sexta-feira, 22 de junho de 2012

Qual a semelhança entre Elize Matsunaga e Madre Teresa de Calcutá?


Qual a semelhança entre Elize Matsunaga e Madre Teresa de Calcutá?

Certamente, algumas pessoas se assustarão com esse título. Mas, a minha intenção é estabelecer uma reflexão sobre o ser humano.
Se existissem extraterrestres e eles viessem ao mundo em dois momentos: na primeira situação em 1910, mais precisamente no dia 26 de agosto, e acompanhasse a história de Agnes Gonxha Bojaxhiu (beata Teresa de Calcutá). Certamente, voltariam para o seu planeta, caso fossem evoluídos, achando que a humanidade tinha jeito. O ser-humano seria definido como compassivo, misericordioso, propenso à fidalguia.
Agnes Boajaxhiu foi um exemplo de humanitarismo e de abnegação. Se pinçássemos apenas Madre Teresa de Calcutá como a verdadeira mostra da humanidade, estaríamos perto da definição do que é o homem?
Antes de respondermos, vejamos outro exemplo. A nave desses alienígenas fictícios pousa na terra em uma segunda situação, século XXI, mais exatamente em 2012. Uma jovem mulher de 30 anos, antes pobre, antes garota de programa, agora rica, mãe, esposa de um homem rico, assassina cruelmente seu marido e o esquarteja, segundo a polícia, ainda vivo. Os relatos dão conta de que ela não demonstrou nenhuma emoção, a não ser quando se falou de sua filha. A visão dos alienígenas sobre os seres humanos poderia ser bastante pessimista, pois poderiam concluir que não há solução para humanidade; os seres humanos seriam sem emoção, vingativos, calculistas e gananciosos. Esse espectro da humanidade traria conclusões com cores verdadeiras, mas, com formas distorcidas.
Duas mulheres, duas vidas diferentes, dois caminhos opostos, aspectos da humanidade que confundiriam um observador externo. Contudo, Madre Teresa não representa a humanidade. Elise também está longe de ser um protótipo fidedigno da humanidade.
Quando Madre Teresa tinha apenas 10 de idade, Adolf Hitler, um dos maiores “monstros” que a humanidade já teve, eracabo do exército até 1920 e dedicou-se integralmente ao Partido Operário Alemão, de tendência nacionalista, que nessa época havia sido rebatizado como Partido Operário Alemão Nacional-socialista (nazista). Em 1921, Hitler foi eleito presidente (Führer) com poderes ditatoriais”.[1] 
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia, o que desencadeou a 2ª Guerra Mundial. O restante da história, todos conhecem: crimes de guerra, tortura, genocídio, holocausto. O que talvez nos causaria espanto é o fato de que Hitler não fez tudo sozinho. Uma nação o seguiu. É claro que tinha suas exceções, como, por exemplo, o antinazista e pastor luterano, Dietrich Bonhoeffer. Contudo, a grande maioria eram pessoas comuns. “Muitos carrascos nazistas, após terem passado o dia exterminando mulheres, crianças e idosos, voltavam para casa e retomavam sua rotina confortável e normal no seio da família; comia bem, ouviam música erudita, liam bons livros, faziam amor com suas mulheres, abraçavam e brincavam com seus filhos. Como era possível que a mente desses carrascos conseguissem justapor, às atrocidades cometidas durante o dia, esse final de noite de paz no ambiente doméstico? Seria doença mental o que possibilitava essa dualidade? Muitos assassinos e torturadores tiveram respaldo em uma infraestrutura composta de cúmplices; provavelmente pessoas acima de qualquer suspeita, normais.[2] 
Dizer que todos os nazistas eram doentes é uma visão ingênua do homem. Alguns teóricos caíram nessa cilada positivista e fizeram relatos, reuniram testemunhos, elaboraram teses. Contudo, como bem frisou Elisabeth Roudinesco, “apesar da importância dos testemunhos reunidos, que constituem hoje considerável fonte historiográfica, todas essas abordagens da criminalidade nazista, oriunda da medicina positivista e da psicanálise, são de uma pobreza desconcertante. De fato, elas apresentam o perigoso defeito de tentar provar que, para terem realizado esses atos, os nazistas genocidas eram forçosamente, apesar de sua normalidade aparente, psicopatas, doentes mentais, pornográficos, desviantes sexuais, toxicômonos ou neuróticos. (...) Na realidade, o que choca nos depoimentos dos genocidas nazistas é que a pavorosa normalidade de que eles dão prova é efetivamente o sintoma não de uma perversão no sentido clínico do termo (sexual, esquizóide ou outra), mas de uma adesão a um sistema perverso que sintetiza sozinho o conjunto de todas as perversões possíveis."[3]
Os visitantes fictícios do nosso planeta, não precisariam viajar muito longe no tempo para perceberem que uma das características encontradas no ser humano é a perversidade. Uma ambivalência que exclui qualquer visão maniqueísta do homem. Elise está longe de ser a personificação do demônio ou de um corpo inerte, um invólucro vazio sem persona possuído por ele. Para desespero nosso, existem várias Elises no mundo e, quem sabe, ao seu lado, ou pior, dentro de você. Por outro lado, Madre Tereza está longe de ser a visão da perfeição e candura celestial, pois, por mais bondosa que fosse, Bom só existe um: Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um que é Deus” (Mc 10.18).
A visão do ser humano deve comportar duas fases da humanidade: primeiramente, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27). Hermisten Costa, falando sobre a imagem de Deus nos homens, aduz: “O homem deve ser respeitado, amado e ajudado porque é a imagem de Deus. ‘Não temos de pensar continuamente nas maldades do homem, mas, antes, darmos conta de que ele é portador da imagem de Deus’”.[4]
 A Bíblia então nos fala que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, portanto justiça, bondade retidão são encontradas no ser humano. Contudo, a segunda coisa que a Bíblia trata é da queda do homem em Gênesis 3. Com a queda, o retrato do homem é o de Romanos 3. 10-18: “como está escrito: Não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus.  Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.  A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios;  a sua boca está cheia de maldição e amargura.  Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.   Nos seus caminhos há destruição e miséria;  e não conheceram o caminho da paz.  Não há temor de Deus diante dos seus olhos.
Quando os seres humanos acertam, acertam porque Deus gravou em seus corações a sua lei: (porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem por natureza as coisas da lei, eles, embora não tendo lei, para si mesmos são lei.  “Pois mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os),  no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho” (Rm 2.15,16).
O homem não se define por uma simples historiografia do mal ou do bem. Para conhecermos o homem, precisamos ir para sua origem, Deus.
Elize Matsunaga nos incomoda, dentro de vários aspectos, por que sua atitude está dentro do coração caído do homem. Jesus fala essa verdade de maneira direta: “Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios,  a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez;  todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7. 21-23).
Madre Teresa se une a Eliza na essência da humanidade criada à imagem de Deus e na desobediência do homem ao seu Criador. É curioso notar que Madre Teresa passou sua vida tentando aplacar sua inquietação e sentir a paz de Deus em seu coração, mas nunca a encontrou. Segundo alguns autores, ela “viveu uma grande fase de escuridão interior que se prolongou até a sua morte". ‘Sabia que estava unida a Deus, mas não conseguia sentir nada’[5]
Talvez o que Madre Tereza precisava era se inspirar nas inquietações do ex-católico Martinho Lutero que, em meio as suas dores, encontrou consolo na justificação pela fé em Cristo: “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Devemos louvar a Deus pelo fato de assassinatos horrendos ainda nos causarem espanto. Por outro lado, devemos entender que o homem sem Deus pode muito bem transformar a sociedade em um partido do mal (nazismo), pois, infelizmente, existe “a parte obscura de nós mesmos”. A pergunta do salmista permeia de diversas maneiras as mentes dos estudiosos da saga humana: Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? (Sl 8. 3,4).
Contudo, a resposta só terá sentido se contemplarmos as obras de Deus e conhecermos o que ela revela sobre Ele mesmo e sobre nós. 
Seja bem-vindo ao homem! Decifra-o ou ele te devorará! Conheça a Deus e Ele te salvará do pecado, da morte e de você mesmo!

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo


                                                                                                                                                                                  






[2] Robert l. Simon, Homens maus fazem o que Homens Bons Sonham, Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 29.

[3] Elizabeth Roudinesco, A Parte obscura de Nós Mesmos: Uma História dos Perversos, Rios de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 134,135.

[4] Hermisnten M. P. da Costa, http://monergismo.com/wp-content/uploads/a-imagem-de-deus-no-homem-segundo-calvino.pdf (ele faz citação  de João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 38).
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Madre_Teresa_de_Calcut%C3%A1

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