sábado, 7 de abril de 2018

Uma igreja relevante


Uma igreja relevante

Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja tradicional perdeu sua relevância. Perdeu seu papel na sociedade. A questão inicial é que a relevância da igreja é essencial, substancial. Ela procede inequivocamente do desejo de Deus de construir sua igreja. Portanto, sua relevância procede de Deus.
Para não ser leviano, devemos admitir que o que a teologia da missão integral e afins querem dizer é que a instituição humana igreja (como denominação humana) perdeu sua eficácia na sociedade.
Em artigo bastante instigante, o diretor de programas da Visão Mundial, Maurício J.S. Cunha, nos faz a seguinte pergunta:

Uma pergunta que cabe a todos nós, especialmente aos líderes eclesiásticos é: se sua igreja, num piscar de olhos, desaparecesse da comunidade onde está inserida, o que a comunidade ao redor ia achar disso? Infelizmente, a resposta sincera a esta pergunta denunciaria a quase completa irrelevância de grande parte das comunidades cristãs, quando não um testemunho comunitário negativo. Será esta a nossa vocação? Devemos nos contentar com esta situação? Uma igreja relevante é assim reconhecida pela comunidade onde está inserida. (Cunha, Maurício J.S; http://ultimato.com.br/sites/paralelo10/2009/09/igreja-relevante-parte-i/ - acesso 06/04/2018).
Percebam que a pergunta é extremamente perturbadora. Ela nos remete, no mínimo, a duas perguntas existenciais: 1. Quem somos; 2. O que fazemos.
 Biblicamente, a igreja tem o sentido de assembleia de pecadores que foram chamados e redimidos em Cristo.  Em outro arrazoado, já foi tratada a significação da ideia de igreja:

Nas Escrituras, a palavra igreja está associada a grupo, assembleia, corpo, reunião de pessoas. O apóstolo Paulo diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça: 1 Co 12,27; Ef 3.6;  Ef 4.12,16; Cl 1.18; 2. 19. O Novo Testamento tem no mínimo 73 citações diretas e 74 indiretas com o nome igreja. Como não existe exército de um homem só, não existe igreja de um homem só.  Eu não sou a igreja. Você não é a igreja, mas nós juntos somos a igreja. Igreja implica conjunto e pluralidade. A Bíblia afirma categoricamente que foi pela igreja que Cristo, vero homem e vero Deus, morreu: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”  20:28.
Muitos confundem igreja com prédio. É verdade que a igreja não está vinculada a um prédio ou edifício de tijolo. Nós somos os tijolinhos de Cristo. Separados somos tijolos, juntos somos o edifício que Deus está formando sobre o fundamento, a Rocha que é Cristo. Parafraseando uma ilustração que ouvi de Joel Beeke, a igreja assemelha-se a uma grande construção: há pregos soltos, entulho, vigas, paredes sem reboco, escadas, andaimes, pouca coisa leva a acreditar que aquela obra empoeirada será um lindo edifício. Contudo, mesmo no meio de tudo isso, Cristo está edificando sua igreja. O noivo vê sua noiva linda e majestosa, imaculada, sem rugas: “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” Ef 5:27. (Melo. Ricardo Rios, http://arrazoar.blogspot.com.br/2014/08/o-crente-nao-praticante.html , acesso em 06/04/2018).

Vamos discutir o que somos e o que fazemos. Quem define o que somos é o próprio Deus. Somos o corpo de Cristo. A igreja é a noiva de Cristo e tem sua relevância proposta pelo próprio Deus. O que fazemos? Somos chamados para adoração ao nosso Deus. O nosso Catecismo Maior de Westminster nos diz em sua primeira pergunta: “1. Qual é o fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.24-26; Jo 17.22-24.
O objetivo da igreja é prestar culto público, solene e culto individual dos que foram chamados das trevas para luz. Sendo essas perguntas respondidas de maneira sucinta, devemos nos perguntar: se a Igreja Presbiteriana Memorial da Barra, que completa 29 anos de existência, fechasse as portas hoje, que falta ela faria nesse bairro e na cidade de Salvador?
A resposta tem dois fatores: o fechamento de uma igreja em determinado lugar significa, em última instância, juízo de Deus ao seu povo, no sentido de que Deus está disciplinando seu povo e, de maneira indireta, enviando juízo para as pessoas que moram nessa região, pois Deus os entregou às trevas.
É claro que essa observação está no âmbito da essência da expressão igreja, e não na instituição humana. Contudo, Deus manifesta sua vontade espiritual na realidade humana. Países em que o Evangelho não pode ser pregado são países que estão debaixo do juízo de Deus.
Quando uma igreja que é fiel e que se mantém depositária da fé, que de uma vez por todas foi entregue aos santos, é fechada em algum lugar, isso significa juízo de Deus para aquele local. Mas, quando uma igreja infiel é fechada, é juízo para o povo de Deus.
Em um momento de alegria que vivemos pelo aniversário da igreja que faz 29 anos, precisamos nos perguntar no sentido bíblico: estamos sendo uma fiel depositária da fé? Estamos pregando o evangelho da graça? Estamos firmes no propósito de nos mantermos santos em um mundo caído? Essa resposta tem sido respondida positivamente ao longo do tempo de existência da igreja Presbiteriana Memorial da Barra.
O evangelho não foi negociado e vidas têm sido edificadas nesse local. Defeitos, erros, pecados acontecem na nossa trajetória, mas o arrependimento e a busca por andar fielmente por Deus tem sido a marca de nossa Igreja.
Portanto, voltando à pergunta da relevância, a resposta é que a igreja não tem dentro do seu papel principal ser conhecida em um bairro pela sua ação social, mesmo que isso seja importante. A igreja não tem sua relevância em seu papel civil nas lutas contra as injustiças sociais, mesmo que isso também tenha sua relevância. O papel da noiva é se apresentar ao noivo em fidelidade.
Em Atos, Lucas nos revela alguns aspectos interessantes: louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” At. 2.16, 47. Lucas revela que a igreja crescia, mantinha-se firme na doutrina dos apóstolos e, nesse versículo específico, diz que a igreja louvava a Deus e contava com a simpatia do povo.
A expressão simpatia (χαρις charis) significa graça, aquilo que dá alegria, deleite, prazer, doçura, charme, amabilidade. Lucas revela que a igreja contava com a simpatia. Não existia ainda oposição à igreja: “Os cristãos não enfrentam ainda nenhuma oposição da parte do povo judeu em geral, nem de seus líderes religiosos em particular. A vida deles é exemplar, de forma que, por meio de sua conduta, eles podem conduzir outros a Cristo”[1].
O livro de Atos nos revelar que essa simpatia inicial dos judeus, paulatinamente, vai se transformando em oposição. Portanto, parece que a ênfase de Lucas está no procedimento santo da igreja e não na influência social ou cultural. Lucas trabalha com a tese de que Deus está guiando a igreja e acrescentando os seus. O Espírito Santo está dirigindo sua igreja.
Portanto, usar esse texto como uma regra a seguir, no sentido de que sempre a igreja terá a simpatia da sociedade, é uma falácia; pois a oposição ao Evangelho é algo que deve ser esperado.
Isso também não significa que temos que contar com a antipatia do povo. Mas, não devemos criar uma tese de que a igreja precisa ser aceita pela sociedade.
Dito isso, pensemos nesses 29 anos dentro do propósito principal da igreja: adoração, proclamação, edificação, santificação. É muito bom sermos reconhecidos e respeitados pelos nossos vizinhos. É imperativo que tenhamos bom testemunho, contudo a nossa essência é determinada por Deus e seu propósito para igreja.
Não é a sociedade que dirá se somos relevantes ou não. A Genebra de Calvino não mudou por conta de suas ênfases sociais. Sua relevância na vida social veio da redescoberta da essência cúltica da igreja.  
Enquanto a IPB Memorial da Barra estiver no propósito santo de Deus para sua igreja, seremos relevantes, pois continuamos sendo igreja. A igreja só deixa de ser relevante quando ela deixa de ser igreja.
Se a Igreja Memorial saísse do nosso bairro, o que aconteceria? Espero que, a essa altura, você saiba a resposta.

Feliz aniversário, IP Memorial da Barra!
Rev. Ricardo Rios Melo







[1] Kistemaker, S. (2016). Atos. (É. Mullis & N. B. da Silva, Trads.) (2a edição, Vol. 1, p. 152). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Corpos descartáveis: uma breve análise de uma sociedade perversa

Corpos descartáveis: uma breve análise de uma sociedade perversa
Rev. Ricardo Rios Melo

Estamos em fevereiro ainda, mas já passou o carnaval. Carnaval, para algumas pessoas, é sinônimo de “pegação”. Pegação é uma gíria popular para “azaração”, que é outra gíria para “ficar” que significa ter relações sexuais com pessoas estranhas ou conhecidas sem compromisso.
 A ideia é simples: beijar e se agarrar com desconhecidos e, se possível, fazer sexo “seguro” sem a segurança de que depois ficarão juntos para sempre. Aliás, juntos para sempre é démodé para esse grupo.
Olhando os programas dos canais fechados ou abertos da televisão, é nitidamente comprovado que o sexo saiu do antigo tabu para a banalidade. Muita gente faz sexo como um compulsivo por doces chupa uma bala e descarta o papel. Não se tem critério algum.
Aplicativos de encontros foram criados para pessoas que querem o famoso sexo casual: sem compromisso. Casais casados (nos moldes antigos) estão aderindo ao relacionamento aberto com consentimento ou não. Há até acusações, não sei se fundamentadas ou não, sobre um possível incesto no Big Brother Brasil. Incesto em alguns países e pelo pensamento de esquerda evolucionista é uma construção judaico-cristã.
Estamos caminhando para uma sociedade onde as famílias tradicionais são questionadas e atacadas, pois fazem parte de um velho mundo de velhos tabus, dizem os adeptos do culto ao sexo. A ordem é: quebrar com tudo o que é antigo, sagrado, fechado e, segundo eles, arcaico.
A antiga psicanálise, que também é muito combatida por diversos grupos, diz que a estrutura perversa é aquela que se fixa no objeto e não no todo. Ela tem fixação pela parte. Um exemplo prático é o fetichista que só consegue encontrar prazer em uma parte do corpo do outro. Um pedólatra, exemplificando, só consegue ter prazer se o pé do outro tiver atrativos para ele. O sadomasoquista só encontra prazer torturando; o masoquista, sofrendo, e assim por diante.
A psicanálise freudiana distingue o fetiche dos fetichistas da seguinte forma: o neurótico brinca com o fetiche, mas consegue ter prazer sem ele. Mas, o perverso da psicanálise só tem prazer se o elemento fetichista estiver no jogo. Portanto, o neurótico pode ter relações sexuais sem que alguns elementos fetichistas estejam presentes, mas o perverso não consegue ter uma relação prazerosa sem o fetiche.
A perversão dentro da psicanálise é considerada o obscuro do ser humano. Para termos uma ideia, o sociopata também está enquadrado na estrutura perversa. O sociopata vê o outro como um objeto descartável. Ele só pensa no seu prazer egoísta. Não há cuidado, interesse ou compaixão pelo outro. O outro só existe para satisfazer seus desejos.
O conceito de perversão da psicanálise se enquadra bem no que estamos vivendo: sexo sem compromisso e indiscriminado, banalizado, mulheres e homens mostrando seus corpos nus ou seminus, sexo explícito em programas de televisão, jovens e adultos mostrando suas fotos nuas em aplicativos, pessoas de todas as idades que não veem problema em filmarem suas relações íntimas e postarem na internet. Parece que rejeitaram o Deus cristão e abraçaram o deus romano Baco.
Um passeio pelas ruas de Salvador depois do carnaval é uma visão tétrica: preservativos nas ruas, cheiro insuportável de urina e fezes, pessoas ainda na quinta-feira jogadas no chão totalmente embriagadas. Homens e mulheres desfilando quase nus perto do Farol é uma cena normal para uma sociedade adoradora de Baco.
Para o perverso, o corpo é descartável. Ele só tem sentido no prazer imediato e transitório. Esse arrazoado pode ser erroneamente criticado como moralista religioso. Bom, não nego meus óculos cristãos reformados de enxergar a realidade. Contudo, espero que você reflita que uma relação amorosa é mais que o entrelaçar de corpos, mas é um entrelaçamento de almas.
O corpo só tem o direito de ter prazer se a alma participar, pois sem a alma ele estaria morto. O ser humano é um todo unificado, portanto o que você faz com seu corpo reflete para eternidade.
Usar o outro como um chiclete que quando perde o gosto se cospe fora, não foi o propósito de Deus para a sexualidade humana. Deus deu o prazer ao ser humano para ser usufruído dentro dos seus princípios. Pensem, poderíamos ser como animais no cio que copulam apenas para procriarem. Contudo, Deus nos deu prazer e colocou em nosso coração o amor.
Poderíamos ver tudo em preto e branco, mas vemos cores. Poderíamos não sentir gosto algum, mas Ele nos deu paladar. Poderíamos ter apenas uma relação fútil, fugaz, descartável, mas Ele nos deu a capacidade de amar.
Essa capacidade de amar não se encontra nos perversos, pois eles só conseguem amar a si mesmos. São ególatras e usam os outros para seus fetiches.
Querido leitor, vá além do que estou dizendo! Pensem nessa sociedade descartável. Os valores estão virando descartáveis e relativizados; e o outro, usando uma palavra que pedagogos gostam de usar, coisificados. A objetização do outro é um rumo sem volta.
Quando pensamos que o outro só existe para os nossos prazeres, perdemos a ideia do coletivo, do próximo e da sociedade.
Quando olhamos para outro como algo e não como alguém, estamos caminhando para o fim da sociedade. Pois, para sermos uma sociedade, é necessário respeito mútuo e apreço pelo outro. A utilização do outro para nossos prazeres egoístas é como um psicopata que descarta um corpo em uma vala qualquer.
As mulheres que lutaram por respeito são despersonalizadas por músicas cantadas e compostas por mulheres – foram partidas, despedaçadas e reduzidas à uma parte do corpo ou partes do corpo. Músicas que apelam para exposição do corpo e insinuação de sexo são ovacionadas por uma sociedade do descarte, da desova.
Essa é uma sociedade do desejo, do desejo pessoal e da fome de satisfação canibal. “Hannibal”[1] com toda sua poesia não poderia ser mais sádico do que isso: usar e descartar. Ao menos “Hannibal”, com toda sua loucura canibal, buscava alimentar-se das qualidades do outro. Essa sociedade quer apenas o invólucro, o corpo sem qualidades, sem alma, sem personalidade, apenas um corpo descartável na Bahia sem santos, no Rio sem o Cristo, no mundo sem o Redentor.

 “Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Rm 12:1

Rev. Ricardo Rios Melo






[1]Hannibal Lecter é um célebre personagem de ficção criado pelo escritor Thomas Harris, que apareceu pela primeira vez no livro Dragão Vermelho, de 1981. No cinema, Hannibal estreou no filme Manhunter, de 1986, interpretado por Brian Cox, mas, foi apenas no filme O Silêncio dos Inocentes, de 1991 que a personagem, desta vez interpretado por Anthony Hopkins, ficou famoso. Mais três filmes e três livros sobre o médico canibal foram produzidos” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannibal_Lecter - acesso em 17/02/2018).

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