sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Entre os cravos e a pompa

Entre os cravos e a pompa

Há um cheiro de morte no ar. As luzes já não são tão luminosas assim. O sol é arrefecido por nuvens escuras e o silêncio mórbido e agonizante só é rompido por um brado: “(...) Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

Esse brado não é feito a qualquer um, é dirigido ao Seu Pai. Sua vida nunca foi fácil. Em seu nascimento, foi acolhido pela desprovida e singela manjedoura. Seus pais terrenos não foram reis ou gente muito poderosa. Foi perseguido pelo ódio dos homens antes mesmo de nascer, mas foi os braços de sua mãe que o fizeram aquecer.

A infância não o presenteou com as regalias dos bem afortunados, mas, com uma vida simples. Contudo, nem os mais sábios de sua época puderam negar a sapiência de suas palavras; tiveram que ouvir um menino que fala como mestre, pois o era de fato.

Feito homem, e homem feito, não usou de seu direito, pois “antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana” (Fp 2.7). Foi levado ao deserto. Tentado pelo tentador.

Sua vida foi marcada pelo amor. Sua paga? Foram os pregos. Seu salário? A rejeição de muitos. Seu reconhecimento? Foi ser trocado por um ladrão. Enxugou as lágrimas de muitos; consolou, amou os seus até o fim e por eles se entregou. Pois, apesar de parecer frágil e desamparado, só ele tinha autoridade de entregar sua vida nas mãos dos seus algozes: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.18).

Seus detratores, carrascos, pensaram que tinham o poder de ceifar sua vida e estavam “matando” o autor da vida. Feriram seu corpo. Esbofetearam seu rosto. Cuspiram. Açoitaram-no com chicotes. Repartiram suas vestes. Blasfemas ouviu: “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele” (Mt 27.42).

Aos seus discípulos, ele determinou que fossem simples como Ele e não carregassem nem alforje: “Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento”. Deveriam buscar a frugalidade e confiar na provisão divina: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mt 6.19-20).

Hoje, ah, hoje! Os seus autodenominados discípulos já trocaram Sua glória eterna por trinta moedas de prata (Mt 27.3-11). A benção eterna foi trocada por um prato de lentilha. Ao invés de carregarem a cruz, como ele disse: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24), querem carregar a sacola das moedas e buscam o próprio ventre.

Jesus falava de renuncia e entrou na cidade em um jumentinho. Hoje seus “discípulos” andam em jatinhos e carregam fortunas em suas “sacolas”.

Jesus dizia para não amarmos o mundo e as coisas do mundo: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 Jo 15-17). Hoje, os novos discípulos de Jesus acumulam riquezas, pecados, concupiscências e buscam cada vez mais conforto na terra para viverem melhor nesse mundo perdido.

Enquanto os discípulos da época de Jesus anelavam por Sua vinda e O esperavam com alegre expectativa: “Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20), os atuais discípulos não querem que Ele venha e acabe com sua “mordomia”.

Paulo achou incomparável morrer e estar com Cristo: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Hoje, os novos discípulos querem viver eternamente na terra e se fartar da comida do Egito.

Os apóstolos sofreram pelo nome de Jesus. Hoje os novos discípulos pregam vitórias financeiras e terrenas; regalias na terra. Procuram a auto-estima ao invés da imagem de Deus e a mente de Cristo. Procuram pretensos direitos junto ao Pai. A graça de Deus, para esses novos discípulos, não basta.

Entre os cravos da cruz, a coroa de espinho e a vida de sofrimento e autonegação, os novos discípulos escolheram a pompa do mundo, coroa de ouro, camas fofas e vida mansa e sem compromisso.

A despeito dos novos discípulos viverem suas vidas sem atentarem para a eternidade, a advertência continua e será sempre atual: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36).

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25).

“Quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará” (Lc 17:33).

E você, o que tem em suas mãos, os cravos e as marcas da cruz e de sua autonegação ou a marca fatal do mundo? Estamos entre dois opostos irreconciliáveis: ou amamos o Cristo da Cruz ou seremos iludidos pela pompa passageira do mundo. Você poderá dizer: “Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te” (Lc 12.19). Mas, terá que se preparar para ouvir de Deus: “Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12.20, 21).

Que Deus craveje seu coração!

Rev. Ricardo Rios Melo

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NEM SIM, NEM NÃO: TALVEZ

Política Brasileira

NEM SIM, NEM NÃO: TALVEZ **

Ives Gandra da Silva Martins (*)

Discute-se, na Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, a ermissão ou não da entrada da Venezuela no MERCOSUL. Se a Venezuela for admitida, poderá impugnar qualquer deliberação da União Aduaneira, no que diz respeito ao próprio MERCOSUL, assim como impugnar acordos com terceiros países de qualquer uma das nações signatárias. Aliada do Irã, poderia, por exemplo, se já fizesse parte do MERCOSUL, opor-se, mediante o direito de veto (falta de consenso), ao acordo que o Brasil está firmando com Israel.

Na audiência pública da qual o Ministro Celso Lafer e eu fomos convidados a participar, ambos mostramos a necessidade de maior aprofundamento no conhecimento da realidade venezuelana atual, antes de o Senado Federal avalizar a entrada daquele país no bloco.

Apresentei, pessoalmente, questões de natureza econômica, política, jurídica e técnica. Economicamente, reconheço que os superávits da balança comercial com a Venezuela, em face do acordo que temos até 2011, são expressivos. São superávits que foram obtidos, sem necessidade de a Venezuela ingressar no MERCOSUL. E são superávits inferiores àqueles que conseguiram os Estados Unidos, objeto principal das críticas de Chávez, e Colômbia, país não dos mais simpáticos para o líder bolivariano. O argumento, portanto, carece de relevância, principalmente levando-se em consideração que a Confederação Nacional da Indústria e a Fecomercio de São Paulo vêem, ainda, com muitas restrições, o ingresso imediato da Venezuela, enquanto a instabilidade emocional do presidente Chávez continuar a repercutir na expropriação de empresas e críticas à economia de mercado. Os principais interessados no comércio externo são muito menos propensos ao imediato ingresso venezuelano do que os que argumentam com dados econômicos para justificá-lo.

Politicamente, a Venezuela é uma democracia formal, com cinco poderes, dos quais só dois são considerados relevantes: o popular e o executivo. O poder popular é normalmente convocado PELO EXECUTIVO e não pelo LEGISLATIVO, ou seja, sempre que o presidente deseja. A perseguição aos políticos que derrotaram Chávez em eleições regionais, a limitação do direito a comícios nos mesmos locais em que Chávez os fez e a perseguição aos meios de comunicação – que a principal entidade internacional da imprensa condena – estão a demonstrar, que, para uma real democracia, há uma longa caminhada a ser empreendida por aquele país.

Ora, o MERCOSUL apenas admite democracias reais como seus membros, tal como ocorre, aliás, na União Européia. Ora, o presidente Chávez, que declara ser a democracia cubana mais perfeita que a americana, está longe de compreender o que é uma democracia.

Do ponto de vista jurídico, se a Venezuela entrar no bloco, não só terá direito a opor-se ao consenso, podendo paralisar o MERCOSUL, como, o que é pior, a interferir nas relações bilaterais ou plurilaterais do Brasil condicionadas ao MERCOSUL, o que representará para o País uma preocupação a mais, dentre aquelas que já tem com os outros países do pacto de Assunção.

Por fim, do ponto de vista técnico, a Venezuela não concordou ainda com 169 das 783 normas que regem o espaço do Cone Sul, condição prévia para sua adesão, nem definiu a lista de produtos para a adoção da tarifa externa comum, como também não se manifestou sobre o cronograma de liberalização do comércio entre Brasil e Venezuela. Tampouco definiu as condições para não se opor a que o Brasil negocie com terceiros países. Em outras palavras, nada obstante ter havido algum avanço na reunião de Salvador do mês de Maio, entre o Presidente Lula e Chávez, os cronogramas dos grupos de trabalho criados desde 2005 não foram cumpridos até agora, exclusivamente por culpa da Venezuela. O argumento de que a Argentina e o Uruguai concordaram com a integração imediata, num momento em que Chávez estava fornecendo dinheiro à Argentina e energia ao Uruguai, não deve servir de parâmetro para o Brasil.

No dia de nossa audiência, após as manifestações dos Senadores Fernando Collor, Mozarildo Cavalcanti, Rosalba Ciarlini, Arthur Virgílio, Eduardo Azeredo e outros, o Senado Federal pareceu não ser contra o ingresso, mas entender que só poderá decidir, após a resposta de todos os requisitos técnicos, que desde 2005 a Venezuela não complementa. Por esta razão, minha posição naquela audiência de 09 de junho foi de que o Senado não deve dizer nem “sim”, nem “não”, mas “talvez”, deixando para apresentar seu veredicto final a partir do exame de todos estes elementos, que deverão ser enviados para sua análise em futuro não determinado.

(*) Professor Emérito da Universidade Mackenzie (São Paulo), autor de valiosos estudos jurídicos e de obras literárias de reconhecido valor o Dr. Ives Gandra é membro destacado da Academia Paulista de Letras

(**) Esse artigo foi retirado http://revistalusofonia.wordpress.com/2009/08/17/nem-sim-nem-nao-talvez/ acesso em 10/09/2009

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