sábado, 21 de novembro de 2015

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (4ª parte)

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (4ª parte)
Rev. Ricardo Rios Melo



A tentativa atual de enfatizar a obra do Espírito como uma obra autônoma é um atentado à Trindade e, na verdade, não tem sido uma exaltação da terceira pessoa da Trindade; antes, tem sido um esforço hercúleo de centralidade no homem. A ênfase tem sido na “liberdade” que o Espírito concede ao homem no culto; na “liberdade” que Ele “concede” ao crente de não necessitar das Escrituras; na liberdade e sabedoria que os crentes recebem de não precisar de mestres que os ensine; liberdade de uma teologia que, segundo eles, engessa a igreja. Outra ênfase é no poder que, segundo eles, o Espírito concede ao crente de falar sem um conhecimento Escriturístico; de prática de toda sorte de “milagres” por obreiros especiais, iluminados, uma casta superior aos pobres crentes comuns da igreja.
O apóstolo Paulo, quando fala da liberdade do Espírito, está no contexto comparativo entre a tentativa frustrada dos judeus de obedecer à lei para a salvação e a liberdade desse fardo impossível, concedida por Cristo aos que creem:

12. Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. 13  E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. 14 Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. 15  Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. 16  Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. 17  Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.  18  E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2 Co 3. 12-18).

Essa parte do texto começa bem antes, quando Paulo faz uma comparação entre o ministério da Morte, que é a Lei, e o ministério da Justiça, que é Cristo. A ideia paulina é que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado e, consequentemente, a morte: “visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20).
O apóstolo Paulo entende que o papel da Lei não é justificar o homem, mas apontar para Cristo; aponta também para a grande realidade espiritual: o homem está morto em seus delitos e pecados: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2:1), “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos” (Ef 2:5).  “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos” (Cl 2:13). 
O apóstolo afirma que Cristo nos livrou da escravidão da morte e da terrível obrigação de seguir a lei para a salvação. O papel correto da Lei é resgatado em Cristo, pois é somente o Filho, perfeito, e em sua obra ativa, que poderia cumprir os ditames da lei: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8. 1,2).
Em 2 Coríntios capítulo 3, Paulo está comparando o ministério da Lei como o ministério de morte. Na teologia paulina, a lei é boa, mas foi enfermada pelo pecado, pois o homem caído não pode por si mesmo segui-la (vd. Rm 8. 1-12). O texto que antecede ao versículo da liberdade do Espírito, usado isoladamente por alguns irmãos, esclarece o pensamento paulino de maneira cristalina. O texto deve ser lido todo como se segue:
1  Começamos, porventura, outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? Ou temos necessidade, como alguns, de cartas de recomendação para vós outros ou de vós? 2  Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, 3  estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. 4  E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; 5  não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, 6  o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. 7  E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de  Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente, 8  como não será de maior glória o ministério do Espírito! 9  Porque, se o ministério da condenação foi glória, em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça. 10  Porquanto, na verdade, o que, outrora, foi glorificado, neste respeito, já não resplandece, diante da atual sobreexcelente glória. 11  Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permanente. 12  Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. 13  E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. 14  Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. 15  Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. 16  Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. 17  Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. 18 E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

Os detratores de Paulo estão perturbando a igreja em Corinto; criando divisões e promovendo falsas doutrinas. Paulo faz uma exposição belíssima da aplicação da Lei. A comparação entre Cristo e Moisés é fantástica. Moisés escondia o rosto para que o povo não percebesse que a glória do Senhor que estava estampada em seu rosto sairia com brevidade. Mas, em Cristo, a glória é plena. Não precisamos esconder nossos rostos, pois Cristo está em nós. Nossos rostos estão descobertos e estamos livres dos ditames da lei. Estamos livres do pecado e da condenação certeira da lei. O apóstolo tem ousadia no falar, pois o seu ministério traz vida e liberdade. A Letra (lei) mata, o Espírito Santo liberta o homem do pecado e da morte.
Percebam que esses textos não trazem nenhum argumento para os pansobrenaturalistas. Pelo contrário, é um engano e desrespeito ao Espírito distorcer o que o Próprio Espírito inspirou. Falando sobre o fogo estranho de Nadabe e Abiú, John MacArtuhur, aduz:
O Espírito Santo – a gloriosa terceira pessoa da Trindade – não é menor do que o Deus Pai ou o Deus Filho. Assim, desonrá-lo é desonrar o próprio Deus. Insultar o Espírito é tomar o nome de Deus em vão. Afirmar que é ele quem autoriza a adoração obstinada, caprichosa e antibíblica é tratar Deus com desprezo. Transformar o Santo Espírito em um espetáculo é adorar a Deus de uma maneira que o desagrada. É por isso que muitas atitudes irreverentes e doutrinas distorcidas trazidas para a igreja pelo movimento carismático hodierno são iguais ao fogo estranho de Nadabe e Abiú, ou até mesmo pior. Elas são uma afronta ao Espírito Santo e, portanto, ao próprio Deus – o que é motivo para julgamento severo (cf. hebreus 10: 31).[1]

Outros textos são citados por MarcArthur para mostrar que o Espírito requer a mesma reverência que as demais pessoas da Trindade: Mt 12.24; At. 5.11, At 8.20 e  Hb. 10.31.
A tentativa da dissociação da reverência que Deus requer no Antigo Testamento do Novo Testamento é puramente arbitrária e antibíblica. Portanto, o pansobrenaturalismo não só enfatiza a ação do Espírito como algo ordinário e corriqueiro, como também aponta para um agir do Espírito dissociado do Antigo Testamento e da própria trindade. Com o afã de serem espirituais, acabam sendo antropocêntricos, emocionalistas e, nos dizeres de MarcArthur, caóticos. 
Jonh MarcArthur conclama os herdeiros da reforma para uma luta corajosa contra aquilo que ele chama de “abusos difundidos sobre a obra do Espírito”:

Se declararmos fidelidade aos reformados, devemos comportar-nos com o mesmo nível de coragem e convicção que eles demostraram enquanto batalhavam pela fé. Deveria haver uma guerra coletiva contra os abusos difundidos sobre o Espírito de Deus. Este livro é um convite para aderir à  causa pela honra dele. Espero, também lembrá-lo como é o verdadeiro ministério do Espírito Santo. Não é caótico, ostentoso e extravagante (como um circo). Normalmente é oculto e discreto (da forma como o fruto desenvolve). Não precisamos ser frequentemente lembrados que o principal papel do Espírito santo é exaltar Cristo, especialmente para suscitar o louvor o seu povo a Cristo o Espírito faz isso de maneira exclusivamente pessoal, em primeiro lugar nos repreendendo e convencendo – mostrando-nos o nosso próprio pecado, abrindo nossos olhos para o que é a verdadeira justiça, e nos fazendo sentir profundamente a nossa reponsabilidade para com Deus, o justo juiz de todos (João 16: 8-11).[2]

É interessante notar que  a tentativa de colocar o holofote no Espírito atribuindo a Ele todo tipo de comportamento esdrúxulo, como andar como leão, vomitar, risos incontroláveis, curas de dor de cabeça, curas de dor de cotovelo, profecias que não se cumprem, visões estranhas etc., afastam ainda mais o homem de Sua obra.
A obra do Espírito desde o AT está intimamente ligada ao Pai e ao Filho. Contudo, a obra do Espírito no NT é claramente glorificar o Filho; é apontar para o Filho e aplicar a obra Redentiva nos corações dos homens.  O Pai elege, o Filho consuma a obra na Cruz e o Espírito aplica.

continua... 



[1] John MarcArthur, Fogo estranho: um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo hoje, 1ª ed, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 9.
[2] John MarcArthur, Fogo estranho: um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo hoje, 1ª ed, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 15,16.

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