sexta-feira, 31 de julho de 2009

Calvino a Serviço do Rei (III parte)

Rev. Ricardo Rios

Amigos

A solidão ministerial não impediu que Calvino cultivasse seus amigos. Desde a infância manteve suas amizades bem regadas. Isso fica claro na dedicatória de sua primeira obra feita a um desses amigos desde o tempo de escola em Paris.

Suas cartas pessoais, algo de alta monta, demonstram o quanto Calvino apreciava suas amizades. “Dois amigos, no entanto, ocupam um lugar de destaque na correspondência do grande reformador, correspondência essa que começa por volta de 1537 e vai até aos dias últimos da sua vida em 1564. esses dois homens são Viret e Farel.”[1]

Apesar de sua pouca idade, 25 anos ainda quando começou sua amizade com Farel, que tinha 45 anos, Calvino desnuda sua alma para o amigo e revela seus medos, anseios, alegrias, tristezas, dúvidas e até “suas aperturas financeiras do começo difícil em Estrasburgo e o incube de vender os seus livros para desafogar a sua penosa situação. É Farel que Calvino se sente com a liberdade de tratar em carta com severidade, sem pedir desculpa ‘pois eu sei que está acostumado às minhas rudezas’”[2], Diz Calvino em uma de suas cartas ao amigo. À Farel, Calvino escreve mais de 90 cartas.

Para o amigo Viret, Calvino escreve 60 cartas nas quais compartilha de sua ojeriza à mínima idéia de voltar à Genebra. Ele escreve ao amigo também sobre sua angústia em face da doença de Idelete. “Calvino vai realizar o casamento de Viret com Elizabeth Laharpe, impetrar a bênção sobre os noivos. Aliás, sobre o assunto, Calvino vinha aconselhando Viret desde há algum tempo”.[3] Viret é o grande amigo, o amigo de todas as horas, que estava junto à Calvino na morte de sua amada Idelete.

Theodoro Beza, nascido em 24 de Junho de 1519, em Vezelay-Borgonha, dez anos mais novo, considerava Calvino como o “mais excelente irmão e pai”.[4] É Beza que escreve a primeira biografia de Calvino: L’ Histoire de LaVie de feu Mr Jeaan Calvin, fidele Serviteur de Jésus Chist (A história da vida e morte do finado Sr. Calvino, fiel servidor de Jesus Cristo). Essa obra foi publicada em Genebra: Pierre Chouët, 1657, dez anos após a morte do Reformador.

Beza prestou grande serviço a Genebra e foi companheiro de Calvino, principalmente na causa dos huguenotes. “Estava Beza em genebra quando se deu a terrível chacina da noite de São Bartolomeu e muitos huguenotes que conseguiram escapar à matança chegaram a Genebra feridos, cansados, com fome. O seu apelo à cidade para acolher estes refugiados e sustentá-los teve um efeito extraordinário.”[5]

Foi Theodoro Beza que substituiu Calvino em sua morte. Era um excelente orador com uma poderosa verve. Contudo, jamais teve a perspicuidade teológica de Calvino. A pena do mestre ficou sem sucessor!

Morte

As doenças constantes do Reformador corroeram sua vida até o fim. Suas constantes dores de cabeça se intensificavam e permaneceram com ele mais de 20 anos. Gota, artrite, cálculos renais feriam profundamente o corpo fragilizado de Calvino.

Todavia, o que doeu bastante no Reformador foi o divórcio do seu irmão Antoine com Ana. Ana traiu Antonie com Pierre, o mordomo corcunda de Calvino que há tempos vinha-lhe roubando. Antonie casou-se novamente mais tarde.[6]

Em 1562, outro duro golpe para Calvino foi o adultério cometido por “Judite, a filha de Idelete que todo mundo respeitava como sendo virtuosa e piedosa.”[7] Ela mesma se apresentou ao Conselho. Calvino ficou profundamente envergonhado, mas, mesmo assim, voltou para sua casa e ao trabalho. “Quando seus amigos lhe imploravam que descansasse, que parassem, sacudia sua cabeça e respondia: ‘o que? Gostariam que o Senhor me encontre desocupado quando Ele chegar?”[8]

Em 6 de fevereiro de 1564, Calvino pregava em Saint Pierre “sobre a harmonia dos evangelhos quando foi acometido da tosse. Não conseguiu estancá-la desta vez. O sangue lhe subia quente à boca. Lenta e relutantemente, desceu pela escada circular, seu sermão inacabado. A congregação olhava ansiosamente em silêncio. (...) Estava na hora das despedidas.”[9]

No dia 27 de maio de 1564, Genebra teve um dia sombrio e seu brilho foi ofuscado pelo fechar dos olhos de Calvino. “Eis como, em um mesmo instante, nesse dia o sol se pôs e o maior luzeiro que houve neste mundo para a direção da igreja de Deus foi recolhido ao céu”.[10]

Houve grande choro dos órfãos de Calvino. Apesar de ter perdido seus filhos de sangue, ganhou diversos filhos da alma que lamentavam e prateavam a perda de seu pai. A academia perdeu seu mestre e doutor. A igreja perdeu seu amado, cuidadoso e zeloso pastor. “Muitos queriam ver-lhe o rosto ainda uma vez, como se não o quisessem deixar, nem vivo, nem morto”[11].

Legado

Calvino era um homem de dores. Doenças recorrentes não o deixavam em paz. Mas, “A despeito das enfermidades recorrentes, da freqüente pregação, dos constantes pedidos de ajuda e de conselho de numerosas interrupções e inquietações, a produção literária de Calvino foi imensa. Além da Institutas, as obras teológicas e polêmicas, e sermões publicados, foram publicados comentários de muitos livros da Bíblia”.[12]

“Stickelberg intitula o período na vida de Calvino de 1550-1556 ‘anos de Triunfo’. A posição que, por anos seguidos, tinha trazido Calvino nas agonias de uma possível expulsão com ameaças de morte, diminuía agora após a execução de Servetus.”[13] Nesse período, opositores se juntaram para uma insurreição. Contudo, o plano fracassou ao ser descoberto anteriormente e os opositores seriamente punidos com a degolação. Calvino não participou desse trágico evento da decapitação.[14]

Calvino começava a colher os frutos de seu trabalho, pois a cidade passou a ser conhecida por sua prosperidade e moralidade. “O Duque de Sabóia, que nunca perdera as esperanças de voltar ao domínio de Genebra, sabia agora que seria debalde tentar. J. Knox, em 1556, dizia que Genebra era a mais perfeita escola de Cristo, desde os dias dos apóstolos”.[15]

A Academia de Genebra foi aberta pelo Reformador em 5 de março de 1559. Mesmo precisando de acabamentos, o material humano, que é o mais importante para Calvino, estava pronto. A Escola em seu primeiro ano contava com 900 alunos ávidos por conhecer a Fé Reformada.[16]

João Calvino era rigoroso na escolha dos professores, não bastavam serem bons, tinha que ser os melhores. Pessoas de toda a Europa buscavam a academia para aprender com o mestre e com os seus seletos professores.[17]

Quando Calvino morreu, “a academia contava com 1200 alunos no curso superior, além de 300 nos cursos inferiores. Calvino tinha como ideal preparar líderes para a igreja, para a sociedade e para o governo civil.”[18]



[1] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 155.

[2] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 155, 156.

[3] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 156.

[4] Vd. Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 156.

[5] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 139.

[6] Vd. Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 199.

[7] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 199.

[8] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 199.

[9] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 199, 200.

[10] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 102.

[11] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 102.

[12] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 25.

[13] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 127.

[14] Vd. Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 127.

[15] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 128.

[16] Vd. Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 128,129.

[17] Vd. Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 128.

[18] Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 128..

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Calvino a serviço do Rei (II parte)

Calvino a serviço do Rei (II parte)

Por Rev. Ricardo Rios Melo

Dores

Foi um ano difícil o de 1546 para os Reformadores, pois durante esse período que morreu o corajoso e destemido Reformador Martinho Lutero.

Em janeiro de 1546, Lutero voltou para à sua cidade, Eisleben, “para resolver uma disputa política (na verdade, uma briga de família) entre os príncipes de Mansfeld. A viagem de Wittenberg para Eisleben era de 130 Km.”[1]

A saúde de Lutero já não era mais a mesma. Em uma época em que a perspectiva de vida era baixa, Lutero foi agraciado por Deus ao viver até seus 62 anos. Sob o ponto de vista humano, a decisão de viajar, estando debilitado, foi o estopim para sua morte. Ele viajou com seus filhos: Hans, Martinho, Paulo e com seu amigo, Justus Jonas.[2]

Lutero sabia do risco de sua viagem, fato documentado em sua carta para Kate (Katharina Von Bora), sua esposa, que morreria seis anos depois de sua morte. Em sua carta, ele relata os riscos:

Querida Kate, chegamos a Halle hoje, às oito, mas não continuamos para Eisleben, porque um grande anabatista [o rio Saale] enfrentou-nos com ondas e pedaços de gelo. Ele inundou a terra e ameaçou rebatizar-nos [...] Temos refrigério e conforto com a boa cerveja de Torgau e o vinho do Reno, esperando para ver se o Saale se acalmará. [...] o diabo está ressentido conosco, e ele está nas águias – assim, é melhor ser cauteloso do que se arrepender depois.[3]

Lutero logrou êxito em seu intento de reconciliar os príncipes. Contudo, sua saúde foi ferida de morte. “De repente, na noite anterior à sua volta para casa, Lutero adoeceu e morreu”.[4] A Reforma perdeu seu proclamador, contudo, continuaria de forma augusta, por intermédio da brilhante pena de Calvino. Não é à toa que Calvino é chamado de “o exegeta da Reforma”.

Ao lado de todo grande homem, existe uma grande mulher. Calvino foi agraciado por Deus com sua esposa, Idelete. Ela era uma mulher reconhecida pela sua hospitalidade. Uma mulher preciosa aos olhos de seu marido. O coração de Calvino sofreu um terrível golpe quando sua amada esposa adoeceu. Escrevendo a Viret diz: “minha esposa precisa das suas orações. Ela está tão dominada pela sua doença que ela mal pode sustentar-se. Ela parece melhorar com freqüência, mas logo piora”.[5]

Em 1549, sua querida Idelete adoeceu gravemente e já não saía da cama. Calvino estava envolto com a reforma e com as demandas do seu trabalho pastoral. Ele cuidava dos refugiados oriundos da Itália e da França. “Os Libertinos, amantes da vida fácil, tudo faziam para irritar Calvino e incompatibilizá-lo com a cidade.”[6]

Antes de sua morte, Idelete nos deixou um testemunho exemplar. Um pastor tentou consolá-la; Calvino tentou tranqüilizar seu coração dizendo que cuidaria de seus dois filhos do primeiro casamento. No entanto, Idelete diz de maneira maravilhosa:

“Já os entreguei aos cuidados do Senhor”. Calvino respondeu que isso não o impediria de fazer o possível por eles, ao que ela respondeu com dificuldade: “Sei que V. não olvidará aqueles que estão entregues ao Senhor.” No dia 29 de março, o dia do seu falecimento, Idelete ouviu com atenção as palavras de um ministro que tinha vindo consolá-la. Ela “falou em alta voz, de tal modo que todos viram que o seu coração estava muito acima do mundo. Pois foram estas as suas palavras: “ò ressurreição gloriosa. Ò Deus de Abraão, e de todos nossos antepassados, em ti confiaram, os fiéis durante tantas eras passadas, e nenhum deles confiou em vão. Eu também terei confiança”.[7]

Calvino testemunhou mais tarde:

Após ser removida para outro quarto depois das sete, ela começou imediatamente a decair. Quando sentiu que sua voz estava a perder-se, ela disse: ‘oremos; oremos. Orem todos por mim.’ Eu agora havia retornado. Ela não poderia falar, e sua mente parecia preocupada. Após falar-lhe algumas palavras sobre a vida conjugal, e sobre sua ida, dirigi uma oração... Ela ouviu a oração, e deu-lhe atenção. Faleceu, antes das oito, tão calmamente que os presentes mal puderam distinguir entre sua vida e sua morte.[8]

A dor de Calvino é-nos relatada por ele mesmo:

“Verdadeiramente não é ordinária a minha... dor”, escreveu a Viret uma semana depois. “Fui privado da melhor companhia da minha vida”. E a Farel: “Faço o possível para não ficar assoberbado pela tristeza. Meus amigos não deixam de fazer tudo que possa contribuir para aliviar meu sofrimento mental... Que o Senhor Jesus... me sustente... nesta pesada aflição, a qual certamente me teria dominado se Ele, que levanta os prostrados, fortalece os fracos, e reanima o fatigados, não tivesse estendido Sua mão para mim”. (...) “Minha esposa, mulher de raras qualidades, morreu há um ano e meio”, escreveria Calvino em 1550, “e eu agora livremente optei por uma vida solitária”.[9]

Após a morte de sua esposa, Calvino opta por uma vida solitária, apesar de contar com seus amigos, ele via a vida com cores mais tristes. O lar de Calvino perdeu a paz e a serenidade de Idelete.[10] O seu lar perdeu o doce e afável acolhimento de Idelete. As lembranças de sua amada o compeliam à saudade e à tristeza.

Calvino era homem acostumado com o sofrimento. Suas enfermidades constantes não o deixavam livre para divagar com futilidades. Os inimigos do servo do Rei não cochilavam por um instante. Eram ferozes em seus ataques, dissimulados e astutos. Não poupavam Calvino de qualquer ofensa. Contudo ele dizia: “aprendamos a exercer a nossa fé, quando Deus nos parece jogar aos dentes do lobo: pois, quando nenhum auxílio visível se nos oferece, todavia, por amor oculto, com que não atinamos, ele sabe nos livrar; pois o seu propósito é provar a nossa fé e a nossa paciência”.[11]

Barry Gritters traz uma visão dos sofrimentos de Calvino e de sua devoção a Deus:

Ele foi literalmente banido de seu próprio púlpito, ameaçado com espadas nas ruas, e expulso de Genebra. Armas foram disparadas diante da janela do seu quarto de dormir. Calvino enfrentou oposição do próprio concílio que o convocou, teve seus amigos punidos por proteger-lhe. Seu querido amigo e companheiro, o pastor cego Claudet, foi envenenado por não renunciar a verdade. Rumores malignos foram abundantemente espalhados sobre ele. Por causa do ministério, ele arriscou sua própria vida visitando os doentes; ajudou a muitos com seus recursos próprios. Apenas uma de suas doenças físicas teria mandado a maioria dos pastores para uma maca; Calvino suportou, sem reclamar, uma dúzia. Seu próprio testemunho diz que ele passou vinte anos sem descanso de enxaquecas. Sofreu de artrite, gota, malária, e finalmente cinco anos de tuberculose. Uma história narra um médico recomendando a Calvino correr velozmente de cavalo para desalojar as pedras dos seus rins – mas suas hemorróidas eram tão severas que ele não agüentava cavalgar.[12]



[1] Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 102.

[2] Vd. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 102.

[3] Martinho Lutero in: Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, 103.

[4] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 144.

[5] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 145.

[6] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 145.

[7] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146.

[8] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146.

[9] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 146,147.

[10] Vd. Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 147.

[11] J. Kromminga, Thine is May Heart, Grand Rapids Zondeva Publ. House, 1958, p. 188 in: Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo, LPC, 1985, p. 169.

[12] Barry Gritters, João Calvino: Pastor e Mestre, (tradução Felipe Sabino de Araújo Neto), http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino-pastor-mestre_gritters.pdf , traduzido em outubro de 2008, p. 6.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Calvino a serviço do Rei (1ª parte)

Calvino a serviço do Rei (1ª parte)

Por Rev. Ricardo Rios Melo

Início

No dia 10 de julho de 1509, em Noyon, na Picardia, no nordeste da França, nascia Jean Calvin (João Calvino). Ele teve quatro irmãos. Era filho de Girard (Geraldo) Calvin, que nasceu em Ponte do Bispo (lugar próximo de Noyon) e sempre residiu na cidade de Noyon. Sua mãe chamava-se Jeanne (Joana) de Franc.[1]

Foi destinado à carreira eclesiástica por seu pai. Gozou de “benefícios eclesiásticos e foi enviado a Paris quando tinha cerca de catorze anos de idade, para estudar na universidade”.[2] Freqüentou o Collège de la Marche e o Collège de Montaigu, “onde recebeu o grau de Mestre em Artes, em 1528.[3]

O pai de Calvino gostaria que ele escolhesse uma profissão mais rentável na época, especificamente a ciência do Direito. Estudou na Universidade de Orléans (1528,1529) e na Universidade de Bouges (1529-1531). Estudou com uns dos melhores juristas de sua época.

Tanto progrediu no saber em pouco tempo com o insigne mestre que não era havido por estudante, pelo contrário, como um dos doutores regulares, uma vez que mais frequentemente exercia o papel do docente que do aluno. Ofereceu-se-lhe o título de doutor à parte das exigências regulamentares. Ele, porém, recusou-o. Visto que a universidade de Bouges gozava, na ocasião, de grande renome, graças a este excelente jurisconsulto, André Alciat, que aí ensinava na época, houve ele por bem conhecer o afamado mestre e com ele estudar.[4]

Conversão

Entre 1533 e 1534, Calvino passou pela experiência a qual ele a denominaria, no prefácio do seu comentário dos Salmos, de sua “conversão súbita”:

(...) E primeiro, desde que eu estava por demais preso às superstições do papado para ser facilmente desenredado de um tão profundo abismo de lama, Deus, por meio de uma conversão súbita, subjugou minha mente e produziu nela uma estrutura passível de deixar-se ensinar, a qual foi mais enrijecida nessas questões do que se esperaria de alguém com eu, no período inicial da vida.[5]

Parece que a conversão de Calvino tem a ver com o discurso do “seu amigo Nicholas Cop, Reitor da Universidade de Paris, no Dia de Todos os Santos de 1533”.[6] As autoridades pensaram que Calvino foi o autor do discurso, por isso ele teve que fugir da cidade. O discurso era abertamente a favor da Reforma de Lutero e tinha empréstimos inegáveis de Erasmo.[7] “Acredita-se que o primo de Calvino, Olivétan – ainda que não isoladamente -, teve uma participação importante na sua conversão ao protestantismo. Félice chega a afirmar que ‘a Bíblia que recebeu das mãos de um de seus parentes, Pedro Roberto Olivétan, o arrebatou do catolicismo’”.[8]

Calvino era um homem pacato e dedicado aos livros. Era tímido e, segundo suas próprias palavras, “medroso”.[9] Seu desejo era viajar pelo conhecimento e descansar no ninho da sabedoria e na serenidade e movimento das letras:

A experiência me ensinou que não podemos ver muito além de nós. Quando eu me entregava a uma vida tranqüila e fácil, era então que aparecia o que eu menos esperava; e, ao contrário, quando a minha situação parecia desagradável, um plácido ninho era feito para mim, muito além da minha expectativa. Era o Senhor que assim fazia. Quando nos entregamos a Ele, Ele mesmo cuida de nós.[10]

Refúgio na Basiléia

Refugiado em Basiléia, Calvino teve contato com os Reformadores. Em março de 1536, publicou a primeira edição das suas Institutas da Religião Cristã. Ele prefaciou com uma carta ao Rei da França, Francisco I. Calvino defendeu a fé reformada.

Após ter passado um tempo refugiado em Estrasburgo e na Suíça, voltou à França para resolver negócios de família. Vendo que a passagem “estava bloqueada por operações militares, ele parou por uma noite em Genebra. Ele foi reconhecido. Guilherme (William) Farel, líder da reforma em Genebra, sabendo que o autor das Institutas estava na cidade, pediu seu auxílio. Calvino insistiu em que estava procurando reclusão para dedicar-se a tranqüilo estudo. Farel fez o máximo que pôde para detê-lo e, finalmente, declarou que, se ele não ficasse em Genebra, Deus amaldiçoaria sua paz. ‘Diante dessa imprecação’, Calvino escreveu, ‘abateu-me tal terror que desisti da viagem que havia empreendido, senti-me como se Deus tivesse posto Sua poderosa mão sobre mim para reter-me’.”[11] Após ter respondido ao chamado de Deus para ficar em Genebra, Calvino logrou rapidamente o status de líder, juntamente com Farel.

A vida de Calvino nunca foi fácil. Ele foi expulso de Basiléia e permaneceu exilado por motivos políticos ocasionados pelos Libertinos (partido da época), de 1538 a 1541. Nesse período, precisamente “em fevereiro de 1540, o pregador continuava solteiro, mas esperançoso. ‘No meio de tais emoções’, escreve a Farel, ‘me encontro tão à vontade que tenho a ousadia de pensar em casamento.”[12]

Casamento e filhos

Calvino viria a se casar em agosto de 1540 com uma viúva com dois filhos. A cerimônia foi presidida por Farel. Idelete de Bure, nascida na província holandesa de Gelderland, preenchia os requisitos que Calvino tanto escrevera para seu amigo Farel. O primeiro marido de Idelete foi João Stordeur, que abandonou os ensinamentos Anabatistas após ter ouvido a pregação de Calvino. João Stordeur sucumbiu pela peste que assolava sua época.[13]

O reformador passava um momento feliz de sua vida; “alentado pelo seu amor, nunca imaginou ser possível tal felicidade”.[14] No entanto, a vida não daria sossego a Calvino. Foi acometido por várias doenças: “‘Como se tivesse sido ordenado... que o nosso matrimônio não deveria ser excessivamente feliz, o Senhor moderou a nossa felicidade,’ escreveu Calvino a Farel. Menos de um mês após o casamento, o casal Calvino ficou doente. Seria a primeira de muitas doenças”.[15]

Calvino e Idelete tiveram um filho, Jacques. Ele viveu apenas duas semanas. A tristeza foi grandiosa para eles. Idelete ficou acamada e Calvino disse que ela foi ferida por Deus; uma ferida severa e amarga. Mais tarde, ele tiveram uma filha que também faleceu. Ao invés de ficar decepcionado e amargurado com Deus, Calvino escreve: “...Ele mesmo é um pai, e sabe o que é bom para seus filhos.”[16]

É importante relatar uma resposta de Calvino a certa acusação feita por um de seus inimigos: “‘Balduin me debocha... por não ter filhos’, respondeu Calvino. ‘Deus me deu um filho. Deus levou meu menino... Mas eu tenho milhares de filhos através do mundo.’ Estes seriam os filhos de Calvino, seus filhos espirituais, seguindo o seu ensino e exemplo”[17]



[1] Vd. Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 8,9.

[2] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 19.

[3] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 19.

[4] Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 10,11.

[5] João Calvino in: J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 20,21.

[6] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 21.

[7] Vd. J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 22.

[8] Hermisten Costa, Calvino de A a Z – Pensadores Cristãos, São Paulo, Vida, 2006, p. 16.

[9] “Reitero-vos que, de minha natureza, sou tímido e medroso” – João Calvino in: Theodoro de Beza, A Vida e Morte de João Calvino, Campinas, SP, LPC, 2006, p. 97.

[10] João Calvino in: Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 35,36.

[11] J. H. Merle D’ Aubigné, Seja Cristo Engrandecido – o Ensino de Calvino para Hoje, São Paulo, PES, 2008, p. 23.

[12] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 107.

[13] Vd. Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 108.

[14] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 109.

[15] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 109.

[16] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 138.

[17] Thea B. Van Halsema, João Calvino Era Assim, São Paulo, Vida Evangélica, 1968, p. 138, 139.

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