sexta-feira, 25 de março de 2011


O perigo da auto-indulgência televisiva

Rev. Ricardo Rios Melo

“Apesar de estarmos sempre nos queixando de que nossos dias são poucos, agimos como se eles nunca tivessem fim” (Sêneca)

A civilização contemporânea anda em um ritmo rápido e louco. Não existe tempo nem para refletir, pois isso implicaria perder tempo. Portanto, o lema moderno é: “viva a vida e deixe viver”. Não se pensa, por exemplo, no que consiste a vida? Isso é muito filosófico para o cidadão moderno.

Uma “espiadinha” no mundo “globalizado” e perceberemos que os valores modernos carecem de valor. Faz-se de tudo para ganhar um milhão e meio de reais em programas que revelam a nossa decadência e expõem a ferida social; o flagelo da moral.

A juventude, que outrora foi propulsora de revoluções culturais e sociais agora se contenta em ser massa modelada pela mídia ou pelos donos das circunstâncias.

O jornalismo, principalmente brasileiro, que protagonizou momentos memoráveis de singular importância para a democratização, hoje se rende aos caprichos do pragmatismo materialista fazendo apologia do fugaz e contaminando a arte usando-a para fins egoístas e popularescos.

Ainda não se sabe quem influencia quem: se a mídia que influencia a sociedade ou se a sociedade que proporciona esse desvario midiático. A hipótese mais realista é de que há uma simbiose plasmática, onde uma é o reflexo exato do espelho da outra.

O fato é que a sociedade não só proporciona shows de bebedeira e de sexo casual e vulgar; existem famílias estruturadas, pessoas que se divertem sem precisar de drogas lícitas ou ilícitas e pessoas que amam o próximo e lutam por dias melhores; acadêmicos e cientistas que buscam a melhoria do mundo; artistas talentosos etc. Por que pinçar apenas a irresponsabilidade e indulgência moral?

A essa respeito, é bastante pertinente o comentário de Fernando Veríssimo:

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... Todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...

(...) Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade. (http://reporter24horas.blogspot.com/2011/02/critica-big-brother-brasil.html)

Todos falam mal do BBB e da televisão aberta de modo geral, mas o que faz uma pessoa que vive de modo completamente diferente dos participantes desses programas gastar seu tempo assistindo-os?

Talvez o psicanalista Marion Minerbo ajude-nos na construção desse entendimento:

Lançados num palco, sem roteiro, bons atores improvisam bem, maus atores improvisam mal. Mas no reality showas pessoas são obrigadas a ser o que são “de verdade”. Nesse sentido, estão realmente expostas, e em três sentidos: ao nosso massacre – “como são medíocres!” -, ao paredão e, principalmente, expostos em toda sua nudez psíquica. E aqui começa a violência do espetáculo - violência que a plebe consome com prazer. Sem o saber, os participantes estão expostos ao público como carne humana. Assim como o gladiador enfrenta o leão praticamente desarmado, apenas com um escudo, eles se expõem e enfrentam o público desarmados, diretamente, sem a proteção das mediações simbólicas – ou com mediações simbólicas mínimas, quando se lembram de que “é apenas um jogo”. Aliás, há os que fazem questão de ter isso sempre em mente - proteção necessária - e os que detestam se lembrar disso. De qualquer forma, entre nós e eles não há nada. Se eles são ridículos, ou medíocres, não é porque o personagem que representam seja ridículo ou medíocre, mas porque eles o são. Tanto quanto na gladiatura, há violência nessa relação não mediada com o corpo do outro. Há violência no consumo do corpo-carne do outro.

O público desses shows aprecia não propriamente o ridículo da participação de um ou a simpatia do outro, mas a obscenidade e a violência que marcam a ausência de mediações simbólicas na relação com o outro. É a gladiatura pós-moderna. Nesse sentido, o espetáculo é feito sob medida para a nossa época e merece o sucesso que tem. (MINERBO, Marion. Big Brother Brasil, a gladiatura pós-moderna. Psicol. USP, São Paulo, v. 18, n. 1, mar. 2007 . Disponível em . acessos em 25 mar. 2011.)

Seguindo o pensamento de Marion, estaríamos retornando aos tempos da arena, onde os algozes não são apenas o rei, soldados e o vencedor, mas, a própria platéia que satisfaz seu sadismo e sede por sangue assistindo a batalha e aplaudindo o gladiador mais forte.

A luta entre os gladiadores, ou entre feras e gladiadores, era totalmente realista, e isso empolgava as platéias de Roma. Tratava-se, de certa forma, de um reality show. Era parte da estratégia de despolitização do povo - a conhecida política do pão e circo. Os participantes eram escolhidos em função de seu porte, de sua força e de seu físico. Eram treinados para proporcionar um bom espetáculo, combatendo com bravura e morrendo com dignidade. Podiam ser escravos, prisioneiros de guerra ou cristãos, mas até mesmo homens livres se candidatavam, pois era um caminho possível e rápido para a ascensão social. A entrada no Coliseu era gratuita, e as pessoas da platéia podiam apostar no seu favorito. A gladiatura era tema das conversas no dia-a-dia. O leitor pode encontrar facilmente os pontos de aproximação com o BBB (Marion Minerbo).

O problema desse circo dos horrores é que nós não somos vítimas, mas incentivadores e participantes do grande show! Parece que uma parte de nós está ali, dentro da “telinha”. Dê uma “espiadinha”, diz o Bial, entretanto essa espiadinha está longe de ser algo do outro, pois estamos olhando a nós mesmos e nos desculpando de sermos assim. Por mais ridículo que seja o programa, as pessoas assistem porque se vêem nele de alguma forma e têm prazer.

Enquanto o BBB passa, sua vida também passa diante de seus olhos e você não faz nada para agarrá-la! É um tempo precioso que se perde assistindo as pessoas perdendo tempo achando que são importantes. Os telespectadores, na verdade, fazem parte daquilo que o próprio Bial qualificou de “zoológico humano divertido”.

Se você se vê atraído pela “espiadinha”, deve perguntar-se o porquê disso. Depois trate desse pecado com seriedade, pois o justo não tem prazer na maldade e deve contemplar coisas boas.

“São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas” (Lc 11.34).

Lembre-se que “aqueles a quem Deus ensinou o valor do tempo encontram pouca necessidade de ‘matá-lo’; ele se vai muito rapidamente, sem que façamos coisa alguma” (Robert Johnstone)

Em Cristo,

Rev. Ricardo Rios Melo

2 comentários:

Jessé Vasconcellos Santos disse...

Muito bom o texto!

Rev. Ricardo Rios Melo disse...

Obrigado Jessé, são seus olhos que são bons!

abs
Ricardo Rios