sexta-feira, 6 de agosto de 2010


Por que sofremos?

As pessoas sempre nos perguntam: se Deus é bom, por que existe o sofrimento? Essa pergunta é inquietante. Quando respondemos que o sofrimento tem sua origem no início de tudo, quando o homem desobedeceu a Deus no jardim do Éden, parece que o homem moderno a ridiculariza. “A resposta cristã - a de que usamos nosso livre-arbítrio para nos tornar muito maus – é tão conhecida que é quase desnecessário mencioná-la. Contudo, é bem difícil reavivar essa doutrina na mente dos homens de hoje e até mesmo dos cristãos de nossos dias. Quando os apóstolos pregavam, eles poderiam supor até mesmo em ouvintes pagãos uma real consciência de merecimento da cólera Divina. Os mistérios pagãos existiam para aliviar essa consciência, e a filosofia epicurista afirmava libertar os homens do medo do castigo eterno. Foi contra esse pano de fundo que o Evangelho surgiu na forma de boas-novas de uma cura possível a homens que se sabiam mortalmente doentes. Mas tudo isso mudou. O Cristianismo hoje tem de anunciar o diagnóstico – em si mesmo, uma notícia muito ruim – antes de conquistar ouvintes dispostos a ouvir sobre a cura” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.65, 66).

O homem moderno se distanciou da perspectiva de quem ele é e para o que ele é foi criado. Aliás, uma grande parte da humanidade contemporânea tem acreditado que não fomos criados, mas, somos frutos de uma explosão (Big Bang) e da evolução, contrariando a lei da entropia que diz que tudo tende a se desorganizar. O homem orgulhoso diz: “eu vim do nada. Quando o nada explodiu, criou a possibilidade de minha existência. Eu mesmo me criei, sou auto-criado, pois minhas moléculas foram se juntando e formando células e organismos mais simples, até chegar a quem eu sou: um deus”. Portanto, para uma boa parte dos indivíduos hodiernos, nós somos frutos do acaso e da auto-criação.

Entender a causa do sofrimento dentro dessa perspectiva (evolucionista) torna-se muito difícil, pois teríamos, no mínimo, que afirmar que existia maldade nas partículas iniciais da vida humana em meio à adversidade ambiental que existia no início de tudo. Se assim o fosse, seríamos, de certa forma, obrigados a dizer que a ameba era má em sua gênese. Mas se, por outro lado, respondermos de maneira antropológica ou sociológica, poderíamos entender o mal como uma conseqüência do instinto de sobrevivência humana que leva o homem a ser egoísta e burlar os tratados sociais que ele mesmo interpôs. Isso não responde os sentimentos de amor, compaixão, solidariedade, saudade, tristeza, gratidão etc. É claro que não pretendemos minimizar a argumentação evolucionista ou ridicularizá-la, mas, no mínimo, devemos entender que ela não responde o porquê da existência do sofrimento e, muito menos, da maldade ou bondade humana.

A Bíblia nos conta que o sofrimento dos homens é decorrente da desobediência ao Criador: Deus. O homem vivia em um jardim perfeito e com toda a provisão necessária (Gn 2. 4-17). Mas, assim que o pecado entrou no homem (Gn 3.1-24), o homem foi expulso e passou a sofrer as conseqüências do seu pecado. Podemos dizer, ainda que cientes da soberania de Deus, que o homem é o causador do seu próprio sofrimento. “Foi o ser humano, e não Deus, que produziu torturas, açoites, escravidão, armas, baionetas e bombas. É pela avareza e pela estupidez humana, e não pela sovinice da natureza, que temos pobreza e exploração do trabalho” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p. 101).

Um questionamento sempre feito a nós é sobre a permissão de Deus. Se Deus é soberano, muitos dizem, ele é o responsável direto pela queda do homem. Essa decorrência lógica foge, de certo modo, do entendimento do Ser de Deus e de sua bondade. Deus não é o autor direto da criação do mal, Ele permitiu, dentro do seu decreto permissivo, a entrada da maldade. Essa idéia foi bem tratada por Agostinho, quando diz que o mal não é uma substância, mas a distorção do bem; e a mentira, a distorção da verdade. Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, Deus é criador do bem e da verdade. O mal foi a distorção causada por Satanás do bem, e a mentira foi a distorção da verdade criada por ele. Não é sem motivo que, no relato de João, a Bíblia diz que ele, o diabo, é o pai da mentira (Jo. 8.44).

Segundo Lewis, “Deus poderia ter refreado esse processo por um milagre, mas isso – para utilizar uma metáfora um tanto irreverente – teria sido evitar o problema que Deus impusera a Si ao criar o mundo, o problema de exprimir Sua bondade por meio completo de um mundo que continha agentes livres, a despeito de sua rebelião contra ele e por meio dela (...) Com efeito, é evidente que Deus viu a crucificação no ato de criar a primeira nebulosa” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.95).

O mais fantástico disso tudo é que, juntamente com os nossos pecados, está cravejado o sofrimento. Cristo sofre na cruz por causa dos nossos pecados e garante-nos que os sofrimentos da horrenda cruz livrou-nos do sofrimento eterno e nos livrará dos sofrimentos presentes. Pois Jesus sabe o que é padecer (Is 53.1-12).

A maldita cruz nos abençoou. É na maldição da cruz que temos por certo o fim dos sofrimentos humanos. Mas, para que isso seja uma realidade na sua vida, você precisa acreditar que “o bem perfeito de uma criatura consiste em se entregar ao seu Criador, isto é, colocar em prática, em termos intelectuais, volitivos e emocionais, aquele relacionamento intrínseco ao simples fato de ela ser uma criatura” (C.S. Lewis, O problema do Sofrimento, Vida, São Paulo, 2009, p.103). Você precisa ser arrebatado, arrastado para a Cruz de Cristo e escondido sob o Seu sangue e sofrimento.

Todos deveríamos enxergar em Cristo o tamanho do amor de Deus. Todos deveríamos olhar para o sofrimento humano e entender que Cristo escolheu a cruz, o sofrimento, para nos livrar da perdição eterna e do sofrimento eterno. Diante de tudo isso, devemos permanecer “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2).

Rev . Ricardo Rios Melo

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