sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Calvino a Serviço do Rei (VI parte) Por Rev.. Ricardo Rios Melo

Calvino a Serviço do Rei (VI parte)

Por Rev.. Ricardo Rios Melo

Influência no mundo ocidental

O protestantismo se destacou durante a história como uma força intelectual vigorosa e atuante a despeito do desejo de seus adversários. Longe de ser obscurantista, a Reforma, principalmente a Reforma calvinista, construiu um novo homem: pensante, questionador, atento ao seu tempo com um olhar para o futuro. Muitos protestantes procuraram a academia e as ciências.

Entre 1666 a 1883, foi constatado, por A. de Candolle, que o número de protestantes suplantava o número de católicos na Academie dês Sciences de Paris. “Na população da Europa Ocidental, fora da França, a proporção de católicos romanos para protestantes era de seis (católicos) para quatro (protestantes), enquanto, entre membros estrangeiros da Académie dês Sciences, a proporção era de seis (católicos) para vinte e sete (protestantes). (...) Entre os grupos de dez cientistas que, durante a Comonweealth, constituíram o núcleo que daria origem A Royal Society, sete eram acentuadamente puritanos”.[1] Sem sombra de dúvidas, “Calvino contribuiu para forjar um tipo novo de homem: “o reformado,” que vive no tempo, o seu tempo, para a glória de Deus!”[2]

Tendo em vista que Calvino era um humanista subordinado à Palavra de Deus, não se poderia imaginar que seus pensamentos ficassem aprisionados ou circunscritos a Genebra. Há uma importante contribuição de Calvino na reforma Francesa. “Sem Calvino, o Protestantismo francês não teria passado de uma seita incipiente com tendência a se subdividir em várias facções e inclinada à introspecção e à dissensão interna, a qual não possuiria qualquer poder político de fato.”[3]

Como a criação é o palco da glória de Deus, o homem e sua relação com a criação é de suma importância para o pensamento de Calvino.O ‘humanismo’ de Calvino é visível em sua formação, escritos e atitudes. Ele apoiou o humanista Guillaume Budé (1467-1540), que era chamado de ‘Prodígio da França’ e, juntamente com Erasmo (c.1469-1536) e Juan Luis Vives (1492-1540), constituiu o ‘triunvirato do humanismo europeu.’ Budé contribuiu para o reavivamento do interesse pela língua e literatura gregas e colaborou na introdução do humanismo na França”.[4]

O humanismo de Calvino está longe de ser comparado ao movimento humanista antropocêntrico. Como bem frisou Hermisten Costa, “Calvino rejeitava este tipo de ‘humanismo’.”[5] Em sua carta ao rei Francisco I, no prefácio de suas Instituições Cristãs, ele mostra sua idéia humanista:

Quando Paulo quis que toda profecia fosse conformada à analogia da fé (Rm 12.6), estabeleceu uma regra extremamente segura, pela qual deva ser testada a interpretação da Escritura. Portanto, se a doutrina nos é esquadrinhada à base desta regra de fé, nas mãos nos está a vitória. Pois, o que melhor se coaduna com a fé e mais convenientemente do que reconhecer que somos despidos de toda virtude, para que sejamos vestimos por Deus; vazios de todo bem, para que sejamos por ele plenificados; escravos do pecado, para sejamos por ele libertados; cegos para que sejamos por El iluminados; coxos, para que sejamos por ele restaurados; fracos, para que sejamos por ele sustentados; despojando-nos de todo motivo de glória pessoal, para que somente ele seja glorioso e nós nele nos gloriemos? [1Co 1.31; 2Co 10.17].[6]

A abrangência do pensamento de Calvino fez com que suas idéias se espalhassem pelo mundo e fossem adotadas por países inteiros. É bem verdade que os “calvinistas”, necessariamente, não seguem o pensamento completo de Calvino. Esse tipo de divergência ou de ampliação e, às vezes, distorção é-nos relatada por McGrath:

O termo “calvinismo” costuma ser usado para se referir às idéias religiosas da igreja reformada. Apesar de ainda ser amplamente empregado na literatura relacionada à Reforma, trata-se de uma prática desestimulada nos dias de hoje. Está cada vez mais claro que a teologia reformada do século 16 se valeu de outras fontes além das idéias do próprio Calvino. Chamar o pensamento reformado do final do século 16 e século 17 de “calvinista” sugere que era, essencialmente, o pensamento de Calvino e o consenso atual é de que as idéias de Calvino foram modificadas sutilmente por seus sucessores. Hoje em dia, o termo “reformado” é considerado preferível para se referir às igrejas (especialmente na Suíça, Países baixos e Alemanha) ou aos pensadores religiosos (como Theodoro Beza, William Perkins e John Owen) que se basearam no livro texto religioso célebre Calvino As Institutas da religião Cristã, ou ainda, para os documentos eclesiásticos (como o conhecido catecismo de Heidelberg) com base nessa obra.[7]

A discussão sobre o pensamento de Calvino e de seus sucessores é matéria de debates e de produções literárias. O americano R.T Kendall, que pastoreou a Westminster Chapel, Londres, por 25 anos, entende que calvinismo não significa necessariamente o pensamento de Calvino.[8]

Kendall afirma que um dos grupos calvinistas, o puritanismo inglês, modificou o pensamento de Calvino e que, por exemplo, a doutrina da predestinação foi desenhada muito antes do pensamento do Reformador genebrino, quando ele ainda tinha dezesseis anos de idade. Os reformadores e, precipuamente, Lutero já esboçaram a doutrina em seu prefácio aos Romanos.[9]

O francês André Biéler é mais virulento em seu ataque aos puritanos. Ele chega a denominá-los de “filhos bastardos do calvinismo” para defender a tese de que Calvino não é o pai “monstro” do capitalismo, como foi articulado por Max Weber em sua Ética Protestante e Espírito do Capitalismo. Vejamos um extrato do seu pensamento:

Focalizemos, a seguir, este tremendo receio dos prazeres e esta depreciação da sexualidade que têm, de fato, lamentavelmente caracterizado o Puritanismo, filho bastardo do calvinismo. Por certo que a moral calvinista denunciou o valor ambíguo dos prazeres terrenos e do amor humano. São dons de Deus que não devem ser vilipendiados. Se o homem não os usa segundo o desígnio de Deus, segundo a norma ética divina que lhes confere seu verdadeiro significado, ele os desnatura; desviados, assim, de seu fim, tornam-se demoníacos e contribuem, por sua vez, para de Deus afastar o homem. Contudo, mesmo assim desnaturados, perduram como dons de Deus e o homem os não poderia menosprezar por um falso ascetismo, sem cair no excesso contrário, tão de culpar-se quanto o abuso. É justo fazer de Calvino o responsável por essa moral puritana que rejeita, não o abuso, mas os próprios prazeres em si e vê a sexualidade a sede mesma do mal? (...) No fundo, os textos que podemos citar atestam que Calvino era bem menos “puritano” que muitos de seus êmulos, que querem com ele rivalizar no zelo, na falta de o poderem fazer pelo discernimento espiritual.[10] (grifos meus).

Essa crítica de Biéler é contraposta por diversos autores calvinistas que entendem que a Confissão de Fé de Westminster (1647-1648) demonstra claramente o pensamento calvinista. No documento de fé elaborado na Assembléia de Westminster, “os primeiros debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo de igreja”.[11] Os puritanos reunidos na assembléia, 121 teólogos, 20 leigos nomeados pelo parlamento, 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, eram homens de caráter ilibado e brilhantes.[12]

Na Assembléia de Westminster, tinham partidos bem definidos: presbiterianos, congregacionais (independentes), episcopais, e “os erastianos, que sustentavam a tese de que os pastores cristãos são simplesmente mestres, e não governantes na Igreja, e que todo poder, tanto eclesiástico quanto civil, repousa exclusivamente no magistrado civil, eram (os erastianos) representados na Assembléia por apenas dois ministros – Thomas Coleman e John Lightfoot, assistidos ativamente pelo erudito leigo, John Selden”[13].

Franklin Ferreira combate aquilo que levou Joel Beek a escrever o livro A busca da plena segurança: o legado de Calvino e seus sucessores, traduzido em português e editado pela editora Os Puritanos. Alguns opositores e até outros que são admiradores dos puritanos afirmam que eles confundiram justificação com santificação. Para Frankin, “essa falsa compreensão poderia ser sanada com uma consulta à referida Confissão e aos escritos dos mesmos”.[14]

O fato é que tanto os puritanos calvinistas quanto outros grupos que não são puritanos, mas são calvinistas, não são chamados de calvinistas por seguirem o pensamento completo do Reformador. “O verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: não obedecer ao próprio Calvino, mas àquele que era o mestre de Calvino.”[15]



[1] W. Standford Reid ET AL (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 2,3.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 15.

[3] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 206.

[4] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 10.

[5] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 10.

[6] João Calvino, As Institutas, [tradução Waldir Carvalho Luz]. – 2. Ed. – São Paulo; Cultura Cristã, 2006, p. 20. Observação importante: essa citação foi feita por Dr. Hermisten em seu trabalho na FIDES (obra já citada nesse artigo), no entanto, resolvi citar a 2ª edição ao invés da 1ª.

[7] Alister MacGrath, teologia Histórica – Uma introdução à História do Pensamento Cristão, São Paulo, Cultura Cristã, 2007, p. 180.

[8] Vd. R. H. Kendall, in: W. Standford Reid Et al; (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 245.

[9] Vd. R. H. Kendall, in: W. Standford Reid Et al; (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 245.

[10] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 642.

[11] Hermisten Maia Pereira da Costa, Fundamentos da Teologia Reformada, São Paulo, Mundo Cristão, 2007, p. 19.

[12] Vd. Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster, Comentada por A. A. Hodge, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 41,42.

[13] Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster, Comentada por A. A. Hodge, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 42.

[14] Franklin Ferreira, O Movimento Puritano e João Calvino, FIDES/REFORMATA 4/1, 1999, p. 5.

[15] Karl Barth, em introdução à obra, Calvin, Textes Choisis par Charles Gagnebin, 11, In: Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 15.

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