sábado, 31 de maio de 2014

“O varal da vizinha”

“O varal da vizinha”




 Começo esse arrazoado com uma ilustração muita conhecida e propagada em vários sites da internet. Segue a história: “Na primeira manhã de um casal em sua nova casa, durante o café, a mulher reparou através da janela uma vizinha que pendurava seus lençóis em um varal. Ela, então, comentou com o marido: - Mas que lençóis sujos ela está pendurando no varal! Provavelmente ela está precisando de um sabão novo.  Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas! O marido observou calado. Alguns dias depois, novamente durante o café da manhã, a vizinha pendurava seus lençóis no varal. A mulher então comenta com o marido: - Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas! E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal. Passado um mês, a mulher surpreendeu-se ao ver os lençóis brancos, alvissimamente brancos, sendo estendidos. Empolgada foi, então, dizer ao marido: - Veja! Ela aprendeu a lavar as roupas! Será que a outra vizinha a ensinou? Porque, não fui eu quem a ensinei. O marido calmamente respondeu: - Não, é que hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros das nossas janelas!

Essa história retrata algo surpreendente nos seres humanos: a incapacidade de ver seus próprios defeitos. Muitas vezes, estamos tão obliterados no entendimento que não conseguimos enxergar as nossas falhas. Somos excelentes críticos de obras pontas, mas somos incapazes de construirmos algo.Em diversas situações, fazemos aquilo que é chamado pela psicologia de projeção: quando lançamos no outro algo que é nosso.  É comum vermos defeitos nos outros que na realidade são nossos. É difícil aceitarmos o fato de que somos falhos.

É na infância que esses construtos são estabelecidos. Quando alguém pergunta a uma criança algo que ela fez de errado, ela comumente fala: foi o Joãozinho que fez ou foi ele que me fez fazer. Na fase adulta se esperaria que isso passasse, porém, essa não é a realidade. Apenas nos sofisticamos mais nesse defeito ao vermos no outro algo que é nosso ou simples e infantilmente culpamos as pessoas e as circunstâncias por nossas imperfeições.

É importante notar que a cosmovisão atual tende a fortalecer essa desculpa, pois joga para o coletivo a responsabilidade: a culpa é do governo; sociedade; pai e mãe; escola etc. Conquanto esses personagens tenham sua parcela de culpa, a nossa janela continua suja.A reponsabilidade individual faz parte do mundo adulto: se espera que um adulto assuma seus erros e responda por eles. Na criança, essa atitude deve ser trabalhada com sabedoria para que ela cresça sabendo de suas responsabilidades.

A projeção dificilmente será aniquilada. No entanto, ao percebermos um erro no outro, deveríamos automaticamente nós perguntar: o que é do outro?  o que é meu? Será que temos essa compreensão? Bom, devemos desenvolvê-la se quisermos crescer como sujeitos maduros.

Os cristãos não estão livres de terem suas janelas sujas. Cristo combateu com grande veemência esse tipo de atitude em Mateus 7.1-5: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, Jesus não proíbe o julgamento em si. Ele regula a forma com a qual devemos julgar. Caso Jesus tivesse negado a possibilidade de julgamento, não teríamos como entender o texto que diz que pelos frutos é que conhecemos a árvore. A questão é o critério do julgamento em Mateus 7.15- 20: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.

A questão é o critério (Krima) do julgamento, a medida (metron). Os fariseus eram hipócritas que buscavam sua própria glória e louvor. Julgavam os outros com dureza e sem misericórdia e praticavam vários pecados que condenavam: “Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos?” Romanos 2. 22. ; não deixavam passar um mosquito, mas engoliam um camelo (Mateus 23.24).  Eles eram hipócritas (hupokrites): essa palavra era usada na época para descrever os artistas de teatro que interpretavam outras pessoas; descreve a ideia de atuar, os dissimulados, impostores.

Ao final do texto, Jesus diz que, após tirar o argueiro (Karpho = ramo seco, palha, palhiço, resíduos dos cereis) dos olhos, a pessoa poderia ver claramente o argueiro do irmão.

Todo julgamento cristão deve ter como lentes a Bíblia. Entretanto, o julgamento (krino) não deve ter o caráter condenatório finalístico, não! A posição é examinar os nossos atos pela régua das escrituras e ajudar o irmão faltoso com as Escrituras a voltar ao crivo bíblico.  A medida, a régua, não são os nossos olhos e nossa moralidade - não é a imposição da nossa  moralidade ao outro. A medida é a Escritura que afirma em João 8.7: “Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”.

Paulo afirma, em Romanos 2.16, que Deus julgará os segredos dos homens segundo o evangelho: “no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho. A medida deve ser as Escrituras, pois a medida da balança que usarmos será essa mesma que servirá de julgamento para nós. É pertinente notarmos que geralmente as pessoas mais duras e rígidas com as outras escondem uma janela imunda e embaçada. A rigidez com o outro é uma cruel projeção e péssimo indício.

Devemos ter em mente que a questão aqui não é cairmos em um antinomismo ou licenciosidade, não! A questão é que devemos olhar primeiramente para a nossa janela; limparmos a janela.

Uma das marcas da igreja verdadeira, segundo os reformados, é a disciplina eclesiástica: corrigir o irmão faltoso. Essa doutrina da disciplina repousa sobre a autoridade da igreja (Mateus 18.18) que julgará as faltas por intermédio das Escrituras. Não estaremos isentos ao erro humano, mas, o critério é a Escritura. É dentro desse crivo que Paulo realiza uma disciplina na igreja de Corinto: “Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5. 1-5).

 As Escrituras funcionam como o código a ser seguido para o julgamento. É uma avaliação o mais objetiva possível. Quando falo o mais objetiva possível, pretendo dizer que a subjetividade humana permanece. Daí a necessidade de uma boa hermenêutica.

Davi estava certíssimo quando preferiu cair no julgamento de Deus e não no julgamento humano – 2 Samuel 24.14: “Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu.

Querido, antes de olhar a roupa suja no varal do vizinha(o), limpe sua janela! Retire sua fantasia e pare de interpretar: seja menos hipócrita! Acorde mais cedo e lave sua janela!  

Existe uma frase que li há muito tempo no arquivo histórico da Igreja Presbiteriana do Brasil, no jornal O Puritano, que diz assim: “não vá para igreja procurar um hipócrita, vá para casa e se olhe no espelho, você encontrará um!”

Seja mais cauteloso ao pegar uma pedra para atirar, pois pode vir uma pedreira para você.

Deus nos abençoe!Rev. Ricardo Rios Melo 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Minha casa minha vida




Minha casa minha vida

Rev. Ricardo Rios Melo
 
 

 

Essa frase é muito popular no Brasil e virou um programa de governo. No bojo dessa ideia, temos uma sacada política em reconhecer que a aquisição de uma casa representa, subjetivamente, a conquista do seu espaço e de sua individualidade.

A conquista da casa é a certeza de que você terá um lugar para recostar sua cabeça. Um endereço para voltar. Um lugar para dizer que é seu e que te pertence.  

Que emoção deve ter uma pessoa ao receber as chaves de sua moradia própria! A alegria e satisfação da conquista. Os obstáculos transpostos. Deve, com razão, passar um filme na cabeça com os piores e os melhores momentos: lutas, dificuldades e, finalmente, a tão esperada vitória!

Quando alguém está muito distante de seu país e de sua família, a primeira coisa que diz ao chegar ao lar é: que bom estar em casa! A ideia de casa como pertencimento, local específico, habitação é muito comum em nosso linguajar e imaginário.

No Antigo Testamento, a ideia de casa está ligada à família: Disse o SENHOR a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa, porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio desta geração” Gn 7.1. Portanto, boa parte das vezes em que a palavra casa é usada refere-se à família. Algumas vezes, a palavra aparece no Antigo Testamento junto com a palavra família (parentela) que também representa ligação com pessoas e não com imóveis, paredes, tijolos. Pode também ter o significado de povo: casa de Israel (Ex 16.31).

No Novo Testamento, a palavra casa parece não mudar seu sentido e, inclusive, a ideia de família. Em At 11:14, o texto relata:  o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa. O significado de casa deve ser avaliado em alguns sentidos: local de moradia, habitação; família, parentesco, pátria. No caso de Cornélio, ele foi batizado e toda sua família; afinal, seria bastante esdrúxulo batizarem as paredes de sua casa.

É muito importante entendermos que, no Novo Testamento, Cristo diz que tem umas casas, umas moradas que não foram compradas por nós (Jo 14 e 15); das quais a chave não nos pertence. O sentido de vitória e de êxito pessoal é vão. A conquista não é nossa.

Existe um programa Minha casa Minha vida que não é do governo brasileiro, mas do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Esse programa é gratuito. É totalmente quitado por Jesus na Cruz. O imóvel é quitado. A dívida nossa foi saldada completamente: tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz Cl 2:14.

Entretanto, não somos nós que, inicialmente, moraremos na casa. Nós seremos as moradas. Todo aquele que crer no Filho de Deus: Jesus o Cristo, torna-se morada do Espírito. Que grande benção! Que grande responsabilidade! No programa eterno de Deus, o slogan deveria ser: Minha casa, Sua vida! Pois todo aquele que se torna casa de Deus precisa entender que não vive mais para si.

Para ser aprovado no programa minha casa Sua vida, você terá que reconhecer que seu cadastro é negativo: você é um pecador e não merece nada; tem feito o que é mal perante o Senhor e não tem direito a proteção do Seu teto.

Todavia, após ter reconhecido seu passado tenebroso diante do supremo Senhor, o Pai da casa receberá você para pertencer a sua família e você terá uma pátria, um lugar para morar eternamente e uma família para chamar de sua.

A chave é o arrependimento. O fiador eterno é Cristo. O selo do contrato é o Espírito que dá. Quem recebe o pagamento é Deus o Pai.

Querido, Aquele que não tinha onde reclinar a cabeça em vida (“Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” Mt 8. 20) concedeu-lhe gratuitamente, em sua morte na cruz, a garantia de que você terá uma morada eterna e descanso indizível!

A casa do programa minha casa minha vida é terrena. A casa que Deus concede é eterna. Que Deus te faça morada do Espírito para que todos nós estejamos naquele grande dia juntos no Lugar (casa = novos céus e nova terra) preparado para nós.

Para aqueles que já são moradas do Espírito, santifiquem suas vidas!

Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” 1 Pe 2.4-5.

 Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também Jo 14:1- 3.  

 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. Ainda por um pouco, e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis; porque eu vivo, vós também vivereis. Naquele dia, vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós Jo 14:16-20.

 

Que Deus habite em vós!

Rev. Ricardo Rios Melo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando eu tiver tempo...


Quando eu tiver tempo...
 
“Quando eu tiver tempo eu farei ...”  essa é uma das frases que mais ouço. O tempo já foi cantado, transformado em verso e prosa, já foi senhor de destinos em vozes brasileiras, como a de Caetano Veloso. O Tempo e o Vento é tema literário na pena de Érico Veríssimo. O cantor e compositor Cazuza dizia que “o tempo não para”. Renato russo escreveu “Tempo Perdido”. Há um fascínio inegável pelo tempo. 
Muitos gostariam de segurá-lo com as mãos, mas, como água, ele escorre pelos dedos. Os que gozam de felicidade gostariam de congelá-lo. Os sofredores oram para que ele passe logo. Os namorados apaixonados gostariam de eternizá-los, mas os que sofrem de amor querem que ele seja a cura para a ferida.
O tempo também é a desculpa perfeita para quase todas as irresponsabilidades humanas: não tive tempo. Basta dizer que está sem tempo para nada e você, supostamente, resolve boa parte das cobranças dos outros.
Os estudantes dizem que não tiveram tempo para estudar para determinada prova. Os trabalhadores dizem que não tiveram tempo de concluir determinada demanda. É... o tempo é amigo da gente, mas, muito as vezes, torna-se nosso inimigo; um verdadeiro algoz. Basta você tentar praticar um esporte depois de muito tempo parado que você encontrará motivos de sobra para ter ódio dele.
O tempo é um bom professor. Ele ensina que dormir enquanto ele passa não é um bom negócio, pois você não poderá ver a reprise. Enquanto escrevo esse arrazoado, ele está passando rapidamente. Ou será lentamente?
Se o tempo fosse uma pessoa, ele causaria de imediato duas reações: ódio e amor. Indiferença não é algo que o tempo provoca. Aliás, alguém indiferente a ele perceberá logo, logo que ele não deixará barato essa atitude.
Quando dizemos que não temos tempo, estamos de certa forma acertando, pois o tempo não é nosso: não o temos! Não o possuímos! O único ser que pode governá-lo é o Senhor, pois Ele está fora do tempo. Ele é atemporal, eterno. Só um ser fora do círculo temporal pode deter ou libertar o tempo!
Quando deixamos a vida para vivê-la posteriormente, estamos, nas entrelinhas, dizendo que somos senhores dele. Mas, como podemos fazer isso, se lhes somos submetidos? Como dizer que faremos algo no futuro se nós não temos controle do tempo?
Pois é, como diz o autor aos Eclesiastes, no capitulo 3.1-8: “há tempo para tudo debaixo do sol: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz”.
Quando dizemos que não temos tempo, de certa forma, estamos falando uma verdade, pois ele não nos pertence. Ao mesmo tempo, estamos confessando que temos sido negligente com o tempo que Deus tem nos dado, pois não o estamos utilizando como mordomos prudentes. Deus requererá de nós o tempo que não utilizamos como deveríamos; o tempo perdido e gasto no que não glorifica a Ele.
Em qualquer lugar ou atividade, o tempo não é uma pessoa ou um deus. O tempo está submetido ao Deus eterno, atemporal. Isso traz angústia aos controladores e àqueles que gostariam de ser seus senhores.
A verdade bendita é que o tempo é controlado. Ele é limitado, finito, delineado pelo grande Tapeceiro que é Deus. Como uma tapeçaria que se olha do avesso, não encontramos muitas vezes uma linha que explique as intempéries da vida.
“No fim das contas”, como bem cantou o poeta e compositor cristão Stênio Március:  Se você olha do avesso, Nem imagina o desfecho, No fim das contas, Tudo se explica, Tudo se encaixa, Tudo coopera pro meu bem”.
 O tempo é escolha. Cuidado com o urgente, pois ele se disfarça de prioridade e te engana. Nem sempre o que é urgente é prioridade. Muitas vezes, virou urgente porque você não priorizou.
Existe uma frase que é creditada a Pitágoras: “Com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito”.
Para os procrastinadores, aqueles que deixam sempre para depois tudo, fica o alerta de Tiago 4. 13-17: Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo. Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna. Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando”.
 
Termino com a exortação de Paulo que deve ser aplicada para a nossa correria moderna:
 
“Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Ef. 5. 15-16).
 
 
 
Rev. Ricardo Rios Melo

“Assim caminha a humanidade”


“Assim caminha a humanidade”

Rev. Ricardo Rios Melo
 

 

Confesso que, há muito, tenho vontade de escrever sobre esse tema. O talentoso Lulu Santos utiliza esse título em uma de suas belas músicas românticas. Entretanto, o meu assunto longe está de ser romântico. Aliás, espero sinceramente que não haja romantismo quase nenhum, pois nenhum é impossível. 

Historicamente, o homem tem repetido atos que são lidos facilmente pelos historiadores e relatados em livros. Violência e desigualdades, por exemplo, não são nenhuma novidade. Guerras, contendas, assassinatos, corrupção, roubo, latrocínio, genocídio, egoísmo; a lista é extensa e exclui, por questões objetivas, atos de altruísmo. Se bem que até o altruísmo pode ser avaliado sob o aspecto do ganho emocional: “eu me sinto bem fazendo isso...”, ou seja, nada é de graça.

A imagem traçada e retratada do homem pela história em nada nos conduz a ufanismos ou esperança de que as coisas mudem. A humanidade caminha para sua destruição. Esse pensamento, que muitos chamariam de “filosofia pessimista” (embasada na ideia de que “viver é sofrer”), em uma teoria de Arthur Schopenhauer (1788-1860), ecoada em parte no pensamento psicanalítico de Sigmund Freud (1856-1939) de que “viver é sofrer em alguma medida”, nada mais é do que um extrato dos relatos históricos.

Tendo como lentes o pensamento cristão reformado, também chegamos ao pensamento claro de que o homem caído no jardim do Éden caminha para sua perdição. Sem o resgate, sem a intervenção divina, não há solução para o homem. O caminho da humanidade caída é desanimador: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” Romanos 3. 9-18.

Concluir que confiar na humanidade é uma perda de tempo é notório na exposição de Paulo aos Romanos. A ideia paulina é de que as ações boas só podem ser tomadas partindo de Deus. Mesmo os atos altruístas e filantrópicos de um ser humano não podem ser vistos fora da mão bondosa de Deus impelindo os homens a acertarem com Sua lei: Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho” Romanos 2.14-16.

O pensamento bíblico reformado entende que o homem está morto em seus delitos e pecados. Portanto, é insensível à voz de Deus a menos que Deus lhe dê vida: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados Efésios 2.1. É necessário nascer espiritualmente para Deus por intermédio do Espirito Santos: A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de DeusJoão 3.3. Esse pensamento está longe de ser pessimista visto que há solução para a humidade: Deus. Todavia, a humanidade seguindo seu próprio caminho, corre para a perdição.

Há uma busca incansável em eternizar o homem por intermédio de medicações milagrosas de prolongamento da beleza e juventude. Há uma luta constante por conforto, consolo, um ambiente controlável e ajustável, segurança financeira e de saúde, uma ocupação prévia pelo dia de amanhã: preocupação. Entretanto, quanto mais o homem tenta segurar o futuro em suas mãos, ele se depara com o desamparo de sua existência.

A constatação de um mundo ansioso mostra claramente a ineficácia do homem de prevenção e controle do futuro. Assim caminha a humanidade, rumo ao vazio e ao inexorável.  

Provavelmente, para alguns leitores desse arrazoado, isso não é nenhuma novidade. O que é espantoso é ver a igreja hodierna caminhando de mãos dadas com a humanidade. Uma igreja ansiosa construindo celeiros e mais celeiros para guardar o excedente do trigo; acumulando riquezas para prevenir o futuro incerto. Trabalhando para eternizar na terra o que só será obtido nos céus. Buscando tesouros na terra.

Andar ansioso não é só o medo do futuro incerto, mas também é prevenir a incerteza com a mentalidade da humanidade caída: acumulando riquezas para o possível dia do infortúnio atravessando a tênue linha entre a prudência e ganância: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” Mateus 6. 19-34.

A teologia da prosperidade que invade a igreja histórica, por meio de alguns membros, pode muito bem significar o acúmulo de recursos indiscriminados para o beneficio próprio e a busca incansável por preencher a falta do homem com a busca incessante pela ascensão material, conforto e tentativa de criar o paraíso na terra.

Assim caminha a humanidade, assim caminha a igreja hodierna e, infelizmente, assim caminhamos muitos de nós.

 

Deus nos abençoe e nos livre desse caminho de perdição.

 

Rev. Ricardo Rios Melo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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