sábado, 30 de dezembro de 2017

Pela janela da vida

Pela janela da vida
Rev. Ricardo Rios Melo

A vida é cheia de surpresas, diz o senso comum. Essa frase entende que a vida tem vida própria. Ela é totalmente desorganizada, mas tem seu ritmo próprio. Mas, se ela tem ritmo, esse não é descadenciado. Entretanto, dizem os especialistas do acaso, a vida tem seu próprio curso.

O tempo também é autônomo para uma parte das pessoas. Ele é curador de doenças emocionais e algoz do corpo. O tempo, segundo o senso comum, é invisivelmente senhor da vida. Contudo, a vida não tem senhorio para os donos da vida.

É... você deve ter achado confuso esse início de discussão, não é? Pois é... confuso mesmo. A única certeza que a maioria das pessoas têm é “Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir
”.  Somos passageiros, segundo essa ideia, e o trem para em estações que ele mesmo escolheu. Você não tem controle de nada.

Há dentro dessa ótica da “vida louca vida” os que acreditam que existe uma energia poderosa que controla a vida, mas que se você tomar ciência dela, você pode assumir o comando. Entretanto, quando um acidente acontece, elas dizem: “faz parte da vida”.

No mês de dezembro de 2017, peguei um taxi e, como sempre, conversei com o taxista. Esse bom profissional me surpreendeu. Ele disse que era ateu e que acreditava em uma energia que domina o mundo. Procurou falar do filósofo holandês, Baruch de Spinosa (1632-1677), também falou do naturalista Charles Darwin (1809-1882), falou das igrejas neopentecostais. Criticou o moralismo cristão. Mas, de repente, o seu filho liga e ele amorosamente responde. Fiquei pensando sobre essa cena tipicamente judaica cristã.

Depois que ele falou com o filho, eu lhe perguntei: bom, o senhor tem valores judaico-cristãos, pelo que acebei de perceber em sua ligação. Comecei a falar sobre filosofia moral e usar o argumento ontológico de Anselmo De Cantuária (1033-1109). A minha abordagem não era tentar convencê-lo da existência de Deus, pois creio que essa obra é sobrenatural, mas estava curioso em saber como ele responderia aos argumentos.

Comecei a falar também do Método de René Descartes (1596-1650). O meu ponto era que não existe ateísmo antes do período racionalista. Não há registros de ateus antes do advento do racionalismo e do iluminismo. Descartes não descrê em Deus apesar de ter excluído Deus do seu método científico.

Bom, não continuarei esse arrazoado filosofando para não cansar os leitores. A minha questão é: quando saímos de casa, não sabemos com quantas pessoas falaremos e como elas responderão. Não existe uma receita do bolo em nossas relações, pois cada pessoa é um universo de possibilidades (mesmo que saibamos, como cristãos, a origem de todos os males).

Aquele homem, que tinha um nome grego, era um taxista. Um homem do dia-a-dia. Um homem comum que filosofava sobre a vida e sobre as possibilidades e impossibilidades. Enquanto ele falava, eu prestava atenção e olhava para a rua.

Pela janela do carro, vejo as pessoas passarem rapidamente. Estão correndo o tempo todo. Estão vivendo o aqui e o agora. Muitas delas nem sequer atentaram para essas grandes perguntas da vida: qual o sentido da vida? Estou sozinho no universo? Há governo? Existe um Deus? Qual a origem da família e das pessoas com quem convivo? Estão “caminhando e cantando e seguindo a canção”.

Contudo, um dia você poderá se deparar com alguém que olha através da janela de sua casa e se pergunta: qual o sentido disso tudo? Na fala do meu amigo taxista: somos uma sucessão de acasos e de improbabilidades governados por uma energia viva e sem controle.

Da janela de sua vida, no alto dos seus cabelos embranquecidos pelo tempo, apenas uma coisa não está organizada na vida desse motorista: uma ligação; uma ligação afetiva, emocional, mas, para ele, energética, informe e gestada pelo acaso.  

Ele ficou curioso por eu saber um pouquinho do que ele estava falando. Afinal de contas, passei perto do tipo de pensamento que ele expressava e sabia um pouquinho dos pensadores em questão.

Ele ficou surpreso ao saber que eu era pastor e logo perguntou de que igreja. Quando falei que era presbiteriano, ele elogiou a igreja (ufa...pensei comigo). Contudo, cheguei no meu destino e ele disse que precisava me estudar (achei engraçada a frase... deve ter me achado louco...risos). Perguntou minha idade e quase não acreditou que eu era tão novo para o conceito dele.

O final dessa história, provavelmente eu não poderei saber. Contudo, fiquei pensando sobre o ateísmo energético daquele homem. Lembrei-me da época em que eu acreditava em um deus que era impessoal e pura energia. Afinal de contas, não nasci em um berço protestante.

Ao escrever esse pequeno grande arrazoado, minha mente viajou para uma época em que eu ficava da janela da sala de casa olhando as pessoas andando e uma comunidade que ficava bem na frente do prédio em que eu morava.

Pessoas que, em poucas horas, perdiam suas casas e pertences com as chuvas fortes que aconteciam periodicamente no meio do ano. Como eram suas janelas? Como elas enxergavam a vida? Como encontravam forças para recomeçar? Será que uma energia as faria levantar? Será que pensar que nada existe além da morte as faria catar os pedaços de suas vidas? Essa observação gerou até uma letra de uma música minha (isso é outra história).

Será que elas pensavam que a vida era governada por uma energia ocasional? Será que elas acreditavam que virariam adubo para plantas? O que se passa na janela de suas vidas?

Aqui em Salvador, terra de uma das maiores festas populares brasileira, às vezes penso que as janelas estão embaçadas! Há uma crosta enorme nos vidros. Muitas já emperraram. Os ferrolhos do tempo enferrujaram as consciências. Na dança da vida louca vida, não há tempo para contemplar nem o belo.

Aliás, falando do belo, a utilidade do belo transcende a teoria da utilização, como diria Roger Scruton, em seu livro Beauty. A beleza das coisas transpõe o olhar utilitário da vida e embeleza seus vitrais.

Talvez você esteja andando pelo mundo, e como diz a música, “vendo tudo quadrado pela janela do carro”. Entretanto, além da janela, e até mesmo dentro da janela, existe algo além do que vemos, pensamos e sentimos.

Eu não creio em um mundo governado por sucessões de acasos. Não creio que a desorganização geraria a beleza das coisas. Não posso concordar com meu amigo taxista. Pois, da janela da minha vida, vejo um Deus criador de todas as coisas, que governa átomos, moléculas, ondas, o invisível, e nada é imponderável para Ele.

Da janela da minha vida, vejo propósito nas coisas existentes, vejo finalidade, vejo organização. Mas, eu sei que nenhum argumento teleológico, cosmológico, ontológico convencerá meu amigo taxista. Não foram esses argumentos importantes dentro da filosofia cristã que me fizeram acreditar em um Deus pessoal (que tem persona).

Não foram argumentos da filosofia estética que me fizeram enxergar através da janela da vida, não! Foi o Espírito Santo de Deus, uma das três pessoas da santíssima Trindade, que imputou a obra de Cristo em meu coração.

Meu testemunho não serve para convencer ninguém. Contudo, a minha intenção é que nesse ano novo você olhe pela janela de sua vida com um outro olhar. Que o Senhor limpe suas janelas, destrave os ferrolhos e te faça enxergar o Sol da Justiça: Cristo!

Não somos formigas movimentando um mundo sem sentido, sem objetivo. Também não somos tão pequenos e desprezíveis, pois somos seres pensantes e fazemos coisas magníficas. Mas, também não somos deuses manipuladores de energias incontroláveis. Não somos maiores do que pensamos ser e nem menores do que somos.

“O que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito. Um tudo em relação ao nada, um ponto a meio entre nada e tudo.” (Blaise Pascal)

 “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Co 15:19).

Antes de festejar, olhe pela janela!

Em Cristo e por Cristo,

Rev. Ricardo Rios Melo







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