quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Secularização – desafio da igreja moderna



A palavra secularização tem seu significado definido pelo Aurélio, da seguinte forma: [De secularizar + -ção.] S. f. 1. Ato ou efeito de secularizar(-se). 2. Fenômeno histórico dos últimos séculos, pelo qual as crenças e instituições religiosas se converteram em doutrinas filosóficas e instituições leigas. 3. Transferência de um bem clerical a uma pessoa jurídica de direito público. 4. Tomada de terras e bens da Igreja pelos nobres, ocorrida durante a Reforma Protestante. Os Guinness a define o termo como sendo o “processo pelo qual a influência decisiva de idéias e instituições religiosas foi neutralizada em sucessivos setores da sociedade e cultura, tornando menos significativas as idéias e, mais marginais, as instituições religiosas. Em especial, ele se refere a como nossa consciência e modo de pensar modernos são restritos ao mundo dos cinco sentidos.”[1]

A segunda definição do Aurélio e a definição de Os Guinness são bem apropriadas. Secularização é o arrefecimento da ação da igreja nas instituições humanas. É o desaparecimento da influência da igreja no âmbito secular. É o acomodamento da igreja ao mundo com seus costumes pagãos e idiossincráticos. A igreja se molda a tal ponto, que passa a ser considerada uma peça comum de uma grande máquina social. “Não é necessário parar para explicar exatamente por que isso aconteceu. Resumindo, cada vez uma menor parte da vida tem sido deixada para Deus, para o acaso ou à espontaneidade humana, enquanto cada vez maior parte da vida foi classificada, calculada e controlada pelo uso da razão – pela ciência e tecnologia. O que mais importa é reconhecer que a secularização afeta os crentes religiosos tanto quanto afeta os ateus e agnósticos. A mesma ampla assembléia de planos e procedimentos que usamos para lançar um astronauta à lua ou lançar no mercado um novo chip de computador pode ser usada para ‘crescimento de igreja’ ou para ‘evangelizar um povo não alcançado’. Em suma, o mundo moderno literalmente ‘se gerencia sem Deus. Podemos fazer tantas coisas tão bem por nós mesmos que não há necessidade de Deus, nem na igreja.”[2]

A secularização esfria a alma. É uma doença silenciosa que faz muito barulho e estraçalha a sociedade. É uma patologia degenerativa que nos corrói de dentro para fora e, quando nos damos conta, já se foi o nosso vigor, nossa vida e esperança. A secularização é um câncer social, que tem que ser extirpado com destreza e feroz urgência.

A sociedade tem colhido os frutos desse tumor maligno; é namorado que tira a vida de sua namorada “por amor”. Que amor é esse que tira a vida de quem amamos? É filha que mata os pais por dinheiro e por amor ao namorado. Que amor é esse que não ama quem nos gerou? São mães que jogam seus filhos na lata de lixo. Que amor é esse que se desfaz de uma vida que foi nutrida dentro de nós como se fosse uma casca de banana lançada ao entulho?

A sociedade moderna expulsou Deus de sua vida e se colocou no lugar. O resultado disso? Um mundo sem absolutos de qualquer esfera. Quando não tem com quem prestar contas, não há divida a ser paga. Em 1907, alguns cidadãos pensadores, filósofos, matemáticos, banqueiros se reuniram para falar sobre religião, Tallks on Religion (Conversas sobre religião). Eles discordavam em diversos assuntos, no entanto entraram em consenso, pelo menos em uma coisa, “a sociedade estava progredindo por meio da ciência e da educação universal para um futuro moralmente melhor”. [3] John Dewey, nos Estados Unidos, compartilhava desse otimismo em seus escritos teóricos da educação. “Ele dizia que a nova educação que fomentava era ‘a garantia de uma sociedade mais ampla, que é digna, atraente e harmoniosa’, que também tinha ‘em si o poder de criar uma inteligência experimental livre que realizará todos os esforços necessários neste mundo complexo e confuso no qual nós, e todos os outros povos modernos, somos obrigados a viver.’”[4]

Parece que o grupo de 1907 e John Dewey estavam errados, pois o século 20 “foi o mais sangrento e brutal da história humana, e não por falta de educação. As pessoas que ordenavam e executavam os massacres, holocaustos e limpezas étnicas eram, muitas vezes, muitíssimo cultas e refinadas. Os judeus nos campos de concentração tinham de executar peças de Bach para o deleite de seus algozes, antes de serem levados às câmaras de gás”.[5]

John Dewey escreveu seu Manifesto Humanista em 1933, pouco antes da 2ª guerra mundial. Em sua declaração, ele diz: “O homem está finalmente se tornando consciente de seus sonhos, de que possui em seu interior o poder para torná-lo real”. [6] Parece que a história nos mostra uma realidade diferente. É necessário relembrar as lições[7] do século 20 para confirmamos que o mundo não melhorou e que a solução não está nos homens, pois é o próprio homem que destrói o outro. Não é o homem com seu egoísmo que concentra riquezas em detrimento de países inteiros cujos habitantes morrem de fome e carecem de saúde e de manutenção básica?

A secularização é essa praga que ilude o homem, fazendo-o acreditar que pode viver sem Deus. O pior disso tudo é que a secularização não respeita fronteiras. Ela já entrou na igreja de maneira avassaladora e arrasou os corações de muitos que professam ser cristãos.

Certa vez, Os Guinness encontrou um empresário australiano que declarou: “‘sempre que conheço um líder budista, estou diante de um homem santo em contato com outro mundo. Quando conheço um líder cristão, estou diante de um dirigente à vontade somente neste mundo em que eu também estou à vontade’”. [8] Que tristeza! A secularização arrebatou a alma de muitos incautos e os levou a acreditar que somos do mundo e pertencemos a ele. Diferentemente, Jesus declara: “Eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.16). “A espiritualidade, para seguidores de Cristo, é questão de um mundo diferente com realidade, energia, possibilidades e prospectos diferentes.”[9]

Queridos, o mundo moderno é altamente secularizado e pretende a todo instante reafirmar sua postura atéia. Nesse contexto de descrença e aridez moral, precisamos reafirmar nossas convicções e compromisso com Deus. Só uma igreja forte, que tem consciência de seu papel de agência do Reino de Deus, poderá minimizar os efeitos destruidores de um mundo autônomo e vil.

Não podemos deixar que o mundo dite as normas que devemos seguir e no que devemos crer. A ciência, apanágio da modernidade, não trouxe paz e nem cura para sociedade doente e efêmera. As guerras, doenças e subcondições de muitos que habitam esse mundo mostram que o homem é o mesmo de sempre: pecador e desobediente, pois não há quem faça o bem![10]

Uma parábola russa nos ajuda a entender o que é negociar com o mundo e entrar em acordo com o inimigo: “Um caçador estava mirando um urso quando o urso falou "Não é melhor falar do que atirar? O que é que você quer? Vamos negociar." Baixando a espingarda o caçador falou "Eu quero um casaco de pelo de urso para me cobrir." "Bom, esta é uma questão negociável" falou o urso. "Eu apenas quero um estômago cheio. Vamos negociar." Depois de algum tempo falando, o urso voltou sozinho para a floresta. As negociações foram um sucesso. Cada um recebeu o que queria. O urso conseguiu seu estômago cheio e o caçador ficou coberto de pêlo de urso. Entrar em acordo raramente satisfaz ambos os lados igualmente. Na negociação com nosso inimigo, ele promete o que nós queremos, mas apenas pretende levar o que ele quer - a nossa alma. Você está tentando entrar em acordo ou negociar com o inimigo?”[11]

Caríssimos, “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2.15).

Deus nos livre da secularização!
Rev. Ricardo Rios Melo.





[1] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 162.
[2] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[3] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.42.
[4] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.43.
[5] John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.43.
[6] John Dewey in: John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.44.
[7] Vd. John Hare, Por que Ser Bom? Uma reflexão sobre a filosofia moral, São Paulo: Vida, 2002, p.44.
[8] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[9] Os Guinness, O Chamado – Uma iluminadora reflexão sobre o propósito da vida e o seu cumprimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 163.
[10] Vd. Rm 3. 9- 18
[11] Michael Green, Illustrations for Biblical Preaching (Ilustrações Para Pregação Bíblica), Grand Rapids: Baker, 1989 - Terence Patterson em James S. Hewett, “Illustrations Unlimited” (Ilustrações Ilimitadas) (Wheaton: Tyndale House Publishers, Inc, 1988) p. 113. In: http://www.hermeneutica.com/ilustracoes/acomodacao.html

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Onde está a loucura da pregação?


Há tempos, temos visto a perda do vínculo com a Palavra de Deus. O púlpito poderoso foi substituído por sistemas mais inovadores e mais atrativos. Muitos pregadores perderam a confiança ou se venderam aos tempos modernos. É compreensível, mas não aceitável, a desculpa de que os tempos são outros. Um sem número de pessoas acostumadas com os novos estímulos visuais e auditivos não consegue mais prestar atenção a um sermão com mais de 35 minutos (sendo bastante otimista).

Soma-se aos estímulos contemporâneos, o nosso mundo fast, onde tudo tem que ser muito rápido. A internet tem que ser cada vez mais rápida e as informações também. As músicas, que há muito eram para ser apreciadas e analisadas por uma platéia atenta e emocionada, hoje são tocadas em um rádio dentro de um carro cheio de pessoas conversando e ninguém prestando atenção na melodia ou na letra. Talvez seja aquilo que os filósofos contemporâneos chamam de mundo Holywoodiano, onde cada um de nós tem uma trilha sonora particular.

A nossa anamnese deve passar também pelo foco da praticidade, ou melhor, do pragmatismo moderno. As pessoas querem resultados! Elas querem ouvir algo que fale de sua situação atual e de suas necessidades. Uma espécie de existencialismo pragmático: tem que dar resultado e esse resultado tem que se relacionar com minha existência. Isso não tem nada a ver com aplicação de sermão à vida prática, não! O modernismo quer respostas pessoais a perguntas pessoais. E essas respostas devem se adequar às respostas que o indivíduo já tem, ou seja, querem ouvir o eco de suas vozes. Qualquer resposta fora desse padrão é fora do padrão individualista moderno.

Manter-se firme dentro desse panorama é muito difícil! “Não é tão dramático dizer que o ministério contemporâneo perdeu vínculo com a Palavra de Deus, ou, dizendo de outra maneira, a Palavra de Deus não tem mais um papel primordial sobre a vida e a prática dos ministros do evangelho há cerca de cinqüenta anos”[1]. A pregação superficial surge, de certo modo, do clamor de um mundo superficial no qual a competição “por um lugar ao sol” não dá espaço para longas reflexões e introspecções.

Mas, o que tudo isso pode trazer de prejuízo para nós? Será que o encurtamento e enfraquecimento dos sermões, a ponto de se extinguir a exegese apurada e uma interpretação alicerçada no labor do estudo, pode gerar problemas para nossa vida? John Macarthur Jr. acha que sim. Ele nos fala de, no mínimo, quinze conseqüências do esvaziamento da pregação – “as conseqüências devastadoras de uma mensagem diluída[2]”: 1) Usurpa a autoridade de Deus sobre a alma; 2) Remove da igreja o senhorio de Cristo; 3) Obstrui a obra do Espírito Santo, pois o mesmo usa a Palavra como instrumento de regeneração e correção; 4) Demonstra arrogância e falta de submissão; 5) Separa o pregador da graça santificadora proveniente das Escrituras; 6) Obscurece a verdadeira profundidade e transcendência de nossa mensagem, ao mesmo tempo em que enfraquece tanto a adoração congregacional como a adoração pessoal; 7) Impede o pregador de desenvolver a mente de Cristo; 8) Deprecia, por meio do exemplo dos pregadores, a prioridade e o dever espiritual do estudo bíblico particular; 9) Impede o pregador de ser a voz de Deus em todos os assuntos de seu tempo; 10) Produz uma congregação tão fraca e indiferente à glória de Deus quanto o seu pastor; 11) Rouba às pessoas a sua única fonte de ajuda verdadeira; 12) Estimula as pessoas a se tornarem indiferentes à Palavra e à autoridade de Deus; 13) Engana as pessoas quanto ao que elas realmente precisam; 14) Remove o poder do púlpito; 15) Atribui a responsabilidade de mudar as pessoas à habilidade do pregador.

A pregação tem um grande destaque para os reformadores. Principalmente, para João Calvino. “Dentro da visão Reformada, a Palavra de Deus ocupa o lugar central do Culto, visto que é através dela que Deus nos fala. Deus se dignou em revelar a Si mesmo como Palavra e através da Palavra”.[3]

Infelizmente, vivemos em mais um período de afastamento da Palavra e, conseqüentemente, esfriamento da fé. Todas as vezes em que a Palavra de Deus é negligenciada, a igreja e o mundo sofrem conseqüências danosas em todas as áreas e, principalmente, no âmbito moral. Há uma natural aquiescência do pecador ao desvio da Palavra, pois ele sempre quer adiar o confronto inevitável com a retidão de Deus. Talvez isso explicasse a facilidade e, até mesmo, o fascínio que muitos têm por pregações superficiais e com um alto teor apelativo emocional.

Para que um pregador seja bem sucedido nesse novo quadro, ele deve ser leve.
“Os especialistas nos dizem que pastores e líderes de igrejas que desejam ser mais bem-sucedidos precisam concentrar suas energias nesta nova direção. Forneça aos não-cristãos um ambiente inofensivo e agradável. Conceda-lhes liberdade, tolerância e anonimato. Seja sempre positivo e benevolente. Se for necessário pregar um sermão, torne-o breve e recreativo. Não pregue longa e enfaticamente. E, acima de tudo, que todos sejam entretidos. As igrejas que seguirem estas regras experimentarão crescimento numérico, eles nos afirmam; e as que as ignorarem estão fadadas à estagnação.”[4] “ As inovações que estão sendo tentadas são extraordinárias e, até mesmo, radicais. Algumas igrejas, por exemplo, realizam seus maiores cultos na sexta ou sábado à noite, em vez de no domingo. Tais cultos são repletos de música e entretenimento, oferecendo às pessoas verdadeiros substitutos ao teatro e às atividades sociais. Os membros de igreja agora podem "cumprir sua obrigação de ir à igreja", ficando livres para usarem o fim-de-semana como quiserem. Um desses freqüentadores de cultos aos sábados explicou por que esses cultos alternativos são tão importantes: ‘Se você vai à escola dominical às 9:00 e ao culto das 11:00 horas, acaba saindo da igreja perto das 13:00 horas da tarde; isto praticamente liquida o dia’. A julgar pela freqüência aos cultos, muitos dos membros de igreja sentem que passar o Dia do Senhor na igreja equivale a desperdiçar o domingo por completo. Os cultos não-dominicais, em algumas igrejas, estão sendo mais freqüentados do que aqueles que tradicionalmente ocorrem aos domingos”.[5]

Onde está a loucura da pregação? Parece que as pessoas se esqueceram que Deus escolhe tanto os fins quantos os meios. Só a Palavra de Deus pode dar vida aos mortos. Só se pode nascer do alto se a pregação for do alto! Não adianta baratearmos o evangelho para obtermos resultados visíveis, pois Deus vê o invisível! É claro que todos gostaríamos de ver nossas igrejas lotadas de pessoas, qual ministro não gostaria? Contudo, isso só deve ser desejado em submissão à Palavra de Deus.

Querido, talvez você tenha muitas reivindicações para fazer a respeito da pregação e dos pregadores, mas você já se deu conta de que antes de reivindicarmos qualquer metodologia ou fidelidade da pregação, devemos estar atentos à própria pregação. Talvez você tenha se tornando um ouvinte tardio (Hb 5.11) e, por isso, não tenha mais prazer na pregação genuína das Escrituras.

Acreditamos que uma boa parcela de culpa do enfraquecimento dos púlpitos seja dos pregadores. Contudo, muitos desses pregadores cederam, sem desculpas, às pressões dos ouvintes que têm coceiras (2 Tm 4. 3) nos ouvidos.

Entretanto, antes de procurarmos culpados, cabe resolvermos o problema: voltarmos à loucura da pregação! Pois, somente ela restaurará a igreja e salvará as ovelhas perdidas.
“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21).

Aumenta-nos a fé, Senhor!

Rev. Ricardo Rios Melo.

[1] John Armstrong, O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p 23.
[2] Ver John Macarthur, Ouro de Tolo? Discernindo a verdade em uma época de erro, São José dos Campos, SP: Fiel, 2006, p 33-44.
[3] Hermisten M. P da Costa, A Relevância da Pregação na Teologia de Calvino –– 17/10/08 (Obra não publicada), p. 19.
[4] John MacArthur, Jr. Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos-SP: Fiel,1997, p. 46.

[5] John MacArthur, Jr. Com Vergonha do Evangelho, Fiel, São José dos Campos-SP, 1997, p. 46.

sábado, 4 de outubro de 2008

Eleições 2008


Nesse Domingo temos eleições para prefeito e vereador em todo País. É a hora de ouvirmos os infindáveis programas políticos na televisão e procurarmos o candidato com as melhores propostas para nossa cidade. Mas, como escolher dentre tantas propostas e tantos candidatos? Os marqueteiros dos políticos fazem o seu melhor, na tentativa de “capturar” nosso voto.

Em plena era da globalização e da famosa internet com suas milhares de informações a cada segundo, aparentemente fica fácil decidirmos em que votarmos. Contudo, logo surge uma dúvida atroz: voto naqueles candidatos que se declaram crentes? Bom, aqui são necessários alguns esclarecimentos:

1) em primeiro lugar, quero desafiá-lo a votar, pois muitas pessoas já se desanimaram com a política e com os políticos a tal ponto de “lavarem as mãos”, ou seja, votar em branco ou anular seu voto. Creio que essa não é a melhor atitude, apesar de termos esse direito, não é muito prudente deixar os quatro próximos anos ao alvitre de quaisquer pessoas. Mesmo que o nosso candidato não ganhe, é melhor termos a consciência tranqüila de que votamos na melhor proposta; isso nos leva à segunda questão:

2) devemos votar em propostas concretas e sólidas; pautadas na verdade e na possibilidade de serem realizadas em quatro anos; promessas mirabolantes não adiantam - elas nunca saem do papel;

3) devemos votar no melhor para a nossa cidade e não para nós mesmos; muitas vezes o nosso voto está embasado em nossas necessidades particulares e em nossa idiossincrasia e não na necessidade da maioria. Se as necessidades da “maioria” são boas, verdadeiras e não ferem as Escrituras, devemos lutar juntamente com toda a população de nossa cidade para que elas sejam contempladas. Nesse item, existem muitas pessoas que, no afã de defenderem o título de crentes, acabam cometendo todo tipo de erro e mau testemunho. Por isso, nosso dever é para com todos de nossa comunidade e não somente com os nossos;

4) nesse ano, apareceram vários candidatos se dizendo crentes. Em qual deles eu voto? A pergunta é: quem disse que você só deve votar em crentes? Quem foi que disse que só o fato de alguém ser crente já o qualifica para determinados cargos e ofícios? Bom, vejamos alguns exemplos. Suponhamos que você esteja prestes a viajar de avião para um outro país ou para um outro estado e lugar qualquer. Na sala de espera do vôo, você está bem tenso e alguém o tranqüiliza: fique calmo(a), o piloto não sabe voar, mas ele é crente. Em plena cirurgia do coração ou de algo complicado, na hora da incisão cirúrgica, a enfermeira (cristã) diz: “doutor, você é crente?”. Será que é prudente escolhermos nosso prefeito e nossos vereadores com esse critério?

Nós podemos muito bem saber determinado ofício em nossa vida sem que isso nos qualifique para todos os ofícios da vida. Aliás, a Bíblia nos fala que até dentro da igreja existem diversidade de dons: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens” (Ef 4.8). É dentro da diversidade dos dons que Paulo diz que existem vários dons na igreja e que nem todos têm o mesmo dom: “Têm todos dons de curar? Falam todos em outras línguas? Interpretam-nas todos?” (1 Co 12.30). Nesse mesmo intuito, Paulo nos fala que a igreja é abençoada na diversidade dos dons: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11).

Bom, se na igreja não temos os mesmos dons, imagine na sociedade que é mais numerosa. Ela também, querendo ou não, depende dos dons de Deus, pois mesmo uma pessoa que não acredita nEle recebe dons para utilidade na sociedade: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Portanto, para votarmos em um crente, devemos primeiro perguntar: ele é qualificado para esse cargo? Ele honrará o nome de Deus com competência? Nada é pior do que ouvirmos o nome de Deus sendo blasfemado e desonrado por causa de pessoas desqualificadas, que muitas vezes são sinceras, mas são altamente despreparadas. Queridos, nessas eleições, fiquei muito envergonhado e muito constrangido, pois ouvi vários candidatos chamando o nome de Deus em vão. Invocam o nome de Deus para promessas que não irão cumprir e muitos deles brigam em “nome de Deus”. Nunca me esquecerei de um presidenciável, que se intitulava de ateu, mas, que nas vésperas das eleições, ao constatar que seus possíveis votos estavam decrescendo por conta do seu ateísmo, passou a visitar igrejas cristãs protestantes e, principalmente, católicas. Nessas eleições, devemos ter muito cuidado com os falsos crentes que aparecem e com o mercadejar do nome de Deus. Não utilize apenas o critério da fé para votar. Ore, leia as propostas, conheça seus candidatos, pense nos quatro anos de mandato e conclua se o seus candidatos realmente são mais adequados para nossa cidade. Afinal de contas, se votarmos errado, amargaremos a nossa escolha.

Cabe ressaltar que, se o nosso candidato tiver todas as qualidades para vereador e prefeito e ainda for crente, é claro que nossa preferência será por ele, pois sabemos que o VERDADEIRO crente não desonrará o nome de seu Pai.

Se, no final de tudo, não lograrmos êxito em nosso intento de elegermos os nossos candidatos, cabe-nos o respeito e a obediência: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13:1).

Deus nos abençoe e abençoe a nossa cidade!

Rev. Ricardo Rios Melo.

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...