Vamos ao cinema?




Fim de semana. A hora foi marcada e os ingressos já foram obtidos. Antes de entrar na sala, comprar pipocas e refrigerante, para alguns, é indispensável. Ir ao toalete também é uma boa pedida para não perdermos o filme. O filme começa. Ao lado, percebemos casais de namorados que não estão nem um pouco interessados no enredo do filme. O barulho da pipoca é extremamente desagradável em filmes de suspense. Algumas pessoas não se contentam em só assistirem o filme; comentam o tempo todo e fazem cenas dramáticas se transformarem em comédia, pois riem o tempo todo.


Outros parecem sofrer de hiperatividade. Não param quietos na cadeira em nenhum momento; só dão sossego quando vão ao toalete cerca de quatro vezes ou mais. Para completar, temos, de um dos lados da sala, os críticos de filmes, aqueles que nunca escreveram um roteiro sequer ou que nunca escreveram algo que valha a pena, mas são exímios críticos. São tão perspicazes que comentam cada expressão dos artistas e de suas falas. Contudo, tudo isso é cinema! Nós o freqüentamos para distrair a nossa mente e curtir um pouco o nosso fim de semana. Portanto, não devemos nos estressar com isso! De repente, surge uma música. Espera aí! Essa música não faz parte da trilha sonora. Foi uma senhora em nossa frente que, apesar de todas as orientações prévias para se desligar o bendito celular, não só não o desligou como também o atendeu. Entretanto, isso é cinema! Nós queremos nos entreter! Não precisamos nos estressar.


Acaba o filme. Nada de aplausos. Os casais de namorados continuam namorando. A senhora continua a falar no celular. Os comentaristas já avaliaram o filme e reprovaram-no; nada mais a falar. Os comediantes continuam a formular suas sátiras.


Fim de semana novamente. Mais precisamente, domingo. Em um local preparado, estão reunidas algumas pessoas para o culto público. As orientações para o bom andamento do culto já foram dadas no boletim da igreja. O culto começa. Boa parte da igreja ainda não se encontra, pois se atrasaram. O texto sagrado é lido. O primeiro hino é tocado. Uma oração é realizada pedindo a direção do Espírito para que tudo seja feito em conformidade com os princípios bíblicos, ou seja, de modo agradável a Deus, pois Ele deve ser exaltado no culto.


Alguma coisa está errada. Algumas pessoas estão mascando chiclete e, ao se levantarem para entoarem os hinos, parecem que estão carregando 10 mil quilos nas costas. Em menos de cinco minutos, algumas pessoas começam a se levantar para irem ao toalete. Outro grupo espera a hora da mensagem para sair, tornando esse ato quase que sagrado. Pessoas vão beber água como se tivessem passado horas no deserto do Saara.


O pregador dá inicio ao sermão. A hiperatividade é aflorada nesse instante, pois não param na cadeira. Outros começam a transformar a pregação em uma comédia, pois riem o tempo todo. Casais de namorados não se beijam, mas trocam olhares apaixonados e bilhetinhos utilizando o boletim o tempo todo. Os críticos também utilizam o boletim para opinarem. Aliás, para alguma coisa deve servir o boletim, não é? Os críticos também fazem parte desse momento: dando nota, entonação por entonação, versículo por versículo. A senhora do cinema aparece nesse momento com o seu celular tocando aquele som irritante. O pregador, que até então estava concentrado na responsabilidade de entregar o sermão iluminado por Deus e com muito labor (Orare et labutare), desvia sua atenção, pois manter-se concentrado dentro de um cinema é muito difícil... ops! Culto (ato falho). Ah! Quase me esqueci dos famosos Ipod’s, os mp3 e os joguinhos dos celulares e torpedos que bombardeiam qualquer tentativa de concentração dos tão compenetrados “espectadores” do culto.


Acaba o culto solene. Os críticos já reprovaram o sermão do pregador. Os cômicos continuam satirizando qualquer erro ou vício que conseguiram detectar. Os namorados continuam namorando. As pessoas continuam vazias. Ninguém muda nada. E o pior, Deus não foi cultuado.


É lamentável esse quadro, porém ele está longe de ser irreal. As pessoas não vão mais a “casa de Deus”. A idéia de um Deus soberano, santo, onde sua presença requer temor e tremor, passa longe dos crentes modernos. Eles estão cheios de seus problemas e interesses pessoais. Alguns poderiam objetar nesse instante: “o pregador é enfadonho e cheio de ruídos da comunicação”; “as famosas muletas verbais, como por exemplo, né, então, é..., etc”. Isso é perfeitamente plausível. Os pregadores devem buscar o aprimoramento nos recursos de nosso vernáculo e das técnicas em comunicação e, principalmente, do estudo profundo das Sagradas Escrituras.


Poder-se-ia levantar um outro argumento: que o culto é enfadonho: “Sentem-se!”; “Levantem-se!”; “Leiam!”; “Orem!”; “Ouçam!” Dentro da perspectiva contemporânea onde as pessoas não conseguem se manter atentas por muito tempo, devido ao acúmulo de informações audiovisuais, isso seria aceitável, até porque o critério utilizado aqui é o do entretenimento. Até que ponto o espectador é entretido com o que está acontecendo e qual é a qualidade pirotécnica utilizada no “evento” do “culto”? Afinal de contas, “eles estão pagando”.


Destarte, todos os argumentos levantados podem ser aceitos pelo homem moderno com suas suscetibilidades, idiossincrasias e egolatrias. Contudo, um aspecto importantíssimo do culto tem sido deixado de lado: a afirmação inequívoca da presença de Deus. O culto é serviço! “O culto cristão é a expressão da alma que conhece a Deus e que deseja dialogar com o seu Criador; mesmo que este diálogo, por alguns instantes, consista num monólogo edificante no qual Deus nos fale através da Palavra”.[1] Assim como no Antigo Testamento deveríamos tirar as sandálias dos pés porque estamos na presença de um Deus santo: “Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3.5), do mesmo modo, devemos reverenciar Deus de modo santo em nosso culto, pois Ele continua sendo “fogo Consumidor” (Hb 12.29).


No segundo capítulo do profeta Habacuque, temos uma referência fantástica à soberania, à santidade de Deus e à reverência a qual devemos ter a Ele: “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). O povo de Deus tinha se corrompido de tal forma, que a idolatria era reinante. Deus, por intermédio do profeta, faz um contraste entre os ídolos feitos de madeira, pedra, barro. Eles são ídolos mentirosos, mudos e feitos pela mão humana do artífice (Hc 2.18); não existe fôlego de vida; não podem ensinar e não adianta dizer: “acorda!” (Hc 2.19), pois permanecerão inertes. “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). O ídolo precisa das mãos dos homens. Como obra de pecadores não pode gerar santidade, não exercem qualquer domínio, pelo contrário, são modelados pelo manuseio hábil do artífice; eles reluzem pureza e beleza: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior, não há fôlego nenhum” (Hc 2.19) (grifos meus). O SENHOR é santo. Tem vida em si mesmo e domínio sobre toda a terra. Na presença do SENHOR, quem fala é Ele! A terra deve emudecer ao som de sua voz. Os pecadores devem temer a presença santa de Deus, pois Ele é mais puro do que ouro e a prata. Ele é “santo, santo, santo” – essencialmente santo. A nossa reação diante de sua presença deve refletir a mesma reação do profeta Isaías: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!”( Is 6.5). Não podemos nos aproximar da santidade de Deus sem enxergamos nossa impureza.


Em nosso tempo, faz-se necessário voltarmos aos idos da Reforma Protestante (1517) e aprendermos com os nossos antepassados. Mesmo diante da imperfeição dos pregadores e, apesar dos pregadores, eles entendiam que o sermão é a Vox Dei (a voz de Deus). “A fé reformada atribui à proclamação pública da Palavra de Deus a maior importância. Na tradição reformada, a pregação é considerada como o principal meio de graça, como a tarefa primordial da igreja e do ministro da Palavra, como o elemento central do culto, como marca genuína da verdadeira igreja e como meio por excelência pelo qual é exercido o poder das chaves”.[2] A pregação é a parte mais importante do culto, pois é o momento que Deus fala com o seu povo. “A pregação não deve ser rejeitada (1Ts 5.19-21); ela deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós; recusá-la é o mesmo que rejeitar o Espírito (1Ts 4.8). O mundo por sua vez, deseja ansiosamente ouvir, porém não a Palavra de Deus (1Jo 4.5). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário ‘provar’ o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12; 1Jo 4.1-6). No entanto, nesse período de grandes e graves transformações, torna-se evidente que os homens, de forma cada vez mais veemente, querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim sendo, a palavra que deveria ser profética, tende com demasiada freqüência – mesmo assinando o seu obituário –, a se tornar apenas algo apetecível ao ‘público alvo’, aos seus valores e devaneios, ou, então, nós pregadores, somos tentados a usar de nossa ‘eloqüência’ para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a nossa ‘pregação’; o fato é que uma geração incrédula é sempre acintosamente crítica para com a palavra profética.”[3]


Quando se perde de vista o sentido do culto a Deus e da pregação de Sua Palavra, há muito mais em jogo do que se pensa, pois não podemos pegar outra sessão para ver novamente uma cena ou comprar outro ingresso para assistir outro filme, não! O momento do culto é único! A palavra que foi pregada é única! E a reverência e a consciência que devemos ter desse momento revelam muito mais que um simples gosto, revela o grau de comunhão que temos com Deus. Quando não se ouve a voz de Deus, é porque a voz do mundo tomou conta dos pensamentos.


Muitos comportamentos dentro de um cinema ou teatro podem ser definidos como falta de educação e civilidade, no entanto, dentro do culto, esses comportamentos refletem corações cauterizados, distanciados de Deus.


Essa falta de educação no culto não afronta o pregador ou o dirigente do culto, afronta a Deus, pois são atos rebeldes de rejeição ao culto e à Palavra dEle.


Vamos ao cinema? Um ótimo entretenimento para nossa vida corrida. Contudo, lembre-se: Domingo é dia de SERVIÇO, é dia de CULTO, Deus fala conosco!



Que Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo.

[1] Hermisnten M. P. da Costa, Princípios Bíblicos Reformados da Adoração Cristã, São Paulo, obra não publicada, 2008, p. 30.
[2] Paulo R. B. Anglada, Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação, Fides Reformata IV/I (jan-jun 1999), p. 150.
[3] Hermisten M. P. da Costa, A Centralidade da Pregação da Palavra no Culto, http://www.monergismo.com/textos/pregacao/centralidade_pregacao_hermisten.htm, 06/11/2004.

Comentários

Rev. Ricardo,

Concordo em genero, número e grau com as afirmações de seu post.

Engraçado que eu já percebia isso aí na Bahia, porém aqui em São Paulo isso parece ser mais forte, principalmente com os jovens.

Abraço!
Caro Alexandre,

É duro dizer isso, mas, o povo tornou comum o que é sacro. A indolência tomou conta de nossas igrejas. Em muitos lugares o pastor virou um empregado que deve falar o que as pessoas querem ouvir. O culto é um mero encontro de amigos. Não ficarei assustado se um dia venderem cachorro-quente dentro dos salões das igrejas no mesmo instante do culto. Olha o cachorro-quente ai.... já pensou?

abs,
rev. Ricardo Rios.
Rev. Ricardo,

O pior é que já imaginei sim... aliás, já vi.

Estou com um video para postar, quando o fizer, te aviso.

Abraço!
Rapaz...eu quero ver mesmo!
abs

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