucessivos setores da sociedade e cultura, tornando menos significativas as idéias e, mais marginais, as instituições religiosas. Em especial, ele se refere a como nossa consciência e modo de pensar modernos são restritos ao mundo dos cinco sentidos.”[1]

A segunda definição do Aurélio e a definição de Os Guinness são bem apropriadas. Secularização é o arrefecimento da ação da igreja nas instituições humanas. É o desaparecimento da influência da igreja no âmbito secular. É o acomodamento da igreja ao mundo com seus costumes pagãos e idiossincráticos. A igreja se molda a tal ponto, que passa a ser considerada uma peça comum de uma grande máquina social. “Não é necessário parar para explicar exatamente por que isso aconteceu. Resumindo, cada vez uma menor parte da vida tem sido deixada para Deus, para o acaso ou à espontaneidade humana, enquanto cada vez maior parte da vida foi classificada, calculada e controlada pelo uso da razão – pela ciência e tecnologia. O que mais importa é reconhecer que a secularização afeta os crentes religiosos tanto quanto afeta os ateus e agnósticos. A mesma ampla assembléia de planos e procedimentos que usamos para lançar um astronauta à lua ou lançar no mercado um novo chip de computador pode ser usada para ‘crescimento de igreja’ ou para ‘evangelizar um povo não alcançado’. Em suma, o mundo moderno literalmente ‘se gerencia sem Deus. Podemos fazer tantas coisas tão bem por nós mesmos que não há necessidade de Deus, nem na igreja.”[2]

A secularização esfria a alma. É uma doença silenciosa que faz muito barulho e estraçalha a sociedade. É uma patologia degenerativa que nos corrói de dentro para fora e, quando nos damos conta, já se foi o nosso vigor, nossa vida e esperança. A secularização é um câncer social, que tem que ser extirpado com destreza e feroz urgência.

A sociedade tem colhido os frutos desse tumor maligno; é namorado que tira a vida de sua namorada “por amor”. Que amor é esse que tira a vida de quem amamos? É filha que mata os pais por dinheiro e por amor ao namorado. Que amor é esse que não ama quem nos gerou? São mães que jogam seus filhos na lata de lixo. Que amor é esse que se desfaz de uma vida que foi nutrida dentro de nós como se fosse uma casca de banana lançada ao entulho?

A sociedade moderna expulsou Deus de sua vida e se colocou no lugar. O resultado disso? Um mundo sem absolutos de qualquer esfera. Quando não tem com quem prestar contas, não há divida a ser paga. Em 1907, alguns cidadãos pensadores, filósofos, matemáticos, banqueiros se reuniram para falar sobre religião, Tallks on Religion (Conversas sobre religião). Eles discordavam em diversos assuntos, no entanto entraram em consenso, pelo menos em uma coisa, “a sociedade estava progredindo por meio da ciência e da educação universal para um futuro moralmente melhor”. [3] John Dewey, nos Estados Unidos, compartilhava desse otimismo em seus escritos teóricos da educação. “Ele dizia que a nova educação que fomentava era ‘a garantia de uma sociedade mais ampla, que é digna, atraente e harmoniosa’, que também tinha ‘em si o poder de criar uma inteligência experimental livre que realizará todos os esforços necessários neste mundo complexo e confuso no qual nós, e todos os outros povos modernos, somos obrigados a viver.’”[4]

Parece que o grupo de 1907 e John Dewey estavam errados, pois o século 20 “foi o mais sangrento e brutal da história humana, e não por falta de educação. As pessoas que ordenavam e executavam os massacres, holocaustos e limpezas étnicas eram, muitas vezes, muitíssimo cultas e refinadas. Os judeus nos campos de concentração tinham de executar peças de Bach para o deleite de seus algozes, antes de serem levados às câmaras de gás”.[5]

John Dewey escreveu seu Manifesto Humanista em 1933, pouco antes da 2ª guerra mundial. Em sua declaração, ele diz: “O homem está finalmente se tornando consciente de seus sonhos, de que possui em seu interior o poder para torná-lo real”. [6] Parece que a história nos mostra uma realidade diferente. É necessário relembrar as lições[7] do século 20 para confirmamos que o mundo não melhorou e que a solução não está nos homens, pois é o próprio homem que destrói o outro. Não é o homem com seu egoísmo que concentra riquezas em detrimento de países inteiros cujos habitantes morrem de fome e carecem de saúde e de manutenção básica?

A secularização é essa praga que ilude o homem, fazendo-o acreditar que pode viver sem Deus. O pior disso tudo é que a secularização não respeita fronteiras. Ela já entrou na igreja de maneira avassaladora e arrasou os corações de muitos que professam ser cristãos.

Certa vez, Os Guinness encontrou um empresário australiano que declarou: “‘sempre que conheço um líder budista, estou diante de um homem santo em contato com outro mundo. Quando conheço um líder cristão, estou diante de um dirigente à vontade somente neste mundo em que eu também estou à vontade’”. [8] Que tristeza! A secularização arrebatou a alma de muitos incautos e os levou a acreditar que somos do mundo e pertencemos a ele. Diferentemente, Jesus declara: “Eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.16). “A espiritualidade, para seguidores de Cristo, é questão de um mundo diferente com realidade, energia, possibilidades e prospectos diferentes.”[9]

Queridos, o mundo moderno é altamente secularizado e pretende a todo instante reafirmar sua postura atéia. Nesse contexto de descrença e aridez moral, precisamos reafirmar nossas convicções e compromisso com Deus. Só uma igreja forte, que tem consciência de seu papel de agência do Reino de Deus, poderá minimizar os efeitos destruidores de um mundo autônomo e vil.

Não podemos deixar que o mundo dite as normas que devemos seguir e no que devemos crer. A ciência, apanágio da modernidade, não trouxe paz e nem cura para sociedade doente e efêmera. As guerras, doenças e subcondições de muitos que habitam esse mundo mostram que o homem é o mesmo de sempre: pecador e desobediente, pois não há quem faça o bem![10]

Uma parábola russa nos ajuda a entender o que é negociar com o mundo e entrar em acordo com o inimigo: “Um caçador estava mirando um urso quando o urso falou "Não é melhor falar do que atirar? O que é que você quer? Vamos negociar." Baixando a espingarda o caçador falou "Eu quero um casaco de pelo de urso para me cobrir." "Bom, esta é uma questão negociável" falou o urso. "Eu apenas quero um estômago cheio. Vamos negociar." Depois de algum tempo falando, o urso voltou sozinho para a floresta. As negociações foram um sucesso. Cada um recebeu o que queria. O urso conseguiu seu estômago cheio e o caçador ficou coberto de pêlo de urso. Entrar em acordo raramente satisfaz ambos os lados igualmente. Na negociação com nosso inimigo, ele promete o que nós queremos, mas apenas pretende levar o que ele quer - a nossa alma. Você está tentando entrar em acordo ou negociar com o inimigo?”[11]

Caríssimos, “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2.15).

Deus nos livre da secularização!
Rev. Ricardo Rios Melo.





[1] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 162.
[2] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[3] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.42.
[4] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.43.
[5] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.43.
[6] John Dewey in: John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.44.
[7] Vd. John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.44.
[8] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[9] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[10] Vd. Rm 3. 9- 18
[11] Michael Green, Illustrations for Biblical Preaching (Ilustrações Para Pregação Bíblica), Grand Rapids: Baker, 1989 - Terence Patterson em James S. Hewett, “Illustrations Unlimited” (Ilustrações Ilimitadas) (Wheaton: Tyndale House Publishers, Inc, 1988) p. 113. In: http://www.hermeneutica.com/ilustracoes/acomodacao.html

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Onde está a loucura da pregação?


Há tempos, temos visto a perda do vínculo com a Palavra de Deus. O púlpito poderoso foi substituído por sistemas mais inovadores e mais atrativos. Muitos pregadores perderam a confiança ou se venderam aos tempos modernos. É compreensível, mas não aceitável, a desculpa de que os tempos são outros. Um sem número de pessoas acostumadas com os novos estímulos visuais e auditivos não consegue mais prestar atenção a um sermão com mais de 35 minutos (sendo bastante otimista).

Soma-se aos estímulos contemporâneos, o nosso mundo fast, onde tudo tem que ser muito rápido. A internet tem que ser cada vez mais rápida e as informações também. As músicas, que há muito eram para ser apreciadas e analisadas por uma platéia atenta e emocionada, hoje são tocadas em um rádio dentro de um carro cheio de pessoas conversando e ninguém prestando atenção na melodia ou na letra. Talvez seja aquilo que os filósofos contemporâneos chamam de mundo Holywoodiano, onde cada um de nós tem uma trilha sonora particular.

A nossa anamnese deve passar também pelo foco da praticidade, ou melhor, do pragmatismo moderno. As pessoas querem resultados! Elas querem ouvir algo que fale de sua situação atual e de suas necessidades. Uma espécie de existencialismo pragmático: tem que dar resultado e esse resultado tem que se relacionar com minha existência. Isso não tem nada a ver com aplicação de sermão à vida prática, não! O modernismo quer respostas pessoais a perguntas pessoais. E essas respostas devem se adequar às respostas que o indivíduo já tem, ou seja, querem ouvir o eco de suas vozes. Qualquer resposta fora desse padrão é fora do padrão individualista moderno.

Manter-se firme dentro desse panorama é muito difícil! “Não é tão dramático dizer que o ministério contemporâneo perdeu vínculo com a Palavra de Deus, ou, dizendo de outra maneira, a Palavra de Deus não tem mais um papel primordial sobre a vida e a prática dos ministros do evangelho há cerca de cinqüenta anos”[1]. A pregação superficial surge, de certo modo, do clamor de um mundo superficial no qual a competição “por um lugar ao sol” não dá espaço para longas reflexões e introspecções.

Mas, o que tudo isso pode trazer de prejuízo para nós? Será que o encurtamento e enfraquecimento dos sermões, a ponto de se extinguir a exegese apurada e uma interpretação alicerçada no labor do estudo, pode gerar problemas para nossa vida? John Macarthur Jr. acha que sim. Ele nos fala de, no mínimo, quinze conseqüências do esvaziamento da pregação – “as conseqüências devastadoras de uma mensagem diluída[2]”: 1) Usurpa a autoridade de Deus sobre a alma; 2) Remove da igreja o senhorio de Cristo; 3) Obstrui a obra do Espírito Santo, pois o mesmo usa a Palavra como instrumento de regeneração e correção; 4) Demonstra arrogância e falta de submissão; 5) Separa o pregador da graça santificadora proveniente das Escrituras; 6) Obscurece a verdadeira profundidade e transcendência de nossa mensagem, ao mesmo tempo em que enfraquece tanto a adoração congregacional como a adoração pessoal; 7) Impede o pregador de desenvolver a mente de Cristo; 8) Deprecia, por meio do exemplo dos pregadores, a prioridade e o dever espiritual do estudo bíblico particular; 9) Impede o pregador de ser a voz de Deus em todos os assuntos de seu tempo; 10) Produz uma congregação tão fraca e indiferente à glória de Deus quanto o seu pastor; 11) Rouba às pessoas a sua única fonte de ajuda verdadeira; 12) Estimula as pessoas a se tornarem indiferentes à Palavra e à autoridade de Deus; 13) Engana as pessoas quanto ao que elas realmente precisam; 14) Remove o poder do púlpito; 15) Atribui a responsabilidade de mudar as pessoas à habilidade do pregador.

A pregação tem um grande destaque para os reformadores. Principalmente, para João Calvino. “Dentro da visão Reformada, a Palavra de Deus ocupa o lugar central do Culto, visto que é através dela que Deus nos fala. Deus se dignou em revelar a Si mesmo como Palavra e através da Palavra”.[3]

Infelizmente, vivemos em mais um período de afastamento da Palavra e, conseqüentemente, esfriamento da fé. Todas as vezes em que a Palavra de Deus é negligenciada, a igreja e o mundo sofrem conseqüências danosas em todas as áreas e, principalmente, no âmbito moral. Há uma natural aquiescência do pecador ao desvio da Palavra, pois ele sempre quer adiar o confronto inevitável com a retidão de Deus. Talvez isso explicasse a facilidade e, até mesmo, o fascínio que muitos têm por pregações superficiais e com um alto teor apelativo emocional.

Para que um pregador seja bem sucedido nesse novo quadro, ele deve ser leve.
“Os especialistas nos dizem que pastores e líderes de igrejas que desejam ser mais bem-sucedidos precisam concentrar suas energias nesta nova direção. Forneça aos não-cristãos um ambiente inofensivo e agradável. Conceda-lhes liberdade, tolerância e anonimato. Seja sempre positivo e benevolente. Se for necessário pregar um sermão, torne-o breve e recreativo. Não pregue longa e enfaticamente. E, acima de tudo, que todos sejam entretidos. As igrejas que seguirem estas regras experimentarão crescimento numérico, eles nos afirmam; e as que as ignorarem estão fadadas à estagnação.”[4] “ As inovações que estão sendo tentadas são extraordinárias e, até mesmo, radicais. Algumas igrejas, por exemplo, realizam seus maiores cultos na sexta ou sábado à noite, em vez de no domingo. Tais cultos são repletos de música e entretenimento, oferecendo às pessoas verdadeiros substitutos ao teatro e às atividades sociais. Os membros de igreja agora podem "cumprir sua obrigação de ir à igreja", ficando livres para usarem o fim-de-semana como quiserem. Um desses freqüentadores de cultos aos sábados explicou por que esses cultos alternativos são tão importantes: ‘Se você vai à escola dominical às 9:00 e ao culto das 11:00 horas, acaba saindo da igreja perto das 13:00 horas da tarde; isto praticamente liquida o dia’. A julgar pela freqüência aos cultos, muitos dos membros de igreja sentem que passar o Dia do Senhor na igreja equivale a desperdiçar o domingo por completo. Os cultos não-dominicais, em algumas igrejas, estão sendo mais freqüentados do que aqueles que tradicionalmente ocorrem aos domingos”.[5]

Onde está a loucura da pregação? Parece que as pessoas se esqueceram que Deus escolhe tanto os fins quantos os meios. Só a Palavra de Deus pode dar vida aos mortos. Só se pode nascer do alto se a pregação for do alto! Não adianta baratearmos o evangelho para obtermos resultados visíveis, pois Deus vê o invisível! É claro que todos gostaríamos de ver nossas igrejas lotadas de pessoas, qual ministro não gostaria? Contudo, isso só deve ser desejado em submissão à Palavra de Deus.

Querido, talvez você tenha muitas reivindicações para fazer a respeito da pregação e dos pregadores, mas você já se deu conta de que antes de reivindicarmos qualquer metodologia ou fidelidade da pregação, devemos estar atentos à própria pregação. Talvez você tenha se tornando um ouvinte tardio (Hb 5.11) e, por isso, não tenha mais prazer na pregação genuína das Escrituras.

Acreditamos que uma boa parcela de culpa do enfraquecimento dos púlpitos seja dos pregadores. Contudo, muitos desses pregadores cederam, sem desculpas, às pressões dos ouvintes que têm coceiras (2 Tm 4. 3) nos ouvidos.

Entretanto, antes de procurarmos culpados, cabe resolvermos o problema: voltarmos à loucura da pregação! Pois, somente ela restaurará a igreja e salvará as ovelhas perdidas.
“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21).

Aumenta-nos a fé, Senhor!

Rev. Ricardo Rios Melo.

[1] John Armstrong, O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p 23.
[2] Ver John Macarthur, Ouro de Tolo? Discernindo a verdade em uma época de erro, São José dos Campos, SP: Fiel, 2006, p 33-44.
[3] Hermisten M. P da Costa, A Relevância da Pregação na Teologia de Calvino –– 17/10/08 (Obra não publicada), p. 19.
[4] John MacArthur, Jr. Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos-SP: Fiel,1997, p. 46.

[5] John MacArthur, Jr. Com Vergonha do Evangelho, Fiel, São José dos Campos-SP, 1997, p. 46.

sábado, 4 de outubro de 2008

Eleições 2008


Nesse Domingo temos eleições para prefeito e vereador em todo País. É a hora de ouvirmos os infindáveis programas políticos na televisão e procurarmos o candidato com as melhores propostas para nossa cidade. Mas, como escolher dentre tantas propostas e tantos candidatos? Os marqueteiros dos políticos fazem o seu melhor, na tentativa de “capturar” nosso voto.

Em plena era da globalização e da famosa internet com suas milhares de informações a cada segundo, aparentemente fica fácil decidirmos em que votarmos. Contudo, logo surge uma dúvida atroz: voto naqueles candidatos que se declaram crentes? Bom, aqui são necessários alguns esclarecimentos:

1) em primeiro lugar, quero desafiá-lo a votar, pois muitas pessoas já se desanimaram com a política e com os políticos a tal ponto de “lavarem as mãos”, ou seja, votar em branco ou anular seu voto. Creio que essa não é a melhor atitude, apesar de termos esse direito, não é muito prudente deixar os quatro próximos anos ao alvitre de quaisquer pessoas. Mesmo que o nosso candidato não ganhe, é melhor termos a consciência tranqüila de que votamos na melhor proposta; isso nos leva à segunda questão:

2) devemos votar em propostas concretas e sólidas; pautadas na verdade e na possibilidade de serem realizadas em quatro anos; promessas mirabolantes não adiantam - elas nunca saem do papel;

3) devemos votar no melhor para a nossa cidade e não para nós mesmos; muitas vezes o nosso voto está embasado em nossas necessidades particulares e em nossa idiossincrasia e não na necessidade da maioria. Se as necessidades da “maioria” são boas, verdadeiras e não ferem as Escrituras, devemos lutar juntamente com toda a população de nossa cidade para que elas sejam contempladas. Nesse item, existem muitas pessoas que, no afã de defenderem o título de crentes, acabam cometendo todo tipo de erro e mau testemunho. Por isso, nosso dever é para com todos de nossa comunidade e não somente com os nossos;

4) nesse ano, apareceram vários candidatos se dizendo crentes. Em qual deles eu voto? A pergunta é: quem disse que você só deve votar em crentes? Quem foi que disse que só o fato de alguém ser crente já o qualifica para determinados cargos e ofícios? Bom, vejamos alguns exemplos. Suponhamos que você esteja prestes a viajar de avião para um outro país ou para um outro estado e lugar qualquer. Na sala de espera do vôo, você está bem tenso e alguém o tranqüiliza: fique calmo(a), o piloto não sabe voar, mas ele é crente. Em plena cirurgia do coração ou de algo complicado, na hora da incisão cirúrgica, a enfermeira (cristã) diz: “doutor, você é crente?”. Será que é prudente escolhermos nosso prefeito e nossos vereadores com esse critério?

Nós podemos muito bem saber determinado ofício em nossa vida sem que isso nos qualifique para todos os ofícios da vida. Aliás, a Bíblia nos fala que até dentro da igreja existem diversidade de dons: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens” (Ef 4.8). É dentro da diversidade dos dons que Paulo diz que existem vários dons na igreja e que nem todos têm o mesmo dom: “Têm todos dons de curar? Falam todos em outras línguas? Interpretam-nas todos?” (1 Co 12.30). Nesse mesmo intuito, Paulo nos fala que a igreja é abençoada na diversidade dos dons: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11).

Bom, se na igreja não temos os mesmos dons, imagine na sociedade que é mais numerosa. Ela também, querendo ou não, depende dos dons de Deus, pois mesmo uma pessoa que não acredita nEle recebe dons para utilidade na sociedade: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Portanto, para votarmos em um crente, devemos primeiro perguntar: ele é qualificado para esse cargo? Ele honrará o nome de Deus com competência? Nada é pior do que ouvirmos o nome de Deus sendo blasfemado e desonrado por causa de pessoas desqualificadas, que muitas vezes são sinceras, mas são altamente despreparadas. Queridos, nessas eleições, fiquei muito envergonhado e muito constrangido, pois ouvi vários candidatos chamando o nome de Deus em vão. Invocam o nome de Deus para promessas que não irão cumprir e muitos deles brigam em “nome de Deus”. Nunca me esquecerei de um presidenciável, que se intitulava de ateu, mas, que nas vésperas das eleições, ao constatar que seus possíveis votos estavam decrescendo por conta do seu ateísmo, passou a visitar igrejas cristãs protestantes e, principalmente, católicas. Nessas eleições, devemos ter muito cuidado com os falsos crentes que aparecem e com o mercadejar do nome de Deus. Não utilize apenas o critério da fé para votar. Ore, leia as propostas, conheça seus candidatos, pense nos quatro anos de mandato e conclua se o seus candidatos realmente são mais adequados para nossa cidade. Afinal de contas, se votarmos errado, amargaremos a nossa escolha.

Cabe ressaltar que, se o nosso candidato tiver todas as qualidades para vereador e prefeito e ainda for crente, é claro que nossa preferência será por ele, pois sabemos que o VERDADEIRO crente não desonrará o nome de seu Pai.

Se, no final de tudo, não lograrmos êxito em nosso intento de elegermos os nossos candidatos, cabe-nos o respeito e a obediência: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13:1).

Deus nos abençoe e abençoe a nossa cidade!

Rev. Ricardo Rios Melo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O barato de ser crente ou o crente barato?


Na reportagem da Veja dessa semana que passou, foi-nos relatada a história de diversos jovens que aderiram a um novo estilo de vida, o estilo: crente. Para esses jovens, o barato é dizer não às drogas, ao álcool, ao sexo antes do casamento, é serem rejeitados ou discriminados pelo seu jeito crente de ser. O articulista da matéria chega a colocar que “Como é comum em grupos de alto teor de crença religiosa, a eventual discriminação vira motivo de orgulho.”

A avaliação desse novo grupo que surge, dos evangélicos, a priori, parece-nos boa. Contudo, algo nos chama atenção. Sutilmente, o escritor nos fala das aproximações e dos contrastes dessa “cultura jovem crente” com a cultura jovem. Os jovens crentes podem namorar, mas não podem fazer sexo. Podem dançar, mas sem sensualidade. Podem beber bastante açaí e paquerar bastante sem excessos. Até aí, nos parece um bom protótipo. Contudo, existem nuances importantes no bojo do texto que não devemos deixar de destacar.

Há alguns aspectos na percepção do autor que nos chama atenção: a idéia do relacionamento do jovem com a moda e com o dinheiro; a idéia de ser diferente e gostar de ser diferente. Tudo indica que a visão da matéria é mostrar que é um barato ser crente. Talvez você, por ser muito jovem, não esteja familiarizado com essa expressão barato. Ela é uma gíria antiga dos jovens antigos que já não estão mais tão jovens assim. Significa algo que é legal.

Não há problema em gostar de ser crente e de ser diferente. O que nos chama atenção é que talvez a auto-imagem do crente fique ofuscada pelo brilho enganoso do mundanismo com seus modismos e trejeitos. Não dá para visualizar na matéria o lugar do sangue de Cristo; o lugar da cruz; calvário; sofrimento oriundo de uma fé que não posterga a dor do Gólgota.

Parece “legal” o exemplo de uma jovem que calça coturnos e corta o cabelo bem diferente e diz: “na igreja aprendemos que prosperar não é sujo. Deus nos ensina a ter o melhor” (Veja, 10 de Setembro, 2008, p. 137). Eu sou igual a qualquer pessoa, contudo sigo a tribo dos crentes; dos vencedores. Que vencedores? Vencedores no mundo ou do mundo? Fico imaginando se essa entrevista fosse feita há alguns anos na história à um jovem da era apostólica. Se perguntássemos para ele o que o diferia dos outros jovens, ele diria: a morte! A minha diferença é que eu morri com o meu Senhor e ressuscitarei com Ele. Eu morri para o mundo com seus modismos e jeito legal de ser. Não que eu não seja uma pessoa legal. Apenas não tenho que parecer como todo mundo para ser aceito pela sociedade, pois já fui aceito por quem mais me interessa: Jesus. Sou diferente em essência, pois nasci de semente incorruptível e minha mala está sempre pronta, pois há qualquer momento ele virá me buscar!

Esse jovem encontraria conselhos diferentes dos atuais, ele ouviria: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante; porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles. Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor” (2 Tm 3. 1-11).

Cometendo um anacronismo, o coturno que Timóteo teria que calçar em seus tempos seria para protegê-lo, pois ele foi chamado para uma guerra! Não é uma moda ser crente, é uma luta, a maior luta do mundo. “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Os jovens de hoje arrumam suas fardas para outro tipo de batalha. “Eles vão às baladas, namoram, surfam e usam roupas da moda. A diferença entre os evangélicos e a maioria dos outros jovens é que suas festas são sem álcool, o namoro é sem sexo e as roupas, sem exageros – nada de saias pelos pés e cabelos pela cintura, mas decotes e comprimentos moderados. A maneira brasileira de ser evangélico ajuda a explicar os números impressionantes: 17% dos jovens entre 15 e 29 anos se identificam como seguidores de alguma das confissões evangélicas. Basta entrar em qualquer culto pentecostal para constatar a vitalidade de sua presença: praticamente a metade da igreja é sempre composta de jovens. Orgulhosos de seguir uma doutrina aparentemente tão contrária a tudo o que a juventude aprecia em nome de valores espirituais, também assumem uma busca da realização material (“Nós merecemos o melhor” é uma declaração constante) (Veja, 10 de Setembro, 2008, p. 137).”

O fato dos jovens serem jovens, ou seja, surfarem, divertirem-se etc. não tem nada a ver com ser ou não crente. É próprio do jovem ser ativo e alegre. Contudo, sabemos que a verdadeira alegria se encontra em Cristo.

Temos que salientar que a abstinência sexual antes do casamento e o fato do crente prosperar na vida são questões positivas, fazendo as devidas ressalvas com relação à prosperidade. Essa não é uma meta do crente, mas deve ser uma conseqüência de sua vida ilibada e dedicada a Deus. Mas, mesmos sendo fiéis a Deus, não devemos confundir prosperidade com salvação, pois a Bíblia não apregoa isso. Podemos não ter riquezas, bens e nem prazeres terrenos, mas, se estivermos no livro da vida, seremos glorificados com Cristo.

Parece-nos que, cada vez mais, os evangélicos estão gostando do tempo presente. Querem desfrutar das benesses do mundo utilizando os mesmos subterfúgios, embrulhados em um papel de presente bonito, o papel decorado da “espiritualidade”.

As artes, por exemplo, são imitações grosseiras das artes seculares. A música, nem se fala. “A pressão de justificar a arte, ciência e a diversão em termos do seu valor espiritual ou sua utilidade evangélica acaba prejudicando tanto o dom da criação quanto o dom do Evangelho, desvalorizando o primeiro e distorcendo, no processo, o segundo. Por exemplo, ‘a música cristã’ é freqüentemente uma desculpa para artistas inferiores conseguirem vencer numa subcultura cristã que imita o brilho e glamour do entretenimento secular, inclusive suas próprias cerimônias de premiação e seu ambiente de superestrelato. Pode ser que essa não seja a intenção por parte de muitos artistas que querem contribuir para o cenário da música cristã contemporânea, mas a indústria acaba produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas, superficiais da música popular. Produzir música em conformidade com gostos anestesiados duma cultura consumista já é ruim; imitar a arte comercializada é desperdiçar os talentos, a não ser que esteja escrevendo para o rádio e a televisão” (Michael S. Horton, O Cristão e a Cultura – nem separatismo, nem mundanismo, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 11).

Queridos, devemos achar que é um barato ser crente, mas não podemos esquecer que custou um alto preço. O preço do sangue do Filho de Deus. A religião Show promove uma subcultura que não tem paralelo com as Escrituras. No lugar do palco moderno nas igrejas, a Bíblia mostra o Gólgota. A cruz levantada como símbolo de escárnio e de dor, mas também de poder de Deus para a Salvação de todos o que crêem. “O evangelho é perturbador, chocante, transtornador, confrontador, produz convicção de pecado e é ofensivo ao orgulho humano, não há como ‘fazer marketing’ do evangelho bíblico. Aqueles que procuram remover a ofensa, ao torná-lo entretenedor, inevitavelmente corrompem e obscurecem os pontos cruciais da mensagem. A igreja precisa reconhecer que suas missão nunca foi a de relações públicas ou de vendas; fomos chamados a um viver santo, a declarar a inadulterada verdade de Deus – de forma amorosa, mas sem comprometê-la – a um mundo que não crê” (John F. MacArthur, São José dos Campos, SP: Fiel, 1997, p. 79).

Que Deus nos livre do barateamento do Evangelho!

Rev. Ricardo Rios Melo


sábado, 30 de agosto de 2008

Outra vez domingo


Mais uma semana se passou. Chegamos ao domingo; o primeiro dia da semana. É um dia de rotinas: acordar cedo para ir à igreja; aguardar o término da Escola Bíblica Dominical para almoçar; no fim da tarde outro culto e estamos novamente na igreja. Parece que esse ritual, essa rotina tem deixado muitos crentes cansados. O caos da cidade grande e as distâncias e congestionamentos levam muitos a desistirem de sair de suas casas para enfrentar o “enfadonho” domingo. Se todos os domingos são iguais, para que se deslocar de sua casa e enfrentar tamanho obstáculo? Você já participa assiduamente das programações semanais da igreja, aprendendo das Sagradas Escrituras com o pastor e orando nas reuniões de oração. Por que você deveria sacrificar seu precioso domingo? Se você faltar o domingo pela manhã e for só à noite ou faltar um, dois, três ou mais domingos, o que isso lhe trará de mal? Aliás, Deus não é seu patrão para demiti-lo, não é verdade?

O domingo, para muitos, se tornou um peso, um fardo pesado de se carregar. Enquanto, no Antigo Testamento, o salmista dizia no Salmo 122.1: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR”. Hoje muitos não vêem a hora de passar esse “cálice”. Alguém logo contestará: “− ah, mas a realidade do Novo Testamento é outra, pois nós somos o templo do Espírito”. É verdade, contudo a Bíblia nos mostra que existe um lugar chamado “casa de oração”, onde o povo se reúne com freqüência: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25). Outros textos da Palavra de Deus sugerem que a igreja tinha regularidade em seus encontros: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite” (At 20.7) ; “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for (1 Co 16.2)”.

Existem argumentos suficientes na Confissão de Fé de Westminster, confissão essa à qual você jurou diante de Deus se submeter quando professou sua fé, para encontrar no domingo um dia diferente. Entretanto, não usarei esses argumentos nesse arrazoado. Começarei com alguns argumentos lógicos, imagine o seguinte quadro: uma pessoa vai à um restaurante, acha a comida maravilhosa. Ela passa essa informação para seus amigos e passa a freqüentar rotineiramente esse restaurante, pois ficou maravilhada com os sabores e variedade da comida. Nesse momento, você já deve ter percebido onde vamos chegar e objetará: ah, não podemos comparar o culto a um restaurante e, aqui para nós, nem sempre a comida que nos serve no culto é tão boa assim. Certo, você chegou ao lugar central: o culto a Deus não é um restaurante que tem que variar os sabores para agradar seu paladar. Aliás, somos nós que temos que ajustar nosso paladar ao tempero perfeito de Deus. Outra observação é que nós serviremos no culto e não seremos servidos.

A idéia de serviço implica regularidade, rotina. Nós somos submetidos o tempo todo a rotinas. O nosso próprio organismo segue uma rotina. Já pensou se o coração se revolta contra o restante do corpo e diz: hoje eu não trabalho! Não há nada de ruim nos hábitos, o problema é como nos posicionamos diante deles. O mundo é regido por leis, rotinas. Não podemos fugir a elas. A pergunta é: temos prazer em determinada rotina? O salmista, no Salmo122, tinha o costume de ir a casa de Deus, mas ele não ficou triste quando disseram novamente: vamos a casa do Senhor.

A pessoa que diz que cansou da rotina do culto na igreja ou de ir à igreja rotineiramente, deve se perguntar: estou cansado de que rotina? Tenha cuidado, pois você pode pertencer ao mesmo grupo de descontentes de Miquéias 6.3: “Povo meu, que te tenho feito? E com que te enfadei? Responde-me!”. Muitos estão cansados não da “mesmice” do culto, da EBD ou dos estudos na igreja, eles estão cansados é de Deus. Já disseram em seus corações: posso ser crente do meu modo e onde eu quiser. De fato, ser crente não é, necessariamente, ser membro de determinada denominação, mas é impossível ser da família de Deus sendo sozinho.

A desculpa de não ir mais a igreja ou de não ter compromisso com determinada igreja local é perfeita para algumas pessoas fugirem da cobrança. Alguns chegam até a mudar de igreja para não serem mais cobrados, pois na nova igreja ninguém os conhece. Aliás, ingerência na vida das pessoas em um mundo pós-moderno é inaceitável para esses irmãos “pós-igreja”.

O fato de nossa vida ser um culto a Deus não implica que não devamos ter regularidade na entrega dessa vida no culto público. As pessoas dizem: eu só crente em qualquer lugar e sem lugar. Será? Será que essa idéia não é uma fuga de Deus? Será que não é uma fuga da ingerência? Você não tem nada a ganhar ouvindo a voz de Deus na pregação da mensagem? A conhecida doutrina histórica da vox dei? Será que você não será edificado com os estudos da Palavra?

Meus irmãos, a vida cristã é uma rotina. Rotina de santidade e de culto. Deuteronômio, por exemplo, significa: repetição da lei. Moisés falou ao povo as mesmas coisas, mas, mesmo assim, não ouviram. Paulo exorta várias vezes para permanecermos na doutrina e na tradição dos apóstolos. Existe uma rotina da Palavra no Antigo e Novo Testamento que deve ser passada de pai para filho - no caso de Timóteo, foi passada desde sua avó.

Meu querido, os dias da semana são os mesmos. As horas são as mesmas. Seu trabalho provavelmente é o mesmo. Sua igreja é a mesma e fica no mesmo local. Mas, espero que você seja diferente hoje, pois hoje é domingo! Hoje é dia de cultuarmos a Deus e separarmos duas horas e meia pela manhã e cerca de uma hora e meia à noite - cultuando e aprendendo de Deus. Será muito dedicarmos esse dia Àquele que é a razão de nossas vidas? Seria muito cumprirmos uma rotina semanal de adoração que na nova terra e novos céus será eterna? Hoje é domingo, o primeiro dia da semana. Começar a semana cultuando a Deus significa que eu quero a presença dele todos os dias da minha vida. Hoje é domingo! Outra vez domingo! Outra oportunidade que temos de dizer: Senhor, eis a minha vida em seu altar!: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR” (Salmo 122.1).

Que Deus recupere em muitos o fervor e amor a ELE.

Que Deus nos fortaleça sempre!
Rev. Ricardo Rios Melo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Você é um corredor?


Na história da humanidade, temos bastantes elementos para afirmarmos que existe, de algum modo, nos seres humanos, um “espírito” ou “instinto” de competição. Esse espírito é algo que faz com que esses homens busquem a superação dos seus limites e dos outros. As olimpíadas estão inseridas nesse aspecto competitivo.

Existem fortes indícios de que os elementos culturais fazem parte do espírito aguerrido dos homens. Contudo, saber quem veio primeiro, “o ovo ou a galinha”, seria um exercício tautológico sem fim – ou seja, saber se esse espírito é inato ou construído requereria estudos mais abrangentes que esse breve arrazoado e, muito provavelmente, andaríamos em círculos.

Vejamos a cultura grega. Perceberemos que os gregos trazem esse “espírito” competitivo em sua formação. “A competição entre as cidades gregas, fruto do espírito agnóstico tão presente em todos os aspectos da cultura grega, pode ser documentada, a partir da época arcaica, no freqüente estado de beligerância que domina a história grega. A rivalidade entre as cidades também é perceptível nos festivais pan-helênicos, entre os quais os Jogos Olímpicos. Era uma ocasião em que se desenvolvia o que já foi classificado de ‘uma guerra sem armas’ e que propiciava o exercício das disputas entre as polis, em situação controlada, definida por regras”.”[1]

Para o homem grego, existe um aspecto heróico nas vitórias. É prezado pelos gregos esse espírito heróico com todos os seus valores éticos gregos. A criança grega aprendia desde cedo esses valores por intermédio de sua educação. A arete é fator importante na formação clássica grega. “Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral, de acordo com a modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por arete a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, heroísmo, considerado não o nosso sentido de ação moral e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.”[2]

Desde cedo, as crianças eram estimuladas ao exercício físico e mental. “Dos 3 aos 6 anos precisam as crianças de jogos. (...) nesta idade, são as crianças, quando se juntam, que devem inventar os seus jogos, sem que estes lhes sejam prescritos. Platão quer que estas reuniões de crianças se efetuarem nos lugares sagrados de cada bairro (kw,mh) da cidade. Precede deste modo a moderna aquisição dos jardins de infância. As armas devem velar nestes locais pela conduta das crianças confiadas à sua guarda.”[3]

A competição, jogos, disputas ou a idéia de vencedor são inerentes aos seres humanos. Mesmo quem objeta esse argumento deve se lembrar que até nas mais sublimes ações espirituais orientais se quer chegar ao fim, objetivo. Quer-se uma “recompensa”. Ninguém busca o nada. E se buscamos alguma coisa, logo ao encontrarmos, esse objeto se torna nosso prêmio, medalha, coroa ou, para alguns, louvores de alguém. Em uma busca espiritual, quer-se encontrar a paz, harmonia, ou algo ligado à crença religiosa dos envolvidos.

Em um jogo se pode perder ou ganhar, é lógico! Entretanto, quando olhamos para Bíblia, percebemos uma modalidade competitiva diferente. O apóstolo Paulo, em Filipenses 3.12-16, nos fala daquilo que foi denominado por William Hendriksen da seguinte forma: “em Cristo Eu Corro Para a Perfeição - Paulo, O corredor Seu”. Vejamos o texto de Filipenses: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais de outro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” (Filipenses 3.12-16).

“O intenso anelo e esforço de Paulo pela perfeição é expresso agora sob o simbolismo da familiar corrida a pé. Para captar o significado do que Paulo diz, deve-se ter em mente a figura subjacente de cada detalhe. Imaginemos, pois, o antigo estádio grego com sua pista para as corridas e as filas de assentos para os expectadores. Em Atenas, a extensão da pista era de um oitavo da milha romana; portanto, cerca de 607 pés em nossa medida. A de Éfeso era um pouco mais longa. O propósito da corrida era o de alcançar o alvo que ficava diante da entrada, ou ir e vir uma ou duas vezes. Junto à entrada, os competidores, despidos para a corrida, cada um se postava no limiar de pedra que havia sido demarcado. De fato, vários dos velhos estádios exibem o que foi deixado das fileiras de pequenos blocos de pedra em cada extremos da pista. Estes blocos possuem encaixes para dar aos pés do atleta firme apoio para partida firme e rápida. Os corredores se colocavam cada um em seu apoio, o corpo inclinado para frente, uma mão tocando ligeiramente os blocos e esperando o sinal, que consistia da queda de uma coroa que havia sido estendida diante deles. Ao efetuar-se o sinal, partiam em disparada”.[4]

O apóstolo utiliza essa figura da corrida para mostrar que na fé cristã existe uma competição. Contudo, essa competição não é contra corredores. Competimos contra nós mesmos. A luta que foi bem expressada por Martinho Lutero: contra o mundo, a carne e o diabo. Estamos constantemente lutando e correndo em busca da santidade, da perfeição. Essa perfeição só será encontrada de maneira plena na volta de nosso Senhor Jesus. Por isso o apóstolo nos diz que ele não julga ter alcançado: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado” (vs. 13). Contudo, Paulo não se contenta com sua posição na corrida da santidade. Ele corre e segue para o alvo. Ele não olha para trás. Ele sabe que em Cristo já obtivemos a vitória. Cristo nos deu a vitória: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (vs. 12).

Jesus conquistou Paulo e deu a ele o acesso à coroa da vida. Entretanto, Paulo sabe que, enquanto estivermos nesse invólucro, devemos correr a carreira que nos foi proposta. Fomos salvos e a vitória foi garantida. Entrementes, isso não deve levar os cristãos à letargia. Estamos em uma corrida e devemos fixar nosso olhar no alvo. Devemos prosseguir para o alvo. Devemos deixar para trás todo o embaraço do pecado. “Aquele que está em uma carreira jamais deve deter-se antes de alcançada a sua meta. Deve seguir adiante tão rápido quanto possa; deste modo, aqueles que têm o céu em vista devem ainda seguir adiante em santo desejo, esperança e constante esforço. A vida eterna é uma dádiva de Deus, que está em Cristo Jesus.”[5]

Meus queridos, a discussão da formação grega ou do “espírito” competitivo ou olímpico nos seres humanos é longa e complexa. Um crente pode ou não vir a ter um “espírito olímpico”. Mas, uma coisa ele tem quer ter obrigatoriamente: santidade. Se você não faz parte dos “competidores” dessa corrida, é sinal que você não tem fôlego para correr; você não tem vida. Logo, você não receberá o prêmio final: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1Pe 5:4). Lembre-se da advertência: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

O Brasil talvez não consiga tantas medalhas. Ficaremos decepcionados, frustrados, mas ainda estaremos vivos, e os competidores, com idade ainda competitiva, poderão competir novamente. Entretanto, na fé cristã, o que está em jogo é: somos verdadeiramente crentes? Se somos crentes, que estágio estamos de nossa santidade? É verdade que a salvação não é meritória, pois somos salvos nos méritos de Cristo. Não buscamos a santidade para devolvê-la em gratidão a Deus, pois não temos nada para devolver-Lhe no sentido de troca. Contudo, o salvo é separado para viver em santidade. Por isso, essa corrida é a competição mais importante de nossa vida. Podemos estar no início ou entre os últimos; o importante é sempre correr! Não devemos parar em nenhum momento.

Os competidores olímpicos batalham por medalhas efêmeras; nós temos uma coroa eterna nos esperando! Vamos em frente! Corra! Siga para o alvo!

Em Cristo,
Rev. Ricardo Rios Melo


[1] Elaine Farias Veloso Hirata et alli, Os Jogos Olímpicos e a competição entre as cidades do mundo grego, http://www.paideuma.net/elaine.doc, p. 2.
[2] Werner Jaeger, Paidéia – a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 27.
[3] Werner Jaeger, Paidéia – a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 1353.
[4] William Hendriksen, Filipenses – comentário do Novo Testamento, São Paulo, CEP, 1992, p. 221, 222.
[5] Matthew Henry, Comentário Bíblico de Mathew Henry, São Paulo, CPAD, 2002, p. 1005.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Será a predestinação um empecilho à evangelização?



Em algumas reuniões de concílios, tenho me deparado com alguns índices e questionamentos intrigantes. Um desses índices é que o presbiterianismo nem aparece nas pesquisas. Estamos, segundo os estudiosos, na coluna estatística: outras denominações. O questionamento que é feito sobre esse índice é por que o presbiterianismo não cresce na mesma proporção das demais igrejas? Uma das respostas está alicerçada no paradigma metodológico: a Igreja Presbiteriana do Brasil segue métodos bíblicos e algumas dessas denominações crescem em detrimento da doutrina; até mesmo negociando-a. Outro argumento que nos é dado é a respeito da doutrina presbiteriana que faz com que as pessoas se acomodem. Para que evangelizar se os eleitos serão salvos?

Como tentativa de resposta a essa pergunta, teremos que recorrer a alguns pontos que foram extraídos do Remonstrance (protesto). O Remonstrance foi um protesto realizado em 1610, feito pelos discípulos de Jacob Arminius - pastor da Igreja Holandesa Reformada que rompeu com a fé reformada. Mesmo depois de sua morte em 1609, seus discípulos difundiram a doutrina que se chamaria mais tarde de os cinco pontos do Arminianismo. Apesar de serem cinco pontos delineados que se resumem na cooperação do homem na salvação divina, devemos entender que a pressuposição arminiana foi embasada no entendimento equivocado da ordem dos decretos divinos. Vejamos como os Remonstrantes entendem a ordem dos decretos de Deus: “1) Decreto para criar; 2) Decreto para permitir a queda; 3) Decreto para Cristo fazer a expiação por todo o mundo e para proporcionar graça suficiente para todo mundo; 4) Decreto para dar graça suficiente para todo o homem; 5) Decreto para salvar aqueles que naturalmente possuem habilidade para cooperarem com a graça; 6) Decreto para predestinar todos para a vida a quem Deus viu de antemão que cooperariam com Ele até o fim; 7) Decreto para santificar e glorificar todos aqueles que, portanto, foram predestinados.”[1]

Os arminianos crêem na predestinação pela presciência; Deus viu quem O aceitaria e predestinou para salvação os que contribuiriam com Sua graça (graça cooperante ou sinergismo). Os calvinistas, antagonicamente, entendem que a obra da Salvação é desde o princípio uma obra de Deus. Deus predestinou por sua livre escolha os que iriam ser salvos, ou seja, monergismo: o homem não participa da obra da salvação, pois ela é um ato exclusivo de Deus. Deus não viu nada em nós que se agradasse. Todos os homens estão mortos nos seus delitos e pecados. A fé, segundo o calvinismo, é um dom gratuito de Deus: “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.5-10). Isso é ecoado em Rm 3.9-18, que nos diz que não há quem busque a Deus: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Para os calvinistas, Deus não concedeu fé a todos os homens “... porque a fé não é de todos (2 Ts 3.2). Toda a obra da salvação é unilateral: Deus faz tudo!

Não me deterei a explicar os cincos pontos das posições arminianas ou da resposta calvinista. Entendo que a discussão, por mais válida que seja, é bem sintetizada por Packer, quando nos fala do “testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, através de João Wesley, em 20 de Dezembro de 1784 (a data encontra-se especificada no Wesley’s Journal): ‘Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um contra o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas ...Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus se Deus já não tivesse posto isto em seu coração antes?’ ‘É verdade, ‘diz o veterano’, é isso mesmo.’ ‘E você também se sentiria totalmente perdido, se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer; e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?’ ‘Sim, exclusivamente por Cristo.’ ‘Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria que subseqüentemente, de uma forma ou de outra, salvar-se a si mesmo por suas próprias obras?’ ‘É claro que não, pois devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim’. ‘Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?’ ‘Não.’ ‘Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe?’ ‘Sim, absolutamente.’ ‘E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu reino celestial?’ ‘Certamente, eu estaria completamente desesperado se não fosse Ele.’ ‘Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada; pois isto não é nada mais, nada menos, do que o meu Calvinismo; eis aí as minhas teses da eleição, da justificação pela fé, da perseverança final: eis aí, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, ao invés de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam bom motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que concordamos.’”[2] “A verdade é que todos cristãos crêem na soberania divina, acontece que alguns não estão conscientes de que crêem nisso, equivocadamente imaginam e insistem que a rejeitam”[3]

A essa altura você poderia perguntar: cadê a resposta? Meus queridos, creio que a falta de crescimento substancioso de nossas igrejas não tem a ver apenas com a a metodologia ou com a doutrina da presdestinação, pois existem igrejas que não negociam os princípios bíblicos e estão crescendo a olhos vistos. É claro que a igreja Presbiteriana do Brasil tem crescido. Contudo, para enxergamos um impacto em nossa sociedade por intermédio do Evangelho da Graça, o que precisamos mudar não é a nossa forma de pregar, ou nossa doutrina. Não devemos brigar com os nossos irmãos arminianos dizendo: “você crescem porque pregam errado”; não! Não acredito que as verdadeiras conversões promovam corações soberbos nos homens. Jamais vi um homem que foi alcançado pela graça de Deus dizer que se salvou por seus méritos! Nunca ouvi alguém orar assim: “obrigado, Senhor, porque eu o aceitei por minha livre escolha e vontade”. Portanto, o nosso problema é outro. O nosso problema é falta de vida; de compromisso com Deus; de amor aos perdidos; da urgência do Evangelho; da pureza de vida. Falta-nos o marejar dos olhos diante dos que se aprofundam na lama do pecado.

Os conselhos de Thomas Watson, puritano que pertencia aos dois mil ministros do Evangelho, que foram impedidos de pregar no dia 24 de agosto de 1661, se fazem indispensáveis nesse momento. Em seu último sermão, em sua congregação, ele proferiu 20 instruções, das quais, por motivo de espaço, colocarei duas: “no que diz respeito à vida cristã, serve a Deus com todas as tuas forças. Deveríamos fazer por nosso Deus tudo quanto está ao nosso alcance. Deveríamos servi-Lo com toda a nossa energia, posto que a sepultura está tão perto, e ali ninguém ora nem se arrepende. Nosso tempo é curto demais, pelo que também o nosso zelo de Deus deveria ser intenso. ‘Sede fervosos de espírito, servindo ao Senhor’ (Rm 12.11); Faze aos outros o bem que puderes, enquanto tiveres vida. Labuta por ser útil às almas de teus semelhantes e por suprir as necessidades alheias. Jesus Cristo foi uma bênção pública no mundo. Ele saiu a fazer o bem. Muitos vivem de modo tão infrutífero que, na verdade, suas vidas dificilmente são dignas de um coração, como também seu falecimento quase não merece uma lágrima. Em conclusão, não devemos superestimar os confortos deste mundo. As conveniências do mundo são muito agradáveis, mas também são passageiras e logo se dissipam. A idéia de eternidade deve ser o bastante para impedir-nos de ficar tristes em face das cruzes e sofrimentos neste mundo. A aflição pode ser prolongada, mas não eterna. Nossos sofrimentos neste mundo não podem ser comparados com nosso eterno peso de glória”[4]

Por fim, para aqueles que alegam que a eleição nos deixam frios e sem fervor evangelístico, deixo as palavras do calvinista metodista George Whitefield: “Desejo, todas as vezes que subir ao púlpito, considerar essa oportunidade como a última que me é dada de pregar; e a última dada ao povo para ouvir a Palavra de Deus. Curiosamente ele, raramente, pregava sem chorar: Vós me censurais por que choro. Mas, como posso conter-me, quando não chorais por vós mesmos, apesar das vossas almas mortais estarem à beira da destruição? Não sabeis se estais ouvindo o último sermão, ou não, ou se jamais tereis outra oportunidade de chegar a Cristo”.[5]

A predestinação não é barreira para evangelização. Não é a metodologia equivocada que faz algumas igrejas arminianas crescerem. Existem relatos impressionantes de crescimento de igrejas calvinistas nos EUA e outros lugares. O que nos falta é juntarmos a Habacuque em sua oração: “Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia” Hb 3.2.

Que Deus nos mande chuvas de bênção!
Rev. Ricardo Rios Melo.




[1] ( Morton H. Smith; Systematic Theology, Volume one, Greenville, South Carolina, Greenville Seminary Press, 1994, p. 326).

[2] J.I. Packer, A Evangelização e a Soberania de Deus, São Paulo, CEP, 2002, p. 11,12.
[3] Ibidem, p. 13.

[4] Thomas Watson in: Fé Para Hoje, nº 19, São José dos Campos, Sp, 2003, p. 13.
[5] http://www.imja.org.br/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=24

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Onde estão nossas lágrimas?



Há muito, “num relatório da Conferência Estudantil Missionária de 1900, há no apêndice uma declaração: CASO houvesse um único cristão no mundo e ele trabalhasse e orasse durante um ano para conquistar um amigo para Cristo, e CASO, então, essas duas pessoas continuassem a cada ano a conquistar mais uma pessoa, e “CASO cada pessoa que também foi trazida ao reino conduzisse a cada ano uma outra pessoa a Cristo”. A progressão matemática revelou que ao final de 31 anos haveria mais de dois bilhões de cristãos. Alguns talvez duvidem da validade dos cálculos, os quais estão inteiramente fora do domínio das leis da probabilidade ou das promessas da Palavra de Deus. Outros talvez questionem o acerto de um cálculo que parece levar em conta que todos os que se tornarem cristãos estarão vivendo durante todo aquele período de 31 anos, embora saibamos que aproximadamente um trigésimo da população da terra morre a cada ano. Deixando tais indagações de lado, quero simplesmente considerar o princípio sobre em que o cálculo se baseia. Desejo destacar o efeito que haveria, caso a verdade substancial contida nessa idéia fosse verdadeiramente crida, pregada e praticada. A verdade é: Cristo quis que cada crente fosse um ganhador de almas. (...) Cristo chamou Seus discípulos de a luz do mundo. O crente é um ser inteligente. Sua luz não brilha como uma força cega da natureza, mas é a iniciativa voluntária de seu coração para alcançar aqueles que estão nas trevas. Ele anela trazê-los à luz, fazer tudo ao seu alcance para que eles conheçam Cristo Jesus” (MURRAY, Andrew, in: Missões Transculturais – O Problema Missionário, São Paulo, Mundo Cristão, p. 1020-1026).

Essa afirmação de Murray deve trazer desconforto para a igreja hodierna e, principalmente, para cada um nós, pois ela vai no âmago da questão: nós somos ganhadores de alma. Deus nos chamou para adorá-LO, contudo essa adoração passa pela missão indispensável da evangelização; não se pode ser considerado crente sem que haja em nós um ardor pelas almas perdidas.

Joseph Alleine, um grande servo de Deus do passado, no início de seu livro, faz um apelo comovente: “Mas, ó Senhor, quão incapaz eu sou para esse trabalho. Pobre de mim. Com que poderei traspassar as escamas do leviatã ou fazer o coração sentir que é tão duro quanto a mais dura pedra? Irei falar aos sepulcros, e esperarei que os mortos me obedeçam e venham para fora? Farei um discurso às rochas ou falarei às montanhas, pensando que elas se moverão com argumentos? Acaso eu farei o cego ver? Desde o começo do mundo, nunca se ouviu que um homem abrisse os olhos de cego (Jo 9.32). Eu somente posso tentar armar o arco, mas Tu diriges a flecha entre as junções da armadura. Apaga o pecado e salva a alma do pecador que lança seus olhos sobre essas páginas’” (ALLEINE, Joseph, Um Guia Seguro para o Céu, São Paulo, PES, 1987, p. 11,12). Esse ardor pelas almas perdidas é fundamental para evangelização.

Muitas pessoas pensam que o problema missionário ou evangelístico depende de recursos financeiros ou de estratégias. Essas pessoas dedicam tempo e dinheiro em ações missionárias e evangelísticas por todo o mundo, mas se esbarram em uma barreira que é crucial para o avanço missionário e evangelístico: o sentido da urgência do Evangelho; a necessidade que o homem tem de prestar contas a Deus. Talvez a letargia da igreja seja uma conseqüência da percepção equivocada de que Cristo demorará a voltar. Mas, nesse instante, você pode me perguntar, quem sabe o dia e a hora? A reposta do Senhor é explícita: “Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At. 1.6-8).

Dentro desse texto de Atos, o curioso é que Jesus diz que não compete sabermos o tempo de sua volta ou da restauração de Israel, mas nos diz que teremos poder. Poder de quê? Poder de ser testemunhas em todos os lugares que passarmos (At. 1.18). Esse é o grande poder que Deus nos confere pelo Espírito: o poder de testemunhar dEle.

Destarte, essa palavra que serviria de impulso para evangelização, já que temos o poder dado pelo Espírito de Deus, parece que se calou dentro de nós, pois estamos frios e sem poder algum. Cadê o poder da Igreja? Cadê as conversões? Cadê nossos amigos convertidos? Nossas famílias? Você então, a essa altura, me dirá: é Deus que converte! Eu lhe responderei: é sim! Contudo, o meio que Deus utiliza são os nossos lábios, mãos, olhos, pernas, cabeça, ou seja, é a nossa vida e nossa proclamação do Evangelho: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm. 10.14). Como entenderão se não há quem explique? (At. 8.31).

Muitos de nós somos tão egoístas que não passa por nossa mente a imagem aterradora das dores que sofrerão nossos queridos que não conhecem o Deus da Bíblia. É necessário compreendermos o tamanho de nosso débito para com Deus. “(...) quando o débito parece pequeno, estamos prontos e aptos para subestimar o perdão. No entanto, quando o pecado parece excessivamente maligno, isso faz com que valorizemos a misericórdia e apreciemos o perdão. Quando o pecado é visto como o maior mal, a misericórdia e perdão serão compreendidos como os maiores bens” (WATSON, et alii.; Os Puritanos e a Conversão, SãoPaulo, PES, p. 47).

Muitas igrejas estão buscando o poder dos milagres, o poder dos sinais e maravilhas; eu rogo a Deus pelo poder de testemunhar! Que nossa igreja tenha esse poder! Que você seja incomodado pelo assombro de imaginar o terror que será o inferno e que boa parte de sua população é formada por pessoas que amamos enquanto vivos: filhos, esposa, marido, pai, mãe, irmãs (os), parentes e amigos, que tanto nos alegram hoje, estão amargando e sentindo o hálito horrendo do inferno! Estarão separados de nós eternamente. Jamais os veremos. E o pior, estarão separados de Deus eternamente.

Queridos, falta-nos amor! Falta-nos ardor de um coração que queima! Faltam-nos as lágrimas pelos perdidos. “Em Boston, John Vassar, grande ganhador de almas, bateu à determinada porta e perguntou à senhora que atendeu se ela conhecia Cristo como Salvador. Ela disse: ‘isso não é da sua conta’, e bateu a porta na cara dele. Ele ficou sentado na escadinha diante da porta e chorou, chorou; ela estava olhando pela janela e viu-o chorar. No domingo seguinte, ela se apresentou na igreja e pediu para se tornar membro. Ela disse que o motivo haviam sido aquelas lágrimas. Irmãos, onde estão nossas lágrimas?” (GRAHAM, Billy, Somos Evangelistas Aceitáveis a Deus? in: O Evangelista e o Mundo Atual, São Paulo, Vida Nova, 1986, p. 39). Onde está seu choro pelos perdidos? O que aconteceu com você que não fala do que lhe mais é precioso: o amor de Cristo? Onde estão nossas lágrimas? Que o Senhor nos constranja! Nos incomode! E ainda que venham dores por causa do Evangelho. Podemos dizer como Calvino: "Senhor, tu me esmagas, mas para mim é suficiente que seja pela tua mão".

Senhor, dá-nos lágrimas pelos homens perdidos, pois sabemos que cada gota derramada em vida é melhor do que todo sofrimento vindouro para aqueles que não receberão seu consolo!

Igreja, avante! O Mestre está chamando!

Deus nos incomode!

Rev. Ricardo Rios.

sábado, 12 de julho de 2008

Tudo sob controle – de quem?



Ano conturbado esse, não acham? Gente jogando criança pela janela; mulheres seqüestrando crianças recém-nascidas na maternidade; crianças morrendo em hospitais por atacado; soldados entregando pessoas a criminosos. Sem falarmos da política que continua a mesma. Mas, para completar esse semestre, “o menino João Roberto Amorim Soares, 3 anos, teve a morte confirmada no final da tarde desta segunda-feira no Hospital Copa D'Or (zona sul do Rio). A criança foi atingida durante perseguição policial, na noite de domingo (6), na rua General Espírito Santo Cardoso, na Tijuca (zona norte). Policiais são acusados de disparar pelo menos 16 tiros no carro da família do menino, que teve morte cerebral confirmada na manhã de ontem. Os dois PMs envolvidos na operação foram presos no 6º Batalhão Tijuca (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u420133.shtml).

A violência, antes vista de um prisma distante, pálido e em preto em branco nos jornais impressos, adentrou nossos lares pelas imagens aterradoras captadas e transmitidas pela televisão e internet. A surpresa maior é que a violência pode estar dentro de sua casa. Aliás, ela mora dentro de você. Mc 7. 21-23: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.”

Se você ainda se surpreende com a maldade humana, sinta-se abençoado por Deus, pois nessa época de violência diária, onde a cada momento uma pessoa morre ou sofre violência em vários sentidos, não é surpreendente a frieza com que olhamos a violência.

A violência passou a ser contextual. Vejamos o caso de João Roberto. Para alguns, um erro imperdoável, para outros, um erro técnico. No olhar dos pais, um erro monstruoso que marcará a vida desse casal para sempre. Para a polícia, uma falta de preparo dos policiais que são submetidos a pressões constantes e que sofrem com seus indignos salários.

O governo pode enxergar nessa morte a oportunidade de consertar um erro no preparo psicológico e funcional de sua polícia. Todavia, o olhar continua o mesmo, de certo modo revestido de um verniz estupefato, contudo sempre um olhar técnico.

Entretanto, pensem nessas mesmas pessoas no lugar dos pais de João Roberto. Será que eles veriam com a mesma imparcialidade esse crime bárbaro? Será que esboçariam uma lágrima, se naquele pequeno caixão estivesse o filho deles? Certamente que sim. Um dos poetas do Rock, Renato Russo, um dia compôs: “A violência é tão fascinante. E nossas vidas são tão normais... Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber. Afinal, amar ao próximo é tão démodé... E essa justiça desafinada é tão humana e tão errada. Nós assistimos televisão também. Qual é a diferença?”

O mundo não tem mudado. O Brasil, por mais que sejamos otimistas, estará sempre sujeito a violência. Destarte, a compreensão da raiz dessa violência é fundamental para reagirmos. Alguns poderosos dirão que não sabem de nada. Em um debate acirrado entre diversas autoridades, utilizando-se da tautologia e dos sofismas, tentarão convencer os menos favorecidos intelectualmente de que a culpa é do povo. Os mais “sabidos” usarão o recurso do nexo causal e dirão: se João Roberto não tivesse nascido, ele não teria morrido.

Não pense que esse arrazoado é uma tentativa de tripudiar ou ridicularizar a dor desses pais, não! Nada disso! O fato é que, se confiarmos apenas em projetos de segurança, educação ou qualquer outra estrutura política, estaremos confiando em homens. Nos dizeres de Sartre, se entendermos o homem resolvendo-se pelo homem, teríamos que concordar com sua frase: “Toda realidade-humana é uma paixão, posto que ela projeta se perder para fundamentar o ser e, ao mesmo tempo, para constituir o em-si que escape à contingência sendo seu próprio fundamento, o Ens causa sui que as religiões chamam de Deus. Assim, a paixão do homem é inversa à de Cristo, pois o homem se perde enquanto homem para que Deus nasça. Mas a idéia de Deus é contraditória e nos perdemos em vão; o homem é uma paixão inútil” (SARTRE, 2001, p. 662). Essa visão do homem e de Deus é equivocada quando enxergamos que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança e quando entendemos que, fora de Deus, a humanidade está desprovida de objetivo existencial. Contudo, a decepção de Sartre com o homem é pertinente dentro da ótica cultural e histórica em que ele vivia. Ele viu os que se diziam cristãos fomentando a guerra e matando em nome de Deus. Nada mais natural, dentro desse contexto, avaliar a humanidade como uma paixão inútil. Essa avaliação é bem diferente do positivismo de Conte ou com cores diversas do super-homem de Nietzsche. Todavia, a crítica é salutar no que tange à inconstância humana e sua natureza destrutiva, pois com o pecado adâmico em seu coração, fazer o bem é somente pela graça de Deus: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal” (Jr. 13. 23). Em Isaias, Deus fala para o profeta que o bem deve ser aprendido: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas” (Is 1. 16-17).

A conseqüência da confiança na natureza humana é desastrosa, pois não basta dar alimento, educação e cultura para as pessoas para elas deixarem a violência de lado, é preciso entender que dormimos com a violência e acordamos com ela: O Senhor Jesus nos ensina que do coração do homem é que procede todo mau desígnio (Mc 7.21). Assim, segue-se que, para se cortar o mal pela raiz, nós devemos apelar para quem pode cortar a raiz e plantar sementes diferentes, devemos clamar por Jesus.

Você poderia me perguntar, nesse momento: - Mas, se Deus controla todas as coisas, Ele não tem culpa do que acontece de ruim com as pessoas? Minha resposta é essa: “Por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados” (Lm 3.39); Em Tg 1.13, a Bíblia nos diz: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”.

Quando àqueles que deveriam nos proteger são nossos algozes, fica a pergunta, quem está no controle? Em quem devemos confiar? Deus está no controle de todas as coisas, mas os homens são responsáveis pelos seus atos, por isso, devemos apelar para que Deus faça uma obra em nossa nação e que a cada instante mude nossa vida, para que não durmamos com o inimigo.

Saber em quem você confia é essencial para saber quem controla sua vida. Deus está no controle de tudo. Contudo, muitas vezes esquecemos disso e confiamos em sistemas falidos de nascença, pois não levam em consideração a impureza e maledicência do homem caído. Por mais que você diga que domesticou uma cascavel, eu não me arrisco a dormir com ela em meu pescoço. Talvez não tenha tempo de ouvir o chocalho. “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 3.10-18).

Deus tenha misericórdia de nós!

Rev. Ricardo Rios Melo

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Vamos ao cinema?




Fim de semana. A hora foi marcada e os ingressos já foram obtidos. Antes de entrar na sala, comprar pipocas e refrigerante, para alguns, é indispensável. Ir ao toalete também é uma boa pedida para não perdermos o filme. O filme começa. Ao lado, percebemos casais de namorados que não estão nem um pouco interessados no enredo do filme. O barulho da pipoca é extremamente desagradável em filmes de suspense. Algumas pessoas não se contentam em só assistirem o filme; comentam o tempo todo e fazem cenas dramáticas se transformarem em comédia, pois riem o tempo todo.


Outros parecem sofrer de hiperatividade. Não param quietos na cadeira em nenhum momento; só dão sossego quando vão ao toalete cerca de quatro vezes ou mais. Para completar, temos, de um dos lados da sala, os críticos de filmes, aqueles que nunca escreveram um roteiro sequer ou que nunca escreveram algo que valha a pena, mas são exímios críticos. São tão perspicazes que comentam cada expressão dos artistas e de suas falas. Contudo, tudo isso é cinema! Nós o freqüentamos para distrair a nossa mente e curtir um pouco o nosso fim de semana. Portanto, não devemos nos estressar com isso! De repente, surge uma música. Espera aí! Essa música não faz parte da trilha sonora. Foi uma senhora em nossa frente que, apesar de todas as orientações prévias para se desligar o bendito celular, não só não o desligou como também o atendeu. Entretanto, isso é cinema! Nós queremos nos entreter! Não precisamos nos estressar.


Acaba o filme. Nada de aplausos. Os casais de namorados continuam namorando. A senhora continua a falar no celular. Os comentaristas já avaliaram o filme e reprovaram-no; nada mais a falar. Os comediantes continuam a formular suas sátiras.


Fim de semana novamente. Mais precisamente, domingo. Em um local preparado, estão reunidas algumas pessoas para o culto público. As orientações para o bom andamento do culto já foram dadas no boletim da igreja. O culto começa. Boa parte da igreja ainda não se encontra, pois se atrasaram. O texto sagrado é lido. O primeiro hino é tocado. Uma oração é realizada pedindo a direção do Espírito para que tudo seja feito em conformidade com os princípios bíblicos, ou seja, de modo agradável a Deus, pois Ele deve ser exaltado no culto.


Alguma coisa está errada. Algumas pessoas estão mascando chiclete e, ao se levantarem para entoarem os hinos, parecem que estão carregando 10 mil quilos nas costas. Em menos de cinco minutos, algumas pessoas começam a se levantar para irem ao toalete. Outro grupo espera a hora da mensagem para sair, tornando esse ato quase que sagrado. Pessoas vão beber água como se tivessem passado horas no deserto do Saara.


O pregador dá inicio ao sermão. A hiperatividade é aflorada nesse instante, pois não param na cadeira. Outros começam a transformar a pregação em uma comédia, pois riem o tempo todo. Casais de namorados não se beijam, mas trocam olhares apaixonados e bilhetinhos utilizando o boletim o tempo todo. Os críticos também utilizam o boletim para opinarem. Aliás, para alguma coisa deve servir o boletim, não é? Os críticos também fazem parte desse momento: dando nota, entonação por entonação, versículo por versículo. A senhora do cinema aparece nesse momento com o seu celular tocando aquele som irritante. O pregador, que até então estava concentrado na responsabilidade de entregar o sermão iluminado por Deus e com muito labor (Orare et labutare), desvia sua atenção, pois manter-se concentrado dentro de um cinema é muito difícil... ops! Culto (ato falho). Ah! Quase me esqueci dos famosos Ipod’s, os mp3 e os joguinhos dos celulares e torpedos que bombardeiam qualquer tentativa de concentração dos tão compenetrados “espectadores” do culto.


Acaba o culto solene. Os críticos já reprovaram o sermão do pregador. Os cômicos continuam satirizando qualquer erro ou vício que conseguiram detectar. Os namorados continuam namorando. As pessoas continuam vazias. Ninguém muda nada. E o pior, Deus não foi cultuado.


É lamentável esse quadro, porém ele está longe de ser irreal. As pessoas não vão mais a “casa de Deus”. A idéia de um Deus soberano, santo, onde sua presença requer temor e tremor, passa longe dos crentes modernos. Eles estão cheios de seus problemas e interesses pessoais. Alguns poderiam objetar nesse instante: “o pregador é enfadonho e cheio de ruídos da comunicação”; “as famosas muletas verbais, como por exemplo, né, então, é..., etc”. Isso é perfeitamente plausível. Os pregadores devem buscar o aprimoramento nos recursos de nosso vernáculo e das técnicas em comunicação e, principalmente, do estudo profundo das Sagradas Escrituras.


Poder-se-ia levantar um outro argumento: que o culto é enfadonho: “Sentem-se!”; “Levantem-se!”; “Leiam!”; “Orem!”; “Ouçam!” Dentro da perspectiva contemporânea onde as pessoas não conseguem se manter atentas por muito tempo, devido ao acúmulo de informações audiovisuais, isso seria aceitável, até porque o critério utilizado aqui é o do entretenimento. Até que ponto o espectador é entretido com o que está acontecendo e qual é a qualidade pirotécnica utilizada no “evento” do “culto”? Afinal de contas, “eles estão pagando”.


Destarte, todos os argumentos levantados podem ser aceitos pelo homem moderno com suas suscetibilidades, idiossincrasias e egolatrias. Contudo, um aspecto importantíssimo do culto tem sido deixado de lado: a afirmação inequívoca da presença de Deus. O culto é serviço! “O culto cristão é a expressão da alma que conhece a Deus e que deseja dialogar com o seu Criador; mesmo que este diálogo, por alguns instantes, consista num monólogo edificante no qual Deus nos fale através da Palavra”.[1] Assim como no Antigo Testamento deveríamos tirar as sandálias dos pés porque estamos na presença de um Deus santo: “Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3.5), do mesmo modo, devemos reverenciar Deus de modo santo em nosso culto, pois Ele continua sendo “fogo Consumidor” (Hb 12.29).


No segundo capítulo do profeta Habacuque, temos uma referência fantástica à soberania, à santidade de Deus e à reverência a qual devemos ter a Ele: “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). O povo de Deus tinha se corrompido de tal forma, que a idolatria era reinante. Deus, por intermédio do profeta, faz um contraste entre os ídolos feitos de madeira, pedra, barro. Eles são ídolos mentirosos, mudos e feitos pela mão humana do artífice (Hc 2.18); não existe fôlego de vida; não podem ensinar e não adianta dizer: “acorda!” (Hc 2.19), pois permanecerão inertes. “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). O ídolo precisa das mãos dos homens. Como obra de pecadores não pode gerar santidade, não exercem qualquer domínio, pelo contrário, são modelados pelo manuseio hábil do artífice; eles reluzem pureza e beleza: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior, não há fôlego nenhum” (Hc 2.19) (grifos meus). O SENHOR é santo. Tem vida em si mesmo e domínio sobre toda a terra. Na presença do SENHOR, quem fala é Ele! A terra deve emudecer ao som de sua voz. Os pecadores devem temer a presença santa de Deus, pois Ele é mais puro do que ouro e a prata. Ele é “santo, santo, santo” – essencialmente santo. A nossa reação diante de sua presença deve refletir a mesma reação do profeta Isaías: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!”( Is 6.5). Não podemos nos aproximar da santidade de Deus sem enxergamos nossa impureza.


Em nosso tempo, faz-se necessário voltarmos aos idos da Reforma Protestante (1517) e aprendermos com os nossos antepassados. Mesmo diante da imperfeição dos pregadores e, apesar dos pregadores, eles entendiam que o sermão é a Vox Dei (a voz de Deus). “A fé reformada atribui à proclamação pública da Palavra de Deus a maior importância. Na tradição reformada, a pregação é considerada como o principal meio de graça, como a tarefa primordial da igreja e do ministro da Palavra, como o elemento central do culto, como marca genuína da verdadeira igreja e como meio por excelência pelo qual é exercido o poder das chaves”.[2] A pregação é a parte mais importante do culto, pois é o momento que Deus fala com o seu povo. “A pregação não deve ser rejeitada (1Ts 5.19-21); ela deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós; recusá-la é o mesmo que rejeitar o Espírito (1Ts 4.8). O mundo por sua vez, deseja ansiosamente ouvir, porém não a Palavra de Deus (1Jo 4.5). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário ‘provar’ o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12; 1Jo 4.1-6). No entanto, nesse período de grandes e graves transformações, torna-se evidente que os homens, de forma cada vez mais veemente, querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim sendo, a palavra que deveria ser profética, tende com demasiada freqüência – mesmo assinando o seu obituário –, a se tornar apenas algo apetecível ao ‘público alvo’, aos seus valores e devaneios, ou, então, nós pregadores, somos tentados a usar de nossa ‘eloqüência’ para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a nossa ‘pregação’; o fato é que uma geração incrédula é sempre acintosamente crítica para com a palavra profética.”[3]


Quando se perde de vista o sentido do culto a Deus e da pregação de Sua Palavra, há muito mais em jogo do que se pensa, pois não podemos pegar outra sessão para ver novamente uma cena ou comprar outro ingresso para assistir outro filme, não! O momento do culto é único! A palavra que foi pregada é única! E a reverência e a consciência que devemos ter desse momento revelam muito mais que um simples gosto, revela o grau de comunhão que temos com Deus. Quando não se ouve a voz de Deus, é porque a voz do mundo tomou conta dos pensamentos.


Muitos comportamentos dentro de um cinema ou teatro podem ser definidos como falta de educação e civilidade, no entanto, dentro do culto, esses comportamentos refletem corações cauterizados, distanciados de Deus.


Essa falta de educação no culto não afronta o pregador ou o dirigente do culto, afronta a Deus, pois são atos rebeldes de rejeição ao culto e à Palavra dEle.


Vamos ao cinema? Um ótimo entretenimento para nossa vida corrida. Contudo, lembre-se: Domingo é dia de SERVIÇO, é dia de CULTO, Deus fala conosco!



Que Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo.

[1] Hermisnten M. P. da Costa, Princípios Bíblicos Reformados da Adoração Cristã, São Paulo, obra não publicada, 2008, p. 30.
[2] Paulo R. B. Anglada, Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação, Fides Reformata IV/I (jan-jun 1999), p. 150.
[3] Hermisten M. P. da Costa, A Centralidade da Pregação da Palavra no Culto, http://www.monergismo.com/textos/pregacao/centralidade_pregacao_hermisten.htm, 06/11/2004.

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...