sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Deus que não entra em greve


O Deus que não entra em greve

Hoje faz exatamente 11 dias de greve da Polícia Militar da Bahia. Salvador ficou em pânico! Violência em vários bairros. Atos de vandalismo. Índices alarmantes de assassinatos. Caos! Momentos como esses, onde aqueles a quem confiamos a nossa segurança entram em greve, a pergunta que fazemos é: em quem confiar?
É claro que aqui não entraremos no mérito da greve, apesar de concordarmos que a polícia e outras categorias essenciais deveriam receber melhores salários e um respeito maior dos governantes em geral. Contudo, não podemos concordar com alguns métodos que foram supostamente perpetrados por alguns grevistas.
 Concordamos com a necessidade de melhores condições de trabalho e melhor remuneração e coisas do gênero, mas os movimentos trabalhistas deveriam repensar métodos diferentes para não prejudicar a população e não infringirem a lei. Entretanto, essa discussão eu deixo para os órgãos competentes e pessoas envolvidos. A minha observação é: em momentos como esse, em quem confiar? “Se forem destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? (Salmos 11.3). 
O Salmo 11 parece nos mostrar o caminho. Davi parece ter recebido um conselho para fugir de seus inimigos, possivelmente, Saul: “No SENHOR confio; como dizeis à minha alma: Fugi para a vossa montanha como pássaro? Pois eis que os ímpios armam o arco, põem as flechas na corda, para com elas atirarem, às escuras, aos retos de coração” (Salmos 11.1, 2).
A resposta que Davi obtém é maravilhosa! Os ímpios armam o arco, as ciladas contra os justos, mas a confiança de Davi não deveria ser em suas estratégias de fuga ou em sua conhecida habilidade de guerreiro. Davi não poderia confiar em suas próprias forças, pois nos versículos seguintes diz: “O SENHOR está no seu santo templo, o trono do SENHOR está nos céus; os seus olhos estão atentos, e as suas pálpebras provam os filhos dos homens. O SENHOR prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma. Sobre os ímpios fará chover laços, fogo, enxofre e vento tempestuoso; isto será a porção do seu copo. Porque o SENHOR é justo, e ama a justiça; o seu rosto olha para os retos”  (Salmos 11.4-7).
A resposta de Deus é que ainda que os fundamentos sejam abalados, a justiça se perca de todo, os ímpios tomem conta de tudo, o Senhor está no controle! Ele não entra em greve! Ele julgará os perseguidores do justo com “fogo, enxofre”.
Sabe, ainda que pareça estranho à nossa mente, o Senhor prova o justo nesses momentos de aflição. Ele mostra que a nossa auto-segurança é frágil e ineficaz!  Nada impede que os policiais entrem em greve, que os médicos também o façam, que os professores parem de ensinar, que uma nação entre guerra com a outra, nada humano pode garantir que viveremos em paz.
As calamidades, catástrofes e o ruir dos fundamentos da sociedade pseudocivilizada são demonstrações para o homem de efemeridade e pequenez. O homem tão cheio de si, não se lembra do seu Criador, e diz: “Não há Deus” (Salmo 14.1).
Essa greve na Bahia mostrou que o sistema não garante que o cidadão poderá exercer sua cidadania com liberdade, pois todo sistema foi feito por homens e, como tais, pecadores e carentes da glória de Deus: “O SENHOR olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um. Não terão conhecimento os que praticam a iniqüidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão, e não invocam ao SENHOR? Ali se acharam em grande pavor, porque Deus está na geração dos justos. Vós envergonhais o conselho dos pobres, porquanto o SENHOR é o seu refúgio. Oh, se de Sião tivera já vindo a redenção de Israel! Quando o SENHOR fizer voltar os cativos do seu povo, se regozijará Jacó e se alegrará Israel (Salmos 14.2-7).
Graças ao nosso Deus gracioso, bondoso, santo e soberano, o seu povo não é  desamparado, pois Ele não entra em greve!  Mesmo que os pilares da sociedade sucumbam à impiedade generalizada, o Senhor diz: Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra” (Salmos 46.10).
Bom, mais uma vez é importante frisar que não nos cabe julgar a greve de maneira profunda, apenas o julgamento se relaciona com a situação da população diante dela e, principalmente, as perguntas e a resposta do povo de Deus a ela.
As perguntas são: 1) em quem ou em que você confia?  2) se o seu alicerce desabar, como você fica?
A resposta: não confie no seu arco ou sua espada (Sl 44.6), confie no Senhor, pois Ele não para de trabalhar : “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. (João 5:17)  e nunca se esqueça que Não há rei que se salve com a grandeza dum exército, nem o homem valente se livra pela muita força.
O cavalo é falaz para a segurança; não livra ninguém com a sua grande força.
Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia; Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome. A nossa alma espera no SENHOR; ele é o nosso auxílio e o nosso escudo.
Pois nele se alegra o nosso coração; porquanto temos confiado no seu santo nome. Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em Ti esperamos
.
(Salmos 33.16-22).

Deus nos abençoe e aos policiais e autoridades governantes!
Rev. Ricardo Rios Melo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Eterno e o tempo: o imediatismo da vida imediata

O Eterno e o tempo: o imediatismo da vida imediata
Rev. Ricardo Rios Melo
Antes desse arrazoado, é melhor fazermos o que Aristóteles chama de definir, pois definir é limitar. A palavra eterno, do latim aeternu, refere-se àquilo que não tem início e jamais terá fim. O eterno é o não-tempo. O que sempre existiu e sempre existirá. Abbagnano ressalta que a discussão da eternidade permeia a filosofia pré-socrática até a contemporaneidade. A palavra eternidade se divide em duas definições: 1º. duração indefinida do tempo e 2º. intemporalidade como contemporaneidade. Para Platão, “eterno é o que não era nem será, mas apenas é” (ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 379). Para Lalande, existem duas definições: “A. duração indefinida. Este sentido primitivo é o menos usado em filosofia. B. característica do que está fora do tempo” (LALANDE, André. Vocabulário técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 348).
Dentro da teologia, é pertinente o comentário de Berkhof:

“a infinitude de Deus em relação ao tempo é denominada eternidade – Sua eternidade. A forma em que a Bíblia apresenta a eternidade de Deus é simplesmente a de duração pelos séculos sem fim, Sl 90. 2; 102, 12; Ef 3.21. Devemos lembrar, porém, que ao falar como fala, a Bíblia emprega a linguagem popular, e não a linguagem da filosofia. (...) A eternidade, no sentido estrito da palavra, é adstrita àquilo que transcende todas as limitações temporais. Que o termo se aplica a Deus nesse sentido é ao menos ensinado em 2 Pe 3.8. ‘ o tempo, diz o dr. Orr, ‘estritamente falando, tem relação com o mundo de objetos existentes em sucessão. Deus preenche o tempo; Ele está em cada partícula dele; mas a Sua eternidade, todavia, não é realmente este estar no tempo. É, antes, aquilo com o que o tempo forma um contraste’. Nossa existência é assinalada por dias, semanas, meses e anos; não é assim a existência de Deus. A nossa vida se divide em passado, presente e futuro, mas não há essa divisão na vida de Deus. Ele é o eterno ‘Eu Sou’” (BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, LPC, 1998, p. 63).
A palavra imediato vem do latim mediattu e significa: rápido, instantâneo; ou seja, no tempo e bem rápido.
Essas duas palavras se cruzam no tempo da vida imediata. Será que existe eternidade? Se não existe, por que discuti-la? E, se existe, como vivê-la? Antes de respondermos essa indagação, vamos nos perguntar o porquê de o homem finito, temporal, ter parado pela primeira vez no tempo para pensar no não tempo. Essa questão poderá nos trazer várias respostas antropológicas, filosóficas, sociológicas e até psicológicas. Contudo, acho que a mais consistente e contundente é essa: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11).
A eternidade foi cravada no coração do homem assim como a lei de Deus e o senso divino (Rm 2.14,15). O texto de Eclesiastes faz uma comparação da brevidade do homem e do tempo em comparação com a sabedoria e a eternidade de Deus. O Deus do tempo é atemporal. O homem vive no tempo e é limitado a ele.
O que nos chama atenção é como o homem finito, temporal e efêmero, passou a indagar sobre o não-tempo? Parece-nos que a semente divina colocada no homem, fez com que ele não só indagasse a existência de um Deus, mas também, a sua própria existência. A própria matemática tem um conceito intrigante, a idéia de + ∞ (infinito) e - ∞ (infinito). O homem finito pensando no que não tem fim.
Os orientais pensam na imortalidade da alma e na reencarnação tanto de modo progressivo (evolução de um estado ao outro) como regressivo (o homem pode regredir em sua nova reencarnação). Os egípcios pensaram na imortalidade da alma e que o corpo dos faraós deveriam ser preservados para que, quando eles voltassem, tivessem um corpo para habitar. O espiritismo ocidental fala de reencarnação e, sendo mais desenvolvido no período da teoria da evolução, entende que o homem tende a evoluir a cada encarnação. O cristianismo fala de vida eterna somente concedida em Cristo. Para o cristianismo, após a morte, vem o juízo: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” ( Hb 9.27 ). Contudo, para aqueles que crêem em Cristo, já passaram da morte para vida: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Os homens não enfrentam bem a idéia do fim de sua existência e da própria morte, pois a “eternidade” está em seus corações e, segundo as Escrituras, a morte passou a todos os homens em Gn 3.
Pensar na eternidade e efemeridade da vida não deveria ser coisa apenas de filósofos ou teólogos. Quando nos deparamos com a afirmação de Paulo em 1 Co 15.12-19, percebemos que isso é uma questão prática da vida: “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”.
A doutrina da ressurreição fala da eternidade; que a vida não se resume ao imediatismo diário. Paulo de maneira bastante realista avalia o pensamento do homem de sua época e, por que não dizer, do homem pós-moderno. A vida resumida a prazeres efêmeros é passageira e, nos dizeres de Paulo, infeliz.
No pragmatismo moderno e na vida fast food, pensar na eternidade parece distante e sem sentido. Contudo, é pertinente lembrarmos que a vida terrena é passageira. O imediatismo contemporâneo faz-nos esquecer que a vida é passageira, pois tudo é tão rápido que não se tem tempo para pensar. Contudo, se pedires a tua alma hoje, o que você terá para dar em troca? “E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstrui-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12. 16-20).
O homem contemporâneo vive o imediatismo da vida como se fosse eterno, mas, sem pensar na eternidade. Ele sabe que a felicidade terrena é efêmera, mas vive como se ela fosse eterna. Ele eternizou o imediatismo. O próprio amor, como dizia o poeta, deve ser “eterno enquanto dure”.
Destarte, viver intensamente a vida imediata e tentar eternizar o efêmero não salvará o homem da pergunta: “e o que tens preparado, para quem será?”
Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24)
Que o Deus eterno nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

sábado, 26 de novembro de 2011

A Anomalia da Normalidade


A Anomalia da Normalidade

O que é normal? O que se entende por normalidade é aquilo que a maioria, ou seja, 51% das pessoas aceitam como normal. Portanto, o que em uma cultura é normal, em outra, pode ser considerado como anormal – ou, na cultura do politicamente correto, uma coisa é aceitável ou não, segundo o costume, época, região etc.

Entre as comunidades indígenas é comum (normal) o infanticídio. É normal crianças serem enterradas vivas porque nasceram com necessidades especiais. Para muitas tribos, inclusive no Brasil, como é o caso dos índios xinguanos, “ninguém pode depender de outra pessoa para viver” (http://www.cenargen.embrapa.br/publica/trabalhos/cot125.pdf). Os gêmeos também são sacrificados, pois segundo a crença indígena, um é mal e outro bom, mas, como não há como saber quem é o bom ou o mal, sacrificam-se os dois. Mães solteiras ou cujo “casamento” não deu certo também sacrificam a criança para que elas não cresçam sem o pai. As crianças albinas entram no mesmo caso das gêmeas (http://www.cenargen.embrapa.br/publica/trabalhos/cot125.pdf).

Criticar esse tipo de prática é considerado por alguns intelectuais de etnocentrismo. O que devemos entender, segundo esse grupo intelectual, é que uma cultura não deve olhar para outra com altivez; não se deve julgar a cultura alheia com a ótica de nossa cultura. O que é normal para você pode ser anormal para eles. Portanto, julgar é proibido.

Quando entendemos que é a cultura que determina o que deve ser normal, muitos problemas encontram solução e outras dificuldades aparecem: nem tudo que foi normalizado é correto fazer. No direito, se separa normal jurídico de normal moral: “Alguns autores afirmam que o Direito é um sub-conjunto da Moral. Esta perspectiva pode gerar a conclusão de que toda a lei é moralmente aceitável. Inúmeras situações demonstram a existência de conflitos entre a Moral e o Direito. A desobediência civil ocorre quando argumentos morais impedem que uma pessoa acate uma determinada lei. Este é um exemplo de que a Moral e o Direito, apesar de referirem-se a uma mesma sociedade, podem ter perspectivas discordantes” (José Roberto Goldim, http://www.ufrgs.br/bioetica/eticmor.htm).

Na cultura pagã do primeiro século, era comum (normal) a pedofilia. “É sabido que em certas populações, em algumas épocas históricas, uma forma de pedofilia era permitida e podia até assumir um caráter ritualístico institucionalizado. Na Grécia era freqüente uma relação sexual entre homens adultos e adolescentes, dentro de uma experiência de crescimento espiritual e pedagógico. Enquanto o amor homossexual pelo adolescente era permitido, ao contrário era punida a homossexualidade promíscua com caráter pornográfico ou mercenário. Da mesma forma eram severamente punidas as relações sexuais com as crianças impúberes. De fato na relação amorosa a idade da criança não devia ser inferior aos 12 anos” (Franco De Masi, http://www.febrapsi.org.br/publicacoes/artigos/capsa2008_franco1.doc.).

Para os cristãos, a definição de normal está ligada intimamente ao que é moral segundo a Bíblia. Portanto, muitas coisas que são consideradas normais na cultura são consideradas como pecado e anormais para o crente.

Outras definições interessantes trazidas pela Bíblia: a ligação do normal com o natural, no sentido de a natureza para a qual o ser humano foi feito (Rm 1. 18-32); o que é honroso e desonroso (1 Co 11.14) também visto, por exemplo, por Paulo em sua carta aos Coríntios. No contexto da carta, para um leitor atento, é claramente distinto o que é cultural e o que é princípio moral (bíblico).

Muitas vezes, o costume de uma época está intimamente ligado ao pecado. Consequentemente, o que se considera normal para algumas culturas, é pecado para Bíblia. O vestuário e o corte de cabelo em Corinto não eram apenas um modismo, mas caracterizava uma prática cúltica pagã e imoral.

“Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não sejais participantes com eles” (Ef 5.3-7).

Cuidado, pois nem tudo que é normal é moral!

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo