sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os escolhedores de cabeça


Os escolhedores de cabeça

Por Rev. Ricardo Rios Melo

 

Em minha infância, eu me lembro de ter assistido filmes e desenhos do Scooby-Doo onde uma tribo assustadora e grotesca tinha o poder de encolher cabeças. Estudos atuais já detectaram esse método e descobriram o segredo dessa tribo:

 

Os Encolhedores de Cabeça eram assim conhecidos justamente por causa prática do ritual e do conhecimento da técnica [para encolher as cabeças], mantida em segredo por incontáveis gerações; eles pertenciam a uma tribo denominada Shuar ou Shuaras [e suavam; ô, como suavam para encolher aquelas cabeças!]. Os Suharas são um grupo étnico [biótipo, cultura, dialeto próprios] que habita uma região da floresta fronteiriça entre o Peru e o Equador.
O ritual era praticado como uma forma de justiça aplicada aos inimigos. Os nativos acreditavam que aquele processo era necessário para anular o poder do Espírito daqueles mortos de retornarem em busca de vingança. Ou seja, era uma forma de evitar que o inimigo morto virasse uma assombração.

Gibbon descreve o processo: Primeiro, a parte de trás da cabeça tem de ser aberta. Toda a pele é retirada do crânio juntamente com a cabeleira [portanto, é mais que um escalpelamento, é escalpela-descaramento, se assim o leitor permitir a esse tradutor definir, já que arrancam a cara do sujeito também].

Toma-se muito cuidado para não danificar a peça, especialmente o rosto. O crânio é reservado, [reserve... como se diz nas receitas culinárias] e a carne fresca, descartada. Depois, coloca-se a pele daquele rosto para ferver durante meia hora em mistura de água e tanino, uma substância que tem a propriedade de curtir as peles. Se ferver por mais tempo, os cabelos podem cair.

Essa máscara de defunto é colocada para secar ao sol devidamente recheada com pedras esféricas, para que não se deforme. Depois de seca, é virada ao avesso. O procedimento é repetido durante seis dias até que o material fica com apenas um quarto [25%] de seus tamanho original. Então, os olhos são costurados, para que o Espírito não possa enxergar. Pinos de madeira são transpassados nos lábios, para que o Espírito não possa falar, assim não poderá clamar por vingança. Os pinos também são fixados nas orelhas... para que o defunto não fique escutando conversas.

Ao fim de todo o processo, uma vez que a está perfeitamente cabeça encolhida, recheada, reconstituída em miniatura, é o momento da festa de celebração, a Tzantza.. (http://www.sofadasala.com/noticia/encolhedoresdecabecas.htm - acesso 20/06/2014).

 

Podemos perceber pelo relato que não tem nada de poder místico. É apenas uma técnica muito bem elaborada para assustar os oponentes. Portanto, não precisamos ter medo de que alguém com um cajado ou com palavras mágicas encolha as nossas cabeças. Eles precisam matar a pessoa para que isso aconteça por intermédio de processo químico e, digamos, cirúrgico.

Todavia, quando olhamos a sociedade atual por um ângulo analítico, parece que estamos passando pelo ritual da tribo Shuar: nossos crânios continuam do mesmo tamanho, mas o nosso cérebro tem perdido a capacidade de elaborar, discutir, analisar, perceber o mundo que nos cerca.

Existe uma tribo escolhedora de cabeça que não usa técnicas cirúrgicas ou mágicas, mas estão conseguindo encolher a capacidade do homem de pensar. Não entrarei no campo ideológico, no sentido de vertentes ideológicas, pois é um assunto grande, polêmico e fora da esfera desse arrazoado. A questão é que os escolhedores não poupam ninguém. Há um niilismo ignorante, ignorante porque ignora a conceituação filosófica da negação do sentido. É um não conhecer não derivado da postulação de que não se pode conhecer nada em essência. É um não conhecer por não conhecer. Por não estar nem aí. Por não está conectado com o sentido do sujeito. Não concordo com o niilismo. Entretanto, este é um movimento coerente com o que prega, pois tenta ser uma filosofia agnóstica negando o conhecimento essencial das coisas. Um dos menores problemas para essa filosofia enfrentar é o simples fato de que para conhecer que eu não posso conhecer eu preciso conhecer que não posso conhecer. Os niilistas não concordarão com essa afirmação, mas eu posso alegar que não posso conhecer o que não posso conhecer.

Talvez o problema resida na falta de sentido para o sujeito em buscar qualquer sentido.  Na Era do Vazio, como diria Gilles Lipovetsky ou na Sociedade Líquida, como bem frisou Zygmunt Bauman, a efemeridade é a única constância. A liquidez é a rigidez desse novo homem.

O homem pós-moderno é muito ocupado, cheio, para se dar conta de seu vazio. Na era das redes sociais onde todo mundo está conectado, as relações são superficiais e sem conexão com a amplitude da realidade. Somos íntimos dos desconhecidos e distantes de quem conhecemos de fato.

Há um hedonismo não filosófico também, pois apesar de não elevarem Epicuro (341 a.C) à estatura de um deus, vivem a vida evitando o desprazer. Entretanto, o epicurismo é filosófico e pensante, diferentemente dos “epicuristas” contemporâneos que evitam o desprazer de pensar. Mesmo discordando do hedonismo, não encontramos no hedonismo atual uma apreensão conceitual. A regra é: não pensar! Não se canse! Não queimem seus poucos neurônios!

   Quando somos crianças, temos uma sensação de que, ao fecharmos os olhos, os monstros sumirão da nossa frente. A sociedade atual é infantil e fecha os olhos à realidade. A equação é simples: não penso, logo, não existe. A cabeça encolhida não é detectada pelo espelho de Pollyana que precisa olhar tudo como positivo para não atentar para o fato de sua pobreza e de que seu pai tinha morrido (Pollyanna, escrito por Eleanor H. Porter em 1913).

O lema é: não pense em politica, filosofia, sociologia, história, psicologia, saúde, doença, morte e vida, apenas viva. Respire! Isso me faz lembrar uma frase bastante emblemática do racionalista Descartes, onde ele constata que é a razão que nos diferencia dos animais: “(...) é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um (...). (René Descartes, Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultura, 1999, p. 36). Se ele pudesse, revolver-se-ia do túmulo ao olhar para a contemporaneidade.

Dentro da igreja, a tribo Shuar já fez suas vítimas: crentes que não pensam. Esqueceram-se de levar a cabeça para o culto ou já estão com elas encolhidas. Outros, sem saber, seguem a ideia reducionista de Tertuliano (160 – 220 AD) perguntando:  “o que tem a ver Atenas com Jerusalém?”.  Não há um pensamento crítico sobre a mensagem e nem sobre a vida. São os espirituais. Acreditam que ao estudar história, filosofia, sociologia, teologia, ouvir um sermão construído exegeticamente respeitando cultura, língua, história, geografia, ou qualquer outra coisa que não seja a Bíblia apenas, estariam negando a fé.   

Essas vítimas dos encolhedores de cabeça não percebem e nem podem perceber que essa cosmovisão não é deles. Ao olhar para um simples texto da Bíblia, você carrega todos esses valores que eles negam enxergar.

O caleidoscópio da vida não permite a dicotomia grega do homem: a matéria como má e espirito como sendo bom.  

Certa feita, eu convidei o grande historiador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Dr. Wilson Santana, para falar à igreja sobre sua tese defendida no doutoramento em Ciência da Religião, na PUC/SP , O pensamento social, o Brasil e a religião, que aliás,  é fantástica e merece um livro.  Após terminar a excelente palestra, um irmão piedoso fez a seguinte pergunta para mim: o que isso tem a ver com a igreja, pastor? 

Bom, eu fiquei chocado com a pergunta. Mas, ao longo do tempo, venho tentando mostrar que o homem é um ser total e que conhecer a cultura de modo geral com todas suas nuances é de suma importância para nos comunicarmos com esse mundo vazio de sentido.

A tribo Shuar  contemporânea em nada se assemelha a tribo original, mas está modernizada e altamente tecnológica. Ela tem encolhido indistintamente o cérebro de muitas pessoas, mas espero que você não tenha sido atingido por sua “magia”.  Afinal de contas, como diria o saudoso John Stott, Crer é Também Pensar.

 

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:1,2).

 

 

 

Deus proteja sua cabeça!

Rev. Ricardo Rios Melo

 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

No corredor da morte

No corredor da morte 
por Rev. Ricardo Rios Melo



O que você faria se fosse sentenciado à morte? O que você pensaria? O que você mudaria em sua vida? E se você tivesse uma chance de viver? Pois é, muitas pessoas apenas param para pensar na vida quando estão em um leito de hospital ou quando a morte é iminente. Pensamentos existenciais normalmente são descartados: “quem sou eu?”, “O que estou fazendo nesse mundo?” “Para onde vou?”, “Qual a finalidade da vida?”, “Minha vida valeu a pena?”
Infelizmente, a vida agitada e corrida da pós-modernidade tem fabricado robôs humanos que deixaram de fazer perguntas que nortearam muitos antepassados. Isso lembra um filme excelente de Charles Chaplin: “Tempos Modernos”, onde Carlitos faz a célebre cena de um operário vítima do automatismo industrial. Um filme que nos ensina como falar verdades brincando, como o próprio Chaplin dizia: Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria”.
A finalidade da vida e o valor da existência direcionavam ações e geravam compromissos inalienáveis. A certeza de uma missão no mundo foi propulsora de muitas ações de valor e dignidade.
Contudo, estamos na era da praticidade. O importante é o rápido, flexível, móvel. É o momento da mensagem instantânea no celular, da internet 4G, do microondas, das sopas em copinho. As publicações no Facebook, Whatsapp e outros sites de relacionamento transformam frases existenciais profundas, utilizadas sem reflexão, em frases vazias, apenas para uma breve olhada despretensiosa. Não é difícil ler no mural de muitos facebookianos frases de filósofos, pensadores, psicólogos, teólogos, educadores, historiadores dentre outros.
Todavia, essas frases nas redes sociais são meras apresentações dos momentos específicos e rápidos da vida desses notáveis desconhecidos facebookianos. Ele é paparazzo dele mesmo! E faz questão de registrar seus momentos mais felizes no jornalismo mais rápido da internet: Facebook e redes similares, twitter, dentre outras. 
Não há tempo para pensar na vida, nos valores e temores. Só uma crise leva esse homem pós-moderno parar para pensar na vida; uma depressão, uma enfermidade terminal, uma perda familiar. Quando se ouve alguém falar na vida, geralmente é uma filosofia pessimista e fatalista que levam o homem para o abismo e ao desespero, pois não há esperança.
Uma desfragmentação da humanidade e de seus valores tem formado uma humanidade sem direção ou objetivo. A ideia que reina é viver e, se não interferir na sua vida, deixar viver. Viver para comer, sobreviver, curtir, guardar recursos para se aposentar, criar os filhos, amar e ser amado: tudo isso são coisas que em si mesmas não são ruins. Entretanto, preenchem o pensamento atual de tal forma, que a reflexão existencial inexiste.
 A frase de “que a única certeza que temos na vida é a morte” não passa mais pela cabeça desses transeuntes da vida. São passageiros da vida “rodando sem parar”.  Marisa Monte traz uma ideia atual na canção Seja Feliz: “Seja feliz Com seu país; Seja feliz Sem raiz; Seja feliz Com seu irmão; Seja feliz Sem razão; Tão longa a estrada; Tão longa a sina; Tão curta a vida; Tão largo o céu; Tão largo o mar; Tão curta a vida; Curta a vida”.
A felicidade pretendida pela música e a inteligência dos trocadilhos esconde uma cilada: o importante é ser feliz, pois a vida é curta. Então, curta a vida. O problema reside no fato de que o sentido da vida não é pensando e, muito menos, almejado. A ideia é: viva vivendo, pois a morte chegará e dará um ponto final à sua existência. A morte dará fim a sua festa na vida.
Esses pensamentos não contemplam a ideia metafisica pensada pela filosofia grega platônica, pré-socrática, filosofia oriental e sequer pelo cristianismo, que consideram algo além da matéria.
Existe algo além da vida. A morte não é um fim. Aquilo que se faz hoje ecoa para a eternidade. Eternidade?  Isso mesmo! O cristianismo afirma que a vida é eterna e que, apesar de estarmos o tempo todo no corredor da morte, a morte não é fim.
A sentença de morte, dada pelo Juiz Supremo, no terceiro capítulo do livro de Gênesis, é antecedida pelo anúncio da misericórdia, ou seja, da absolvição: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar(Gn 3.15). E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida” (Gn 3.16,17).
Para a Bíblia, o corredor da morte é uma sentença irrevogável. Por isso, Deus envia seu Filho, nascido de mulher (Mt 1.23), para pagar a pena na Cruz. É a cruz mortífera que concede vida aos sentenciados no corredor: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5.12).
A boa noticia é que a morte não é o fim para os que creem em Cristo: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus (Jo 3:36). 
Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida (Jo 5.24).
Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna Jo 6:47. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6.54).
Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos (Jo 15.13).

Venha a Jesus Cristo e saia do corredor da morte!

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

  




  

sábado, 7 de junho de 2014

Antes que o galo cante

Antes que o galo cante 


O que é o homem? Essa pergunta permeia os livros de filosofia, história, antropologia, psicologia, teologia, biologia, sociologia etc. Que ser tão magnífico e ao mesmo tempo tão complexo e frágil; capaz das maiores proezas e das maiores barbáries. O salmista, no salmo 8, faz uma pergunta magnífica quando compara a criação de Deus com a criação do homem: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres e o filho do homem, que o visites? (Sl 8.3, 4).
Pascal, acertadamente, fala que “a simples comparação entre nós e o infinito nos abate” (PASCAL, Bleise. Pascal – Vida e Obra - Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1999, p. 47).  Somos abatidos pelo simples fato de sermos humanos; criaturas limitadas contemplando o ilimitado universo e nos debruçando no inesgotável conhecimento. O finito olhando atônito para o infinito.
Como se a finitude não bastasse, o homem, ao morder o fruto proibido, foi fatalmente mordido pelo pecado e expulso da presença de Deus (Gn 3.23,24). O homem criado, existente, finito em conhecimento, contemplador do eterno e agora, por conta de sua transgressão, expulso da presença de Deus, passa a conhecer mais do mal do que do bem. Antes da queda, ele não tinha nenhuma visão do mal e vivia em perfeição. Esse homem, além de finito, torna-se um homem pecador. A luz de outrora agora está longe dele. É necessário rendição ao Sol da Justiça: Cristo. É necessário redenção!
O homem caído e sem esperança, sem Deus no mundo, foi aproximado de Deus novamente em Cristo. Nós, que estávamos afastados da presença de Deus, por conta de nossos pecados, fomos reconciliados com Deus por meio de seu Filho: “naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo”  Ef 2:12, 13.
O que muitos cristãos desconhecem, ou se esquecem, é que mesmo depois de sermos resgatados por Cristo, aproximados por Deus pelo Seu sangue, ainda somos mordidos pelo pecado. Não nos tornamos supercrentes. Não somos infalíveis! Somos ainda pequenas criaturas e marcados pelo pecado.
Essa marca do pecado pode ser observada em uma das mais belas biografias relatadas pela Bíblia: a história de Pedro. Ele é chamado por Jesus, em Mt 4. 18. No Evangelho de Lucas 5.8, Pedro demonstra compreensão espiritual diante do milagre de Cristo: “Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador. Que gloriosa afirmação! Que iluminação desse homem!
No evangelho de Mateus 14.8, Pedro mostra sua fé : “Respondendo-lhe Pedro, disse: Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas.  Que declaração de fé! Mas, em pouco tempo, ele fraquejou: “E ele disse: Vem! E Pedro, descendo do barco, andou por sobre as águas e foi ter com Jesus. Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor! E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste? Subindo ambos para o barco, cessou o vento (Mt 14. 29-32). Que contradição! Um homem tão forte em sua fé fraqueja rapidamente.
Em Mateus 16.16: “Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, Pedro declara saber o que outros não sabiam: Jesus é o Cristo; O Messias prometido;  remissão e redenção do seu povo.  Depois dessa afirmação maravilhosa, em pouco tempo, ele cai: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16.21-23).
É curioso notar que em Mateus 16. 17-20: “Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus. Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.” Jesus disse que sobre esta pedra Ele iria edificar a igreja. Infelizmente, esse versículo tem sido interpretado equivocadamente como fundamentação para uma autoridade dada a Pedro além do que Cristo deu. As interpretações, que não são o objetivo nesse arrazoado, seguem tradicionalmente dois caminhos: a Igreja Romana entende que Cristo fala de Pedro e de Sua substituição – a ideia de que Pedro é substituto de Cristo e o primeiro papa; e, a outra linha, que segue a ideia muito comum da Reforma Protestante, a afirmação de que Cristo se referiu à declaração de Pedro:  “Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.  O jogo de palavras: Pedro (pedrinha) e pedra também é curioso dentro da exegese.
Contudo, polêmicas à parte, fica bem claro que Cristo não estava falando que Pedro seria a pedra de sustentação de sua igreja. Ainda que a igreja esteja fundamentada na escola apostólica, Cristo, no mesmo capítulo, usa a expressão parecida, pedra, para dizer que Pedro se tornara pedra de tropeço: “Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16.23). A igreja seria muito frágil se fosse sustentada sobre um homem. Cristo é a pedra angular e único Salvador. O próprio Pedro declara isso em Atos 4. 11-12: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4. 11-12).
É Pedro que permite a melhor compreensão da dualidade do homem; da fraqueza que nos atravessou após o pecado. Pedro é homem como nós, capaz do mais nobre ato de bravura como cortar uma orelha do soldado que veio prender Jesus (Lc 22.49). Ele é capaz de dizer que irá seguir Jesus por onde Ele for: “Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo (Mt 26. 31 -35).
Mas, cuidado Pedro! Existe um galo em sua vida! “Antes que o galo cante”.  Pedro agora recebe um cronômetro. O tempo estava contra ele. Antes que o galo cantasse, ele iria negar a Cristo três vezes. Note que todos os discípulos disseram o mesmo que Pedro: iriam com Jesus até a morte. Mas era Pedro que seria provado: “Ora, estava Pedro assentado fora no pátio; e, aproximando-se uma criada, lhe disse: Também tu estavas com Jesus, o galileu. Ele, porém, o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.  E, saindo para o alpendre, foi ele visto por outra criada, a qual disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. E ele negou outra vez, com juramento: Não conheço tal homem.  Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia.  Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo.  Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente (Mt 26. 69-75).
Pedro chorou copiosamente. Ele negou o Mestre. Andou com Ele, aprendeu, viu milagres, presenciou a glória de Cristo, fez o melhor de todos os seminários: andou com Cristo. Mas, antes do galo cantar a terceira vez, ele negou tudo isso.
Depois desse fato vexatório, Pedro mostra sua coragem em Atos 5.40-42:  Chamando os apóstolos, açoitaram-nos e, ordenando-lhes que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram. E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo.
Contudo, todas as manhãs, o galo canta. O forte Pedro, a pequena pedrinha, não resistiu e ficou com medo novamente no grande encontro com Paulo em Gálatas: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti -lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles (Gl 2.11-13). O detalhe é que Pedro tinha aceitado e defendido os gentios no capítulo  15.7-11 de Atos. Todavia, o galo cantou.
 Queridos, ser crente não significa ser impecável. A impecabilidade da alma é uma heresia. A grande demonstração da divindade da Bíblia repousa no mais belo fato e assustadora constatação de que o homem é falho e a exaltação pertence apenas a Deus. O único Ser Santo nas Escrituras é o SENHOR.  Os crentes precisam da santificação. Todavia, esse processo é inacabado nessa vida e é garantido apenas na volta do Senhor.  Enquanto o Senhor não vem, o galo sempre canta!
Entretanto, quando ele cantar bem alto em seus ouvidos, faça como Pedro: chore amargamente, mas levante-se! Cristo sempre está de mãos estendidas para nos levantar. Seu olhar não será de reprovação, mas de misericórdia.
Mesmo depois de Pedro ter pecado tão drasticamente contra o Senhor, Jesus diz ao seu pequeno servo: “Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21. 15-17).
Certamente Pedro se lembrou da negação, do seu pecado e de sua covardia. Entristeceu-se, pois Cristo perguntou a ele a mesma quantidade de vezes que ele negou. Entretanto, Cristo entrega a Pedro um rebanho para ser pastoreado. Que glória! Que doce é a misericórdia do Senhor! Ele usa pessoas falhas, pequenas e cheias de defeitos para pastorear tantas outras com as mesmas características. Não é que Ele queira que cometamos pecado constantemente, não! Mas, ao pecarmos, devemos nos render aos seus pés. Toda autoconfiança deve ser destronada.
A primeira frase de Pedro continua sendo forte: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”. Mas a resposta de Jesus é essa: “(...) E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
O galo certamente cantará. Mas, Cristo nos levantará! Ele não despreza um coração contrito. E ainda que muitas vezes o abandonemos na temporalidade de nossa vida e na fragilidade humana e pecaminosa, ele jamais nos descartará! Se um dia você veio ou vier a Cristo, como Pedro fez, Ele jamais te deixará: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (Jo 6.37).


Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo



































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