Calvino a serviço do Rei (II parte)

Calvino a serviço do Rei (II parte)

Por Rev. Ricardo Rios Melo

Dores

Foi um ano difícil o de 1546 para os Reformadores, pois durante esse período que morreu o corajoso e destemido Reformador Martinho Lutero.

Em janeiro de 1546, Lutero voltou para à sua cidade, Eisleben, “para resolver uma disputa política (na verdade, uma briga de família) entre os príncipes de Mansfeld. A viagem de Wittenberg para Eisleben era de 130 Km.”[1]

A saúde de Lutero já não era mais a mesma. Em uma época em que a perspectiva de vida era baixa, Lutero foi agraciado por Deus ao viver até seus 62 anos. Sob o ponto de vista humano, a decisão de viajar, estando debilitado, foi o estopim para sua morte. Ele viajou com seus filhos: Hans, Martinho, Paulo e com seu amigo, Justus Jonas.[2]

Lutero sabia do risco de sua viagem, fato documentado em sua carta para Kate (Katharina Von Bora), sua esposa, que morreria seis anos depois de sua morte. Em sua carta, ele relata os riscos:

Querida Kate, chegamos a Halle hoje, às oito, mas não continuamos para Eisleben, porque um grande anabatista [o rio Saale] enfrentou-nos com ondas e pedaços de gelo. Ele inundou a terra e ameaçou rebatizar-nos [...] Temos refrigério e conforto com a boa cerveja de Torgau e o vinho do Reno, esperando para ver se o Saale se acalmará. [...] o diabo está ressentido conosco, e ele está nas águias – assim, é melhor ser cauteloso do que se arrepender depois.[3]

Lutero logrou êxito em seu intento de reconciliar os príncipes. Contudo, sua saúde foi ferida de morte. “De repente, na noite anterior à sua volta para casa, Lutero adoeceu e morreu”.[4] A Reforma perdeu seu proclamador, contudo, continuaria de forma augusta, por intermédio da brilhante pena de Calvino. Não é à toa que Calvino é chamado de “o exegeta da Reforma”.

Ao lado de todo grande homem, existe uma grande mulher. Calvino foi agraciado por Deus com sua esposa, Idelete. Ela era uma mulher reconhecida pela sua hospitalidade. Uma mulher preciosa aos olhos de seu marido. O coração de Calvino sofreu um terrível golpe quando sua amada esposa adoeceu. Escrevendo a Viret diz: “minha esposa precisa das suas orações. Ela está tão dominada pela sua doença que ela mal pode sustentar-se. Ela parece melhorar com freqüência, mas logo piora”.[5]

Em 1549, sua querida Idelete adoeceu gravemente e já não saía da cama. Calvino estava envolto com a reforma e com as demandas do seu trabalho pastoral. Ele cuidava dos refugiados oriundos da Itália e da França. “Os Libertinos, amantes da vida fácil, tudo faziam para irritar Calvino e incompatibilizá-lo com a cidade.”[6]

Antes de sua morte, Idelete nos deixou um testemunho exemplar. Um pastor tentou consolá-la; Calvino tentou tranqüilizar seu coração dizendo que cuidaria de seus dois filhos do primeiro casamento. No entanto, Idelete diz de maneira maravilhosa:

“Já os entreguei aos cuidados do Senhor”. Calvino respondeu que isso não o impediria de fazer o possível por eles, ao que ela respondeu com dificuldade: “Sei que V. não olvidará aqueles que estão entregues ao Senhor.” No dia 29 de março, o dia do seu falecimento, Idelete ouviu com atenção as palavras de um ministro que tinha vindo consolá-la. Ela “falou em alta voz, de tal modo que todos viram que o seu coração estava muito acima do mundo. Pois foram estas as suas palavras: “ò ressurreição gloriosa. Ò Deus de Abraão, e de todos nossos antepassados, em ti confiaram, os fiéis durante tantas eras passadas, e nenhum deles confiou em vão. Eu também terei confiança”.[7]

Calvino testemunhou mais tarde:

Após ser removida para outro quarto depois das sete, ela começou imediatamente a decair. Quando sentiu que sua voz estava a perder-se, ela disse: ‘oremos; oremos. Orem todos por mim.’ Eu agora havia retornado. Ela não poderia falar, e sua mente parecia preocupada. Após falar-lhe algumas palavras sobre a vida conjugal, e sobre sua ida, dirigi uma oração... Ela ouviu a oração, e deu-lhe atenção. Faleceu, antes das oito, tão calmamente que os presentes mal puderam distinguir entre sua vida e sua morte.[8]

A dor de Calvino é-nos relatada por ele mesmo:

“Verdadeiramente não é ordinária a minha... dor”, escreveu a Viret uma semana depois. “Fui privado da melhor companhia da minha vida”. E a Farel: “Faço o possível para não ficar assoberbado pela tristeza. Meus amigos não deixam de fazer tudo que possa contribuir para aliviar meu sofrimento mental... Que o Senhor Jesus... me sustente... nesta pesada aflição, a qual certamente me teria dominado se Ele, que levanta os prostrados, fortalece os fracos, e reanima o fatigados, não tivesse estendido Sua mão para mim”. (...) “Minha esposa, mulher de raras qualidades, morreu há um ano e meio”, escreveria Calvino em 1550, “e eu agora livremente optei por uma vida solitária”.[9]

Após a morte de sua esposa, Calvino opta por uma vida solitária, apesar de contar com seus amigos, ele via a vida com cores mais tristes. O lar de Calvino perdeu a paz e a serenidade de Idelete.[10] O seu lar perdeu o doce e afável acolhimento de Idelete. As lembranças de sua amada o compeliam à saudade e à tristeza.

Calvino era homem acostumado com o sofrimento. Suas enfermidades constantes não o deixavam livre para divagar com futilidades. Os inimigos do servo do Rei não cochilavam por um instante. Eram ferozes em seus ataques, dissimulados e astutos. Não poupavam Calvino de qualquer ofensa. Contudo ele dizia: “aprendamos a exercer a nossa fé, quando Deus nos parece jogar aos dentes do lobo: pois, quando nenhum auxílio visível se nos oferece, todavia, por amor oculto, com que não atinamos, ele sabe nos livrar; pois o seu propósito é provar a nossa fé e a nossa paciência”.[11]

Barry Gritters traz uma visão dos sofrimentos de Calvino e de sua devoção a Deus:

Ele foi literalmente banido de seu próprio púlpito, ameaçado com espadas nas ruas, e expulso de Genebra. Armas foram disparadas diante da janela do seu quarto de dormir. Calvino enfrentou oposição do próprio concílio que o convocou, teve seus amigos punidos por proteger-lhe. Seu querido amigo e companheiro, o pastor cego Claudet, foi envenenado por não renunciar a verdade. Rumores malignos foram abundantemente espalhados sobre ele. Por causa do ministério, ele arriscou sua própria vida visitando os doentes; ajudou a muitos com seus recursos próprios. Apenas uma de suas doenças físicas teria mandado a maioria dos pastores para uma maca; Calvino suportou, sem reclamar, uma dúzia. Seu próprio testemunho diz que ele passou vinte anos sem descanso de enxaquecas. Sofreu de artrite, gota, malária, e finalmente cinco anos de tuberculose. Uma história narra um médico recomendando a Calvino correr velozmente de cavalo para desalojar as pedras dos seus rins – mas suas hemorróidas eram tão severas que ele não agüentava cavalgar.[12]



[1] Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 102.

[2] Vd. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 102.

[3] Martinho Lutero in: Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 103.

[4] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 144.

[5] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 145.

[6] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 145.

[7] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146.

[8] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146.

[9] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146,147.

[10] Vd. Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 147.

[11] J. Kromminga, Thine is May Heart, Grand Rapids Zondeva Publ. House, 1958, p. 188 in: Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 169.

[12] Barry Gritters, João Calvino: Pastor e Mestre, (tradução Felipe Sabino de Araújo Neto), http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino-pastor-mestre_gritters.pdf , traduzido em outubro de 2008, p. 6.

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