sábado, 12 de maio de 2012

Penso, logo tenho culpa.


Penso, logo tenho culpa.





René Descartes (1596- 1650), considerado pai da filosofia moderna, postulou a seguinte “fórmula” filosófica: cogito ergo sumi (penso, logo existo).  Esse pensamento gerou o que é denominado de racionalismo.  Apesar dos pensamentos de Descartes formarem algo de suma importância para a compreensão do pensamento moderno, não é pretensão desse arrazoado falar sobre esse profundo assunto.


A alusão a esse ícone da filosofia se faz, por conta de sua famosa frase: penso, logo existo. Gostaria de trabalhar com a ideia de que todo homem pensa. Logo, todo homem sente culpa. A ausência da culpa em qualquer ser humano, no mínimo, é um sinal de sociopatia ou de perversão humana. O homem sem culpa é um homem desumanizado.


Talvez uma das maiores mentiras contadas ao homem pós-moderno seja a proposta de uma sociedade sem culpa; a égide social que apadrinha o egoísmo e aplaude o narcisismo patológico; o outro tornar-se apenas um objeto para satisfação do meu desejo.


Quando eu não entendo que as relações humanas geram culpa e que a culpa é a marca da humanidade caída em Adão, a minha ação tornar-se vazia do outro e cheia de autoindulgência.  A condescendência com o próprio erro é buscada e a responsabilidade com os outros é preterida e até rejeitada.  As palavras de Caim a Deus: “Perguntou, pois, o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?” (Gn 4.9) tomam força em nossa jornada em busca da satisfação pessoal. Caim não se sente culpado de ter matado seu irmão e muito menos responsável por ele: “sou eu o guarda do meu irmão?”. A ausência da culpa nos animaliza. A Bíblia relata esse assassinato implicando crescimento da maldade após a queda adâmica.


Os detratores do cristianismo tendem a dizer que ele infunde culpa nas pessoas, aliás, que toda religião assim o faz. De fato, o cristianismo diz que somos culpados! Todavia, inocentados em Cristo. As únicas pessoas sem culpa que nasceram foram: Adão e Eva, antes do pecado, e Jesus Cristo que jamais pecou. Portanto, o que o cristianismo diz é que a culpa maior que o homem tem é a que foi gerada da rejeição humana ao plano perfeito de Deus.  


O homem como um ser moral sempre sentirá culpa. O que está acontecendo na pós-modernidade é a respeito do que Bauman nos chama a atenção:


A promessa de uma vida liberta do pecado (agora renomeado como culpa) foi tão somente o projeto moderno de refazer o mundo à medida das necessidades e capacidades humanas, de acordo com o projeto concebido de modo racional. (...) O projeto moderno postulou a possibilidade de um mundo humano livre não apenas de pecadores, mas do próprio pecado; não apenas de pessoas que fazem escolhas erradas, mas da própria possibilidade de erro de escolha. Pode-se dizer que, afinal, o projeto moderno postula um mundo livre de ambivalência moral. E uma vez que a ambivalência é a característica natural da condição moral, postula também o afastamento entre as escolhas humanas e sua dimensão moral. Foi isso que a substituição da escolha moral autônoma pela lei ética produziu na prática.” (BAUMAN. Zygmunt, Vida em Fragmentos: sobre a ética pós-moderna, Rio de janeiro: Zahar, 2011, p. 12, 13).


A culpa significando pecado original ou sentimento ocasionado pela quebra do contrato divino com o homem no Éden: ela é reparada em Cristo, portanto o cristianismo não infunde culpa, mas prega o perdão para quem se sente culpado pelo erro e se arrepende de ter errado: “Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9.12).


A ideia de culpa na conceituação psicológica não é objeto de discussão desse texto, pois demandaria muito mais tempo, contudo, é falacioso dizer que todas as linhas da psicologia advogam um homem sem culpa e sem dever. O que ele faz com a culpa e o que a culpa faz com ele é o que importa para algumas linhas da psicologia. Falar da culpa de maneira abrangente é levantar questões subjetivas importantes, mas, impossíveis de se discutir nesse pequeno texto.


A culpa tratada nesse colóquio é a culpa oriunda do vazio humano ocasionado pela tentativa de autonomia de nossos pais no Éden: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn 3.22).  Portanto, todo ser vivo nasce culpado, sentindo-se vazio, faltante, incompleto. Caso isso não ocorra com você, é preciso questionar e vasculhar sua consciência, pois culpa, no sentido aqui tratado, significa reconhecer que a humanidade é muito mais que instintos: é tomar consciência da lei de Deus cravada em nosso coração (Rm 2.14); é saber que somos culpados e injustos: “como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10) e que somente Cristo nos dá a paz com Deus, a reparação da culpa adquirida em Adão: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).


Penso, logo tenho culpa. Existo, logo sou culpado. Creio em Cristo, logo sou libertado da culpa e da punição: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9)”


Deus abençoe vocês querido e querida e os livre da culpa!


Rev. Ricardo Rios Melo









sexta-feira, 4 de maio de 2012

Os miseráveis


Os miseráveis

Esse título já foi usado por Victor Hugo em sua obra: Os Miseráveis. O livro conta a história de um homem chamado Jean Valjean que é condenado a passar dez anos preso nas galés por ter roubado comida para se alimentar. Valjean perde a crença nas pessoas, pois sofre o preconceito por sua condição de prisioneiro em condicional. Depois de um tempo, Valjean é acolhido por um bispo chamado: Bienvenu. Apesar de ser bem recebido pelo bispo, ele mostra sua ingratidão ao roubar objetos de valor. A polícia encontra Valjean com o produto do furto e identificam os pertences do bispo Bienvenu. Então foi levado pela policia para enfrentar uma acareação com o bispo. A surpresa fica por conta da reação do religioso, ao ser inquirido pelo policial sobre se a prataria era dele. Bienvenu diz que deu para Valjean tudo e que ele tinha esquecido os castiçais. O livro é muito bem escrito e instigante.

O que eu gostaria de comparar nesse arrazoado é sobre a ideia de miséria no sentido natural do homem. A ideia de miseráveis na Bíblia está ligada ao fato de existir pessoas que estão debaixo da ira (Rm 1.18; Jo 3.16) de Deus. Elas carecem de misericórdia, pois todas pecaram (Rm 3.9).

A salvação em Cristo está intimamente ligada ao reconhecimento de nossa miserabilidade. Se nós não entendermos nossa condição de pecadores e de humanos limitados, jamais poderemos sequer falar da graça de Deus.  

O homem sem Cristo está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1-3). A graça de Deus inaugura uma nova fase em nossa vida, pois Ela garante que estaremos junto com Deus por causa de sua rica misericórdia: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,  estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),  e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus,  para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus.  Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus;  não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2.4-10).

Mudado o que deve ser mudado, temos que entender que Deus fez de maneira efetiva o que Victor Hugo faz no livro: concede a ladrões o perdão e ainda os presenteia. Essa era nossa situação. Eu e você, ladrões como Valjean. Deus nos concede o perdão e ainda nos dá o plus de estarmos em sua presença apesar de nossos pecados.

Os Miseráveis mostra que Valjean se redimiu quando se revelou em um tribunal para assumir sua culpa a fim de salvar outra pessoa inocente que estava sendo acusada. Nós devemos estar diante da presença de Deus com cuias nas mãos suplicando graça e misericórdia.

Valjean recebeu o perdão do monge e muito mais coisas. Contudo o mais precioso é receber a vitória em Cristo. Vitória sobre o pecado e morte. Os Valjeans de hoje são todos os que reconhecem que precisam  de misericórdia para passarem de miseráveis para filhos amados. O reconhecimento de nossa miserabilidade é condição para recebermos a graça de Deus, pois aqueles que se consideram saudáveis e bons não precisam de Jesus, pois os sãos não precisam de remédio (Mt 9.12).

Condição sem a qual ninguém verá a Deus é reconhecer que somos ladrões da glória de Deus, pois constantemente estamos vivendo para nós mesmos e para o nossos pecados; é reconhecer que somos miseráveis, ou seja, carentes de misericórdia.

Será que você entende sua miserabilidade? Compreende que não existe nenhum ser humano que não careça da obra de Cristo? Se você reconhecer sua carência, Deus lhe conferirá graça e mais graça. Ele demonstrará compaixão e amor, pois Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu por nós! (Rm 5.6).

 Entenda que, ao reconhecer nossa miserabilidade e falta, passaremos de ladrões para filhos: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8. 15)

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo


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