A modernidade e a animalização do homem


A modernidade e a animalização do homem
Ninguém negará a mudança de paradigmas que ocorreu durante a história da humanidade e, principalmente, na famosa Idade Moderna. Uma das características fundamentais dessa mudança de paradigma é a própria visão que o ser humano tem de si mesmo.
Na Idade Média, o homem se considerava a imagem e semelhança de Deus. Apesar das distorções sobre a idéia do corpo, onde “o corpo cristão medieval é de parte atravessado por essa tensão, esse vaivém, essa oscilação entre a repressão e a exaltação, a humilhação e a veneração” (Le Goff, Jacques, Uma história do corpo na Idade Média, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 13), há uma posição colocada para o homem: ele balança entre o amor e a ira de Deus.
O mundo moderno, marcado pela influência da Filosofia Racionalista de Descartes, é decorrente de uma linha de pensamento que surge desde a Renascença, onde “o mundo passou a ser considerado cada vez menos como sagrado e mais como objeto de uso – movido por forças mecânicas – a serviço dos homens. Essa transformação é parte essencial da origem da ciência moderna” (Figueiredo, Luís Claudio M., Psicologia – uma (nova) introdução, São Paulo: PUCSP, 2007, p. 24).
Há de se levar em consideração a influência de Darwin na inclusão do homem como parte da natureza. O homem não só é um objeto de estudo; ele faz parte da natureza. Se antes se entendia o homem como um incólume observador superior ao objeto estudado, agora se tem o homem como pertencente ao objeto.
A ciência passa a interpretar o homem dentro desse contexto “natural”. O homem sai da esfera judaico-cristã de coroa da criação e de qualquer pensamento de superioridade para o âmbito científico: animal racional. Como animais, podemos analisar nossos “companheiros” animais de igual para igual. Mas, presente a desigualdade racional, nós podemos analisá-los racionalmente.
Isso muda toda a perspectiva da auto-imagem, pois passamos a ser apenas um animal que pensa.
Na tentativa de coisificar o homem, tenta-se encontrar teorias da origem do homem e desacreditar aquilo que os teóricos céticos chamam de mitos da origem ou utopias da origem, que são as teorias do nascimento do cosmos nas perspectivas da cosmogonia ou do Gênesis judaico e cristão. Nega-se qualquer tentativa de importância divina ou intervenção divina na criação do universo e de tudo que nele habita.
Para Ernst Casirer, “de todos os fenômenos da cultura humana, o mito e a religião são os mais refratários a uma análise meramente lógica. O mito, à primeira vista, parece ser apenas caos – uma massa disforme de idéias incoerentes. Procurar as ‘razões’ para tais idéias parece fútil, vão. Se existe alguma coisa que seja característica do mito, é o fato de que ele não tem pé, nem cabeça’. Quanto ao pensamento religioso, não está de modo algum em oposição, necessariamente, ao pensamento racional ou filosófico. Determinar a verdadeira relação entre esses dois modos de pensamento foi uma das principais tarefas da filosofia medieval. (...) Segundo Tomás de Aquino, a verdade religiosa é supernatural e supra-racional; mas não é ‘irracional’. Com base apenas na razão não podemos penetrar nos mistérios da fé” (Cassirer, Ernst, Ensaio Sobre o Homem, São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 121).
O homem moderno e o pós-moderno não enxergam no futuro uma possibilidade de uma redenção divina, pois a idéia de um Deus resgatador é pura utopia de um mundo perfeito. É mais cômodo aceitar a teoria de fazermos parte da roda da natureza onde a Lavoisier afirma que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”; seremos apenas adubo para um bom plantio.
O homem moderno e o pós-moderno jogaram fora o mito e a própria religião; colocaram no lugar a ciência. Acabou-se com a idéia de uma vida eterna após a morte e criou-se a fantasia de uma vida eterna aqui na terra por intermédio da mágica da longevidade através dos fantásticos remédios. Trocou-se o dogmatismo da religião que vive de certezas, para a certeza científica. A obscuridade da fé pela “certeza dos fatos científicos”.
O curioso é que muito do que se credita à ciência, como descobertas incontestáveis de fatos irrefutáveis, nada mais é do que reinterpretações. “De acordo com o historiador Hebert Butterfild, se acompanharmos o caminho percorrido pela ciência desde suas origens, veremos que a transformação científica não ocorreu principalmente por novos fatos ou observações, ‘mas pelas transposições que estavam ocorrendo dentro da mente dos próprios cientistas’.” (Pearcy, Nancy; Thaxton, Charls B., A Alma da Ciência, São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 67).
Agora, segundo o pensamento contemporâneo, somos seres mais evoluídos sem necessidade dos mitos e da utopia da religião. Temos que entender, segundo os sábios contemporâneos, que o amor, a fraternidade, a família, moral e todo sentimento humano são construtos sociais de sobrevivência – foram inventados pelo homem para sua autopreservação. Sendo assim, não existem absolutos morais. A moral está circunscrita ao tempo e ao espaço.
Destarte, o homem tem que acreditar no próprio homem, pois é necessário ter fé na boa vontade do semelhante para aceitar uma convivência harmônica. Se o homem é um animal que pensa, ele não deixa de ter os instintos animais de sobrevivência, apenas refreia-os ou reprime-os com base nas regras sociais de sobrevivência. Sendo assim, não há que se falar em corrupção social, mas, em retorno aos instintos primitivos.
Desse modo, se a maioria da sociedade decidir que a família deve acabar e que a lei da selva deve vigorar, nós deveremos, no sentido lógico moderno, sucumbir àquilo que é chamado de “ditadura da maioria”.
Falando sobre o amoralista, Bernard Williams diz: “Ele se importa com alguém? Existe alguém cujos sofrimentos ou desgraças o afetariam? Se respondermos ‘não’, parecerá então que acabamos de traçar o perfil de um psicopata. E, se ele é um psicopata, a idéia de persuadi-lo para amoralidade é certamente descabida – mas o fato de ser descabida não pode por si só solapar as bases da moralidade ou da racionalidade” (Williams, Bernard, Moral – uma introdução à ética, São Paulo: Martins Fontes, 2005, p 13).
Cabem-nos umas perguntas e reflexões: se tudo é fabricado pelo homem, para que existimos? Por que viver dentro de limites sociais? Por que prender o bandido se ele foi privado do que deseja, teoricamente, pela própria sociedade que ele instintivamente preserva? Para que amar as pessoas já que o amor nada mais é do que uma construção social de autopreservação, onde o amor ao outro nada mais é do que o egoísmo de se manter vivo?
Na tentativa drástica da autonomia humana, não nos restou nada. O homem animalizado se diz natural, comum, material, contudo ao mesmo tempo se considera especial e distinto, pois quer governar sua própria vida e controlar os fenômenos como se fosse um deus. A ciência moderna é a bíblia inconclusa do homem contemporâneo, sem paraíso ou redenção, apenas o velho lema Carpe Diem (colha o dia, aproveite o momento). No final, tudo se resume ao que vemos, tocamos, sentimos.
Eu prefiro ficar com o homem de Deus criado à imagem e semelhança de Javé, pois Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. (...) Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1 Co 15.9,32).
Em Cristo,
Rev. Ricardo Rios Melo

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