Calvino a serviço do Rei (IV Parte)


Calvino a serviço do Rei (IV Parte)

Por. Rev. Ricardo Rios Melo

Influência no mundo e as distorções de seu pensamento

Segundo alguns críticos, Calvino foi “o pai do capitalismo”. Ironicamente, morreu de modo simples e digno de um servo. “(...) seu corpo foi envolvido em um lençol e posto em um ataúde de madeira, tudo simplesmente. Depois, cerca de duas horas após o meio-dia, foi levado da maneira de costume, como, ademais, havia ordenado, ao cemitério comum chamado Plein Palal [Palácio Pleno], sem pompa nem qualquer aparato”.[1]

É pertinente o relato da morte de Calvino pelo seu contemporâneo e amigo Beza:

Alguns meses depois, certos estudantes recém-vindos a estudar aqui ficaram não pouco frustrados um dia, quando foram ao cemitério expressamente para ver o túmulo de Calvino, pensando aí ver um mausoléu grandioso e magnífico e nada viram, senão terra singela, em nada mais do que todos os outros. Isso deve, ao menos, servir contra aqueles que, de longa data, nos há acusado de dele fazermos um ídolo.

Entretanto, no sepultamento foi-lhe o corpo acompanhado não somente dos Síndicos e Conselheiros, como os pastores da igreja, tanto francesa quanto italiana, os professores públicos e grande número de estudantes, assim como também a maior parte da população da cidade, não apenas homens, também mulheres, e pessoas de todas as classes, que o prantearam tanto mais longamente quanto bem reduzida aparência há de reparar, no mínimo por tempo assaz extenso, uma perda tão grande e tão lastimável.[2]

Em sua obra: A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo, Max Weber fez uma análise do capitalismo à luz de alguns movimentos calvinistas posteriores a Calvino[3], e acabou por creditar a Calvino a façanha do Capitalismo. No entanto, essa visão carece de revisão, pois creditar o pensamento capitalista a Calvino é, no mínimo, descuido histórico.

Para se ter uma idéia, o empréstimo financeiro foi instituído em período bem anterior a Calvino. “Em Genebra, o empréstimo a juros foi praticado desde muito tempo antes da reforma. Um artigo das franquias, confirmadas pelo bispo Adhemar Fabri, em 1387, diz expressamente; não se pode inquietar os emprestadores, nem seqüestrar, nem, tomar-lhes os bens, nem deles fazer inventário, nem fazer-lhes exigências que seja. Não obstante, as ordenanças da igreja se opõem a eles formalmente”.[4]

Calvino combateu a especulação e as injustiças sociais em Genebra. Sua posição em relação às finanças é sobejamente teológica e não financeira. Apesar de ser proveitoso ao homem poupar para ajudar os desfavorecidos e trabalhar para glória de Deus, o princípio de Calvino de “poupança e frugalidade da alma” não parte de uma motivação capitalista ou de um intuito mercantilista:

Calvino, sabe-se, é o primeiro dos teólogos cristãos a exonerar o empréstimo a juros do opróbrio moral e teológico que a Igreja havia feito pesar sobre ele até então; não é, entretanto, justo atribuir-lhe a justificação integral do capitalismo liberal. Suas concepções sobre as riquezas e seus fins sociais levam-no a exigir regulamentação assaz estrita do empréstimo a juros; tinha ele pressentido profeticamente a gama de males sociais que o liberalismo puro deveria conduzir.[5]

Os detratores de Calvino são céleres em apontar a doutrina da predestinação[6] como um conceito capitalista. Essa visão, além de estranha a Calvino, é totalmente desprovida de crédito. Não se encontra em nenhum dos escritos do reformador, a tese de que a evidência da eleição (predestinação) são as riquezas.

Calvino era bastante claro em suas idéias sobre a verdadeira riqueza: “aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro, e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio (....). Portanto, a genuína bem-aventurança consiste na piedade, e essa suficiência é tão boa quanto um razoável aumento de lucro”[7]

Vejamos um exemplo de uma distorção antiga do pensamento de Calvino que foi perpetuada por muitos sociólogos que até hoje bebem da fonte de Weber, ao invés de buscarem as idéias do próprio Calvino:

A doutrina da Predestinação proposta por Calvino diz que entre os homens, há aqueles Predestinados por Deus e aqueles que não são “abraçados” por Ele. No calvinismo, o indivíduo se “sente” um predestinado, e como tal, deve sempre exercer a sua “vocação profissional” para gerar riquezas, armazená-las, reinvesti-las para gerar mais riquezas. Ou seja, trabalhar sempre, poupar para trabalhar mais e fazer mais riquezas, pois dessa forma glorifica a Deus e, como um predestinado, segue as ordens do Pai.

Mas, e aqueles que não são os predestinados? Aqueles que são pobres e estão em classes sociais de baixo prestígio? Se eles não são predestinados e não são abraçados por Deus, não precisariam trabalhar certo? Bem, sob a ótica atual, provavelmente todo e qualquer leitor da obra de Weber pensaria algo semelhantes a: “Se eu não sou um predestinado, não preciso trabalhar para ganhar sempre mais”. Porém, convém lembrar que falamos de religiões de séculos anteriores, religiões essas que intersubjetivamente compartilhadas exerciam forte influência sobre as pessoas.

Para Calvino, mesmo aquele que não se sentia um predestinado, deveria trabalhar para honrar e agradecer a Deus, pois os homens é quem vivem pra Deus e não o inverso.

Dessa forma, temos aí uma conduta de vida, um ethos, calcado num ascetismo intramundano, ou seja, numa conduta moral baseada no trabalho secular apoiado pela vocação profissional do indivíduo.

Portanto, temos primeiramente a vocação em Lutero, que não sai do tradicionalismo, mas nos fornece elementos para o conceito de “vocação” em Calvino, que, ao lado de uma doutrina de predestinação do indivíduo que se submete à uma ascese mundana (por mais que a todo momento queira-se glorificar o Divino), garante um ethos de vida. E esse ethos que surge é o que será relacionado com o “espírito” do capitalismo pensado por Weber.[8]

É notória a distorção do pensamento de Calvino e o desconhecimento sobre a doutrina da predestinação. Essa doutrina (da predestinação) existia antes de Calvino, e versa sobre a soberania de Deus na salvação do homem. Vale ressaltar que a doutrina já existia antes de Calvino e que o Reformador certamente foi influenciado por Agostinho (354-430):

A doutrina da predestinação e eleição tem seu nome associado ao de Calvino como se fosse ele o seu inventor. Falando das diversas calúnias que levantavam contra ele, as quais partiam inclusive de falsos irmãos, Calvino diz: “só porque afirmo e mantenho que o mundo é dirigido e governado por Deus, uma multidão de homens presunçosos se ergue contra mim alegando que apresento Deus como sendo o autor do pecado. [...] Outros tudo fazem para destruir o eterno propósito divino da predestinação, pelo qual Deus distingue os réprobos e os eleitos”.[9]

Calvino, a respeito da predestinação, nos diz:

Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele determinou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque ele não criou todos em igual condição, mas ordenou uns para a vida eterna e os demais para condenação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou para morte.[10]

É bom dizer que “Calvino afirmou de fato a doutrina da dupla predestinação, e com o passar dos anos ele, progressivamente, expandiu a seção que as Institutas devotaram a ela. Mas o lugar imperceptível que os quatro capítulos sobre o assunto ocupam nas Institutas deveria ser uma advertência de que a doutrina da predestinação, por mais importante que seja, não é a chave que abre a porta para o resto da teologia de Calvino.”[11]

A distorção da doutrina da eleição talvez surja de seu primeiro trabalho, um comentário De Clementia de Sêneca, publicada em 1532, provavelmente um pouco antes de sua conversão, que aconteceu no mesmo ano. Alguns historiadores, como Paul Johnson, entendem que há um tom elitista na obra do Reformador.[12]



[1] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 103.

[2] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 103.

[3] Weber focou sua pesquisa nos Puritanos ingleses entendendo que eles representavam de maneira límpida o pensamento de Calvino. Esse tipo de associação é rechaçada por André Biéler em seu livro: O Pensamento Econômico e Social de Calvino (obra já citada nesse texto). A própria idéia de o puritanismo ser a causa do capitalismo moderno também é questionada por outros estudiosos. Para uma avaliação equilibrada, consultem o texto de Franklin Ferreira: Uma Introdução a Max Weber à obra “A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/.../Franklin.pdf , acesso em 07/08/2009.

[4] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 237.

[5] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 239.

[6] Vejamos um fragmento da obra de Weber: “Quanto à produção da riqueza privada, o ascetismo condenava tanto a desonestidade como a avareza compulsiva. O que condenava como ganância, “mamonismo”, etc. era a busca da riqueza por si mesma, pois a riqueza em si é uma tentação. Mas aí o ascetismo tinha o poder de “sempre quer o bem, embora crie o mal”; o mal, neste sentido, era a posse e suas tentações. E em conformidade com o Velho Testamento e em analogia com a avaliação ética das boas obras, o ascetismo via a busca das riquezas como fim em si mesma como altamente repreensível; embora sua manutenção como fruto do trabalho na vocação fosse um sinal da benção de Deus. E mesmo mais importante que isso: a avaliação religiosa do trabalho sistemático, incansável e contínuo na vocação secular como o mais elevado meio de ascetismo e, ao mesmo tempo, a mais segura e mais evidente prova de redenção e de genuína fé, deve ter sido a mais poderosa alavanca concebível para a expansão desta atitude diante da vida, que chamamos aqui de espírito do capitalismo.” Quando a limitação dó consumo é combinada com a liberação das atividades de busca da riqueza, o resultado prático inevitável é óbvio: o acúmulo de capital mediante á impulsão ascética para a poupança.” As restrições impostas ao gasto de dinheiro, serviram naturalmente para aumentá-lo, possibilitando o investimento produtivo do capital. Infelizmente, o quanto esta influência foi poderosa, não é passível de demonstração estatística exata. Na Nova Inglaterra, a conexão foi tão evidente que não escapou ao discernimento de um historiador preciso como Doyle. Mas também na Holanda, que foi de fato dominada pelo calvinismo estrito por apenas sete anos, a maior simplicidade de vida dos círculos religiosos mais sérios, combinada com uma grande riqueza, levou a uma propensão excessiva ao acúmulo de dinheiro” (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, p. 81,82, k.1asphost.com/.../etica_protestante_e_espirito_do_capitalismo.pdf. acesso em 07 de agosto de 2009.

[7] João Calvino, As Pastorais, (I Tm 6.6), São Paulo, Paracletos, 1998, p. 168.

[8] Felipe De Oliveira E Silva & Vinícius Oliveira Santos, A Ética Protestante E O “Espírito” Do Capitalismo: Uma Análise Das Categorias Do Pensamento De Calvino, A Ética Protestante e o Conceito De Vocação Da Religião Reformada, Universidade Federal De Uberlândia 4ª Semana do Servidor e 5ª Semana Acadêmica 2008 – UFU 30 anos, www.ic-ufu.org/anaisufu2008/PDF/SA08-20085.PDF , acesso em 07 de agosto de 2009.

[9] Hermisten Costa, Calvino de A a Z – Pensadores Cristãos, São Paulo, Vida, 2006, p. 108.

[10] João Calvino, As Institutas: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, III.8.

[11] Justo L. Gonzalez, Uma História do Pensamento Cristão – da Reforma Protestante ao Século 20, Vl 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 160, 161.

[12] Vd. Paul Johnson, História do Cristianismo, Rio de Janeiro, Imago, 2001, p. 345.

Comentários

Fala chará!
Grande texto; digno de Rev. Hermisten. Muito informativo e preciso. Valeu pelo conhecimento a mais.

Abraço
Fala Ricardo! Quanto tempo hein? Obrigado pelo elogio. Contudo, estou muito longe da perspicuidade do nosso Mestre Dr. Hermisten.

Abraços,
Ricardo Rios.

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