sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O crente não praticante

O crente não praticante
Rev. Ricardo Rios Melo



É muito comum você perguntar a uma pessoa sobre sua religião e, caso ela não tenha outra religião, ela responde: sou católico não praticante. Isso significa que ela foi batizada em sua infância no catolicismo Romano, mas não frequenta a igreja e, muito provavelmente, não prática os dogmas católicos em sua vida.
Essas pessoas, invariavelmente, vão à igreja apenas em eventos como batismos, casamentos e velórios. Possuem crenças místicas justiçáveis dentro do seu pensamento e são sempre otimistas e condescendentes com os seus erros disparando grandes frases: “Deus é pai não, padrasto”; “Deus é grande”. São verdades ditas no vácuo.
Desastrosamente, nas últimas décadas, tem surgido uma nova modalidade: os crentes não praticantes. Não estou falando diretamente do movimento dos “desigrejados”, pois esses formam uma igreja sem igreja e não são o foco desse arrazoado.  Eu me refiro aos que dizem pertencer a uma igreja, contudo não são frequentadores dela. Eles são os crentes não praticantes. Eles aparecem, como diz o adágio popular, “de caju em caju”.  Quando indagados, dizem que estão firmes em casa assistindo programas evangélicos. É o famoso crente Geninho[1]: temos que adivinhar e procurar muito até o fim para o acharmos. Ele se mistura facilmente com as cores do mundo.
Esse grupo, quando ora, é na hora do almoço e, quando a coisa aperta, em situações extremas de doenças ou dificuldades financeiras. São místicos também e sempre acham que no final tudo dará certo: afinal de contas, dizem eles, “Deus é grande”.  Eles não leem a Bíblia e confundem Sofonias com sinfonia (se você não entendeu a piada, precisa ler a Bíblia). 
Alguns desses crentes nominais, quando vão à igreja, escolhem apenas um turno para fazer sua fezinha ou sua parte: se acordam sempre cedo, escolhem ir à igreja pela manhã, pois não será nenhum sacrifício – já estão acordados mesmo! O período da noite eles deixam para seus afazeres ou sua diversão. Não pretendem sacrificar seu domingo indo DUAS vezes ao culto.  Isso é fanatismo, diria um crente nominal ou não praticante. São adeptos da lei do menor esforço quando se refere à igreja.
Se não vão pela manhã, pois estão dormindo, descansando da farra do sábado ou da semana puxada, irão à noite, pois querem uma programação mais leve, desde que o culto termine cedo. Aliás, geralmente, chegam bastante atrasados (isso infelizmente não é uma característica somente desse grupo).
É claro que há pessoas que, por motivo de força maior: doença, idade, casado com não crentes, trabalhos essenciais como médicos plantonistas da área de saúde de modo geral, não podem ir aos dois turnos. Entretanto, para o crente não praticante, a prioridade ou o serviço emergencial é ele mesmo. Sempre tem algo que ele deixou inadiável para o domingo.
Esses crentes nominais estão sempre cansados e ocupados para a obra do Senhor. Não procurem eles, pois sempre estarão ocupados. Alguns desses viajantes da fé estão sempre de férias – férias da igreja. Alguns até são dizimistas fiéis, pois conferem ao dízimo um poder místico: “quando eu dou o dízimo, sempre eu ganho mais no mês”.
Esses crentes ficam irritados quando descobrem que, há muito, seus nomes foram excluídos do rol de membros, pois o conselho fez o seu dever de casa e atualizou o rol.  Eles bradam logo: “domingo passado eu estava aqui” – só esqueceram de dizer o ano. 
Há dentro desse grupo aqueles que são crentes nominais, todavia querem ser “desigrejados” ou pior ainda: eles são a igreja.  São aqueles queridos amigos que pregam, até leem a Bíblia, oram, fazem apelo a si mesmos, mas não veem nenhum sentido em congregar como a Bíblia fala. Em uma linguagem do futebol: “cobram o escanteio e correm para área para cabecearem a bola”.  Esses são os críticos de plantão: o pastor não presta, o sermão não presta, a igreja não presta, ninguém presta, ou melhor, só ele presta. Ele é a autoridade para julgar todos os demais. Esse crente nominal é diferente. Ele é perigoso! Pretende difundir sua ideologia “igreja” a outrem, mas sem responsabilidade com o outro. Eles se julgam maduros e superespirituais. Estão sempre prontos para apontar os problemas da igreja e justificar suas ausências: “todos os domingos o pastor prega a Bíblia”,  “essa é a interpretação dele”, “para quê ir a igreja se eu penso diferente”, “a igreja é ideologia dos homens, Deus não instituiu igreja” , “o importante é o amor ao próximo”.
Nada está bom para o crente nominal (não praticante). Ele afunda uma igreja em segundos e funda sua própria igreja e regras: “eu não preciso disso para ser crente”; “eu penso que a igreja dever ser...”.
O problema é que Jesus veio para salvar a igreja. Os “desigrejados” e os crentes virtuais terão que responder ao Noivo o motivo de não gostarem do seu nome: igreja (noiva). Terão que responder o motivo de não concordarem com as regras que o Noivo lhes impôs inspirando as cartas pastorais e, inclusive, mostrando princípios litúrgicos. Por qual motivo o Senhor daria princípios litúrgicos comunitários se não existisse igreja?
Os crentes não praticantes (nominais), foco desse arrazoado, terão que enfrentar o noivo e responder o motivo de não vigiarem e não esperarem o noivo com a lâmpada acesa: “Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo.  Cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes.  As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo;  no entanto, as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas.  E, tardando o noivo, foram todas tomadas de sono e adormeceram.  Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!  Então, se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas.  E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o.  E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta.  Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.  Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora “ (Mt 25.1-13).
Nas Escrituras, a palavra igreja está associada a grupo, assembleia, corpo, reunião de pessoas. O apostolo Paulo diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça: 1 Co 12,27; Ef 3.6;  Ef 4.12,16; Cl 1.18; 2. 19. O Novo Testamento tem no mínimo 73 citações diretas e 74 indiretas com o nome igreja. Como não existe exército de um homem só, não existe igreja de um homem só.  Eu não sou a igreja. Você não é a igreja, mas nós juntos somos a igreja. Igreja implica conjunto e pluralidade. A Bíblia afirma categoricamente que foi pela igreja que Cristo, vero homem e vero Deus, morreu: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue 20:28.
Muitos confundem igreja com prédio. É verdade que a igreja não está vinculada a um prédio ou edifício de tijolo. Nós somos os tijolinhos de Cristo. Separados somos tijolos, juntos somos o edifício que Deus está formando sobre o fundamento, a Rocha que é Cristo. Parafraseando uma ilustração que ouvi de Joel Beeke, a igreja assemelha-se a uma grande construção: há pregos soltos, entulho, vigas, paredes sem reboco, escadas, andaimes, pouca coisa leva a acreditar que aquela obra empoeirada será um lindo edifício. Contudo, mesmo no meio de tudo isso, Cristo está edificando sua igreja. O noivo vê sua noiva linda e majestosa, imaculada, sem rugas: “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeitoEf 5:27.
É interessante notar que muitos dão o argumento de que, antigamente, os irmãos se reuniam de casa em casa e que, portanto, agora não precisam de igreja. Isso é uma bobagem sem tamanho, pois as igrejas que estavam nas casas eram igrejas estabelecidas com liderança: presbíteros e diáconos. A ênfase não é no local, mas em como essa igreja era instituída.  O espaço é pequeno para mostrar, por exemplo, as cartas dirigidas às igrejas. É só ler as cartas paulinas. Atos dos apóstolos.  Leiam também Apocalipse e vejam as cartas às igrejas. 
Destituir a importância da organização igreja no sentido do Antigo ou Novo Testamento é destruir os princípios e propósitos divinos. Podemos discutir formas de governo, liturgias, local etc. Podemos não concordar, criticar e até condenar os desmandos e escândalos que acontecem em vários arraiais cristãos. Contudo, não podemos “desigrejar” a Bíblia e muito menos fazer da crença uma mera ideologia ou museu. Os “desigrejados” e os nominais terão que responder a O Cabeça e  a O Noivo que é Cristo.
O maior problema do crente nominal é que o seu nome poderá não constar no Livro da vida, pois o Senhor é claro: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7.21).
O entendimento equivocado da demora do Senhor em voltar gera nos desavisados a falsa sensação de que o Senhor não voltará mais. Portanto, há uma letargia assolando a igreja.
Sempre é bom lembrar as palavras do Senhor por intermédio do apostolo Pedro: Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” ( 2. Pe 3, 9,10).
Querido leitor, tenha cuidado, pois se nós fossemos abençoados pelo compromisso que temos com o Senhor, ou se o Senhor estivesse presente em nossa vida com a frequência que O temos buscado, estaríamos perdidos!
Essa crise dos crentes nominais e dos “desigrejados” já era um problema na era apostólica, não é à toa que o Espírito inspirou o autor aos Hebreus ao dizer: Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima Hb 10:25

Os crentes não praticantes são mestres na prática da desculpa. Para esses o Senhor adverte: “e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos. Ora, ouvindo tais palavras, um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. Ele, porém, respondeu: Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar. Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa. Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia”  (Lc 14. 14-24).
Alguém poderia objetar, “então você quer dizer que, para uma pessoa ser salva, ela precisa estar na igreja? Exato! Isso não significa denominação. Significa que você precisa pertencer ao corpo de Cristo. É preciso permanecer na doutrina dos apóstolos e na comunhão dos santos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2:42). Você precisa pertencer à igreja visível, pois a igreja invisível, aquela que somente o Senhor conhece, ele é manifestada na igreja visível. Mesmo que dentro dessa igreja visível haja joio, o Senhor recolherá seu trigo de cada igreja visível e cortará o joio: “Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo;  mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.  E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?  Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio?  Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro(Mt 13. 24-30).
Termino com a nossa Confissão de Fé de Westminster:
XXV.1- A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas. Ref.: Ef 1. 10,22,23; Cl 1. 18; Ef. 5. 23,27,32.  
XXV.2- A Igreja visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião 1, juntamente com seus filhos 2; é o reino do Senhor Jesus 3, a casa e família de Deus 4, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação 5. Ref.: 1- I Co 1.2; I Co 12. 12,13; Rm 15. 9-12. 2- Gn 17.7; Gl 3. 7,9,14 cf Rm 4; At 2.39; I Co 7. 14; Mc 10. 13-16. 3- Mt 13. 47; Cl 1. 13; Is 9. 7. 4- Ef 2. 19. 5- Mt 28.19; At 2.38; I Co 12.13; Mt 26. 26-28.
Deus converte os seus!
Rev. Ricardo Rios Melo



[1] Personagem de um antigo desenho animado chamado She-Ha onde ao final do episódio as crianças tinham de encontrá-lo no meio do desenho. O detalhe era que o colorido dele parecia com o cenário, ou seja, era muito difícil encontrá-lo. 

sábado, 2 de agosto de 2014

Identidade

Identidade
Rev. Ricardo Rios Melo


Quando alguém pede a você que apresente sua identidade, imediatamente você entrega seu Registro de Identidade (RG) que contém o nome do pai, da mãe, data de nascimento, nome completo e número do registro, foto, naturalidade etc. Esse documento assevera que você não é um indigente. Garante passagem livre em determinados ambientes. Entretanto, esse documento não diz quem você é de fato. É um documento que aponta para uma faceta sua como persona civil: cidadão. Não diz o que você sente ou o que pensa. Mas, sem ela, você é um indigente.
As questões psicológicas que envolvem uma identidade são muito profundas e intricadas em um emaranhado psíquico e pessoal, individual, subjetivo: próprio do Sujeito. Vejamos a luta de pessoas para obterem um registro de nascimento ou o reconhecimento de seus pais. No Brasil, há uma evolução nesse processo com a gratuidade do exame genético de paternidade.  Alguns dos pais que foram obrigados a reconhecerem seus filhos genéticos, jamais serão pais legítimos emocionalmente. Contudo, isso não tem impedido que os filhos busquem desatar seus “nós” psíquicos com esse reconhecimento.
As empresas também possuem identidade visual. Elas querem ser reconhecidas pelos seus símbolos. Mas, dentro desse símbolo, existe um significante: um sentido dado ao significado do símbolo, a realidade à qual o símbolo aponta; uma marca não é marca se não transmitir um conteúdo, uma mensagem, um valor. É o caso das marcas de luxo: “Enquanto os produtos de consumo corrente correspondem a benefícios de tipo funcional, as marcas de luxo remetem a benefícios simbólicos e, cada vez mais, a benefícios ditos ‘experienciais’, isto é, que implicam, no cliente, uma busca de experiências de emoções fortes excepcionais. A imagem de uma marca corresponde, então, ao conjunto das associações estocadas na memória do consumidor” (LIPOVETSKY, Gilles, O Luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas, São Paulo: Companhia das Letras , 2005, p. 136).
A identidade poderia nos remeter à ideia de pertencimento, contudo, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, “(...) ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda vida, são bastante negociáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age - e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’.” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 17).
As igrejas, por incrível que possa parecer, possuem também uma identidade, um registro com data, nacionalidade. Com significado e significante. Contém a ideia de pertencimento, mas, como Bauman fala, é preciso uma determinação firme a tudo isso.
A Igreja Presbiteriana do Brasil nasceu em 12 de agosto de 1859. Ela tem uma herança genética reformada. Oriunda dos reformados que são caracterizados pelo sistema calvinista de enxergar a realidade e a doutrina de modo geral. Nosso regime também nos caracterizar: governo de presbíteros.  No dia 12 desse ano (2014), a igreja fará 155 anos de história. Existe um DNA da igreja. Pode-se levantar sua paternidade.  Entretanto, essa paternidade não é como o caso brasileiro, onde muitos pais não querem reconhecer seus filhos e são obrigados a reconhecer judicialmente. Na paternidade reformada brasileira, parece existir aquilo que os psicanalistas chamam de caso histérico: destituição de autoridade. Em outras palavras, são os filhos que não querem se reconhecer como filhos no sentido da obediência ou da autoridade. É a destituição das autoridades.  Muitos estão rebeldes a essa filiação. Não reconhecem os marcos históricos e a sua identidade e, muito menos, seu pertencimento. Não há uma determinação firme em permanecer filho.
Há uma tentativa geral em destituir o mestre. Assim como na sociedade há um esvaziamento da autoridade e da origem, muitas igrejas estão entrando nessa histeria teológica.
Recentemente, uma tentativa de alterar um nome de determinada igreja gerou tamanha polêmica que precisou ser discutido o assunto. O que chama a atenção não é a mudança de nome em si, mas a tentativa de mudança de identidade. Os desavisados pensam que só é uma questão de mudança de nome. É como se um filho entrasse no cartório por achar seu nome feio, alegando sofrer um sofrimento psíquico e exposição a situações vexatórias. O nome tem significado e significante. Ele não é vazio. O novo nome escolhido pelo filho também contém preenchimento simbólico e existencial. Portanto, mudar o nome requer conteúdo subjetivo que transpõe a mera visão superficial.
Mudar um símbolo, uma figura, desenho, aquilo que muitos chamam de logomarca, não é algo impensado, pois requer estudo de representação simbólica: a que esse símbolo remete. Quando se escolhe bandeiras, escudos, marcas de empresa, o grupo pretende ser reconhecido por esses símbolos.
A IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) ao colocar a pomba na sarça, há cerca de 15 anos, pretendeu, de alguma forma, passar uma mensagem filosófica. Muitos não sabem e nem querem saber qual era esse significado, o fato é que, desde então, a igreja tem enfrentado crises de identidade. Estamos lutando para nos parecermos mais com os nossos pais e sermos reconhecidos como reformados. A retirada da pomba, independentemente das razões teológicas (claro que essas devem ser as razões principais), marca um retorno dos filhos querendo o reconhecimento do pai.
No “império das marcas”, não podemos ser ingênuos o bastante para acharmos que mudanças visuais são apenas visuais, elas vão além, são profundas, emaranhadas e intricadas subjetivamente, cheias de sentido.
A pomba voou. Contudo, com ela é preciso voar seus significantes. É preciso voltarmos aos nossos pais reformados e lutarmos pela nossa identidade reformada. Somos Presbiterianos. Isso implica genética reformada, história familiar reformada, princípios reformados passados de geração em geração. A nossa carteira de identidade tem foto e nossos documentos de Fé elaborados em Westminster de 1643 a 1649: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo, preenchem nosso significante. Não devemos remover os marcos antigos que nossos pais nos legaram. Há valores.  Há muito mais do que isso, uma sólida teologia que representa o que nós cremos. Um credo que identifica quem nós somos.  Eu tenho orgulho de meus pais e quero ser ligado a eles pelo meu nome e sobrenome. Quero que minha foto se assemelhe às belas feições deles.
Irmãos, tenhamos alegria em sermos quem somos!  Devemos lembrar dos grandes feitos do Senhor aos nossos pais (Sl 44).
“A identidade”, como bem frisou Bauman, “sejamos claros sobre isso – é um ‘conceito altamente contestado’. Sempre que ouvir essa palavra, pode-se estar certo que está havendo uma batalha. O campo da batalha é o lar natural da identidade. Ela só vem à luz no tumulto da batalha, e dorme e silencia no momento em que desaparecem os ruídos da refrega.  (...) a identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa a ser devorado...” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 83,84).
Lutemos pela nossa paternidade. Busquemos resolutamente permanecer fiéis ao nosso pertencimento e à nossa identidade reformada!


Não removas os marcos antigos que puseram teus pais” (Pv 22:28).

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo












  

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...