sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os escolhedores de cabeça


Os escolhedores de cabeça

Por Rev. Ricardo Rios Melo

 

Em minha infância, eu me lembro de ter assistido filmes e desenhos do Scooby-Doo onde uma tribo assustadora e grotesca tinha o poder de encolher cabeças. Estudos atuais já detectaram esse método e descobriram o segredo dessa tribo:

 

Os Encolhedores de Cabeça eram assim conhecidos justamente por causa prática do ritual e do conhecimento da técnica [para encolher as cabeças], mantida em segredo por incontáveis gerações; eles pertenciam a uma tribo denominada Shuar ou Shuaras [e suavam; ô, como suavam para encolher aquelas cabeças!]. Os Suharas são um grupo étnico [biótipo, cultura, dialeto próprios] que habita uma região da floresta fronteiriça entre o Peru e o Equador.
O ritual era praticado como uma forma de justiça aplicada aos inimigos. Os nativos acreditavam que aquele processo era necessário para anular o poder do Espírito daqueles mortos de retornarem em busca de vingança. Ou seja, era uma forma de evitar que o inimigo morto virasse uma assombração.

Gibbon descreve o processo: Primeiro, a parte de trás da cabeça tem de ser aberta. Toda a pele é retirada do crânio juntamente com a cabeleira [portanto, é mais que um escalpelamento, é escalpela-descaramento, se assim o leitor permitir a esse tradutor definir, já que arrancam a cara do sujeito também].

Toma-se muito cuidado para não danificar a peça, especialmente o rosto. O crânio é reservado, [reserve... como se diz nas receitas culinárias] e a carne fresca, descartada. Depois, coloca-se a pele daquele rosto para ferver durante meia hora em mistura de água e tanino, uma substância que tem a propriedade de curtir as peles. Se ferver por mais tempo, os cabelos podem cair.

Essa máscara de defunto é colocada para secar ao sol devidamente recheada com pedras esféricas, para que não se deforme. Depois de seca, é virada ao avesso. O procedimento é repetido durante seis dias até que o material fica com apenas um quarto [25%] de seus tamanho original. Então, os olhos são costurados, para que o Espírito não possa enxergar. Pinos de madeira são transpassados nos lábios, para que o Espírito não possa falar, assim não poderá clamar por vingança. Os pinos também são fixados nas orelhas... para que o defunto não fique escutando conversas.

Ao fim de todo o processo, uma vez que a está perfeitamente cabeça encolhida, recheada, reconstituída em miniatura, é o momento da festa de celebração, a Tzantza.. (http://www.sofadasala.com/noticia/encolhedoresdecabecas.htm - acesso 20/06/2014).

 

Podemos perceber pelo relato que não tem nada de poder místico. É apenas uma técnica muito bem elaborada para assustar os oponentes. Portanto, não precisamos ter medo de que alguém com um cajado ou com palavras mágicas encolha as nossas cabeças. Eles precisam matar a pessoa para que isso aconteça por intermédio de processo químico e, digamos, cirúrgico.

Todavia, quando olhamos a sociedade atual por um ângulo analítico, parece que estamos passando pelo ritual da tribo Shuar: nossos crânios continuam do mesmo tamanho, mas o nosso cérebro tem perdido a capacidade de elaborar, discutir, analisar, perceber o mundo que nos cerca.

Existe uma tribo escolhedora de cabeça que não usa técnicas cirúrgicas ou mágicas, mas estão conseguindo encolher a capacidade do homem de pensar. Não entrarei no campo ideológico, no sentido de vertentes ideológicas, pois é um assunto grande, polêmico e fora da esfera desse arrazoado. A questão é que os escolhedores não poupam ninguém. Há um niilismo ignorante, ignorante porque ignora a conceituação filosófica da negação do sentido. É um não conhecer não derivado da postulação de que não se pode conhecer nada em essência. É um não conhecer por não conhecer. Por não estar nem aí. Por não está conectado com o sentido do sujeito. Não concordo com o niilismo. Entretanto, este é um movimento coerente com o que prega, pois tenta ser uma filosofia agnóstica negando o conhecimento essencial das coisas. Um dos menores problemas para essa filosofia enfrentar é o simples fato de que para conhecer que eu não posso conhecer eu preciso conhecer que não posso conhecer. Os niilistas não concordarão com essa afirmação, mas eu posso alegar que não posso conhecer o que não posso conhecer.

Talvez o problema resida na falta de sentido para o sujeito em buscar qualquer sentido.  Na Era do Vazio, como diria Gilles Lipovetsky ou na Sociedade Líquida, como bem frisou Zygmunt Bauman, a efemeridade é a única constância. A liquidez é a rigidez desse novo homem.

O homem pós-moderno é muito ocupado, cheio, para se dar conta de seu vazio. Na era das redes sociais onde todo mundo está conectado, as relações são superficiais e sem conexão com a amplitude da realidade. Somos íntimos dos desconhecidos e distantes de quem conhecemos de fato.

Há um hedonismo não filosófico também, pois apesar de não elevarem Epicuro (341 a.C) à estatura de um deus, vivem a vida evitando o desprazer. Entretanto, o epicurismo é filosófico e pensante, diferentemente dos “epicuristas” contemporâneos que evitam o desprazer de pensar. Mesmo discordando do hedonismo, não encontramos no hedonismo atual uma apreensão conceitual. A regra é: não pensar! Não se canse! Não queimem seus poucos neurônios!

   Quando somos crianças, temos uma sensação de que, ao fecharmos os olhos, os monstros sumirão da nossa frente. A sociedade atual é infantil e fecha os olhos à realidade. A equação é simples: não penso, logo, não existe. A cabeça encolhida não é detectada pelo espelho de Pollyana que precisa olhar tudo como positivo para não atentar para o fato de sua pobreza e de que seu pai tinha morrido (Pollyanna, escrito por Eleanor H. Porter em 1913).

O lema é: não pense em politica, filosofia, sociologia, história, psicologia, saúde, doença, morte e vida, apenas viva. Respire! Isso me faz lembrar uma frase bastante emblemática do racionalista Descartes, onde ele constata que é a razão que nos diferencia dos animais: “(...) é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um (...). (René Descartes, Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultura, 1999, p. 36). Se ele pudesse, revolver-se-ia do túmulo ao olhar para a contemporaneidade.

Dentro da igreja, a tribo Shuar já fez suas vítimas: crentes que não pensam. Esqueceram-se de levar a cabeça para o culto ou já estão com elas encolhidas. Outros, sem saber, seguem a ideia reducionista de Tertuliano (160 – 220 AD) perguntando:  “o que tem a ver Atenas com Jerusalém?”.  Não há um pensamento crítico sobre a mensagem e nem sobre a vida. São os espirituais. Acreditam que ao estudar história, filosofia, sociologia, teologia, ouvir um sermão construído exegeticamente respeitando cultura, língua, história, geografia, ou qualquer outra coisa que não seja a Bíblia apenas, estariam negando a fé.   

Essas vítimas dos encolhedores de cabeça não percebem e nem podem perceber que essa cosmovisão não é deles. Ao olhar para um simples texto da Bíblia, você carrega todos esses valores que eles negam enxergar.

O caleidoscópio da vida não permite a dicotomia grega do homem: a matéria como má e espirito como sendo bom.  

Certa feita, eu convidei o grande historiador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Dr. Wilson Santana, para falar à igreja sobre sua tese defendida no doutoramento em Ciência da Religião, na PUC/SP , O pensamento social, o Brasil e a religião, que aliás,  é fantástica e merece um livro.  Após terminar a excelente palestra, um irmão piedoso fez a seguinte pergunta para mim: o que isso tem a ver com a igreja, pastor? 

Bom, eu fiquei chocado com a pergunta. Mas, ao longo do tempo, venho tentando mostrar que o homem é um ser total e que conhecer a cultura de modo geral com todas suas nuances é de suma importância para nos comunicarmos com esse mundo vazio de sentido.

A tribo Shuar  contemporânea em nada se assemelha a tribo original, mas está modernizada e altamente tecnológica. Ela tem encolhido indistintamente o cérebro de muitas pessoas, mas espero que você não tenha sido atingido por sua “magia”.  Afinal de contas, como diria o saudoso John Stott, Crer é Também Pensar.

 

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:1,2).

 

 

 

Deus proteja sua cabeça!

Rev. Ricardo Rios Melo

 

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