sexta-feira, 25 de maio de 2007

A Navalha e o Machado


Mais uma bomba explodiu no tão desgastado cenário político e econômico brasileiro. Aliás, não é uma bomba, é uma navalha! Uma operação da Polícia Federal, chamada Operação Navalha, debelou uma quadrilha de corrupção que atuava espoliando os cofres públicos por intermédio de licitações milionárias e fraudulentas e que usava o velho adágio popular: “é dando é que se recebe”. Valendo-se desse lema, a quadrilha subornou políticos e autoridades que jamais imaginaríamos.

Segundo a Polícia Federal e noticiários da imprensa falada e escrita, “o líder do esquema, apontado como ‘chefe dos chefes’ no despacho do Superior Tribunal de Justiça que autorizou as prisões, era o empreiteiro Zuleido Soares Veras, 62 anos, dono da empresa Gautama, com sede em Salvador e tentáculos por todo o Nordeste” (Veja, 23 de maio de 2007, p. 57). Só por curiosidade, o nome Gautama, segundo o empresário, foi dado em homenagem a Sidarta Gautama (Siddhartha Gautama - 560-477 a.C.) que, posteriormente, foi chamado de Buda (Budha). A curiosidade reside no fato de que Sidarta, oriundo do sul do Nepal, na Índia, após o nascimento do seu primeiro filho, abandonou o luxo do palácio de seu pai, que era rei do clã Shakya, para viver uma vida contemplativa e ascética, com total desapego à vida material.

Essa operação da Polícia Federal trouxe à tona, mais uma vez, o descalabro de nossa sociedade que vive como que em uma instituição formal aparentemente ilibada, mas cuja raiz está podre. Dentro da ótica humana e superficial, vamos presenciar mais um escândalo das dezenas de escândalos que permeia nossa conjuntura política, social, jurídica. Todas as esferas, aparentemente, estão envolvidas nos esquemas de corrupção, segundo consta nos noticiários. Os jornalistas televisivos já nos informaram que até a Polícia Federal que desbaratou a quadrilha será investigada por vazamento de informações. Pode uma coisa dessas? A Polícia desvenda um caso tão complicado, com cenas parecidas com as dos filmes Hollywoodianos sobre o FBI, e ainda será investigada por vazamento de informações. A respeito disso, não cabe a nós, “reles” mortais, opinar, porque, afinal de contas, os políticos, salvo exceções, não estão nem um pouco preocupados com as nossas opiniões. Eles só nos procuram nas eleições.

A Operação Navalha pode não aprofundar o corte em sua ação, pois essa navalha é humana e sujeita aos erros, julgamentos e condescendências políticas, chamadas pelo escritor português José Saramago de “caciquismo brasileiro”. Contudo, existe uma operação mais profunda que começou há mais de dois mil anos. Operação essa que chamaremos, com toda reverência, de Operação Machado. Ela foi deflagrada não por uma autoridade humana, mas começou profetizada pela boca de um profeta de Deus: “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10). Dessa operação, ninguém pode escapar! É uma operação internacional, pois todos os homens, de toda parte do planeta, terão que passar pelo crivo do machado.

Todo aquele que não produzir frutos de arrependimento será lançado ao fogo! Essa expressão é muito forte! Ela diz que o corte é profundo. Será feito à raiz da árvore. Não serão cortados apenas os galhos e a folhagem, não! Deus cortará pela raiz todo o homem que não estiver dando frutos. E, para que renda frutos, o ser humano tem que crer em Cristo. Essa palavra de João Batista é acompanhada do encontro que ele tem com Jesus. Jesus é o dono do machado e Deus é o Supremo Agricultor. No restante dos versículos, Mateus nos revela: “A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12). O trigo, nessa passagem, representa as pessoas que se arrependeram de seus pecados e do pecado mais horrendo que existe que é a pretensão e soberba de viver a vida em desobediência a Deus e sem Deus. Essas pessoas disseram sim a Jesus e a uma vida de lutas contra os pecados e as vicissitudes do mundo. Disseram sim a Jesus, porque Jesus, antes de tudo, tinha dito sim a elas no processo amoroso de Deus na conversão. A palha representa todo aquele que permanece altivo diante de Deus e diz em seu coração: não há Deus! “O perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações” (Sl 10.4). Se você vive sem Deus ou cogita a inexistência de Deus ou, quem sabe, acredita na existência de Deus, mas não na obediência - você se enquadra na palha que será queimada no último dia. Crer e obedecer são inerentes, ninguém pode crer sem obedecer e ninguém pode obedecer sem crer. Obediência sem fé é mera religião vazia! E esse texto nos fala disso também. Dentre os ouvintes de João Batista, nesse texto de Mt 3, haviam os Fariseus, religiosos de plantão e outro grupo mais herético: os Saduceus, que não acreditavam na ressurreição. Todos eles formam uma boa representação de uma religião vazia. João diz a essas pessoas: “Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). Por outro lado, a fé sem obediência é hipocrisia também: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21).

Queridos, a Operação Navalha talvez “acabe em pizza”, como muitos sem esperança já dizem. Pode até fazer cortes profundos na corrupção que corrói o cenário nacional e a crença de uma população desgastada, dorida e já há muito sem esperança. Todavia, essa operação jamais atingirá a raiz de todos os males: o pecado! Para se cortar essa raiz, só Jesus com sua obra substitutiva na cruz! Entretanto, esse mesmo Jesus que salva pecadores é Aquele que veio colher o seu trigo e lançar a palha no fogo inextinguível. Cuidado! Sua religiosidade não poderá salvá-lo; sua descrença apenas aquecerá mais o seu terror, aumentando seu juízo certo; sua “fé” desobediente encontrará fim na ordem inequívoca e inquestionável de Deus: “Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23).

Amados, da Navalha, alguém pode escapar, mas, do Machado, ninguém escapará! Agora mesmo se pergunte: você é trigo ou palha? Se você é palha, será apenas o combustível do fogo que não se apagará, mas, se é trigo, Deus o abençoe e preserve-o na verdadeira e única fé. E não se esqueça: enquanto há fôlego de vida em suas narinas, você poderá se arrepender de seus pecados e produzir frutos para glória de Deus!

Cuidado! Pois Já está posto o machado à raiz!

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo

Tudo bem!


Em uma das inúmeras propagandas de carro de uma marca famosa, foi retratado um personagem interessante: uma jovem que se contentava com tudo. Ela queria algo maior e melhor, mas, quando recebia menos do que queria, dizia; “tudo bem!”. Eu fiquei pensando nessa propaganda e achei boa para retratar o perfil de alguns irmãos. Esses irmãos são bem interessantes. Quando perguntamos para eles: você está bem? Eles dizem “tudo bem”, quando de fato, não está nada bem. Geralmente, seu casamento está um fardo; suas tribulações deixaram que se afastasse de uma vida mais devotada a Deus; alguns estão lutando contra o pecado de maneira derrotada e outros estão totalmente frios na fé. E sempre que perguntamos como estão, eles dizem: “tudo bem!”.

“Chega de tudo bem!”, diz a propaganda. E eu lhes digo também a mesma coisa! Quando as coisas vão mal, devemos encará-las de maneira séria e não tentando amenizá-las. Quando alguém não recorre à outra pessoa para pedir socorro é porque alguma coisa está de errado com sua percepção ou com sua compreensão cristã. Fomos colocados em um só corpo para sermos membros uns dos outros. Se não está bem para você, não pode estar bem para mim! “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Ef 4.25 ). Quando digo para uma pessoa que as coisas vão bem, quando na verdade nada está bem, eu estou mentindo. E o pai da mentira é o diabo! Se as coisas andavam ruins, agora é que piorou!

Certamente, você me dirá: “mas, pastor eu não vou contar minha vida para todo mundo!” Com certeza, não! Nem é isso que estou querendo. Você deve buscar auxílio do seu pastor e dos presbíteros, para poder compartilhar suas dores. Suas dores não são suas, são nossas. Se você não está bem com seu cônjuge, isso certamente refletirá em sua adoração e em sua recepção da mensagem bíblica, como em toda a igreja, pois todos estaremos sofrendo. A igreja é um reflexo de nossas famílias! Se não estamos bem em casa, como ficaremos bem na igreja? Se você briga direto com seus filhos e se há um desentendimento em casa, como você falará de amor, compreensão, respeito e perdão na igreja?

Antes de continuarmos, tenho que fazer uma advertência. Falar a verdade não quer dizer machucar o irmão a qualquer custo. Devemos falar a verdade em amor (Ef. 4.15). Isso muda tudo! Se um irmão estiver errado, irei falar com ele a verdade, e essa verdade será temperada com amor! Contudo, meu assunto principal aqui nessa pastoral não se refere à verdade que você tem que dizer ao irmão que está errado, mas, à verdade que você tem que dizer quando está errado; doente, frio na fé, caindo, pecando. Muitas pessoas hoje estão frias na fé por causa dos seus pecados de estimação (pecados que nunca abandonaram) e estão dizendo: “tudo bem”! Tudo bem, nada! A Bíblia diz que os sem fervor, os mornos serão vomitados da boca do Senhor: “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.14-16).

O hino Vivificação (133) do Novo Cântico diz algo muito forte na sua terceira estrofe: “Quantos que corriam bem, de ti longe agora vão! Outros seguem, mas, também, sem fervor vivendo estão” (H. M. Wright). Essa é uma verdade! Muitos que corriam bem já não estão em nosso meio e muitos que estão em nosso meio estão vivendo sem fervor. E fervor aqui não significa gritos, mãos levantadas, euforia, pois muitos quando Jesus entrou em Jerusalém gritaram: “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21.9), e depois foram os mesmos que gritaram: “crucifica-o!” (Lc 23.21). Nunca confunda fervor com euforia. Cada pessoa tem um jeito. Conversando com membros da igreja e com meus alunos do seminário, reparei um certo equívoco em muitos deles. Por exemplo, ao falarem de pregadores bons, eles dizem que gostam dos pregadores fervorosos! E os fervorosos para eles são os que gritam! Fiquei preocupado com esse tipo de análise. Se olharmos para o exemplo de Jesus pregando, teremos sérias dificuldades de entender que Jesus andava gritando! Já pensou Jesus proferindo seu célebre Sermão do Monte gritando? Será que combina com Jesus? A propósito, eu acho que Paulo também não gritava, pois os Coríntios diziam que ela era fraco em sua oratória: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível” ( 2Co 10.10). Aliás, a Bíblia nos fala de ordem e decência para que os de fora não pensem que estamos loucos! O culto deve ser inteligível (1Co 14.23). Também não quero dizer que os nossos amados irmãos oradores que usam do recurso do grito estão errados. Errado é avaliar um pregador pelo grito. Nós não vamos ganhar no grito! Isso não confere espiritualidade a ninguém! O fervor é medido espiritualmente, tanto do pregador como do ouvinte. O irmão que está vivendo sem fervor é sentido em sua praxe; em sua rotina de vida, a sua frieza é demonstrada. Entretanto, quando perguntamos para ele se está tudo bem, ele responde: “está tudo bem”!

Esse jogo social de parecermos fortes para a sociedade adentrou a igreja e fez com que as pessoas usassem as máscaras da felicidade. Todo mundo está bem! O irmão diz sorrindo: “só umas enfermidades, falta de dinheiro e harmonia, mas, tudo bem!”. O sorriso no rosto virou uma máscara social para enganar os irmãos da igreja ou para dizer, esse irmão sempre sofre, mas nunca reclama! Ele é forte! Ele é o espiritual! Destarte, a Bíblia nos diz: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10 ). É quando reconhecemos nossas fraquezas que somos fortes, pois nossa força vem de Deus! Enquanto você achar que é o supercrente, você estará na realidade sendo o super-hipócrita! Por outro lado, não seja também o “crente dodói”, aquele que só faz reclamar da vida e não age nem faz nada para mudar sua inércia. Vive a vida toda do favor dos irmãos e da igreja e culpa a igreja, o sistema, o país de sua falta de sorte: “oh dia, oh hora, oh azar”. Esse é o lema do “crente dodói”: reclamar! Se ele está frio na fé, a culpa é do pastor, da igreja, do irmão que falou duramente com ele. Se ele está passando necessidade material, a culpa é dos irmãos que não lhe estenderam a mão! Entretanto, ele certamente vive nessa condição há muitos anos e nunca saiu, pois nunca encarou o problema com autenticidade! Nunca disse: “a começar em mim, quebra coração”; “a culpa é minha!”; “vou mudar”. Ele deve pensar assim, pois, no dia do juízo, seremos responsabilizados individualmente. Não adiantará dizer: “a culpa foi de fulano”, pois cada um dará conta de si!

Queridos, termino essa pastoral dizendo que devemos fazer o que Paulo nos orienta: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade (Rm 12.13); e “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15). Para que isso aconteça, precisamos saber se está tudo bem com você realmente! Como vai você? Está tudo bem?

Que Deus retire as nossas máscaras sociais e nos faça irmãos sinceros!

Rev. Ricardo Rios Melo.


Religião, Religiosidade e Espiritualidade

O que é a religião? Se formos à etimologia da palavra, podemos definir a Religião como o Re-ligare = ligar o homem a Deus ou ao divino. A religião é inerente ao homem. Desde sua gênese, o homem é um ser religioso. Deus implantou no coração dos homens a sua lei e esse homem sabe que precisa adorar um ser maior que ele. Mas, sem a revelação especial de Deus, que é a Bíblia, esse homem se desvia de adorar o Deus verdadeiro (Rm 1.18-32).

A religião sozinha não leva ninguém a Deus! É necessário que haja uma modificação no interior do ser humano para que essa Religião possa fazer sentido. Se tivermos uma religião apenas de aspectos exteriores e formais, estamos sendo religiosos, mas não temos vida em nós mesmos. Essa era a acusação de Jesus aos Fariseus, um partido que ganhou força nos tempos dos Macabeus, nos 400 anos de silêncio profético. Eles transformaram o judaísmo em uma religião de aparências. “Eles seguiam a lei de Moisés e as tradições de seus antepassados”, contudo viviam uma religiosidade vazia: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt 23.27).

Os Judeus tinham seu formalismo até na oração. Segundo o Rev. Herminsten M. P. Da Costa, em seu livro Oração do Pai Nosso, o formalismo judaico se estendia em 4 esferas: 1) quanto ao tempo, pois eles oravam “três vezes ao dia: às três, às seis e às nove horas”; 2) quanto ao lugar principal que deveria ser o Templo ou a Sinagoga; 3) quanto à forma da oração, os judeus tinham duas orações principais: Shemá (Ouve), que era o credo dos Judeus e Shemone Esreh (dezoito Bênçãos); 4) quanto à extensividade da oração - muitos judeus achavam que suas orações deveriam ser longas e repetitivas (ver COSTA, Herminsten P, Oração do Pai Nosso, São Paulo, Cultura Cristã, 2001, p. 14-16) .

Cristo rechaça o formalismo judaico e principalmente o dos fariseus em diversos momentos. Em um desses momentos, Jesus propõe uma parábola extremamente educativa e exortativa: “Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18. 9-16).

A religião do estereótipo transforma as formalidades em espiritualidade. Deus acusa seu povo, diversas vezes, de ser formal sem espiritualidade. Eles eram circuncidados na carne, mas seus corações estavam distantes do Senhor; transformaram a devoção a Deus em uma questão formal: “Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16); “Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?” (Is. 1. 12). Jesus ecoa essa mensagem ao dizer: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15.8).

Quando Jesus se encontra com a mulher samaritana no capítulo quatro de João, ele faz o contraste da verdadeira religião, quando ele diz à mulher que chegou a hora em que a adoração não seria mais uma questão formal ou circunscrita a um monte. Ele diz nos versículos 23, 24: “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores”. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Esse texto é muito importante para entendermos o que é adoração a Deus. Segundo o entendimento desse texto, Jesus diz que a adoração não é mais restrita ao povo judeu e nem ao local de adoração, mas que Deus faria de cada um de nós local de adoração, pois a adoração é em Espírito, ou seja, por intermédio do Espírito Santos. Ninguém pode clamar Senhor, Senhor, se não for pelo Espírito de Deus, e na mediação da Verdade, que é Cristo, pois Ele afirma: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Algumas pessoas discordam dessa interpretação e dizem que a Verdade nesse texto é o Cânon; o fechamento da Escrituras, entretanto o Cânon ainda não tinha sido fechado e no NT a adoração se alicerça em princípios e não em normas claras e pré-estabelecidas. Além disso, a pergunta da mulher samaritana a Jesus é reveladora: “Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.25,26), eis a verdade tão esperada! Jesus é o meio que nos conduz a Deus e o Espírito é que aplica essa Verdade. Não existe adoração verdadeira sem ser conduzida pelo Espírito na mediação de Cristo.

A verdadeira espiritualidade passa pelo crivo interno e não do exterior. Mas, você poderá me perguntar, então, se não devo ter uma religião formal! Sim e não. Você deve ter uma religião formal que exteriorize a sua espiritualidade, pois a maneira que você tem de mostrar que é espiritual passa por alguns aspectos: 1) vida diária com Deus externando espiritualidade nos mínimos detalhes: comprando com espiritualidade, vendendo com espiritualidade, comendo, bebendo, vestindo, se divertindo, ou seja, todos os aspectos da vida devem ser espirituais: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). Esse ponto é tão essencial que Paulo diz aos candidatos ao presbiterado que eles não poderiam ser Presbíteros se não governassem bem a sua casa: “pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1 Tm 3.5); 2) a segunda parte desse aspecto espiritual passa por um quê de formalidade. É dentro de uma religião formalmente estabelecida que eu professo crer em Jesus; é nessa profissão conjunta que a igreja mostra que é uma organização, ou melhor, mais do que isso, é um organismo vivo! A Igreja “formal” é a bandeira da Verdade no mundo caótico e sem Deus, e essa igreja, conquanto seja Instituição formal diante dos homens, permanece espiritual, pois a unidade dela visível deve representar a obra invisível de Deus nos corações! É por isso que a Bíblia exorta que não devemos deixar de nos reunirmos para adorarmos a Deus! (Hb 10.25). Nesse ponto é muito fácil oscilarmos de um lado para outro: sermos legalistas como fariseus e de sermos licenciosos. Creio que hoje estamos nesse processo, pois muitos já não enxergam a necessidade que temos de estar unidos e reunidos para adoração ao Senhor. Criaram a religião solitária! E essa religião é uma espécie de formalismos às avessas, pois ela formalizou que a informalidade deve ser o padrão, ou seja, o não padrão virou padrão. Por outro lado, existem muitos irmãos que se tornaram formais, pois quando vão aos cultos ou às reuniões semanais, vão como uma espécie de obrigação formal, pois se eles não estiverem nesses locais no horário e não passarem o tempo que eles determinaram que deveriam passar, não são espirituais. E, muitas vezes, acusam os outros de não serem espirituais, fazendo o papel do fariseu em Lucas 18. 9-16.

Meus irmãos, creio que estamos mais para licenciosos do que para legalistas, pois é só fazermos um apanhado de nossas freqüências para percebermos o descaso de alguns irmãos. Muitos transformaram os encontros com Deus em encontros formais, pois quando alguém não vai a uma reunião e, principalmente aos cultos aos domingos na igreja, por qualquer motivo banal, é como se dissesse indiretamente que aquele momento de culto na igreja é um momento apenas religioso e não espiritual, pois não fará diferença em minha vida. Já criamos até o turismo espiritual, onde o irmão fica visitando igrejas durante os dias de programação da nossa igreja e depois reclama que muitos estão faltando. Existem até aqueles que dizem assim: “fui visitar o pastor cicrano”, e eu fico pensando que devem ter ido à casa do pastor, mas não! Eles foram à igreja respectiva. Ou seja, o compromisso com a igreja local não existe. E não vou nem falar do compromisso com nossa denominação, pois, se falar, a situação ficará muito mais complicada. É fácil perceber que as pessoas mudam de igreja como mudam de roupa. Ainda existem aqueles que decidem ir apenas em um horário, ou pela manhã ou pela tarde, e ficam satisfeitas, porque já fizeram sua devoção religiosa naquele dia.

Queridos, temos que ter muito cuidado com os extremos! Legalismo é pecado! Licenciosidade também o é! Temos que pedir a Deus discernimento espiritual para não oscilarmos de um lado ao outro. Espiritualidade tem a ver com a vida no Espírito. Faça um teste para saber em que grau está sua espiritualidade! Você é um religioso? Ou você é espiritual? Mede as pessoas pelo seu crivo ou pelas Escrituras? Faz da religião um amuleto quando precisa ou tem prazer na adoração ao Senhor? Termino essa extensa pastoral com o alerta de Calvino: “Somente aquele que tem recebido o verdadeiro conhecimento de Deus, por meio da Palavra do Evangelho, pode chegar a ter comunhão com Cristo. O apóstolo disse que ninguém que não tenha posto de lado a velha natureza, com sua corrupção e suas concupiscências, pode dizer que tenha recebido o verdadeiro conhecimento de Cristo. O Conhecimento de Cristo é só uma crença perigosa, não importando o quão eloqüentes possam ser as pessoas que o têm. O evangelho não é uma doutrina da fala, mas de vida. Não se pode assimilá-lo por meio da razão e da memória, única e exclusivamente, pois só se chega a compreendê-lo totalmente quando Ele possui toda alma e penetra no mais profundo do coração. Os cristãos nominais devem para de insultar a Deus jactando-se de serem aquilo que não são. Devemos nos ater em primeiro lugar ao conhecimento de nossa fé, pois esta é o princípio de nossa salvação. A menos que nossa fé ou religião promovam uma mudança em nosso coração e em nossas atitudes nos transformando em novas criaturas, não nos será de muito proveito” (CALVINO, João, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 25).

Deus nos livre do que sempre somos propensos: aos extremos!

Rev. Ricardo Rios Melo.

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Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...