Calvino a serviço do Rei (1ª parte)

Calvino a serviço do Rei (1ª parte)

Por Rev. Ricardo Rios Melo

Início

No dia 10 de julho de 1509, em Noyon, na Picardia, no nordeste da França, nascia Jean Calvin (João Calvino). Ele teve quatro irmãos. Era filho de Girard (Geraldo) Calvin, que nasceu em Ponte do Bispo (lugar próximo de Noyon) e sempre residiu na cidade de Noyon. Sua mãe chamava-se Jeanne (Joana) de Franc.[1]

Foi destinado à carreira eclesiástica por seu pai. Gozou de “benefícios eclesiásticos e foi enviado a Paris quando tinha cerca de catorze anos de idade, para estudar na universidade”.[2] Freqüentou o Collège de la Marche e o Collège de Montaigu, “onde recebeu o grau de Mestre em Artes, em 1528.[3]

O pai de Calvino gostaria que ele escolhesse uma profissão mais rentável na época, especificamente a ciência do Direito. Estudou na Universidade de Orléans (1528,1529) e na Universidade de Bouges (1529-1531). Estudou com uns dos melhores juristas de sua época.

Tanto progrediu no saber em pouco tempo com o insigne mestre que não era havido por estudante, pelo contrário, como um dos doutores regulares, uma vez que mais frequentemente exercia o papel do docente que do aluno. Ofereceu-se-lhe o título de doutor à parte das exigências regulamentares. Ele, porém, recusou-o. Visto que a universidade de Bouges gozava, na ocasião, de grande renome, graças a este excelente jurisconsulto, André Alciat, que aí ensinava na época, houve ele por bem conhecer o afamado mestre e com ele estudar.[4]

Conversão

Entre 1533 e 1534, Calvino passou pela experiência a qual ele a denominaria, no prefácio do seu comentário dos Salmos, de sua “conversão súbita”:

(...) E primeiro, desde que eu estava por demais preso às superstições do papado para ser facilmente desenredado de um tão profundo abismo de lama, Deus, por meio de uma conversão súbita, subjugou minha mente e produziu nela uma estrutura passível de deixar-se ensinar, a qual foi mais enrijecida nessas questões do que se esperaria de alguém com eu, no período inicial da vida.[5]

Parece que a conversão de Calvino tem a ver com o discurso do “seu amigo Nicholas Cop, Reitor da Universidade de Paris, no Dia de Todos os Santos de 1533”.[6] As autoridades pensaram que Calvino foi o autor do discurso, por isso ele teve que fugir da cidade. O discurso era abertamente a favor da Reforma de Lutero e tinha empréstimos inegáveis de Erasmo.[7] “Acredita-se que o primo de Calvino, Olivétan – ainda que não isoladamente -, teve uma participação importante na sua conversão ao protestantismo. Félice chega a afirmar que ‘a Bíblia que recebeu das mãos de um de seus parentes, Pedro Roberto Olivétan, o arrebatou do catolicismo’”.[8]

Calvino era um homem pacato e dedicado aos livros. Era tímido e, segundo suas próprias palavras, “medroso”.[9] Seu desejo era viajar pelo conhecimento e descansar no ninho da sabedoria e na serenidade e movimento das letras:

A experiência me ensinou que não podemos ver muito além de nós. Quando eu me entregava a uma vida tranqüila e fácil, era então que aparecia o que eu menos esperava; e, ao contrário, quando a minha situação parecia desagradável, um plácido ninho era feito para mim, muito além da minha expectativa. Era o Senhor que assim fazia. Quando nos entregamos a Ele, Ele mesmo cuida de nós.[10]

Refúgio na Basiléia

Refugiado em Basiléia, Calvino teve contato com os Reformadores. Em março de 1536, publicou a primeira edição das suas Institutas da Religião Cristã. Ele prefaciou com uma carta ao Rei da França, Francisco I. Calvino defendeu a fé reformada.

Após ter passado um tempo refugiado em Estrasburgo e na Suíça, voltou à França para resolver negócios de família. Vendo que a passagem “estava bloqueada por operações militares, ele parou por uma noite em Genebra. Ele foi reconhecido. Guilherme (William) Farel, líder da reforma em Genebra, sabendo que o autor das Institutas estava na cidade, pediu seu auxílio. Calvino insistiu em que estava procurando reclusão para dedicar-se a tranqüilo estudo. Farel fez o máximo que pôde para detê-lo e, finalmente, declarou que, se ele não ficasse em Genebra, Deus amaldiçoaria sua paz. ‘Diante dessa imprecação’, Calvino escreveu, ‘abateu-me tal terror que desisti da viagem que havia empreendido, senti-me como se Deus tivesse posto Sua poderosa mão sobre mim para reter-me’.”[11] Após ter respondido ao chamado de Deus para ficar em Genebra, Calvino logrou rapidamente o status de líder, juntamente com Farel.

A vida de Calvino nunca foi fácil. Ele foi expulso de Basiléia e permaneceu exilado por motivos políticos ocasionados pelos Libertinos (partido da época), de 1538 a 1541. Nesse período, precisamente “em fevereiro de 1540, o pregador continuava solteiro, mas esperançoso. ‘No meio de tais emoções’, escreve a Farel, ‘me encontro tão à vontade que tenho a ousadia de pensar em casamento.”[12]

Casamento e filhos

Calvino viria a se casar em agosto de 1540 com uma viúva com dois filhos. A cerimônia foi presidida por Farel. Idelete de Bure, nascida na província holandesa de Gelderland, preenchia os requisitos que Calvino tanto escrevera para seu amigo Farel. O primeiro marido de Idelete foi João Stordeur, que abandonou os ensinamentos Anabatistas após ter ouvido a pregação de Calvino. João Stordeur sucumbiu pela peste que assolava sua época.[13]

O reformador passava um momento feliz de sua vida; “alentado pelo seu amor, nunca imaginou ser possível tal felicidade”.[14] No entanto, a vida não daria sossego a Calvino. Foi acometido por várias doenças: “‘Como se tivesse sido ordenado... que o nosso matrimônio não deveria ser excessivamente feliz, o Senhor moderou a nossa felicidade,’ escreveu Calvino a Farel. Menos de um mês após o casamento, o casal Calvino ficou doente. Seria a primeira de muitas doenças”.[15]

Calvino e Idelete tiveram um filho, Jacques. Ele viveu apenas duas semanas. A tristeza foi grandiosa para eles. Idelete ficou acamada e Calvino disse que ela foi ferida por Deus; uma ferida severa e amarga. Mais tarde, ele tiveram uma filha que também faleceu. Ao invés de ficar decepcionado e amargurado com Deus, Calvino escreve: “...Ele mesmo é um pai, e sabe o que é bom para seus filhos.”[16]

É importante relatar uma resposta de Calvino a certa acusação feita por um de seus inimigos: “‘Balduin me debocha... por não ter filhos’, respondeu Calvino. ‘Deus me deu um filho. Deus levou meu menino... Mas eu tenho milhares de filhos através do mundo.’ Estes seriam os filhos de Calvino, seus filhos espirituais, seguindo o seu ensino e exemplo”[17]



[1] Vd. Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 8,9.

[2] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 19.

[3] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 19.

[4] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 10,11.

[5] João Calvino in: J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 20,21.

[6] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 21.

[7] Vd. J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 22.

[8] Hermisten Costa, Calvino de A a Z – Pensadores Cristãos, São Paulo, Vida, 2006, p. 16.

[9] “Reitero-vos que, de minha natureza, sou tímido e medroso” – João Calvino in: Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 97.

[10] João Calvino in: Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 35,36.

[11] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 23.

[12] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 107.

[13] Vd. Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 108.

[14] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 109.

[15] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 109.

[16] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 138.

[17] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 138, 139.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Igreja missionária, o que é isso?

“Sem lenço e sem documento” – uma análise do crente moderno