sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

“Deixa a vida me levar”


“Deixa a vida me levar”

Esse é o refrão de uma música famosa do cantor e compositor Zeca Pagodinho. Como é de costume no Brasil, o ilustre artista retrata parte de sua vida e maneira de viver. Ele diz: “Eu já passei por quase tudo nessa vida; em matéria de guarida, espero ainda a minha vez. Confesso que sou de origem pobre, mas meu coração é nobre. Foi assim que Deus me fez... E deixa a vida me levar, (Vida leva eu!), Deixa a vida me levar, (Vida leva eu!) Deixa a vida me levar (Vida leva eu!). Sou feliz e agradeço Por tudo que Deus me deu... Só posso levantar as mãos pro céu Agradecer e ser fiel Ao destino que Deus me deu Se não tenho tudo que preciso com o que tenho, vivo De mansinho lá vou eu... Se a coisa não sai do jeito que eu quero, também não me desespero, o negócio é deixar rolar; e aos trancos e barrancos Lá vou eu! E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu... Deixa a vida me levar (.repete o refrão)”.

Essa música é bastante interessante. Ela retrata a crença popular brasileira de origem Católica Apostólica Romana. Contudo, como é comum no Brasil, aceita-se partes do dogma e nega-se aquilo que confronta a própria experiência do indivíduo.

Na música de Zeca Pagodinho, ao mesmo tempo em que se credita a Deus o destino vivido, há um conflito, acredito que sem intenção, com a forma deísta de pensar.

Os deístas acreditavam que se poderia chegar a conhecer a Deus pela razão e não era necessário abraçar igreja ou religião alguma para se chegar a Deus. Também acreditavam que Deus não intervém e, muito menos, dirige a história humana. Cada homem decide seu caminho por intermédio de sua razão. Filósofos famosos, como Voltaire (1694-1778), acreditavam nessa corrente.

A música do compositor brasileiro Zeca Pagodinho certamente não teve a intenção de nos criar esse dilema. O fato é que todos nós somos influenciados por algum pensamento ou por vários pensamentos ao longo de nossa história. Nós somos seres de uma época e cultura que interagem passiva e ativamente com o meio. Portanto, é impossível alguém ter um pensamento só seu. É mais provável que ele não saiba quem foi que o influenciou. Até os opositores de um pensamento tomam por base o pensamento que existe para se oporem.

Poderíamos pensar nessa música por outro ângulo. Seria ela determinista? “Só posso levantar as mãos pro céu Agradecer e ser fiel Ao destino que Deus me deu”. Bom, essa parte da música parece bastante fatalista e devota ao mesmo tempo. Ela diz que o destino foi Deus quem Deus e que ele (o compositor) deve ser fiel ao destino dado.

O determinismo crê que todos os eventos, vontades, acontecimentos são determinados, ou melhor, causados por leis mecânicas. Kant foi o mais moderno filósofo a usar essa terminologia. Ele não pretendia estabelecer uma ordem finalística. Não é um busca da resposta final, mas da causa; da origem que determinou o fenômeno. Tecnicamente falando, seria “1º ação condicionante ou necessitante de uma causa ou de um grupo de causas; 2º a doutrina que reconhece a universalidade do principio causal e portanto admite também a determinação necessária das ações humanas a partir de seus motivos.”[1]

Já o fatalismo crê que, mesmo que se evite a causa, não se poderá mudar o fim da história. No fatalismo, temos que aceitar os fatos como eles são e de maneira resignada. Dentro dessa perspectiva, poderíamos classificar parte da música supracitada como sendo fatalista. O compositor diz que deve apenas levantar as mãos para o céu e agradecer o destino que Deus lhe deu.

Concluamos esta despretensiosa avaliação crítica da música. O autor nos leva a inferir que ele crê em um Deus que determinou todas as coisas boas e más da vida dele, por isso se a vida está levando-o para determinada situação, a única coisa que ele deve fazer é agradecer pelos acontecimentos e as coisas boas e más que Deus lhe concedeu.

O autor acredita na bondade do seu coração “meu coração é nobre”. Fala sobre “os trancos e barrancos” que enfrenta na vida e canta “deixa a vida me levar, vida leva eu!”.

Querido, você pode ter achado uma bobagem fazer essa avaliação tão filosófica de uma canção popular. É claro que os compositores populares não estão pensando nas pressuposições filosóficas de sua pena. Nem tão pouco pretendem imprimir de maneira intencional comportamentos e estruturas de pensamento. Todavia, é isso que acontece.

Todos nós somos influenciados por algum tipo de pensamento e de comportamento. O problema é que poucas pessoas sabem disso. Estamos o tempo todo influenciado o meio e sendo influenciados pelo meio: família, sociedade, amigos, parentes, jornais, filmes, novelas etc.

O cristianismo não é determinista, pois acredita que Deus é quem governa o mundo. O determinismo fala que são as causas naturais que determinam a ação. O cristianismo diz que Deus governa o mundo que criou. Ele não intervém na história, ele é Senhor da história.

O cristianismo também não é fatalista. Segundo Bavinck, “A postura Cristã para com a ordem da criação nunca é um fatalismo; a astrologia é superstição vergonhosa. A providência de Deus não anula as causas secundárias ou a responsabilidade humana. O governo aponta para a meta final da providência: a perfeição do governo majestoso do Rei. Ainda que seja correto em certas ocasiões falar em “permissão” divina, esta não deve ser interpretada de tal maneira que negue a soberania ativa de Deus sobre o pecado e o juízo”.[2]

Bom queridos, todos nós somos influenciados por algum pensamento. Resta saber de você como tem vivido sua vida: deixando a vida te levar ou depositando sua vida na soberana vontade de Deus?

Você é um deísta, fatalista ou crê na divina providência?

Queridos, não deixem a vida te levar! Saibam a origem dos pensamentos que você pensa que são seus.

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Rev. Ricardo Rios Melo





[1] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 245.

4 comentários:

Alex Malta Raposo disse...

Parabéns pelo blog.

Textos muito abençoados.

Ainda não o conhecia.

Estarei sempre visitando para beber dessa água.

Forte abraço.

alexmaltta.blogspot.com
Evangelho da Graça

SOLUS CHRISTUS disse...

Graça e paz rev. Ricardo!

Gostei muito desta postagem, parabéns. E parabéns também por este blog, o qual já está na minha lista de blogs preferidos no Solus Christus (blog)!

Um forte abraço!

Rev. Ronaldo P. Mendes

Rev. Ricardo Rios Melo disse...

Caro Alex,

Muito obrigado por sua visita e apreciação!

Que Deus o abençoe!

Ricardo Rios

Rev. Ricardo Rios Melo disse...

Caro Rev. Ronaldo,

Muito obrigado pela deferência! Também tenho seu blog nos meus favoritos e sempre confiro seus excelentes posts.

um grande abraço!
Deus abençoe seu ministério!
Ricardo Rios