quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sentir Cristo

Algo tem me preocupado em nossos dias. Ao avaliar o ministério, a igreja de modo geral, fico pensando: o que é que tem de errado conosco? Vejo pessoas falando sobre o cristianismo; palestras sobre o assunto; pregadores falando de um evangelho que não é outro, mas o mesmo deturpado. Aliás, para se enganar alguém, deve-se falar uma mentira que tenha muita proximidade com a verdade. É isso que muitos têm feito, “parece, mas não é”.

Muito se fala contra os nossos irmãos pentecostais; sobre a ênfase demasiada no poder do Espírito, mais propriamente da distorção do que é esse poder e de suas implicações práticas.

Há, sem dúvidas, um crescimento assombroso do “evangelho” da prosperidade. Uma das ferramentas que esses pregadores utilizam é a falsa idéia da obrigação de Deus de satisfazer as necessidades dos homens. Não é uma exaltação ao Senhor, mas a um “deus” do serviço – que está pronto a servi-los.

No entanto, queridos, acho que também temos que avaliar nossa prática de fé. Falamos da doutrina reformada, calvinista e da ortodoxia protestante. Tudo isso é precioso e deve ser resgatado e anunciado. Contudo, corremos um risco: ortodoxia fria! Que perigo! Que tristeza são pessoas altamente corretas em suas posições teológicas, mas gélidas por dentro. Seus lábios são meros repetidores sem vida, sem paixão por Cristo.

Dr. Lloyd-Jones, ao falar de Whitefield, nos admoesta: “(...) Whitefield fala mais disto do que de qualquer outra coisa – ortodoxia não basta. Havia homens ortodoxos no tempo dele, mas eram, relativamente, inúteis. Pode-se ter uma ortodoxia morta. A ortodoxia é essencial, entretanto a ortodoxia sozinha nunca produziu avivamento, e nunca produzirá. (...) o perigo dos que seguem os ensinos de Calvino, e o fazem acertadamente, é que eles tendem a tornar-se (sic!) intelectuais, ou tendem a afundar no que eu descreveria como uma “ortodoxia ossificada”. E isso não tem valor nenhum, meus amigos. É necessário o poder do Espírito sobre ela. Expor a verdade não é suficiente, tem que ser exposta ‘em demonstração do Espírito e de poder”.[1]

O Dr. Lloyd-Jones fala de um homem (Whitefield) que pregava como poucos em sua época. Ele era tão bom que foi a principal influência de Spurgeon. Um dos problemas de Whitefield era suas dúvida a respeito da doutrina da justificação, que depois foi esclarecida. Entretanto, esse homem sempre foi calvinista, ortodoxo e na Inglaterra não existia nenhum pregador igual a ele. Seu segredo? O segredo de sua pregação? Cristo em seu coração! A profunda convicção de pecado e de inabilidade diante da grandiosidade de seguir a Cristo e de pregar Sua verdade.

Whitefield usava uma expressão muita criticada por Jonathan Edwards, “Sentir a (sic!) Cristo”. A preocupação de Edwards era salutar, pois poderia gerar uma falsa impressão de salvação pela mudança, ou seja, a regeneração confundir-se com a justificação (ponto esse que foi difícil de ele entender inicialmente). A ênfase de Whitefield era na regeneração. Lloyd-Jones diz que Whitefild colocava em sua pregação a regeneração antes da justificação.[2]

É certo que é necessário sermos justificados por Cristo para que possamos sofrer a aplicação poderosa pelo Espírito de Sua obra em nossos corações. Mas, quero chamar a atenção para a importância da regeneração em nossas vidas. Não basta uma pessoa falar que entendeu a doutrina da justificação ou qualquer outra doutrina importante para a salvação, não! É necessário passar pelo novo nascimento.

A falta de impacto do cristianismo em nossa sociedade tem algumas razões, dentre as quais destaco: a falta de conversão. Talvez seja duro falar isso, mas é extremamente necessário. Uma das advertências que Whitefield fez em sua época é pertinente: é terrível alguém pregar um Cristo não sentido. Hoje criticamos, e com razão, a idéia da fé existencialista que afirma que uma pessoa para dizer que foi salva precisa ter o sentimento de salvação e, assim, apela para o lado emocionalista. A conversão passa a ser um ato conduzido pelo pregador e com efeito no ouvinte. Contudo, o outro lado da moeda é preocupante: como uma pessoa que foi salva não sente Cristo dentro dela?

Essa doutrina da certeza da salvação é bastante discutida no meio reformado. Segundo Calvino, alguém que não tem certeza da salvação não é salvo, pois a certeza é objetiva e está fora do homem e de maneira explícita e específica na cruz de Cristo.

Para Joel Beeke, Calvino estava preocupado com resguardar a importância da salvação no aspecto trinitariano. “Para Calvino, a fé asseguradora precisa envolver o conhecimento salvífico, as Escrituras, Jesus Cristo, as promessas de Deus, a obra do Espírito Santo e eleição. Numa frase, o próprio Deus é a segurança do eleito. (...) Calvino chegou à conclusão que se alguém crê, mas não tem convicção de que é salvo por Deus, esse não é um crente verdadeiro.”[3]

Calvino fala de uma certeza da salvação no sentido da ação soberana de Deus e da economia da Trindade e de sua obra: o Pai elege, o Filho consuma a obra na Cruz, o Espírito aplica a obra e nos sela. Calvino entende que, na história de vida de cada um, existem lutas. Essas lutas fazem parte da vida cristã. Para ele, “o réprobo não tem essas lutas, pois nem ama a Deus nem odeia o pecado. ‘Ele satisfaz seus próprios desejos sem temor de Deus’. Mas, quanto mais sinceramente o crente ‘é devotado a Deus, mais é inquietado pelo seu senso de ira’”. [4]

Entendamos de modo prático o nosso assunto por intermédio de exemplos de pessoas que, nos dizeres de Whitefield, sentiram Cristo:

I - O apóstolo Paulo, depois que se converteu a Cristo, não cerrou seus lábios, não! Pelo contrário, disse: “porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Co 9.16);

II - Pedro e João, mesmo sob ameaças, disseram: “pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20);

III - Estevão pregou até a morte em Atos 7;

IV - A igreja foi impactada pelos discípulos! Doze homens revolucionaram sua época. Sabem por quê? Eles sentiram Cristo. Não é um sentimento pueril ou remorso momentâneo, não! Eles experimentaram profunda convicção de pecados. Seus corações se encheram da graça e do amor do Pai de tal maneira que eles não podiam deixar de anunciar “o que viram e ouviram”.

Um exemplo importante das Escrituras é o caso da mulher samaritana que, após ter falado com Jesus, chamou seus compatriotas para verem Jesus: “Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?! Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher, que anunciara: Ele me disse tudo quanto tenho feito” (Jo 4. 29-39).

As igrejas do NT foram iniciadas por intermédio de pessoas convertidas e com um senso de gratidão incomensurável, pois elas sabiam quem eram antes de Cristo. Portanto, sabiam o que Cristo lhes fez.

Recentemente, ouvi um testemunho de um pregador batista muito piedoso e eloqüente. Quando ele prega, podemos sentir seu zelo e vibração amorosa por Cristo. Seu nome é Paul Washer. Em seu testemunho, perguntaram a ele: “Paul, como você prega assim com tanta eloqüência, qual é o seu segredo?” Ele disse: “Ele me salvou, Ele me salvou!”

Estou convencido de que alguns fatores impedem o avanço do Evangelho em alguns lugares e, em nosso caso, no Brasil:

1) falta de vida: como alguém que não tem vida pode falar de vida a outrem? Eu só posso falar do Cristo sentido! Se não existe convicção de pecados, não existe conversão. Olhe para a nossa sociedade e para alguns “evangélicos” de nossos dias. Não procuram o tesouro que está nos céus, mas querem as riquezas da terra, por isso suas ênfases são: “você pode; você terá; você tem direito!” Que insanidade! O único direito que tínhamos era o direito de irmos para o inferno. No entanto, Ele nos salvou! Aleluia! Ele nos salvou! “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl 3.1). Quantos foram iludidos pelo brilho do tesouro terreno e não enxergaram a luz de Cristo que brilha mais do que o sol e não tem preço? Quantos estão sem vida e jamais nasceram do Espírito?

2) alguns não confiam mais no poder da pregação do Evangelho. Não oram porque não acreditam, não pregam porque não crêem. Acham que os tempos são outros e, portanto, os métodos devem ser outros. Destarte, desafio a qualquer um a provar um método mais eficaz do que a simples pregação do Evangelho. Foi a “loucura da pregação” que colocou o mundo de cabeça para baixo nos anos apostólicos. Foi a loucura da pregação a responsável pelas grandes mudanças do mundo: Reforma, avivamentos ou despertamentos. O meu desafio não é lançado só em argumentos históricos, não! Esse desafio é porque não encontro outro método validado por Deus, a não ser a pregação do Evangelho. Os apóstolos viviam em um período de efervescência filosófica e religiosa. Os gregos já eram mestres na retórica e na comunicação visual. Eram peritos em artes e até no teatro que, na época, era usado em alguns cultos dos seus deuses. Eram “comuns os festivais anuais em honra ao deus Dionísio (Baco, para os latinos) compreendiam, entre seus eventos, a representação de tragédias e comédias. As primeiras formas dramáticas na Grécia surgiram neste contexto, inicialmente com as canções dionisíacas (ditirambos)”[5]. Em Atenas, eles já conheciam o poderoso orador Demóstenes, que nasceu em 384 a.C.

Poderíamos citar vários outros exemplos, porém, o importante foi a decisão de Deus sobre o meio que Ele escolheu: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo (Rm 10: 14-17). É por isso que em meio a tanta novidade em sua época e apesar de tantos apelos, Paulo diz: “Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1 Co 22-25).

Quando pregamos sem vida e, consequentemente, sem o poder do Espírito, o que poderemos esperar? Frieza, mornidão e mortos que pensam estar vivos.

Minha oração é essa: que Deus restaure-nos! Converta quem tem que ser convertido e restaure a pregação poderosa de Sua Palavra.

Em temor e tremor,

Rev. Ricardo Rios Melo



[1] D. M. Lloyd-Jones, Os Puritanos Suas Origens e Seus Sucessores, São Paulo, PES, 1993, p. 136.

[2] Vd. D. M. Lloyd-Jones, Os Puritanos Suas Origens e Seus Sucessores, São Paulo, PES, 1993, p. 130,131.

[3] Joel R. Beeke, A Busca da Plena Segurança – o legado de Calvino e Seus Sucessores, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 63,65.

[4] Joel R. Beeke, A Busca da Plena Segurança – o legado de Calvino e Seus Sucessores, São Paulo, Os Puritanos, 1999, p. 75.

Nenhum comentário:

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...