sábado, 29 de dezembro de 2012

O ano novo e a materialização da fé

O ano novo e a materialização da fé
Ano novo chegando. Novas perspectivas, promessas, projetos, sonhos, dietas, quebra de vícios e a velha canção: “adeus ano velho, feliz ano novo, (...) muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”. Vindas da cosmovisão do homem caído e destituído da glória de Deus, não há novidade nessas esperanças terrenas. Aliás, essas esperanças em si mesmas não são problemáticas.
O que tem demandado atenção é o que as pessoas que se autodenominam cristãs têm creditado como esperança de ano novo. Recentemente, em uma rádio dita evangélica, escutei a seguinte entrevista: “- O que você conseguiu?” (pergunta o locutor). “- Eu nunca tive um carro e consegui nessa campanha” (fala o entrevistado). A programação continuou e as pessoas começaram a dizer que não tinham casa e conseguiram-na, não tinham uma empresa e conseguiram-na etc.
Esse tipo de programa confronta, de maneira muito clara, a “programação” apostólica, pois os discípulos tinham tudo e Jesus disse que eles iriam perder tudo nessa vida para ganhar na vida vindoura: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna” (Mt 19:29). Na vida eterna!
Jesus confronta o jovem rico dizendo a ele para doar tudo e receber um tesouro que está nos céus: “Ouvindo-o Jesus, disse-lhe: Uma coisa ainda te falta: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me” ( Lc 18.22 ).
A Bíblia fala de recompensas celestiais, eternas, enquanto muitos procuram bênçãos terrenas.  Enquanto a Palavra de Deus fala de Novos Céus e Nova terra, as pessoas estão querendo transformar, já no presente, esse mundo caído em um paraíso antropocêntrico: mansões, casas, carros, dinheiro etc.
No Evangelho de João, Jesus fala sobre a Sua ressurreição e aparecimento aos discípulos: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29). 
Nitidamente, o Evangelho autêntico privilegia a fé que crê apesar das aparências. Contudo, um novo evangelho tem sido pregado, o evangelho que prima pela aparência, pelos sinais, prodígios. O “evangelho” contemporâneo tem enfatizado as sensações, sentimentos e os sentidos humanos: audição, visão, olfato, tátil – é a sinestesia da fé! Uma fé que precisa ser provada pelo Criador dela. A fé contemporânea tenta colocar Deus em cheque: “Mostre poder, maravilhas, riquezas ao seu povo!”. Entretanto, Jesus disse: “Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. E, deixando-os, retirou-se” (Mt 16.4). 
Talvez esse contraste, que ora apresentamos, seja chover no molhado, pois é muito claro o distanciamento desse tipo de mensagem hodierna do Evangelho de Jesus. O evangelho pregado por alguns pregadores modernos é um evangelho capitalista selvagem.
Entretanto, onde ficam as igrejas históricas nisso tudo? Onde ficam os crentes herdeiros da reforma protestante? Onde você fica nisso tudo? Caro irmão, amigo, se você apenas projetou para o próximo ano a compra de um carro novo, casa, troca de emprego, viagens etc., você não é tão diferente das pessoas que fazem correntes de fé e que tentam acorrentar Deus em seus desejos mundanos: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3). Talvez você seja diferente na forma, mas não na essência.
Ah, queridos! Que bom será se pudermos falar, nesse ano, ao sermos perguntados sobre o que ganhamos nesse ano, que aumentamos a fé; humilhamos nosso orgulho; estamos mais comprometidos com Deus e com a igreja local; doamos mais nossa vida e bens para o próximo e ao serviço a Deus; glorificamos a Deus nos sofrimentos pelo seu nome; temos guardado a fé que foi entregue de uma vez só aos santos. Temos acumulado autonegação e fitado os olhos em Cristo. Temos pensado nas coisas lá do alto! Estamos prontos, Senhor, para sua volta! Estamos prontos para sermos levados! Temos amado mais a Deus e ao próximo!
Não se esqueçam da mulher de Ló! Não se deixem enganar pelas festas e pelas guloseimas do mundo, pois nos tempos de Noé eles comiam, bebiam e se davam em casamento! (Mt 24.37,38). Lembrem-se de que os gentios é que buscam comida, roupa, riquezas do mundo. “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6. 31-34).
Lembremo-nos sempre que a fé é racional e, por muitas vezes, suprarracional. Ela perpassa toda a nossa vida e faz parte do nosso ser, pois ela modifica a nossa percepção, a nossa cosmovisão. Portanto ela é real. Mas, como disse o apóstolo Paulo, ela não é de todos! “Finalmente, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague e seja glorificada, como também está acontecendo entre vós; e para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos(2 Ts 3.1, 2).
Feliz ano novo! Bons projetos!
Rev. Ricardo Rios Melo








sexta-feira, 27 de julho de 2012

“Águas passadas não movem moinho”


“Águas passadas não movem moinho”
Por Rev. Ricardo Rios Melo

Esse ditado popular: “Águas passadas não movem moinho” é bem antigo. Retrata a ideia, como diz minha sabia avó, de que, quando alguém bate em sua porta, você não pergunta: “quem era?”; antes, “quem é”.  Parece mostrar-nos que o passado não tem importância ou, pelo menos, não deve ser um obstáculo para andarmos para frente em direção ao futuro.
É claro que o passado tem importância e que não se apaga uma história. Contudo, não devemos exagerar na interpretação desse ditado; apenas usá-lo com o intuito de significar a necessidade de prosseguir em frente, a despeito de qualquer dificuldade que se tenha passado.
Apesar de esse adágio servir para estimular muita gente ao longo da vida, isso parece não ser levado em conta quando alguém se converte a Cristo. É comum as pessoas falarem: “Fulano se converteu? Não acredito! Ele era a pior pessoa do mundo. Como ele pôde se converter?”
O mundo pode aceitar e encobrir erros de governantes, artistas, celebridades em geral. Entretanto, se uma pessoa diz que foi convertida, a desconfiança é grande. Por que será isso? Algumas razões são importantes para analisarmos:
1.                   Bom, a primeira dica é interna. Não acreditamos que uma pessoa possa mudar tão radicalmente, pois a olhamos com os nossos olhos e sob a égide de nossos pecados. De maneira inconfessável, as pessoas não acreditam que as outras possam mudar radicalmente, pois elas mesmas não conseguem: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal” (Jr 13.23). 
2.                   Outro motivo da descrença em mudança faz parte do senso de autojustiça que temos. Achamo-nos tão justos e perfeitos que não acreditamos que o outro mudou. Julgamos sob nosso senso de justiça contaminado pela nossa crença do que seja justo; temos tendência de nos acharmos bons: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus” (Lc 18:19).  Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7.1,2).
3.                   Aceitar que alguém tenha mudado tão radicalmente por causa de Cristo é aceitar que o Evangelho é verdadeiro, pois ele se diz poderoso para mudar as pessoas e fazer o homem velho se tornar nova criatura: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5.17).
4.                   Reconhecer mudança em alguém, por causa do Evangelho, implica aceitar que a nossa justiça é um trapo diante de Deus, pois ele aceita pecadores apenas na justiça do Filho. Portanto, minha justiça é pecado para Deus. Todos são injustos. Assim, eu também sou injusto. Isso quebra toda autoconfiança: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Is 64.6).  como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10).
O método de Deus é rejeitado pelo homem caído. Não é sem motivo que, a princípio, o grande Naamã rejeitou o método dado pelo profeta de Deus para curá-lo. Naamã precisava da cura, todavia a sua soberba não podia concordar com a simplicidade da solução dada por Eliseu: “Ouvindo, porém, Eliseu, homem de Deus, que o rei de Israel rasgara as suas vestes, mandou dizer ao rei: Por que rasgaste as tuas vestes? Deixa-o vir a mim, e saberá que há profeta em Israel. Veio, pois, Naamã com os seus cavalos e os seus carros e parou à porta da casa de Eliseu. Então, Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será restaurada, e ficarás limpo. Naamã, porém, muito se indignou e se foi, dizendo: Pensava eu que ele sairia a ter comigo, pôr-se-ia de pé, invocaria o nome do SENHOR, seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra e restauraria o leproso. Não são, porventura, Abana e Farfar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo? E voltou-se e se foi com indignação. Então, se chegaram a ele os seus oficiais e lhe disseram: Meu pai, se te houvesse dito o profeta alguma coisa difícil, acaso, não a farias? Quanto mais, já que apenas te disse: Lava-te e ficarás limpo. Então, desceu e mergulhou no Jordão sete vezes, consoante a palavra do homem de Deus; e a sua carne se tornou como a carne de uma criança, e ficou limpo.  Voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva; veio, pôs-se diante dele e disse: Eis que, agora, reconheço que em toda a terra não há Deus, senão em Israel; agora, pois, te peço aceites um presente do teu servo. Porém ele disse: Tão certo como vive o SENHOR, em cuja presença estou, não o aceitarei. Instou com ele para que o aceitasse, mas ele recusou”(2 Re 5. 8- 16) (grifo nosso).
Naamã custou a aceitar o método simples de Deus curá-lo. É pertinente a observação de Vicente Cheung:

Temos consciência de que a mensagem da Bíblia ofende os não cristãos. No entanto, sua própria existência também é uma pedra de tropeço para eles. Se eles cressem em Deus, jamais esperariam que ele lhes falasse por meio da Bíblia, isto é, por intermédio de um livro. Naamã disse ter pensado que Eliseu poderia dirigir-se a ele, invocar seu Deus, e passar a mão sobre sua lepra e curá-lo. É claro que Deus poderia ter agido desse modo, ainda que ele não tenha concedido a Naamã o que ele esperava. Contudo, um servo sábio raciocinou com Naamã, e ele se submeteu às instruções do profeta e foi curado. Caso os não cristãos esperem que Deus faça surgir uma mão e escreva uma mensagem diante deles, ou lhes fale desde os céus com uma voz trovejante, ou esperem que Cristo apareça em uma luz ofuscante, dizendo: “Tolo, tolo, por que me persegue? É inútil resistir ao aguilhão”. O quê? “É inútil você continuar batendo a cabeça na parede (Vincent Cheung, http://monergismo.com/v1/?p=2569).

É sempre mais fácil (mas não é eficaz) para o ser humano seguir o próprio método. Seguir o método de Deus exige reconhecer o inevitável: nossa falibilidade, fragilidade, finitude e pecado. Não é estranho os Judeus pedirem sinais e os gentios, sabedoria: “Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Co 1.22-23).
A sabedoria humana não satisfaz a justiça de Deus. A sabedoria de Deus não é a do homem: “Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?” (1 Co 1.20).
Em um mundo caído e perverso é natural, no sentido da natureza caída humana, desconfiar de conversões e de mudança radical. Assim como aconteceram falsas conversões nas páginas da Bíblia - vejam o caso de Judas - assim também acontecem hoje. Contudo, Jesus nos deu o teste para verificarmos as conversões: Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.17-20).
Águas passadas não movem moinho. O próprio Apóstolo Paulo era Saulo de Tarso, o perseguidor da igreja. Todavia, ele se tornou cristão e foi perseguido por professar Cristo. O passado é importante no propósito de sabermos quem nós éramos e o que Cristo fez por nós. Contudo, não nos serve mais como acusação e impedimento ao trono de graça.
A conversão não significa impecabilidade. Contudo, é a porta para a salvação: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento (Mt 9.13).
Águas passadas não movem moinho! Entretanto, uma pessoa convertida pode ainda cometer pecado. Isso não é desejável! Antes, deve ser detestado!
Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 Jo 1. 8-10).
Para que esse ditado seja verdadeiro em sua vida, faz-se necessário reconhecer Cristo como seu único Salvador e, consequentemente, que Suas Palavras são a verdade. É necessário que você rejeite sua autojustiça, para que você seja justificado por Deus: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Seja uma criança e se deixe embalar pelos braços bondosos do Pai: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Querido, Cristo reivindica uma posição: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40).
Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

                                             









sexta-feira, 20 de julho de 2012

“Sem lenço e sem documento” – uma análise do crente moderno



“Sem lenço e sem documento” – uma análise do crente moderno
Por: rev. Ricardo Rios Melo

Essa frase ficou consagrada na canção de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, lançada em plena ditadura no ano de 1960. A música fazia uma crítica inteligente ao sistema ditatorial e aos seus efeitos devastadores na sociedade da época. Era um período difícil em que falar contra o regime imposto era perigoso e, em muitos casos, mortal.
Destarte, a minha intenção é usar apenas a frase da música “sem lenço e sem documento”. Essa expressão retrata a ideia de alguém que anda sem objetos importantes para sair de casa na época da escrita. Hoje, ainda é importante sair com o documento de identidade. Alguns acrescentariam celular e acessórios; contudo, a identificação de uma pessoa ainda é uma exigência legal.
Andar sem uma identificação é sempre perigoso. Se uma autoridade pará-lo, você poderá ter sérios problemas. É como dirigir um carro sem habilitação. Você pode até saber dirigir, mas você não está autorizado a dirigir.
Uma situação tem acontecido, atualmente, no mundo evangélico. Algumas pessoas entram em uma igreja, às vezes dizem o seu nome, mas não se identificam de maneira “legal” – entenda-se legal como uma identificação completa. Elas sentam na igreja, assistem o culto e logo vão embora sem maiores identificações. Esse fenômeno do crente passageiro ou do crente turista é chamado por alguns de membresia rotativa ou rol flutuante.
Você não saberá como a igreja estará no próximo domingo, pois o crente “sem lenço e sem documento” poderá aparecer ou não. O pregador sempre tem a impressão de que tem que explicar tudo novamente, pois as pessoas que estavam em um culto muito provavelmente não estarão no outro. Daí, a pregação expositiva e sequenciada sofre por não fazer o sentido total para aquele que acabou de aterrissar na igreja e logo alçará voo.
O professor da Escola Bíblica Dominical sempre precisará retornar para o início do estudo para dar sentido para aquele visitante “sem lenço e sem documento”.   
Quando a igreja pensa que resolverá o problema se aproximando do viajante e lhe pedindo os “documentos”, o crente “sem lenço e sem documento” foge como se fosse um fugitivo da lei. A intenção desse grupo é passar pela igreja sem ser percebido. Compromisso é uma palavra não quista por esse grupo. A palavra compromisso é originária do latim compromissum que significa uma promessa mútua. No direito, essa palavra ganha o sentindo de “promessa mútua feita por duas ou mais pessoas que se submetem um pleito à decisão dum juiz” (Gabriel Valle, Dicionário Latim – Português, São Paulo: IOB - Thomson, 2004, p. 165). Esse compromisso é rejeitado pelo crente “sem lenço e sem documento”.
Bom, essa ideia de andarilho da fé já foi tratada por mim, em um dos artigos intitulado “Andarilhos da Fé” (http://arrazoar.blogspot.com.br/search?q=andarilhos).
Esse fenômeno do crente que não tem interesse em ser identificado e que quer ser despercebido, infelizmente, é comum! O que nos chama a atenção são as pessoas dentro da igreja, que outrora se identificaram, firmaram compromisso com sua igreja local, mas que, por algum motivo, resolveram andar “sem lenço e sem documento”.
Eu fico imaginando as palavras de Jesus em Lucas capítulo 18.8: “Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?”.
Jesus veio salvar sua igreja. Isso implica congregação. A palavra igreja (ekklesia) aparece 74 vezes no Novo Testamento. O sentido de igreja implica necessariamente reunião de pecadores redimidos. Era uma palavra usada originalmente na convocação de cidadãos que deveriam sair de suas casas para se reunirem em um lugar público. Por mais que eu e você sejamos o templo do Espírito, nós individualmente não somos a igreja. Fazemos parte da igreja. Entretanto, não somos a Igreja.  Existe uma ideia implícita em congregar, juntar-se. Deus escolheu um povo para ser chamado seu:Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9). Povo implica plural.
O autor da carta aos Hebreus exorta claramente um mau costume que estava ocorrendo com os leitores de sua carta:Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hebreus 10.25). Eles deveriam ter cuidado para não deixar de se reunir em assembleia.
Os crentes modernos poderão ter que cantar um cântico novo no grande Dia do Senhor. Ao invés de catarem “Alegria, alegria”, cantarão “Tristeza, tristeza”, pois o Noivo (Jesus) buscará apenas sua noiva (a igreja).
As pessoas “sem lenço e sem documento” não farão parte do rol do Filho do Homem, pois esse livro exige identificação completa:
“Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. (Apocalipse 20.12). “E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo” (Apocalipse 20.15). 

Que eu e você sejamos encontrados e identificados pelo nosso Deus!

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Qual a semelhança entre Elize Matsunaga e Madre Teresa de Calcutá?


Qual a semelhança entre Elize Matsunaga e Madre Teresa de Calcutá?

Certamente, algumas pessoas se assustarão com esse título. Mas, a minha intenção é estabelecer uma reflexão sobre o ser humano.
Se existissem extraterrestres e eles viessem ao mundo em dois momentos: na primeira situação em 1910, mais precisamente no dia 26 de agosto, e acompanhasse a história de Agnes Gonxha Bojaxhiu (beata Teresa de Calcutá). Certamente, voltariam para o seu planeta, caso fossem evoluídos, achando que a humanidade tinha jeito. O ser-humano seria definido como compassivo, misericordioso, propenso à fidalguia.
Agnes Boajaxhiu foi um exemplo de humanitarismo e de abnegação. Se pinçássemos apenas Madre Teresa de Calcutá como a verdadeira mostra da humanidade, estaríamos perto da definição do que é o homem?
Antes de respondermos, vejamos outro exemplo. A nave desses alienígenas fictícios pousa na terra em uma segunda situação, século XXI, mais exatamente em 2012. Uma jovem mulher de 30 anos, antes pobre, antes garota de programa, agora rica, mãe, esposa de um homem rico, assassina cruelmente seu marido e o esquarteja, segundo a polícia, ainda vivo. Os relatos dão conta de que ela não demonstrou nenhuma emoção, a não ser quando se falou de sua filha. A visão dos alienígenas sobre os seres humanos poderia ser bastante pessimista, pois poderiam concluir que não há solução para humanidade; os seres humanos seriam sem emoção, vingativos, calculistas e gananciosos. Esse espectro da humanidade traria conclusões com cores verdadeiras, mas, com formas distorcidas.
Duas mulheres, duas vidas diferentes, dois caminhos opostos, aspectos da humanidade que confundiriam um observador externo. Contudo, Madre Teresa não representa a humanidade. Elise também está longe de ser um protótipo fidedigno da humanidade.
Quando Madre Teresa tinha apenas 10 de idade, Adolf Hitler, um dos maiores “monstros” que a humanidade já teve, eracabo do exército até 1920 e dedicou-se integralmente ao Partido Operário Alemão, de tendência nacionalista, que nessa época havia sido rebatizado como Partido Operário Alemão Nacional-socialista (nazista). Em 1921, Hitler foi eleito presidente (Führer) com poderes ditatoriais”.[1] 
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia, o que desencadeou a 2ª Guerra Mundial. O restante da história, todos conhecem: crimes de guerra, tortura, genocídio, holocausto. O que talvez nos causaria espanto é o fato de que Hitler não fez tudo sozinho. Uma nação o seguiu. É claro que tinha suas exceções, como, por exemplo, o antinazista e pastor luterano, Dietrich Bonhoeffer. Contudo, a grande maioria eram pessoas comuns. “Muitos carrascos nazistas, após terem passado o dia exterminando mulheres, crianças e idosos, voltavam para casa e retomavam sua rotina confortável e normal no seio da família; comia bem, ouviam música erudita, liam bons livros, faziam amor com suas mulheres, abraçavam e brincavam com seus filhos. Como era possível que a mente desses carrascos conseguissem justapor, às atrocidades cometidas durante o dia, esse final de noite de paz no ambiente doméstico? Seria doença mental o que possibilitava essa dualidade? Muitos assassinos e torturadores tiveram respaldo em uma infraestrutura composta de cúmplices; provavelmente pessoas acima de qualquer suspeita, normais.[2] 
Dizer que todos os nazistas eram doentes é uma visão ingênua do homem. Alguns teóricos caíram nessa cilada positivista e fizeram relatos, reuniram testemunhos, elaboraram teses. Contudo, como bem frisou Elisabeth Roudinesco, “apesar da importância dos testemunhos reunidos, que constituem hoje considerável fonte historiográfica, todas essas abordagens da criminalidade nazista, oriunda da medicina positivista e da psicanálise, são de uma pobreza desconcertante. De fato, elas apresentam o perigoso defeito de tentar provar que, para terem realizado esses atos, os nazistas genocidas eram forçosamente, apesar de sua normalidade aparente, psicopatas, doentes mentais, pornográficos, desviantes sexuais, toxicômonos ou neuróticos. (...) Na realidade, o que choca nos depoimentos dos genocidas nazistas é que a pavorosa normalidade de que eles dão prova é efetivamente o sintoma não de uma perversão no sentido clínico do termo (sexual, esquizóide ou outra), mas de uma adesão a um sistema perverso que sintetiza sozinho o conjunto de todas as perversões possíveis."[3]
Os visitantes fictícios do nosso planeta, não precisariam viajar muito longe no tempo para perceberem que uma das características encontradas no ser humano é a perversidade. Uma ambivalência que exclui qualquer visão maniqueísta do homem. Elise está longe de ser a personificação do demônio ou de um corpo inerte, um invólucro vazio sem persona possuído por ele. Para desespero nosso, existem várias Elises no mundo e, quem sabe, ao seu lado, ou pior, dentro de você. Por outro lado, Madre Tereza está longe de ser a visão da perfeição e candura celestial, pois, por mais bondosa que fosse, Bom só existe um: Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um que é Deus” (Mc 10.18).
A visão do ser humano deve comportar duas fases da humanidade: primeiramente, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27). Hermisten Costa, falando sobre a imagem de Deus nos homens, aduz: “O homem deve ser respeitado, amado e ajudado porque é a imagem de Deus. ‘Não temos de pensar continuamente nas maldades do homem, mas, antes, darmos conta de que ele é portador da imagem de Deus’”.[4]
 A Bíblia então nos fala que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, portanto justiça, bondade retidão são encontradas no ser humano. Contudo, a segunda coisa que a Bíblia trata é da queda do homem em Gênesis 3. Com a queda, o retrato do homem é o de Romanos 3. 10-18: “como está escrito: Não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus.  Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.  A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios;  a sua boca está cheia de maldição e amargura.  Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.   Nos seus caminhos há destruição e miséria;  e não conheceram o caminho da paz.  Não há temor de Deus diante dos seus olhos.
Quando os seres humanos acertam, acertam porque Deus gravou em seus corações a sua lei: (porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem por natureza as coisas da lei, eles, embora não tendo lei, para si mesmos são lei.  “Pois mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os),  no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho” (Rm 2.15,16).
O homem não se define por uma simples historiografia do mal ou do bem. Para conhecermos o homem, precisamos ir para sua origem, Deus.
Elize Matsunaga nos incomoda, dentro de vários aspectos, por que sua atitude está dentro do coração caído do homem. Jesus fala essa verdade de maneira direta: “Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios,  a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez;  todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7. 21-23).
Madre Teresa se une a Eliza na essência da humanidade criada à imagem de Deus e na desobediência do homem ao seu Criador. É curioso notar que Madre Teresa passou sua vida tentando aplacar sua inquietação e sentir a paz de Deus em seu coração, mas nunca a encontrou. Segundo alguns autores, ela “viveu uma grande fase de escuridão interior que se prolongou até a sua morte". ‘Sabia que estava unida a Deus, mas não conseguia sentir nada’[5]
Talvez o que Madre Tereza precisava era se inspirar nas inquietações do ex-católico Martinho Lutero que, em meio as suas dores, encontrou consolo na justificação pela fé em Cristo: “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Devemos louvar a Deus pelo fato de assassinatos horrendos ainda nos causarem espanto. Por outro lado, devemos entender que o homem sem Deus pode muito bem transformar a sociedade em um partido do mal (nazismo), pois, infelizmente, existe “a parte obscura de nós mesmos”. A pergunta do salmista permeia de diversas maneiras as mentes dos estudiosos da saga humana: Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? (Sl 8. 3,4).
Contudo, a resposta só terá sentido se contemplarmos as obras de Deus e conhecermos o que ela revela sobre Ele mesmo e sobre nós. 
Seja bem-vindo ao homem! Decifra-o ou ele te devorará! Conheça a Deus e Ele te salvará do pecado, da morte e de você mesmo!

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo


                                                                                                                                                                                  






[2] Robert l. Simon, Homens maus fazem o que Homens Bons Sonham, Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 29.

[3] Elizabeth Roudinesco, A Parte obscura de Nós Mesmos: Uma História dos Perversos, Rios de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 134,135.

[4] Hermisnten M. P. da Costa, http://monergismo.com/wp-content/uploads/a-imagem-de-deus-no-homem-segundo-calvino.pdf (ele faz citação  de João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 38).
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Madre_Teresa_de_Calcut%C3%A1

sábado, 12 de maio de 2012

Penso, logo tenho culpa.


Penso, logo tenho culpa.





René Descartes (1596- 1650), considerado pai da filosofia moderna, postulou a seguinte “fórmula” filosófica: cogito ergo sumi (penso, logo existo).  Esse pensamento gerou o que é denominado de racionalismo.  Apesar dos pensamentos de Descartes formarem algo de suma importância para a compreensão do pensamento moderno, não é pretensão desse arrazoado falar sobre esse profundo assunto.


A alusão a esse ícone da filosofia se faz, por conta de sua famosa frase: penso, logo existo. Gostaria de trabalhar com a ideia de que todo homem pensa. Logo, todo homem sente culpa. A ausência da culpa em qualquer ser humano, no mínimo, é um sinal de sociopatia ou de perversão humana. O homem sem culpa é um homem desumanizado.


Talvez uma das maiores mentiras contadas ao homem pós-moderno seja a proposta de uma sociedade sem culpa; a égide social que apadrinha o egoísmo e aplaude o narcisismo patológico; o outro tornar-se apenas um objeto para satisfação do meu desejo.


Quando eu não entendo que as relações humanas geram culpa e que a culpa é a marca da humanidade caída em Adão, a minha ação tornar-se vazia do outro e cheia de autoindulgência.  A condescendência com o próprio erro é buscada e a responsabilidade com os outros é preterida e até rejeitada.  As palavras de Caim a Deus: “Perguntou, pois, o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?” (Gn 4.9) tomam força em nossa jornada em busca da satisfação pessoal. Caim não se sente culpado de ter matado seu irmão e muito menos responsável por ele: “sou eu o guarda do meu irmão?”. A ausência da culpa nos animaliza. A Bíblia relata esse assassinato implicando crescimento da maldade após a queda adâmica.


Os detratores do cristianismo tendem a dizer que ele infunde culpa nas pessoas, aliás, que toda religião assim o faz. De fato, o cristianismo diz que somos culpados! Todavia, inocentados em Cristo. As únicas pessoas sem culpa que nasceram foram: Adão e Eva, antes do pecado, e Jesus Cristo que jamais pecou. Portanto, o que o cristianismo diz é que a culpa maior que o homem tem é a que foi gerada da rejeição humana ao plano perfeito de Deus.  


O homem como um ser moral sempre sentirá culpa. O que está acontecendo na pós-modernidade é a respeito do que Bauman nos chama a atenção:


A promessa de uma vida liberta do pecado (agora renomeado como culpa) foi tão somente o projeto moderno de refazer o mundo à medida das necessidades e capacidades humanas, de acordo com o projeto concebido de modo racional. (...) O projeto moderno postulou a possibilidade de um mundo humano livre não apenas de pecadores, mas do próprio pecado; não apenas de pessoas que fazem escolhas erradas, mas da própria possibilidade de erro de escolha. Pode-se dizer que, afinal, o projeto moderno postula um mundo livre de ambivalência moral. E uma vez que a ambivalência é a característica natural da condição moral, postula também o afastamento entre as escolhas humanas e sua dimensão moral. Foi isso que a substituição da escolha moral autônoma pela lei ética produziu na prática.” (BAUMAN. Zygmunt, Vida em Fragmentos: sobre a ética pós-moderna, Rio de janeiro: Zahar, 2011, p. 12, 13).


A culpa significando pecado original ou sentimento ocasionado pela quebra do contrato divino com o homem no Éden: ela é reparada em Cristo, portanto o cristianismo não infunde culpa, mas prega o perdão para quem se sente culpado pelo erro e se arrepende de ter errado: “Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9.12).


A ideia de culpa na conceituação psicológica não é objeto de discussão desse texto, pois demandaria muito mais tempo, contudo, é falacioso dizer que todas as linhas da psicologia advogam um homem sem culpa e sem dever. O que ele faz com a culpa e o que a culpa faz com ele é o que importa para algumas linhas da psicologia. Falar da culpa de maneira abrangente é levantar questões subjetivas importantes, mas, impossíveis de se discutir nesse pequeno texto.


A culpa tratada nesse colóquio é a culpa oriunda do vazio humano ocasionado pela tentativa de autonomia de nossos pais no Éden: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn 3.22).  Portanto, todo ser vivo nasce culpado, sentindo-se vazio, faltante, incompleto. Caso isso não ocorra com você, é preciso questionar e vasculhar sua consciência, pois culpa, no sentido aqui tratado, significa reconhecer que a humanidade é muito mais que instintos: é tomar consciência da lei de Deus cravada em nosso coração (Rm 2.14); é saber que somos culpados e injustos: “como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10) e que somente Cristo nos dá a paz com Deus, a reparação da culpa adquirida em Adão: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).


Penso, logo tenho culpa. Existo, logo sou culpado. Creio em Cristo, logo sou libertado da culpa e da punição: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9)”


Deus abençoe vocês querido e querida e os livre da culpa!


Rev. Ricardo Rios Melo









sexta-feira, 4 de maio de 2012

Os miseráveis


Os miseráveis

Esse título já foi usado por Victor Hugo em sua obra: Os Miseráveis. O livro conta a história de um homem chamado Jean Valjean que é condenado a passar dez anos preso nas galés por ter roubado comida para se alimentar. Valjean perde a crença nas pessoas, pois sofre o preconceito por sua condição de prisioneiro em condicional. Depois de um tempo, Valjean é acolhido por um bispo chamado: Bienvenu. Apesar de ser bem recebido pelo bispo, ele mostra sua ingratidão ao roubar objetos de valor. A polícia encontra Valjean com o produto do furto e identificam os pertences do bispo Bienvenu. Então foi levado pela policia para enfrentar uma acareação com o bispo. A surpresa fica por conta da reação do religioso, ao ser inquirido pelo policial sobre se a prataria era dele. Bienvenu diz que deu para Valjean tudo e que ele tinha esquecido os castiçais. O livro é muito bem escrito e instigante.

O que eu gostaria de comparar nesse arrazoado é sobre a ideia de miséria no sentido natural do homem. A ideia de miseráveis na Bíblia está ligada ao fato de existir pessoas que estão debaixo da ira (Rm 1.18; Jo 3.16) de Deus. Elas carecem de misericórdia, pois todas pecaram (Rm 3.9).

A salvação em Cristo está intimamente ligada ao reconhecimento de nossa miserabilidade. Se nós não entendermos nossa condição de pecadores e de humanos limitados, jamais poderemos sequer falar da graça de Deus.  

O homem sem Cristo está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1-3). A graça de Deus inaugura uma nova fase em nossa vida, pois Ela garante que estaremos junto com Deus por causa de sua rica misericórdia: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,  estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),  e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus,  para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus.  Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus;  não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2.4-10).

Mudado o que deve ser mudado, temos que entender que Deus fez de maneira efetiva o que Victor Hugo faz no livro: concede a ladrões o perdão e ainda os presenteia. Essa era nossa situação. Eu e você, ladrões como Valjean. Deus nos concede o perdão e ainda nos dá o plus de estarmos em sua presença apesar de nossos pecados.

Os Miseráveis mostra que Valjean se redimiu quando se revelou em um tribunal para assumir sua culpa a fim de salvar outra pessoa inocente que estava sendo acusada. Nós devemos estar diante da presença de Deus com cuias nas mãos suplicando graça e misericórdia.

Valjean recebeu o perdão do monge e muito mais coisas. Contudo o mais precioso é receber a vitória em Cristo. Vitória sobre o pecado e morte. Os Valjeans de hoje são todos os que reconhecem que precisam  de misericórdia para passarem de miseráveis para filhos amados. O reconhecimento de nossa miserabilidade é condição para recebermos a graça de Deus, pois aqueles que se consideram saudáveis e bons não precisam de Jesus, pois os sãos não precisam de remédio (Mt 9.12).

Condição sem a qual ninguém verá a Deus é reconhecer que somos ladrões da glória de Deus, pois constantemente estamos vivendo para nós mesmos e para o nossos pecados; é reconhecer que somos miseráveis, ou seja, carentes de misericórdia.

Será que você entende sua miserabilidade? Compreende que não existe nenhum ser humano que não careça da obra de Cristo? Se você reconhecer sua carência, Deus lhe conferirá graça e mais graça. Ele demonstrará compaixão e amor, pois Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu por nós! (Rm 5.6).

 Entenda que, ao reconhecer nossa miserabilidade e falta, passaremos de ladrões para filhos: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8. 15)

Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo


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