terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Eterno e o tempo: o imediatismo da vida imediata

O Eterno e o tempo: o imediatismo da vida imediata
Rev. Ricardo Rios Melo
Antes desse arrazoado, é melhor fazermos o que Aristóteles chama de definir, pois definir é limitar. A palavra eterno, do latim aeternu, refere-se àquilo que não tem início e jamais terá fim. O eterno é o não-tempo. O que sempre existiu e sempre existirá. Abbagnano ressalta que a discussão da eternidade permeia a filosofia pré-socrática até a contemporaneidade. A palavra eternidade se divide em duas definições: 1º. duração indefinida do tempo e 2º. intemporalidade como contemporaneidade. Para Platão, “eterno é o que não era nem será, mas apenas é” (ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 379). Para Lalande, existem duas definições: “A. duração indefinida. Este sentido primitivo é o menos usado em filosofia. B. característica do que está fora do tempo” (LALANDE, André. Vocabulário técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 348).
Dentro da teologia, é pertinente o comentário de Berkhof:

“a infinitude de Deus em relação ao tempo é denominada eternidade – Sua eternidade. A forma em que a Bíblia apresenta a eternidade de Deus é simplesmente a de duração pelos séculos sem fim, Sl 90. 2; 102, 12; Ef 3.21. Devemos lembrar, porém, que ao falar como fala, a Bíblia emprega a linguagem popular, e não a linguagem da filosofia. (...) A eternidade, no sentido estrito da palavra, é adstrita àquilo que transcende todas as limitações temporais. Que o termo se aplica a Deus nesse sentido é ao menos ensinado em 2 Pe 3.8. ‘ o tempo, diz o dr. Orr, ‘estritamente falando, tem relação com o mundo de objetos existentes em sucessão. Deus preenche o tempo; Ele está em cada partícula dele; mas a Sua eternidade, todavia, não é realmente este estar no tempo. É, antes, aquilo com o que o tempo forma um contraste’. Nossa existência é assinalada por dias, semanas, meses e anos; não é assim a existência de Deus. A nossa vida se divide em passado, presente e futuro, mas não há essa divisão na vida de Deus. Ele é o eterno ‘Eu Sou’” (BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, LPC, 1998, p. 63).
A palavra imediato vem do latim mediattu e significa: rápido, instantâneo; ou seja, no tempo e bem rápido.
Essas duas palavras se cruzam no tempo da vida imediata. Será que existe eternidade? Se não existe, por que discuti-la? E, se existe, como vivê-la? Antes de respondermos essa indagação, vamos nos perguntar o porquê de o homem finito, temporal, ter parado pela primeira vez no tempo para pensar no não tempo. Essa questão poderá nos trazer várias respostas antropológicas, filosóficas, sociológicas e até psicológicas. Contudo, acho que a mais consistente e contundente é essa: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11).
A eternidade foi cravada no coração do homem assim como a lei de Deus e o senso divino (Rm 2.14,15). O texto de Eclesiastes faz uma comparação da brevidade do homem e do tempo em comparação com a sabedoria e a eternidade de Deus. O Deus do tempo é atemporal. O homem vive no tempo e é limitado a ele.
O que nos chama atenção é como o homem finito, temporal e efêmero, passou a indagar sobre o não-tempo? Parece-nos que a semente divina colocada no homem, fez com que ele não só indagasse a existência de um Deus, mas também, a sua própria existência. A própria matemática tem um conceito intrigante, a idéia de + ∞ (infinito) e - ∞ (infinito). O homem finito pensando no que não tem fim.
Os orientais pensam na imortalidade da alma e na reencarnação tanto de modo progressivo (evolução de um estado ao outro) como regressivo (o homem pode regredir em sua nova reencarnação). Os egípcios pensaram na imortalidade da alma e que o corpo dos faraós deveriam ser preservados para que, quando eles voltassem, tivessem um corpo para habitar. O espiritismo ocidental fala de reencarnação e, sendo mais desenvolvido no período da teoria da evolução, entende que o homem tende a evoluir a cada encarnação. O cristianismo fala de vida eterna somente concedida em Cristo. Para o cristianismo, após a morte, vem o juízo: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” ( Hb 9.27 ). Contudo, para aqueles que crêem em Cristo, já passaram da morte para vida: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Os homens não enfrentam bem a idéia do fim de sua existência e da própria morte, pois a “eternidade” está em seus corações e, segundo as Escrituras, a morte passou a todos os homens em Gn 3.
Pensar na eternidade e efemeridade da vida não deveria ser coisa apenas de filósofos ou teólogos. Quando nos deparamos com a afirmação de Paulo em 1 Co 15.12-19, percebemos que isso é uma questão prática da vida: “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”.
A doutrina da ressurreição fala da eternidade; que a vida não se resume ao imediatismo diário. Paulo de maneira bastante realista avalia o pensamento do homem de sua época e, por que não dizer, do homem pós-moderno. A vida resumida a prazeres efêmeros é passageira e, nos dizeres de Paulo, infeliz.
No pragmatismo moderno e na vida fast food, pensar na eternidade parece distante e sem sentido. Contudo, é pertinente lembrarmos que a vida terrena é passageira. O imediatismo contemporâneo faz-nos esquecer que a vida é passageira, pois tudo é tão rápido que não se tem tempo para pensar. Contudo, se pedires a tua alma hoje, o que você terá para dar em troca? “E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstrui-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12. 16-20).
O homem contemporâneo vive o imediatismo da vida como se fosse eterno, mas, sem pensar na eternidade. Ele sabe que a felicidade terrena é efêmera, mas vive como se ela fosse eterna. Ele eternizou o imediatismo. O próprio amor, como dizia o poeta, deve ser “eterno enquanto dure”.
Destarte, viver intensamente a vida imediata e tentar eternizar o efêmero não salvará o homem da pergunta: “e o que tens preparado, para quem será?”
Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24)
Que o Deus eterno nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

3 comentários:

Antonio Batalha disse...

O alvo de meu blog é divulgar o bom nome de Jesus. E levar cada crente mais perto de seu Senhor, ficarei feliz se quiser fazer parte dele, contudo não deixarei de visitar, e comentar em seu blog. Ficarei á espera da sua amizade virtual. Minhas saudações em Cristo Jesus., e um feliz Natal.

Rev. Ricardo Rios Melo disse...

caro irmão, muito obrigado por participar do blog. Fico feliz em contar com sua amizade virtual. Deus o abençoe!

Anônimo disse...

Amado Rev.Melo,
Saudações. Espero ter passado boas festas. Amado, estive te visitando, acredito que deveria haver um entrelaçamento maior entre os blogs Presbiterianos. Temos ocarinho de visitar se por como seguidor e só vemos na lista de links os "figurões", me perdoe a forte "afirmação". A amizade considero estar aqui em terra como prioridade, juntamente com o amor e carinho. Desejo tudo de bom para o amado Rev. E Blog.

Diác. Rilvan Stutz
Catedral Presbiteriana do Rio
www.reierei.blogspot.com
rilvantz@gmail.com

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...