Calvino a Serviço do Rei (V parte)

Calvino a Serviço do Rei (V parte)

Por: Rev. Ricardo Rios Melo

O Caso Servetus

Outra distorção comum que acontece na interpretação da vida de Calvino e sua obra é o episódio da execução de Servetus. Em 1553, ele foi queimado vivo na cidade genebrina, acusado de blasfêmia, pois não aceitava a trindade e a atacava com ferocidade.[1]

O que temos que ter em mente é que Calvino era um homem de sua época e, portanto, tanto ele como os reformadores pertenciam a um período histórico em que a heresia era tratada com a pena de morte. “Genebra não era uma exceção. Uma vez que havia sido provada a existência de um herege em seu meio, cujas simpatias o alinhavam com a ala radical da Reforma, as autoridades de Genebra tiveram pouca opção, exceto agir, apesar das dificuldades advindas do fato de que Serveto não estava, estritamente falando, sujeito à justiça de Genebra”.[2]

Servetus “já havia sido condenado como herege pelas autoridades católicas, na França; contudo, ele havia escapado da prisão em Viena e se encaminhado a Genebra, para ser preso, em 13 de agosto de 1553.”[3] Ele lançou um livro intitulado Christianae Religionis, onde negou o batismo infantil, como sendo um ato tradicional e rejeitou também um ponto essencial da doutrina cristã, a trindade.[4]

Os historiadores sérios entenderão que “embora tenha sido Calvino que, agindo pessoalmente, providenciou a acusação e a prisão de Serveto, foi o Conselho municipal que – apesar de sua forte hostilidade em relação a Calvino – assumiu o caso e processou Serveto com rigor. (...) As autoridades católicas de Viena exigiram, imediatamente, a extradição de Serveto para que fosse processado lá. O Conselho municipal ofereceu-lhe, então, uma opção: ele poderia retornar a Viena ou permanecer em Genebra, submetendo-se à decisão da justiça desta última. É significativo que Serveto escolhesse permanecer em Genebra”.[5]

Tendo em vista que Genebra não tinha carrascos profissionais, a morte de Serveto foi algo grotesco e aterrorizante, carnificina. Calvino tentou alterar o tipo de morte de Serveto para guilhotina, achando que era mais rápido e menos torturante. Contudo, o Conselho não atendeu sua solicitação.

Os reformados, herdeiros da reforma e do pensamento de Calvino, condenam severamente aquilo que foi considerado um dos maiores erros dos reformadores. “Em 1903, um monumento de granito foi erguido no local onde Serveto foi executado. Sua inscrição condena ‘um erro que pertenceu a seu século’. Contudo, lamentavelmente, toda organização cristã de maior relevância cuja história possa ser traçada até o século 16 tem sangue literalmente espalhado sobre suas credenciais. Os católicos romanos, os luteranos, os reformados e os anglicanos: todos condenaram e executaram seus próprios Servetos, seja de forma direta ou – como no caso do próprio Calvino – indiretamente”.[6] Cometeremos um grave erro se apontarmos Calvino como precursor dessa prática abominável, pois essa prática era comum em sua época.

É pertinente a observação de Lopes:

Estes são alguns fatos que devemos lembrar, antes de chamarmos Calvino de "assassino". Durante este mesmo período, a propósito, trinta e nove hereges foram queimados em Paris, vítimas da Inquisição católica, que estava sendo aplicada com rigor na Espanha e Itália, e outras partes de Europa. Apesar de que muitos que não eram ortodoxos buscaram (e encontraram) refúgio em Genebra, fugindo das autoridades católicas, Serveto foi o único herege a ser queimado lá durante a carreira distinta de Calvino.[7]

Theodoro de Beza, contemporâneo de Calvino, mostra seu apoio ao escrever sobre o Reformador:

Por essa época, Miguel Serveto (de quem já se falou acima), espanhol de maldisã memória, sobrevêm (sic), não homem, antes um monstro horrível, composto de todas as heresias antigas e novas, a condenar o batismo das criancinhas e, acima de tudo, execrável blasfemador contra a Trindade e, nomeadamente, contra a eternidade do Filho de Deus. Tendo ele chegado a esta cidade e tendo sido reconhecido por alguns que o haviam visto alhures, foi detido pelo magistrado no 13º dia de agosto, em razão de usas blasfêmias. E, nesse aspecto, combateu-o Calvino, de tal maneira e tão acirradamente, no poder de Deus e de Sua Palavra, que, para toda defesa, não lhe restou senão uma obstinação indomável. Em razão disso, por justo juízo de Deus e dos homens, no dia 27 de outubro foi ele condenado ao suplício do fogo. E assim findou ele sua desgraciosa vida e suas blasfêmias que havia vomitado, oralmente e por escrito, pelo espaço de trinta anos, e mais. Não se faz de mister disso falar opor mais tempo, visto que há, nessa matéria, um assaz belo livro que, a esse respeito, Calvino escreveu, expressamente, pouco depois, isto é, no ano de 1554, em que mostra que a fé verdadeira e correta leva a crer em três pessoas em uma só essência divina, refuta os detestáveis erros deste malsinado Serveto e prova que o ofício do magistrado se estende até à repressão dos heréticos, pelo que, com todo direito, foi este ímpio punido de morte em Genebra, em suma, que exibia ele as marcas bem certas do réprobo.[8]

Longe deve estar qualquer intuito de justificar atos de tortura desumana como as punições em fogueira dos hereges, tanto pelos Reformadores, como pelos Católicos, ou por qualquer outra religião. Entretanto, devemos ter cuidado para não macular a imagem de Calvino e desacreditar o calvinismo por esse fato isolado e restrito à sua época. Qualquer historiador que se preze, contextualizará os fatos e as pessoas. Usar da execução de Servetus para desacreditar Calvino e o Calvinismo “é expediente preconceituoso de quem não deseja ver todos os fatos” [9].



[1] Vd. Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma – Um estudo sobre Calvino como um Reformador Social, Clérigo, Pastor e teólogo, São Paulo, Cultura Cristã, 2003, p. 66,67.

[2] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[3] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[4] Vd. Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[5] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142,143.

[6] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 143.

[7] Augustus Nicodemus Lopes, http://www.ipb.org.br/artigos/artigo_inteligente.php3?id=26, acesso em 14 de agosto de 2009.

[8] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 48,49.

[9] Augustus Nicodemus Lopes, http://www.ipb.org.br/artigos/artigo_inteligente.php3?id=26, acesso em 14 de agosto de 2009.

Comentários

Danilo Fernandes disse…
Irmão Ricardo!

Otima série!

Aproveito a oportunidade para apresentar o Genizah: Um blog cristão diferente que oferece ótimo conteúdo protestante, muito humor e bom combate às heresias e ao sincretismo que vem solapando a igreja evangélica.

Vamos nos seguir. Te vejo por lá!

A Paz e o Bem!

Abraços,

Danilo Fernandes

http://www.genizahvirtual.com/

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