sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre o abismo do mundo

Entre o abismo do mundo

Lá estava um homem, velho. Olhando para longe. Entre ele e um ponto distante, havia um abismo. Com bastante persistência, ele percebe que ao longe não era um ponto que ele mirava, mas pessoas que, de tão distantes que estavam, pareciam formigas se movimentando.

De repente, surge no horizonte um perigo terrível. Aquelas pessoas que estão do outro lado do abismo serão destruídas. O homem tenta de todas as maneiras avisar sobre o perigo iminente: brada, pula, acena, mas sem êxito. Em desespero, tenta fazer uma ponte para alcançar o outro lado do abismo. Ele passa um bom tempo fazendo isso. Ao final, consegue chegar perto daquelas pessoas. Vê, em cada rosto, sua semelhança. Ele se espanta ao perceber que as pessoas são tão semelhantes, mas não entendem nada do que ele fala. É a mesma língua, são os mesmos sinais, contudo não conseguem compreendê-lo. Então, ele apela para recurso visual, tenta pintar em cores vivas o perigo que lhes sobrevém. Eles olham para a tela, acham bonita a pintura e o artista, mas não entendem a mensagem que ele quer passar. O homem se entristece. Chora, pois terá que voltar sozinho.

A essa altura, ele já se apegou àquela gente. Fez amizades. Construiu laços. Teria sido, o seu esforço, em vão? Ele não se contenta. Busca incessantemente comunicar a mensagem para eles. Então, tem uma idéia: que tal decodificar os símbolos? Bom, se eles não entendem o que falo, falando-lhes a mesma língua, é porque, na verdade, nós não falamos a mesma língua (refletiu). Pensou mais ainda: se eles não percebem a profundidade da minha pintura, é porque não estou pintando corretamente.

Aquele homem passou um bom tempo aprendendo a língua local, pediu emprestadas as tintas e pincéis dos moradores do lugar. No primeiro momento, ele tentou fazer uma pintura que aquele povo estava acostumado e gostava, mas o resultado foi desastroso. Quase o bom homem se manchou com as tintas de maneira permanente. Depois, usou as tintas e os pincéis, e pintou uma tela da forma que deveria ser, mas com uma clareza impressionante. Tentou novamente se comunicar.

Para sua surpresa, as pessoas ficaram desesperadas pela notícia da destruição que viria sem demora. Perguntaram-lhe, o que poderiam fazer para escapar da destruição. Ele lhes respondeu: – Nada! – Nada? Assustaram-se com a resposta. Podemos reunir um exército tão numeroso que nada ou ninguém poderá nos derrotar. O bom homem respondeu: nenhuma força humana poderá aplacar a destruição. – Então (intercalou o povo) porque nos mostrou com cores tão vivas a destruição de nosso povo, se não temos como fugir? Respondeu o homem: – Eu disse que não podem fazer nada pelo seu próprio esforço, mas tem uma pessoa que pode fazer por nós. Ele é tão poderoso que poderá aplacar a ira e receber sobre si a morte que era para nós. Basta que se arrependam dos seus pecados, do seu orgulho e creiam nEle de todo o coração.

Após ter dito essas coisas, muitos aceitaram o aviso e acreditaram na mensagem, outros não. Aquele homem guiou os que a aceitaram para o lugar em que ele morava, enquanto os outros foram destruídos por um fogo que nunca, jamais homem algum poderia imaginar.

Quero lhes contar outra história, na verdade, devo dar créditos ao autor, Jesus:

“Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós. Então, replicou: Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna, porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento. Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos. Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16. 19- 31).

Primeiro gostaria de ressaltar as diferenças entre as histórias acima contadas. A primeira é totalmente ficção, mas a moral desta história é uma realidade para nós. A segunda é uma parábola de Jesus, portanto é a Palavra de Deus.

Na primeira história, o homem bom pôde passar o abismo e comunicar o perigo. O primeiro abismo que ele rompeu foi o abismo da própria comunicação. Depois, conseguiu romper o abismo das terras e resgatar alguns que estava do outro lado do abismo.

Na segunda história, a coisa é muita mais forte, pois o homem rico não pode superar o abismo da morte. Ele não podia voltar à vida ou aparecer como um fantasma, ou guia espiritual qualquer, para anunciar aos seus sobre os tormentos do inferno. Aliás, a parábola diz que eles tinham a mensagem dos vivos escrita para ouvir: Moisés e os Profetas. Não há nenhum sentido em ressuscitar alguém que morreu, pois se eles não conseguiam ouvir a Bíblia, ou seja, Moisés e os Profetas, “tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”.

Querido irmão, se não entender a linguagem da nossa sociedade, você continuará gritando no vazio. Anunciará uma mensagem tão preciosa e importante para a vida eterna sem que ninguém consiga entender.

Querido amigo, na primeira história, as pessoas tiveram tempo para se salvarem. Na parábola de Jesus, o tempo que você tem é hoje, é agora: “porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2 Co 6.2).

Rev. Ricardo Rios Melo

quinta-feira, 1 de julho de 2010

SER MEMBRO DE UMA IGREJA, EU PRECISO DISSO?



SER MEMBRO DE UMA IGREJA, EU PRECISO DISSO?

Quem nunca ouviu alguma dessas frases: “eu creio do meu jeito” ou “não preciso ir à igreja para ser crente ou para crer em Deus”? Recentemente, essas frases ganharam um grande reforço por intermédio de publicações de livros que incentivam as pessoas a não buscaram a igreja. A idéia é que não existe respaldo para uma religião constituída. Bom, é verdade que a Bíblia não estipulou que a igreja seria Presbiteriana, Batista, Assembléia, Metodista ou qualquer outra denominação, não! Mas, será verdade afirmar que não precisamos da Igreja? E, se precisamos da igreja, o que ela realmente é?

Segundo Don Kistler, “As igrejas do Novo Testamento eram igrejas visíveis e locais. Elas se reuniam em lugar específico. Mateus 18.20 fala de umas poucas duas ou três reuniões no nome de Cristo. Atos 11.26 fala que a igreja de Antioquia, onde os discípulos foram pela primeira vez chamados de cristãos, reunia-se com o propósito de ser ensinada. Paulo escreveu suas epístolas a igrejas específicas, em lugares específicos, com pastores e presbíteros (ou supervisores) pastoreando seus rebanhos”.[1]

Podemos entender, claramente, nas Escrituras que Deus envia seu Filho para salvar seu povo (Mt 1.21). Cristo veio salvar o coletivo. É claro que Deus nos trata individualmente também, mas enviou Seu filho para salvar Sua Igreja: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

O apóstolo Paulo fala que a Igreja é Coluna e Baluarte da Verdade: Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (I Tm 3.14,15). Aliás, deveríamos entender que: manter, propagar e viver a verdade devem ser um dos principais quesitos na escolha de uma igreja.

Gordon D. Fee faz uma afirmação perturbadora para os nossos dias: “Uma pessoa sozinha está sentada em casa à frente da televisão; um programa cristão está no ar, um sermão é pregado, um convite é feito, e a pessoa responde ‘aceitando a Cristo’. Mas a única ‘igreja’ que a pessoa ‘freqüenta’ é por acaso a da televisão, sem nenhuma conexão com um corpo local de crentes. A pergunta: esta pessoa está salva? Eu responderia: somente Deus sabe; porém tal salvação está totalmente fora da visão salvífica do Novo Testamento. Um dos membros certos da moderna ‘trindade’ do mundo, ao lado do relativismo e secularismo é individualismo.”[2]

Esse individualismo “denunciado” por Fee, não é novidade. Os pensadores contemporâneos tratam dessa individualização como uma das marcas do pós-modernismo. Na esteira desse pensamento e, citando Tocqueville, Zygmunt Bauman diz que “o indivíduo é o pior inimigo do cidadão”[3].

Nessa sociedade individualista, “Narciso acha feio o que não é espelho”.[4] Entretanto, ao defrontar-se com o espelho, se encontra vazio. “Quanto mais a cidade desenvolve as possibilidades de encontros, mais os indivíduos se sentem sós; quanto mais as relações se tornam livres, emancipadas das antigas restrições, mas rara se torna a possibilidade de conhecer uma relação intensa. Por outro lado há solidão, vazio, dificuldade de sentir, de ser transportado para fora de si mesmo; daí uma fuga para as ‘experiências’, que apenas traduz a busca de uma ‘experiência’ emocional forte”.[5]

É dentro desse contexto individualista, da era dos telefones celulares, que não ligamos mais para a casa ou família de alguém, mas para alguém individualmente. Na era dos iPOD’S, em que não se compartilha a música com o ambiente, mas apenas com seu dono; na era das comunidades virtuais que são efêmeras e de interesses diversos e circunstanciais, se tenta criar uma igreja da mesma forma. Uma igreja para o indivíduo e não para coletividade – uma igreja que sacie os interesses narcísicos.

A igreja apostólica, tecnicamente falando, se constitui de uma assembléia de pecadores redimidos. Desde o Antigo Testamento, Deus está reunindo um povo zeloso de boas obras:o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas Obras” (Tt 2.14).

Deus enviou seu único Filho para morrer pela Igreja, o Israel de Deus. Conquanto a responsabilidade do arrependimento seja individual, Deus nos chamou para a comunhão real, não virtual, e jamais individual.

A essa altura, você me perguntaria: preciso filiar-me a uma igreja já que não existe denominação na Bíblia? A resposta é simples: igreja, como instituição humana e falível, não salva ninguém. Mas, a Igreja que Deus tem reunido desde os tempos da existência humana usa uma Igreja invisível, no sentido de que não conhecemos todos os seus membros, mas que se manifesta visivelmente agregando pessoas de diversas denominações que professam Cristo como Senhor e Salvador, que foi constituída por Deus na Sua multiforme sabedoria, permitindo que haja diferenças entre elas, cujo centro é Cristo. Sem essa filiação você não será salvo.

Portanto, você precisa de dois pertencimentos segundo a Bíblia, 1) pertencer a uma igreja, seja qual for a denominação ou local, Éfeso, Antioquia, Presbiteriana, Batista, Assembléia, Metodista, seja qual for a igreja e o local, é necessário participar de uma que pregue verdadeiramente o Evangelho com fidelidade;

2) o mais importante de tudo isso é ter as duas presenças confirmadas, e a segunda presença é o seu nome arrolado no Livro da vida; é ser membro da Igreja dos Céus, onde não existe mais grego, judeu, brasileiro, americano, africano etc. “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

Queridos, só existe um só jeito de ser crente, o jeito de Cristo!

Que Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo



[1] Don Kistler, Benditos Laços, In: Avante, Soldados de Cristo, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 66.

[2] Gordon D. Fee, Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, Campinas- SP, United Press, 1997, p. 69.

[3] Vd. Zygmunt Bauman, A Sociedade Individualizada, Rio de Janeiro, 2008, p. 60-77.

[4] Caetano Veloso, Sampa.

[5] Gilles Lipovetsky, A Era Do Vazio, Barueri, SP, Manole, 2006, p. 57,58.


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