sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Calvino a Serviço do Rei (VI parte) Por Rev.. Ricardo Rios Melo

Calvino a Serviço do Rei (VI parte)

Por Rev.. Ricardo Rios Melo

Influência no mundo ocidental

O protestantismo se destacou durante a história como uma força intelectual vigorosa e atuante a despeito do desejo de seus adversários. Longe de ser obscurantista, a Reforma, principalmente a Reforma calvinista, construiu um novo homem: pensante, questionador, atento ao seu tempo com um olhar para o futuro. Muitos protestantes procuraram a academia e as ciências.

Entre 1666 a 1883, foi constatado, por A. de Candolle, que o número de protestantes suplantava o número de católicos na Academie dês Sciences de Paris. “Na população da Europa Ocidental, fora da França, a proporção de católicos romanos para protestantes era de seis (católicos) para quatro (protestantes), enquanto, entre membros estrangeiros da Académie dês Sciences, a proporção era de seis (católicos) para vinte e sete (protestantes). (...) Entre os grupos de dez cientistas que, durante a Comonweealth, constituíram o núcleo que daria origem A Royal Society, sete eram acentuadamente puritanos”.[1] Sem sombra de dúvidas, “Calvino contribuiu para forjar um tipo novo de homem: “o reformado,” que vive no tempo, o seu tempo, para a glória de Deus!”[2]

Tendo em vista que Calvino era um humanista subordinado à Palavra de Deus, não se poderia imaginar que seus pensamentos ficassem aprisionados ou circunscritos a Genebra. Há uma importante contribuição de Calvino na reforma Francesa. “Sem Calvino, o Protestantismo francês não teria passado de uma seita incipiente com tendência a se subdividir em várias facções e inclinada à introspecção e à dissensão interna, a qual não possuiria qualquer poder político de fato.”[3]

Como a criação é o palco da glória de Deus, o homem e sua relação com a criação é de suma importância para o pensamento de Calvino.O ‘humanismo’ de Calvino é visível em sua formação, escritos e atitudes. Ele apoiou o humanista Guillaume Budé (1467-1540), que era chamado de ‘Prodígio da França’ e, juntamente com Erasmo (c.1469-1536) e Juan Luis Vives (1492-1540), constituiu o ‘triunvirato do humanismo europeu.’ Budé contribuiu para o reavivamento do interesse pela língua e literatura gregas e colaborou na introdução do humanismo na França”.[4]

O humanismo de Calvino está longe de ser comparado ao movimento humanista antropocêntrico. Como bem frisou Hermisten Costa, “Calvino rejeitava este tipo de ‘humanismo’.”[5] Em sua carta ao rei Francisco I, no prefácio de suas Instituições Cristãs, ele mostra sua idéia humanista:

Quando Paulo quis que toda profecia fosse conformada à analogia da fé (Rm 12.6), estabeleceu uma regra extremamente segura, pela qual deva ser testada a interpretação da Escritura. Portanto, se a doutrina nos é esquadrinhada à base desta regra de fé, nas mãos nos está a vitória. Pois, o que melhor se coaduna com a fé e mais convenientemente do que reconhecer que somos despidos de toda virtude, para que sejamos vestimos por Deus; vazios de todo bem, para que sejamos por ele plenificados; escravos do pecado, para sejamos por ele libertados; cegos para que sejamos por El iluminados; coxos, para que sejamos por ele restaurados; fracos, para que sejamos por ele sustentados; despojando-nos de todo motivo de glória pessoal, para que somente ele seja glorioso e nós nele nos gloriemos? [1Co 1.31; 2Co 10.17].[6]

A abrangência do pensamento de Calvino fez com que suas idéias se espalhassem pelo mundo e fossem adotadas por países inteiros. É bem verdade que os “calvinistas”, necessariamente, não seguem o pensamento completo de Calvino. Esse tipo de divergência ou de ampliação e, às vezes, distorção é-nos relatada por McGrath:

O termo “calvinismo” costuma ser usado para se referir às idéias religiosas da igreja reformada. Apesar de ainda ser amplamente empregado na literatura relacionada à Reforma, trata-se de uma prática desestimulada nos dias de hoje. Está cada vez mais claro que a teologia reformada do século 16 se valeu de outras fontes além das idéias do próprio Calvino. Chamar o pensamento reformado do final do século 16 e século 17 de “calvinista” sugere que era, essencialmente, o pensamento de Calvino e o consenso atual é de que as idéias de Calvino foram modificadas sutilmente por seus sucessores. Hoje em dia, o termo “reformado” é considerado preferível para se referir às igrejas (especialmente na Suíça, Países baixos e Alemanha) ou aos pensadores religiosos (como Theodoro Beza, William Perkins e John Owen) que se basearam no livro texto religioso célebre Calvino As Institutas da religião Cristã, ou ainda, para os documentos eclesiásticos (como o conhecido catecismo de Heidelberg) com base nessa obra.[7]

A discussão sobre o pensamento de Calvino e de seus sucessores é matéria de debates e de produções literárias. O americano R.T Kendall, que pastoreou a Westminster Chapel, Londres, por 25 anos, entende que calvinismo não significa necessariamente o pensamento de Calvino.[8]

Kendall afirma que um dos grupos calvinistas, o puritanismo inglês, modificou o pensamento de Calvino e que, por exemplo, a doutrina da predestinação foi desenhada muito antes do pensamento do Reformador genebrino, quando ele ainda tinha dezesseis anos de idade. Os reformadores e, precipuamente, Lutero já esboçaram a doutrina em seu prefácio aos Romanos.[9]

O francês André Biéler é mais virulento em seu ataque aos puritanos. Ele chega a denominá-los de “filhos bastardos do calvinismo” para defender a tese de que Calvino não é o pai “monstro” do capitalismo, como foi articulado por Max Weber em sua Ética Protestante e Espírito do Capitalismo. Vejamos um extrato do seu pensamento:

Focalizemos, a seguir, este tremendo receio dos prazeres e esta depreciação da sexualidade que têm, de fato, lamentavelmente caracterizado o Puritanismo, filho bastardo do calvinismo. Por certo que a moral calvinista denunciou o valor ambíguo dos prazeres terrenos e do amor humano. São dons de Deus que não devem ser vilipendiados. Se o homem não os usa segundo o desígnio de Deus, segundo a norma ética divina que lhes confere seu verdadeiro significado, ele os desnatura; desviados, assim, de seu fim, tornam-se demoníacos e contribuem, por sua vez, para de Deus afastar o homem. Contudo, mesmo assim desnaturados, perduram como dons de Deus e o homem os não poderia menosprezar por um falso ascetismo, sem cair no excesso contrário, tão de culpar-se quanto o abuso. É justo fazer de Calvino o responsável por essa moral puritana que rejeita, não o abuso, mas os próprios prazeres em si e vê a sexualidade a sede mesma do mal? (...) No fundo, os textos que podemos citar atestam que Calvino era bem menos “puritano” que muitos de seus êmulos, que querem com ele rivalizar no zelo, na falta de o poderem fazer pelo discernimento espiritual.[10] (grifos meus).

Essa crítica de Biéler é contraposta por diversos autores calvinistas que entendem que a Confissão de Fé de Westminster (1647-1648) demonstra claramente o pensamento calvinista. No documento de fé elaborado na Assembléia de Westminster, “os primeiros debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo de igreja”.[11] Os puritanos reunidos na assembléia, 121 teólogos, 20 leigos nomeados pelo parlamento, 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, eram homens de caráter ilibado e brilhantes.[12]

Na Assembléia de Westminster, tinham partidos bem definidos: presbiterianos, congregacionais (independentes), episcopais, e “os erastianos, que sustentavam a tese de que os pastores cristãos são simplesmente mestres, e não governantes na Igreja, e que todo poder, tanto eclesiástico quanto civil, repousa exclusivamente no magistrado civil, eram (os erastianos) representados na Assembléia por apenas dois ministros – Thomas Coleman e John Lightfoot, assistidos ativamente pelo erudito leigo, John Selden”[13].

Franklin Ferreira combate aquilo que levou Joel Beek a escrever o livro A busca da plena segurança: o legado de Calvino e seus sucessores, traduzido em português e editado pela editora Os Puritanos. Alguns opositores e até outros que são admiradores dos puritanos afirmam que eles confundiram justificação com santificação. Para Frankin, “essa falsa compreensão poderia ser sanada com uma consulta à referida Confissão e aos escritos dos mesmos”.[14]

O fato é que tanto os puritanos calvinistas quanto outros grupos que não são puritanos, mas são calvinistas, não são chamados de calvinistas por seguirem o pensamento completo do Reformador. “O verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: não obedecer ao próprio Calvino, mas àquele que era o mestre de Calvino.”[15]



[1] W. Standford Reid ET AL (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 2,3.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 15.

[3] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 206.

[4] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 10.

[5] Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 10.

[6] João Calvino, As Institutas, [tradução Waldir Carvalho Luz]. – 2. Ed. – São Paulo; Cultura Cristã, 2006, p. 20. Observação importante: essa citação foi feita por Dr. Hermisten em seu trabalho na FIDES (obra já citada nesse artigo), no entanto, resolvi citar a 2ª edição ao invés da 1ª.

[7] Alister MacGrath, teologia Histórica – Uma introdução à História do Pensamento Cristão, São Paulo, Cultura Cristã, 2007, p. 180.

[8] Vd. R. H. Kendall, in: W. Standford Reid Et al; (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 245.

[9] Vd. R. H. Kendall, in: W. Standford Reid Et al; (orgs), Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 245.

[10] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 642.

[11] Hermisten Maia Pereira da Costa, Fundamentos da Teologia Reformada, São Paulo, Mundo Cristão, 2007, p. 19.

[12] Vd. Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster, Comentada por A. A. Hodge, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 41,42.

[13] Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster, Comentada por A. A. Hodge, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 42.

[14] Franklin Ferreira, O Movimento Puritano e João Calvino, FIDES/REFORMATA 4/1, 1999, p. 5.

[15] Karl Barth, em introdução à obra, Calvin, Textes Choisis par Charles Gagnebin, 11, In: Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O Humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, FIDES REFORMATA 4/2 (1999), p. 15.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Calvino a Serviço do Rei (V parte)

Calvino a Serviço do Rei (V parte)

Por: Rev. Ricardo Rios Melo

O Caso Servetus

Outra distorção comum que acontece na interpretação da vida de Calvino e sua obra é o episódio da execução de Servetus. Em 1553, ele foi queimado vivo na cidade genebrina, acusado de blasfêmia, pois não aceitava a trindade e a atacava com ferocidade.[1]

O que temos que ter em mente é que Calvino era um homem de sua época e, portanto, tanto ele como os reformadores pertenciam a um período histórico em que a heresia era tratada com a pena de morte. “Genebra não era uma exceção. Uma vez que havia sido provada a existência de um herege em seu meio, cujas simpatias o alinhavam com a ala radical da Reforma, as autoridades de Genebra tiveram pouca opção, exceto agir, apesar das dificuldades advindas do fato de que Serveto não estava, estritamente falando, sujeito à justiça de Genebra”.[2]

Servetus “já havia sido condenado como herege pelas autoridades católicas, na França; contudo, ele havia escapado da prisão em Viena e se encaminhado a Genebra, para ser preso, em 13 de agosto de 1553.”[3] Ele lançou um livro intitulado Christianae Religionis, onde negou o batismo infantil, como sendo um ato tradicional e rejeitou também um ponto essencial da doutrina cristã, a trindade.[4]

Os historiadores sérios entenderão que “embora tenha sido Calvino que, agindo pessoalmente, providenciou a acusação e a prisão de Serveto, foi o Conselho municipal que – apesar de sua forte hostilidade em relação a Calvino – assumiu o caso e processou Serveto com rigor. (...) As autoridades católicas de Viena exigiram, imediatamente, a extradição de Serveto para que fosse processado lá. O Conselho municipal ofereceu-lhe, então, uma opção: ele poderia retornar a Viena ou permanecer em Genebra, submetendo-se à decisão da justiça desta última. É significativo que Serveto escolhesse permanecer em Genebra”.[5]

Tendo em vista que Genebra não tinha carrascos profissionais, a morte de Serveto foi algo grotesco e aterrorizante, carnificina. Calvino tentou alterar o tipo de morte de Serveto para guilhotina, achando que era mais rápido e menos torturante. Contudo, o Conselho não atendeu sua solicitação.

Os reformados, herdeiros da reforma e do pensamento de Calvino, condenam severamente aquilo que foi considerado um dos maiores erros dos reformadores. “Em 1903, um monumento de granito foi erguido no local onde Serveto foi executado. Sua inscrição condena ‘um erro que pertenceu a seu século’. Contudo, lamentavelmente, toda organização cristã de maior relevância cuja história possa ser traçada até o século 16 tem sangue literalmente espalhado sobre suas credenciais. Os católicos romanos, os luteranos, os reformados e os anglicanos: todos condenaram e executaram seus próprios Servetos, seja de forma direta ou – como no caso do próprio Calvino – indiretamente”.[6] Cometeremos um grave erro se apontarmos Calvino como precursor dessa prática abominável, pois essa prática era comum em sua época.

É pertinente a observação de Lopes:

Estes são alguns fatos que devemos lembrar, antes de chamarmos Calvino de "assassino". Durante este mesmo período, a propósito, trinta e nove hereges foram queimados em Paris, vítimas da Inquisição católica, que estava sendo aplicada com rigor na Espanha e Itália, e outras partes de Europa. Apesar de que muitos que não eram ortodoxos buscaram (e encontraram) refúgio em Genebra, fugindo das autoridades católicas, Serveto foi o único herege a ser queimado lá durante a carreira distinta de Calvino.[7]

Theodoro de Beza, contemporâneo de Calvino, mostra seu apoio ao escrever sobre o Reformador:

Por essa época, Miguel Serveto (de quem já se falou acima), espanhol de maldisã memória, sobrevêm (sic), não homem, antes um monstro horrível, composto de todas as heresias antigas e novas, a condenar o batismo das criancinhas e, acima de tudo, execrável blasfemador contra a Trindade e, nomeadamente, contra a eternidade do Filho de Deus. Tendo ele chegado a esta cidade e tendo sido reconhecido por alguns que o haviam visto alhures, foi detido pelo magistrado no 13º dia de agosto, em razão de usas blasfêmias. E, nesse aspecto, combateu-o Calvino, de tal maneira e tão acirradamente, no poder de Deus e de Sua Palavra, que, para toda defesa, não lhe restou senão uma obstinação indomável. Em razão disso, por justo juízo de Deus e dos homens, no dia 27 de outubro foi ele condenado ao suplício do fogo. E assim findou ele sua desgraciosa vida e suas blasfêmias que havia vomitado, oralmente e por escrito, pelo espaço de trinta anos, e mais. Não se faz de mister disso falar opor mais tempo, visto que há, nessa matéria, um assaz belo livro que, a esse respeito, Calvino escreveu, expressamente, pouco depois, isto é, no ano de 1554, em que mostra que a fé verdadeira e correta leva a crer em três pessoas em uma só essência divina, refuta os detestáveis erros deste malsinado Serveto e prova que o ofício do magistrado se estende até à repressão dos heréticos, pelo que, com todo direito, foi este ímpio punido de morte em Genebra, em suma, que exibia ele as marcas bem certas do réprobo.[8]

Longe deve estar qualquer intuito de justificar atos de tortura desumana como as punições em fogueira dos hereges, tanto pelos Reformadores, como pelos Católicos, ou por qualquer outra religião. Entretanto, devemos ter cuidado para não macular a imagem de Calvino e desacreditar o calvinismo por esse fato isolado e restrito à sua época. Qualquer historiador que se preze, contextualizará os fatos e as pessoas. Usar da execução de Servetus para desacreditar Calvino e o Calvinismo “é expediente preconceituoso de quem não deseja ver todos os fatos” [9].



[1] Vd. Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma – Um estudo sobre Calvino como um Reformador Social, Clérigo, Pastor e teólogo, São Paulo, Cultura Cristã, 2003, p. 66,67.

[2] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[3] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[4] Vd. Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142.

[5] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 142,143.

[6] Alister MacGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 143.

[7] Augustus Nicodemus Lopes, http://www.ipb.org.br/artigos/artigo_inteligente.php3?id=26, acesso em 14 de agosto de 2009.

[8] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 48,49.

[9] Augustus Nicodemus Lopes, http://www.ipb.org.br/artigos/artigo_inteligente.php3?id=26, acesso em 14 de agosto de 2009.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Calvino a serviço do Rei (IV Parte)


Calvino a serviço do Rei (IV Parte)

Por. Rev. Ricardo Rios Melo

Influência no mundo e as distorções de seu pensamento

Segundo alguns críticos, Calvino foi “o pai do capitalismo”. Ironicamente, morreu de modo simples e digno de um servo. “(...) seu corpo foi envolvido em um lençol e posto em um ataúde de madeira, tudo simplesmente. Depois, cerca de duas horas após o meio-dia, foi levado da maneira de costume, como, ademais, havia ordenado, ao cemitério comum chamado Plein Palal [Palácio Pleno], sem pompa nem qualquer aparato”.[1]

É pertinente o relato da morte de Calvino pelo seu contemporâneo e amigo Beza:

Alguns meses depois, certos estudantes recém-vindos a estudar aqui ficaram não pouco frustrados um dia, quando foram ao cemitério expressamente para ver o túmulo de Calvino, pensando aí ver um mausoléu grandioso e magnífico e nada viram, senão terra singela, em nada mais do que todos os outros. Isso deve, ao menos, servir contra aqueles que, de longa data, nos há acusado de dele fazermos um ídolo.

Entretanto, no sepultamento foi-lhe o corpo acompanhado não somente dos Síndicos e Conselheiros, como os pastores da igreja, tanto francesa quanto italiana, os professores públicos e grande número de estudantes, assim como também a maior parte da população da cidade, não apenas homens, também mulheres, e pessoas de todas as classes, que o prantearam tanto mais longamente quanto bem reduzida aparência há de reparar, no mínimo por tempo assaz extenso, uma perda tão grande e tão lastimável.[2]

Em sua obra: A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo, Max Weber fez uma análise do capitalismo à luz de alguns movimentos calvinistas posteriores a Calvino[3], e acabou por creditar a Calvino a façanha do Capitalismo. No entanto, essa visão carece de revisão, pois creditar o pensamento capitalista a Calvino é, no mínimo, descuido histórico.

Para se ter uma idéia, o empréstimo financeiro foi instituído em período bem anterior a Calvino. “Em Genebra, o empréstimo a juros foi praticado desde muito tempo antes da reforma. Um artigo das franquias, confirmadas pelo bispo Adhemar Fabri, em 1387, diz expressamente; não se pode inquietar os emprestadores, nem seqüestrar, nem, tomar-lhes os bens, nem deles fazer inventário, nem fazer-lhes exigências que seja. Não obstante, as ordenanças da igreja se opõem a eles formalmente”.[4]

Calvino combateu a especulação e as injustiças sociais em Genebra. Sua posição em relação às finanças é sobejamente teológica e não financeira. Apesar de ser proveitoso ao homem poupar para ajudar os desfavorecidos e trabalhar para glória de Deus, o princípio de Calvino de “poupança e frugalidade da alma” não parte de uma motivação capitalista ou de um intuito mercantilista:

Calvino, sabe-se, é o primeiro dos teólogos cristãos a exonerar o empréstimo a juros do opróbrio moral e teológico que a Igreja havia feito pesar sobre ele até então; não é, entretanto, justo atribuir-lhe a justificação integral do capitalismo liberal. Suas concepções sobre as riquezas e seus fins sociais levam-no a exigir regulamentação assaz estrita do empréstimo a juros; tinha ele pressentido profeticamente a gama de males sociais que o liberalismo puro deveria conduzir.[5]

Os detratores de Calvino são céleres em apontar a doutrina da predestinação[6] como um conceito capitalista. Essa visão, além de estranha a Calvino, é totalmente desprovida de crédito. Não se encontra em nenhum dos escritos do reformador, a tese de que a evidência da eleição (predestinação) são as riquezas.

Calvino era bastante claro em suas idéias sobre a verdadeira riqueza: “aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro, e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio (....). Portanto, a genuína bem-aventurança consiste na piedade, e essa suficiência é tão boa quanto um razoável aumento de lucro”[7]

Vejamos um exemplo de uma distorção antiga do pensamento de Calvino que foi perpetuada por muitos sociólogos que até hoje bebem da fonte de Weber, ao invés de buscarem as idéias do próprio Calvino:

A doutrina da Predestinação proposta por Calvino diz que entre os homens, há aqueles Predestinados por Deus e aqueles que não são “abraçados” por Ele. No calvinismo, o indivíduo se “sente” um predestinado, e como tal, deve sempre exercer a sua “vocação profissional” para gerar riquezas, armazená-las, reinvesti-las para gerar mais riquezas. Ou seja, trabalhar sempre, poupar para trabalhar mais e fazer mais riquezas, pois dessa forma glorifica a Deus e, como um predestinado, segue as ordens do Pai.

Mas, e aqueles que não são os predestinados? Aqueles que são pobres e estão em classes sociais de baixo prestígio? Se eles não são predestinados e não são abraçados por Deus, não precisariam trabalhar certo? Bem, sob a ótica atual, provavelmente todo e qualquer leitor da obra de Weber pensaria algo semelhantes a: “Se eu não sou um predestinado, não preciso trabalhar para ganhar sempre mais”. Porém, convém lembrar que falamos de religiões de séculos anteriores, religiões essas que intersubjetivamente compartilhadas exerciam forte influência sobre as pessoas.

Para Calvino, mesmo aquele que não se sentia um predestinado, deveria trabalhar para honrar e agradecer a Deus, pois os homens é quem vivem pra Deus e não o inverso.

Dessa forma, temos aí uma conduta de vida, um ethos, calcado num ascetismo intramundano, ou seja, numa conduta moral baseada no trabalho secular apoiado pela vocação profissional do indivíduo.

Portanto, temos primeiramente a vocação em Lutero, que não sai do tradicionalismo, mas nos fornece elementos para o conceito de “vocação” em Calvino, que, ao lado de uma doutrina de predestinação do indivíduo que se submete à uma ascese mundana (por mais que a todo momento queira-se glorificar o Divino), garante um ethos de vida. E esse ethos que surge é o que será relacionado com o “espírito” do capitalismo pensado por Weber.[8]

É notória a distorção do pensamento de Calvino e o desconhecimento sobre a doutrina da predestinação. Essa doutrina (da predestinação) existia antes de Calvino, e versa sobre a soberania de Deus na salvação do homem. Vale ressaltar que a doutrina já existia antes de Calvino e que o Reformador certamente foi influenciado por Agostinho (354-430):

A doutrina da predestinação e eleição tem seu nome associado ao de Calvino como se fosse ele o seu inventor. Falando das diversas calúnias que levantavam contra ele, as quais partiam inclusive de falsos irmãos, Calvino diz: “só porque afirmo e mantenho que o mundo é dirigido e governado por Deus, uma multidão de homens presunçosos se ergue contra mim alegando que apresento Deus como sendo o autor do pecado. [...] Outros tudo fazem para destruir o eterno propósito divino da predestinação, pelo qual Deus distingue os réprobos e os eleitos”.[9]

Calvino, a respeito da predestinação, nos diz:

Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele determinou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque ele não criou todos em igual condição, mas ordenou uns para a vida eterna e os demais para condenação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou para morte.[10]

É bom dizer que “Calvino afirmou de fato a doutrina da dupla predestinação, e com o passar dos anos ele, progressivamente, expandiu a seção que as Institutas devotaram a ela. Mas o lugar imperceptível que os quatro capítulos sobre o assunto ocupam nas Institutas deveria ser uma advertência de que a doutrina da predestinação, por mais importante que seja, não é a chave que abre a porta para o resto da teologia de Calvino.”[11]

A distorção da doutrina da eleição talvez surja de seu primeiro trabalho, um comentário De Clementia de Sêneca, publicada em 1532, provavelmente um pouco antes de sua conversão, que aconteceu no mesmo ano. Alguns historiadores, como Paul Johnson, entendem que há um tom elitista na obra do Reformador.[12]



[1] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 103.

[2] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 103.

[3] Weber focou sua pesquisa nos Puritanos ingleses entendendo que eles representavam de maneira límpida o pensamento de Calvino. Esse tipo de associação é rechaçada por André Biéler em seu livro: O Pensamento Econômico e Social de Calvino (obra já citada nesse texto). A própria idéia de o puritanismo ser a causa do capitalismo moderno também é questionada por outros estudiosos. Para uma avaliação equilibrada, consultem o texto de Franklin Ferreira: Uma Introdução a Max Weber à obra “A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/.../Franklin.pdf , acesso em 07/08/2009.

[4] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 237.

[5] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 239.

[6] Vejamos um fragmento da obra de Weber: “Quanto à produção da riqueza privada, o ascetismo condenava tanto a desonestidade como a avareza compulsiva. O que condenava como ganância, “mamonismo”, etc. era a busca da riqueza por si mesma, pois a riqueza em si é uma tentação. Mas aí o ascetismo tinha o poder de “sempre quer o bem, embora crie o mal”; o mal, neste sentido, era a posse e suas tentações. E em conformidade com o Velho Testamento e em analogia com a avaliação ética das boas obras, o ascetismo via a busca das riquezas como fim em si mesma como altamente repreensível; embora sua manutenção como fruto do trabalho na vocação fosse um sinal da benção de Deus. E mesmo mais importante que isso: a avaliação religiosa do trabalho sistemático, incansável e contínuo na vocação secular como o mais elevado meio de ascetismo e, ao mesmo tempo, a mais segura e mais evidente prova de redenção e de genuína fé, deve ter sido a mais poderosa alavanca concebível para a expansão desta atitude diante da vida, que chamamos aqui de espírito do capitalismo.” Quando a limitação dó consumo é combinada com a liberação das atividades de busca da riqueza, o resultado prático inevitável é óbvio: o acúmulo de capital mediante á impulsão ascética para a poupança.” As restrições impostas ao gasto de dinheiro, serviram naturalmente para aumentá-lo, possibilitando o investimento produtivo do capital. Infelizmente, o quanto esta influência foi poderosa, não é passível de demonstração estatística exata. Na Nova Inglaterra, a conexão foi tão evidente que não escapou ao discernimento de um historiador preciso como Doyle. Mas também na Holanda, que foi de fato dominada pelo calvinismo estrito por apenas sete anos, a maior simplicidade de vida dos círculos religiosos mais sérios, combinada com uma grande riqueza, levou a uma propensão excessiva ao acúmulo de dinheiro” (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, p. 81,82, k.1asphost.com/.../etica_protestante_e_espirito_do_capitalismo.pdf. acesso em 07 de agosto de 2009.

[7] João Calvino, As Pastorais, (I Tm 6.6), São Paulo, Paracletos, 1998, p. 168.

[8] Felipe De Oliveira E Silva & Vinícius Oliveira Santos, A Ética Protestante E O “Espírito” Do Capitalismo: Uma Análise Das Categorias Do Pensamento De Calvino, A Ética Protestante e o Conceito De Vocação Da Religião Reformada, Universidade Federal De Uberlândia 4ª Semana do Servidor e 5ª Semana Acadêmica 2008 – UFU 30 anos, www.ic-ufu.org/anaisufu2008/PDF/SA08-20085.PDF , acesso em 07 de agosto de 2009.

[9] Hermisten Costa, Calvino de A a Z – Pensadores Cristãos, São Paulo, Vida, 2006, p. 108.

[10] João Calvino, As Institutas: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, III.8.

[11] Justo L. Gonzalez, Uma História do Pensamento Cristão – da Reforma Protestante ao Século 20, Vl 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2004, p. 160, 161.

[12] Vd. Paul Johnson, História do Cristianismo, Rio de Janeiro, Imago, 2001, p. 345.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Uma igreja relevante

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