sábado, 30 de agosto de 2008

Outra vez domingo


Mais uma semana se passou. Chegamos ao domingo; o primeiro dia da semana. É um dia de rotinas: acordar cedo para ir à igreja; aguardar o término da Escola Bíblica Dominical para almoçar; no fim da tarde outro culto e estamos novamente na igreja. Parece que esse ritual, essa rotina tem deixado muitos crentes cansados. O caos da cidade grande e as distâncias e congestionamentos levam muitos a desistirem de sair de suas casas para enfrentar o “enfadonho” domingo. Se todos os domingos são iguais, para que se deslocar de sua casa e enfrentar tamanho obstáculo? Você já participa assiduamente das programações semanais da igreja, aprendendo das Sagradas Escrituras com o pastor e orando nas reuniões de oração. Por que você deveria sacrificar seu precioso domingo? Se você faltar o domingo pela manhã e for só à noite ou faltar um, dois, três ou mais domingos, o que isso lhe trará de mal? Aliás, Deus não é seu patrão para demiti-lo, não é verdade?

O domingo, para muitos, se tornou um peso, um fardo pesado de se carregar. Enquanto, no Antigo Testamento, o salmista dizia no Salmo 122.1: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR”. Hoje muitos não vêem a hora de passar esse “cálice”. Alguém logo contestará: “− ah, mas a realidade do Novo Testamento é outra, pois nós somos o templo do Espírito”. É verdade, contudo a Bíblia nos mostra que existe um lugar chamado “casa de oração”, onde o povo se reúne com freqüência: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25). Outros textos da Palavra de Deus sugerem que a igreja tinha regularidade em seus encontros: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite” (At 20.7) ; “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for (1 Co 16.2)”.

Existem argumentos suficientes na Confissão de Fé de Westminster, confissão essa à qual você jurou diante de Deus se submeter quando professou sua fé, para encontrar no domingo um dia diferente. Entretanto, não usarei esses argumentos nesse arrazoado. Começarei com alguns argumentos lógicos, imagine o seguinte quadro: uma pessoa vai à um restaurante, acha a comida maravilhosa. Ela passa essa informação para seus amigos e passa a freqüentar rotineiramente esse restaurante, pois ficou maravilhada com os sabores e variedade da comida. Nesse momento, você já deve ter percebido onde vamos chegar e objetará: ah, não podemos comparar o culto a um restaurante e, aqui para nós, nem sempre a comida que nos serve no culto é tão boa assim. Certo, você chegou ao lugar central: o culto a Deus não é um restaurante que tem que variar os sabores para agradar seu paladar. Aliás, somos nós que temos que ajustar nosso paladar ao tempero perfeito de Deus. Outra observação é que nós serviremos no culto e não seremos servidos.

A idéia de serviço implica regularidade, rotina. Nós somos submetidos o tempo todo a rotinas. O nosso próprio organismo segue uma rotina. Já pensou se o coração se revolta contra o restante do corpo e diz: hoje eu não trabalho! Não há nada de ruim nos hábitos, o problema é como nos posicionamos diante deles. O mundo é regido por leis, rotinas. Não podemos fugir a elas. A pergunta é: temos prazer em determinada rotina? O salmista, no Salmo122, tinha o costume de ir a casa de Deus, mas ele não ficou triste quando disseram novamente: vamos a casa do Senhor.

A pessoa que diz que cansou da rotina do culto na igreja ou de ir à igreja rotineiramente, deve se perguntar: estou cansado de que rotina? Tenha cuidado, pois você pode pertencer ao mesmo grupo de descontentes de Miquéias 6.3: “Povo meu, que te tenho feito? E com que te enfadei? Responde-me!”. Muitos estão cansados não da “mesmice” do culto, da EBD ou dos estudos na igreja, eles estão cansados é de Deus. Já disseram em seus corações: posso ser crente do meu modo e onde eu quiser. De fato, ser crente não é, necessariamente, ser membro de determinada denominação, mas é impossível ser da família de Deus sendo sozinho.

A desculpa de não ir mais a igreja ou de não ter compromisso com determinada igreja local é perfeita para algumas pessoas fugirem da cobrança. Alguns chegam até a mudar de igreja para não serem mais cobrados, pois na nova igreja ninguém os conhece. Aliás, ingerência na vida das pessoas em um mundo pós-moderno é inaceitável para esses irmãos “pós-igreja”.

O fato de nossa vida ser um culto a Deus não implica que não devamos ter regularidade na entrega dessa vida no culto público. As pessoas dizem: eu só crente em qualquer lugar e sem lugar. Será? Será que essa idéia não é uma fuga de Deus? Será que não é uma fuga da ingerência? Você não tem nada a ganhar ouvindo a voz de Deus na pregação da mensagem? A conhecida doutrina histórica da vox dei? Será que você não será edificado com os estudos da Palavra?

Meus irmãos, a vida cristã é uma rotina. Rotina de santidade e de culto. Deuteronômio, por exemplo, significa: repetição da lei. Moisés falou ao povo as mesmas coisas, mas, mesmo assim, não ouviram. Paulo exorta várias vezes para permanecermos na doutrina e na tradição dos apóstolos. Existe uma rotina da Palavra no Antigo e Novo Testamento que deve ser passada de pai para filho - no caso de Timóteo, foi passada desde sua avó.

Meu querido, os dias da semana são os mesmos. As horas são as mesmas. Seu trabalho provavelmente é o mesmo. Sua igreja é a mesma e fica no mesmo local. Mas, espero que você seja diferente hoje, pois hoje é domingo! Hoje é dia de cultuarmos a Deus e separarmos duas horas e meia pela manhã e cerca de uma hora e meia à noite - cultuando e aprendendo de Deus. Será muito dedicarmos esse dia Àquele que é a razão de nossas vidas? Seria muito cumprirmos uma rotina semanal de adoração que na nova terra e novos céus será eterna? Hoje é domingo, o primeiro dia da semana. Começar a semana cultuando a Deus significa que eu quero a presença dele todos os dias da minha vida. Hoje é domingo! Outra vez domingo! Outra oportunidade que temos de dizer: Senhor, eis a minha vida em seu altar!: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR” (Salmo 122.1).

Que Deus recupere em muitos o fervor e amor a ELE.

Que Deus nos fortaleça sempre!
Rev. Ricardo Rios Melo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Você é um corredor?


Na história da humanidade, temos bastantes elementos para afirmarmos que existe, de algum modo, nos seres humanos, um “espírito” ou “instinto” de competição. Esse espírito é algo que faz com que esses homens busquem a superação dos seus limites e dos outros. As olimpíadas estão inseridas nesse aspecto competitivo.

Existem fortes indícios de que os elementos culturais fazem parte do espírito aguerrido dos homens. Contudo, saber quem veio primeiro, “o ovo ou a galinha”, seria um exercício tautológico sem fim – ou seja, saber se esse espírito é inato ou construído requereria estudos mais abrangentes que esse breve arrazoado e, muito provavelmente, andaríamos em círculos.

Vejamos a cultura grega. Perceberemos que os gregos trazem esse “espírito” competitivo em sua formação. “A competição entre as cidades gregas, fruto do espírito agnóstico tão presente em todos os aspectos da cultura grega, pode ser documentada, a partir da época arcaica, no freqüente estado de beligerância que domina a história grega. A rivalidade entre as cidades também é perceptível nos festivais pan-helênicos, entre os quais os Jogos Olímpicos. Era uma ocasião em que se desenvolvia o que já foi classificado de ‘uma guerra sem armas’ e que propiciava o exercício das disputas entre as polis, em situação controlada, definida por regras”.”[1]

Para o homem grego, existe um aspecto heróico nas vitórias. É prezado pelos gregos esse espírito heróico com todos os seus valores éticos gregos. A criança grega aprendia desde cedo esses valores por intermédio de sua educação. A arete é fator importante na formação clássica grega. “Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral, de acordo com a modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por arete a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, heroísmo, considerado não o nosso sentido de ação moral e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.”[2]

Desde cedo, as crianças eram estimuladas ao exercício físico e mental. “Dos 3 aos 6 anos precisam as crianças de jogos. (...) nesta idade, são as crianças, quando se juntam, que devem inventar os seus jogos, sem que estes lhes sejam prescritos. Platão quer que estas reuniões de crianças se efetuarem nos lugares sagrados de cada bairro (kw,mh) da cidade. Precede deste modo a moderna aquisição dos jardins de infância. As armas devem velar nestes locais pela conduta das crianças confiadas à sua guarda.”[3]

A competição, jogos, disputas ou a idéia de vencedor são inerentes aos seres humanos. Mesmo quem objeta esse argumento deve se lembrar que até nas mais sublimes ações espirituais orientais se quer chegar ao fim, objetivo. Quer-se uma “recompensa”. Ninguém busca o nada. E se buscamos alguma coisa, logo ao encontrarmos, esse objeto se torna nosso prêmio, medalha, coroa ou, para alguns, louvores de alguém. Em uma busca espiritual, quer-se encontrar a paz, harmonia, ou algo ligado à crença religiosa dos envolvidos.

Em um jogo se pode perder ou ganhar, é lógico! Entretanto, quando olhamos para Bíblia, percebemos uma modalidade competitiva diferente. O apóstolo Paulo, em Filipenses 3.12-16, nos fala daquilo que foi denominado por William Hendriksen da seguinte forma: “em Cristo Eu Corro Para a Perfeição - Paulo, O corredor Seu”. Vejamos o texto de Filipenses: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais de outro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” (Filipenses 3.12-16).

“O intenso anelo e esforço de Paulo pela perfeição é expresso agora sob o simbolismo da familiar corrida a pé. Para captar o significado do que Paulo diz, deve-se ter em mente a figura subjacente de cada detalhe. Imaginemos, pois, o antigo estádio grego com sua pista para as corridas e as filas de assentos para os expectadores. Em Atenas, a extensão da pista era de um oitavo da milha romana; portanto, cerca de 607 pés em nossa medida. A de Éfeso era um pouco mais longa. O propósito da corrida era o de alcançar o alvo que ficava diante da entrada, ou ir e vir uma ou duas vezes. Junto à entrada, os competidores, despidos para a corrida, cada um se postava no limiar de pedra que havia sido demarcado. De fato, vários dos velhos estádios exibem o que foi deixado das fileiras de pequenos blocos de pedra em cada extremos da pista. Estes blocos possuem encaixes para dar aos pés do atleta firme apoio para partida firme e rápida. Os corredores se colocavam cada um em seu apoio, o corpo inclinado para frente, uma mão tocando ligeiramente os blocos e esperando o sinal, que consistia da queda de uma coroa que havia sido estendida diante deles. Ao efetuar-se o sinal, partiam em disparada”.[4]

O apóstolo utiliza essa figura da corrida para mostrar que na fé cristã existe uma competição. Contudo, essa competição não é contra corredores. Competimos contra nós mesmos. A luta que foi bem expressada por Martinho Lutero: contra o mundo, a carne e o diabo. Estamos constantemente lutando e correndo em busca da santidade, da perfeição. Essa perfeição só será encontrada de maneira plena na volta de nosso Senhor Jesus. Por isso o apóstolo nos diz que ele não julga ter alcançado: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado” (vs. 13). Contudo, Paulo não se contenta com sua posição na corrida da santidade. Ele corre e segue para o alvo. Ele não olha para trás. Ele sabe que em Cristo já obtivemos a vitória. Cristo nos deu a vitória: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (vs. 12).

Jesus conquistou Paulo e deu a ele o acesso à coroa da vida. Entretanto, Paulo sabe que, enquanto estivermos nesse invólucro, devemos correr a carreira que nos foi proposta. Fomos salvos e a vitória foi garantida. Entrementes, isso não deve levar os cristãos à letargia. Estamos em uma corrida e devemos fixar nosso olhar no alvo. Devemos prosseguir para o alvo. Devemos deixar para trás todo o embaraço do pecado. “Aquele que está em uma carreira jamais deve deter-se antes de alcançada a sua meta. Deve seguir adiante tão rápido quanto possa; deste modo, aqueles que têm o céu em vista devem ainda seguir adiante em santo desejo, esperança e constante esforço. A vida eterna é uma dádiva de Deus, que está em Cristo Jesus.”[5]

Meus queridos, a discussão da formação grega ou do “espírito” competitivo ou olímpico nos seres humanos é longa e complexa. Um crente pode ou não vir a ter um “espírito olímpico”. Mas, uma coisa ele tem quer ter obrigatoriamente: santidade. Se você não faz parte dos “competidores” dessa corrida, é sinal que você não tem fôlego para correr; você não tem vida. Logo, você não receberá o prêmio final: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1Pe 5:4). Lembre-se da advertência: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

O Brasil talvez não consiga tantas medalhas. Ficaremos decepcionados, frustrados, mas ainda estaremos vivos, e os competidores, com idade ainda competitiva, poderão competir novamente. Entretanto, na fé cristã, o que está em jogo é: somos verdadeiramente crentes? Se somos crentes, que estágio estamos de nossa santidade? É verdade que a salvação não é meritória, pois somos salvos nos méritos de Cristo. Não buscamos a santidade para devolvê-la em gratidão a Deus, pois não temos nada para devolver-Lhe no sentido de troca. Contudo, o salvo é separado para viver em santidade. Por isso, essa corrida é a competição mais importante de nossa vida. Podemos estar no início ou entre os últimos; o importante é sempre correr! Não devemos parar em nenhum momento.

Os competidores olímpicos batalham por medalhas efêmeras; nós temos uma coroa eterna nos esperando! Vamos em frente! Corra! Siga para o alvo!

Em Cristo,
Rev. Ricardo Rios Melo


[1] Elaine Farias Veloso Hirata et alli, Os Jogos Olímpicos e a competição entre as cidades do mundo grego, http://www.paideuma.net/elaine.doc, p. 2.
[2] Werner Jaeger, Paidéia – a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 27.
[3] Werner Jaeger, Paidéia – a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 1353.
[4] William Hendriksen, Filipenses – comentário do Novo Testamento, São Paulo, CEP, 1992, p. 221, 222.
[5] Matthew Henry, Comentário Bíblico de Mathew Henry, São Paulo, CPAD, 2002, p. 1005.

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