quinta-feira, 31 de julho de 2008

Será a predestinação um empecilho à evangelização?



Em algumas reuniões de concílios, tenho me deparado com alguns índices e questionamentos intrigantes. Um desses índices é que o presbiterianismo nem aparece nas pesquisas. Estamos, segundo os estudiosos, na coluna estatística: outras denominações. O questionamento que é feito sobre esse índice é por que o presbiterianismo não cresce na mesma proporção das demais igrejas? Uma das respostas está alicerçada no paradigma metodológico: a Igreja Presbiteriana do Brasil segue métodos bíblicos e algumas dessas denominações crescem em detrimento da doutrina; até mesmo negociando-a. Outro argumento que nos é dado é a respeito da doutrina presbiteriana que faz com que as pessoas se acomodem. Para que evangelizar se os eleitos serão salvos?

Como tentativa de resposta a essa pergunta, teremos que recorrer a alguns pontos que foram extraídos do Remonstrance (protesto). O Remonstrance foi um protesto realizado em 1610, feito pelos discípulos de Jacob Arminius - pastor da Igreja Holandesa Reformada que rompeu com a fé reformada. Mesmo depois de sua morte em 1609, seus discípulos difundiram a doutrina que se chamaria mais tarde de os cinco pontos do Arminianismo. Apesar de serem cinco pontos delineados que se resumem na cooperação do homem na salvação divina, devemos entender que a pressuposição arminiana foi embasada no entendimento equivocado da ordem dos decretos divinos. Vejamos como os Remonstrantes entendem a ordem dos decretos de Deus: “1) Decreto para criar; 2) Decreto para permitir a queda; 3) Decreto para Cristo fazer a expiação por todo o mundo e para proporcionar graça suficiente para todo mundo; 4) Decreto para dar graça suficiente para todo o homem; 5) Decreto para salvar aqueles que naturalmente possuem habilidade para cooperarem com a graça; 6) Decreto para predestinar todos para a vida a quem Deus viu de antemão que cooperariam com Ele até o fim; 7) Decreto para santificar e glorificar todos aqueles que, portanto, foram predestinados.”[1]

Os arminianos crêem na predestinação pela presciência; Deus viu quem O aceitaria e predestinou para salvação os que contribuiriam com Sua graça (graça cooperante ou sinergismo). Os calvinistas, antagonicamente, entendem que a obra da Salvação é desde o princípio uma obra de Deus. Deus predestinou por sua livre escolha os que iriam ser salvos, ou seja, monergismo: o homem não participa da obra da salvação, pois ela é um ato exclusivo de Deus. Deus não viu nada em nós que se agradasse. Todos os homens estão mortos nos seus delitos e pecados. A fé, segundo o calvinismo, é um dom gratuito de Deus: “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.5-10). Isso é ecoado em Rm 3.9-18, que nos diz que não há quem busque a Deus: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Para os calvinistas, Deus não concedeu fé a todos os homens “... porque a fé não é de todos (2 Ts 3.2). Toda a obra da salvação é unilateral: Deus faz tudo!

Não me deterei a explicar os cincos pontos das posições arminianas ou da resposta calvinista. Entendo que a discussão, por mais válida que seja, é bem sintetizada por Packer, quando nos fala do “testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, através de João Wesley, em 20 de Dezembro de 1784 (a data encontra-se especificada no Wesley’s Journal): ‘Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um contra o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas ...Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus se Deus já não tivesse posto isto em seu coração antes?’ ‘É verdade, ‘diz o veterano’, é isso mesmo.’ ‘E você também se sentiria totalmente perdido, se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer; e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?’ ‘Sim, exclusivamente por Cristo.’ ‘Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria que subseqüentemente, de uma forma ou de outra, salvar-se a si mesmo por suas próprias obras?’ ‘É claro que não, pois devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim’. ‘Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?’ ‘Não.’ ‘Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe?’ ‘Sim, absolutamente.’ ‘E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu reino celestial?’ ‘Certamente, eu estaria completamente desesperado se não fosse Ele.’ ‘Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada; pois isto não é nada mais, nada menos, do que o meu Calvinismo; eis aí as minhas teses da eleição, da justificação pela fé, da perseverança final: eis aí, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, ao invés de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam bom motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que concordamos.’”[2] “A verdade é que todos cristãos crêem na soberania divina, acontece que alguns não estão conscientes de que crêem nisso, equivocadamente imaginam e insistem que a rejeitam”[3]

A essa altura você poderia perguntar: cadê a resposta? Meus queridos, creio que a falta de crescimento substancioso de nossas igrejas não tem a ver apenas com a a metodologia ou com a doutrina da presdestinação, pois existem igrejas que não negociam os princípios bíblicos e estão crescendo a olhos vistos. É claro que a igreja Presbiteriana do Brasil tem crescido. Contudo, para enxergamos um impacto em nossa sociedade por intermédio do Evangelho da Graça, o que precisamos mudar não é a nossa forma de pregar, ou nossa doutrina. Não devemos brigar com os nossos irmãos arminianos dizendo: “você crescem porque pregam errado”; não! Não acredito que as verdadeiras conversões promovam corações soberbos nos homens. Jamais vi um homem que foi alcançado pela graça de Deus dizer que se salvou por seus méritos! Nunca ouvi alguém orar assim: “obrigado, Senhor, porque eu o aceitei por minha livre escolha e vontade”. Portanto, o nosso problema é outro. O nosso problema é falta de vida; de compromisso com Deus; de amor aos perdidos; da urgência do Evangelho; da pureza de vida. Falta-nos o marejar dos olhos diante dos que se aprofundam na lama do pecado.

Os conselhos de Thomas Watson, puritano que pertencia aos dois mil ministros do Evangelho, que foram impedidos de pregar no dia 24 de agosto de 1661, se fazem indispensáveis nesse momento. Em seu último sermão, em sua congregação, ele proferiu 20 instruções, das quais, por motivo de espaço, colocarei duas: “no que diz respeito à vida cristã, serve a Deus com todas as tuas forças. Deveríamos fazer por nosso Deus tudo quanto está ao nosso alcance. Deveríamos servi-Lo com toda a nossa energia, posto que a sepultura está tão perto, e ali ninguém ora nem se arrepende. Nosso tempo é curto demais, pelo que também o nosso zelo de Deus deveria ser intenso. ‘Sede fervosos de espírito, servindo ao Senhor’ (Rm 12.11); Faze aos outros o bem que puderes, enquanto tiveres vida. Labuta por ser útil às almas de teus semelhantes e por suprir as necessidades alheias. Jesus Cristo foi uma bênção pública no mundo. Ele saiu a fazer o bem. Muitos vivem de modo tão infrutífero que, na verdade, suas vidas dificilmente são dignas de um coração, como também seu falecimento quase não merece uma lágrima. Em conclusão, não devemos superestimar os confortos deste mundo. As conveniências do mundo são muito agradáveis, mas também são passageiras e logo se dissipam. A idéia de eternidade deve ser o bastante para impedir-nos de ficar tristes em face das cruzes e sofrimentos neste mundo. A aflição pode ser prolongada, mas não eterna. Nossos sofrimentos neste mundo não podem ser comparados com nosso eterno peso de glória”[4]

Por fim, para aqueles que alegam que a eleição nos deixam frios e sem fervor evangelístico, deixo as palavras do calvinista metodista George Whitefield: “Desejo, todas as vezes que subir ao púlpito, considerar essa oportunidade como a última que me é dada de pregar; e a última dada ao povo para ouvir a Palavra de Deus. Curiosamente ele, raramente, pregava sem chorar: Vós me censurais por que choro. Mas, como posso conter-me, quando não chorais por vós mesmos, apesar das vossas almas mortais estarem à beira da destruição? Não sabeis se estais ouvindo o último sermão, ou não, ou se jamais tereis outra oportunidade de chegar a Cristo”.[5]

A predestinação não é barreira para evangelização. Não é a metodologia equivocada que faz algumas igrejas arminianas crescerem. Existem relatos impressionantes de crescimento de igrejas calvinistas nos EUA e outros lugares. O que nos falta é juntarmos a Habacuque em sua oração: “Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia” Hb 3.2.

Que Deus nos mande chuvas de bênção!
Rev. Ricardo Rios Melo.




[1] ( Morton H. Smith; Systematic Theology, Volume one, Greenville, South Carolina, Greenville Seminary Press, 1994, p. 326).

[2] J.I. Packer, A Evangelização e a Soberania de Deus, São Paulo, CEP, 2002, p. 11,12.
[3] Ibidem, p. 13.

[4] Thomas Watson in: Fé Para Hoje, nº 19, São José dos Campos, Sp, 2003, p. 13.
[5] http://www.imja.org.br/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=24

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Onde estão nossas lágrimas?



Há muito, “num relatório da Conferência Estudantil Missionária de 1900, há no apêndice uma declaração: CASO houvesse um único cristão no mundo e ele trabalhasse e orasse durante um ano para conquistar um amigo para Cristo, e CASO, então, essas duas pessoas continuassem a cada ano a conquistar mais uma pessoa, e “CASO cada pessoa que também foi trazida ao reino conduzisse a cada ano uma outra pessoa a Cristo”. A progressão matemática revelou que ao final de 31 anos haveria mais de dois bilhões de cristãos. Alguns talvez duvidem da validade dos cálculos, os quais estão inteiramente fora do domínio das leis da probabilidade ou das promessas da Palavra de Deus. Outros talvez questionem o acerto de um cálculo que parece levar em conta que todos os que se tornarem cristãos estarão vivendo durante todo aquele período de 31 anos, embora saibamos que aproximadamente um trigésimo da população da terra morre a cada ano. Deixando tais indagações de lado, quero simplesmente considerar o princípio sobre em que o cálculo se baseia. Desejo destacar o efeito que haveria, caso a verdade substancial contida nessa idéia fosse verdadeiramente crida, pregada e praticada. A verdade é: Cristo quis que cada crente fosse um ganhador de almas. (...) Cristo chamou Seus discípulos de a luz do mundo. O crente é um ser inteligente. Sua luz não brilha como uma força cega da natureza, mas é a iniciativa voluntária de seu coração para alcançar aqueles que estão nas trevas. Ele anela trazê-los à luz, fazer tudo ao seu alcance para que eles conheçam Cristo Jesus” (MURRAY, Andrew, in: Missões Transculturais – O Problema Missionário, São Paulo, Mundo Cristão, p. 1020-1026).

Essa afirmação de Murray deve trazer desconforto para a igreja hodierna e, principalmente, para cada um nós, pois ela vai no âmago da questão: nós somos ganhadores de alma. Deus nos chamou para adorá-LO, contudo essa adoração passa pela missão indispensável da evangelização; não se pode ser considerado crente sem que haja em nós um ardor pelas almas perdidas.

Joseph Alleine, um grande servo de Deus do passado, no início de seu livro, faz um apelo comovente: “Mas, ó Senhor, quão incapaz eu sou para esse trabalho. Pobre de mim. Com que poderei traspassar as escamas do leviatã ou fazer o coração sentir que é tão duro quanto a mais dura pedra? Irei falar aos sepulcros, e esperarei que os mortos me obedeçam e venham para fora? Farei um discurso às rochas ou falarei às montanhas, pensando que elas se moverão com argumentos? Acaso eu farei o cego ver? Desde o começo do mundo, nunca se ouviu que um homem abrisse os olhos de cego (Jo 9.32). Eu somente posso tentar armar o arco, mas Tu diriges a flecha entre as junções da armadura. Apaga o pecado e salva a alma do pecador que lança seus olhos sobre essas páginas’” (ALLEINE, Joseph, Um Guia Seguro para o Céu, São Paulo, PES, 1987, p. 11,12). Esse ardor pelas almas perdidas é fundamental para evangelização.

Muitas pessoas pensam que o problema missionário ou evangelístico depende de recursos financeiros ou de estratégias. Essas pessoas dedicam tempo e dinheiro em ações missionárias e evangelísticas por todo o mundo, mas se esbarram em uma barreira que é crucial para o avanço missionário e evangelístico: o sentido da urgência do Evangelho; a necessidade que o homem tem de prestar contas a Deus. Talvez a letargia da igreja seja uma conseqüência da percepção equivocada de que Cristo demorará a voltar. Mas, nesse instante, você pode me perguntar, quem sabe o dia e a hora? A reposta do Senhor é explícita: “Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At. 1.6-8).

Dentro desse texto de Atos, o curioso é que Jesus diz que não compete sabermos o tempo de sua volta ou da restauração de Israel, mas nos diz que teremos poder. Poder de quê? Poder de ser testemunhas em todos os lugares que passarmos (At. 1.18). Esse é o grande poder que Deus nos confere pelo Espírito: o poder de testemunhar dEle.

Destarte, essa palavra que serviria de impulso para evangelização, já que temos o poder dado pelo Espírito de Deus, parece que se calou dentro de nós, pois estamos frios e sem poder algum. Cadê o poder da Igreja? Cadê as conversões? Cadê nossos amigos convertidos? Nossas famílias? Você então, a essa altura, me dirá: é Deus que converte! Eu lhe responderei: é sim! Contudo, o meio que Deus utiliza são os nossos lábios, mãos, olhos, pernas, cabeça, ou seja, é a nossa vida e nossa proclamação do Evangelho: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm. 10.14). Como entenderão se não há quem explique? (At. 8.31).

Muitos de nós somos tão egoístas que não passa por nossa mente a imagem aterradora das dores que sofrerão nossos queridos que não conhecem o Deus da Bíblia. É necessário compreendermos o tamanho de nosso débito para com Deus. “(...) quando o débito parece pequeno, estamos prontos e aptos para subestimar o perdão. No entanto, quando o pecado parece excessivamente maligno, isso faz com que valorizemos a misericórdia e apreciemos o perdão. Quando o pecado é visto como o maior mal, a misericórdia e perdão serão compreendidos como os maiores bens” (WATSON, et alii.; Os Puritanos e a Conversão, SãoPaulo, PES, p. 47).

Muitas igrejas estão buscando o poder dos milagres, o poder dos sinais e maravilhas; eu rogo a Deus pelo poder de testemunhar! Que nossa igreja tenha esse poder! Que você seja incomodado pelo assombro de imaginar o terror que será o inferno e que boa parte de sua população é formada por pessoas que amamos enquanto vivos: filhos, esposa, marido, pai, mãe, irmãs (os), parentes e amigos, que tanto nos alegram hoje, estão amargando e sentindo o hálito horrendo do inferno! Estarão separados de nós eternamente. Jamais os veremos. E o pior, estarão separados de Deus eternamente.

Queridos, falta-nos amor! Falta-nos ardor de um coração que queima! Faltam-nos as lágrimas pelos perdidos. “Em Boston, John Vassar, grande ganhador de almas, bateu à determinada porta e perguntou à senhora que atendeu se ela conhecia Cristo como Salvador. Ela disse: ‘isso não é da sua conta’, e bateu a porta na cara dele. Ele ficou sentado na escadinha diante da porta e chorou, chorou; ela estava olhando pela janela e viu-o chorar. No domingo seguinte, ela se apresentou na igreja e pediu para se tornar membro. Ela disse que o motivo haviam sido aquelas lágrimas. Irmãos, onde estão nossas lágrimas?” (GRAHAM, Billy, Somos Evangelistas Aceitáveis a Deus? in: O Evangelista e o Mundo Atual, São Paulo, Vida Nova, 1986, p. 39). Onde está seu choro pelos perdidos? O que aconteceu com você que não fala do que lhe mais é precioso: o amor de Cristo? Onde estão nossas lágrimas? Que o Senhor nos constranja! Nos incomode! E ainda que venham dores por causa do Evangelho. Podemos dizer como Calvino: "Senhor, tu me esmagas, mas para mim é suficiente que seja pela tua mão".

Senhor, dá-nos lágrimas pelos homens perdidos, pois sabemos que cada gota derramada em vida é melhor do que todo sofrimento vindouro para aqueles que não receberão seu consolo!

Igreja, avante! O Mestre está chamando!

Deus nos incomode!

Rev. Ricardo Rios.

sábado, 12 de julho de 2008

Tudo sob controle – de quem?



Ano conturbado esse, não acham? Gente jogando criança pela janela; mulheres seqüestrando crianças recém-nascidas na maternidade; crianças morrendo em hospitais por atacado; soldados entregando pessoas a criminosos. Sem falarmos da política que continua a mesma. Mas, para completar esse semestre, “o menino João Roberto Amorim Soares, 3 anos, teve a morte confirmada no final da tarde desta segunda-feira no Hospital Copa D'Or (zona sul do Rio). A criança foi atingida durante perseguição policial, na noite de domingo (6), na rua General Espírito Santo Cardoso, na Tijuca (zona norte). Policiais são acusados de disparar pelo menos 16 tiros no carro da família do menino, que teve morte cerebral confirmada na manhã de ontem. Os dois PMs envolvidos na operação foram presos no 6º Batalhão Tijuca (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u420133.shtml).

A violência, antes vista de um prisma distante, pálido e em preto em branco nos jornais impressos, adentrou nossos lares pelas imagens aterradoras captadas e transmitidas pela televisão e internet. A surpresa maior é que a violência pode estar dentro de sua casa. Aliás, ela mora dentro de você. Mc 7. 21-23: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.”

Se você ainda se surpreende com a maldade humana, sinta-se abençoado por Deus, pois nessa época de violência diária, onde a cada momento uma pessoa morre ou sofre violência em vários sentidos, não é surpreendente a frieza com que olhamos a violência.

A violência passou a ser contextual. Vejamos o caso de João Roberto. Para alguns, um erro imperdoável, para outros, um erro técnico. No olhar dos pais, um erro monstruoso que marcará a vida desse casal para sempre. Para a polícia, uma falta de preparo dos policiais que são submetidos a pressões constantes e que sofrem com seus indignos salários.

O governo pode enxergar nessa morte a oportunidade de consertar um erro no preparo psicológico e funcional de sua polícia. Todavia, o olhar continua o mesmo, de certo modo revestido de um verniz estupefato, contudo sempre um olhar técnico.

Entretanto, pensem nessas mesmas pessoas no lugar dos pais de João Roberto. Será que eles veriam com a mesma imparcialidade esse crime bárbaro? Será que esboçariam uma lágrima, se naquele pequeno caixão estivesse o filho deles? Certamente que sim. Um dos poetas do Rock, Renato Russo, um dia compôs: “A violência é tão fascinante. E nossas vidas são tão normais... Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber. Afinal, amar ao próximo é tão démodé... E essa justiça desafinada é tão humana e tão errada. Nós assistimos televisão também. Qual é a diferença?”

O mundo não tem mudado. O Brasil, por mais que sejamos otimistas, estará sempre sujeito a violência. Destarte, a compreensão da raiz dessa violência é fundamental para reagirmos. Alguns poderosos dirão que não sabem de nada. Em um debate acirrado entre diversas autoridades, utilizando-se da tautologia e dos sofismas, tentarão convencer os menos favorecidos intelectualmente de que a culpa é do povo. Os mais “sabidos” usarão o recurso do nexo causal e dirão: se João Roberto não tivesse nascido, ele não teria morrido.

Não pense que esse arrazoado é uma tentativa de tripudiar ou ridicularizar a dor desses pais, não! Nada disso! O fato é que, se confiarmos apenas em projetos de segurança, educação ou qualquer outra estrutura política, estaremos confiando em homens. Nos dizeres de Sartre, se entendermos o homem resolvendo-se pelo homem, teríamos que concordar com sua frase: “Toda realidade-humana é uma paixão, posto que ela projeta se perder para fundamentar o ser e, ao mesmo tempo, para constituir o em-si que escape à contingência sendo seu próprio fundamento, o Ens causa sui que as religiões chamam de Deus. Assim, a paixão do homem é inversa à de Cristo, pois o homem se perde enquanto homem para que Deus nasça. Mas a idéia de Deus é contraditória e nos perdemos em vão; o homem é uma paixão inútil” (SARTRE, 2001, p. 662). Essa visão do homem e de Deus é equivocada quando enxergamos que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança e quando entendemos que, fora de Deus, a humanidade está desprovida de objetivo existencial. Contudo, a decepção de Sartre com o homem é pertinente dentro da ótica cultural e histórica em que ele vivia. Ele viu os que se diziam cristãos fomentando a guerra e matando em nome de Deus. Nada mais natural, dentro desse contexto, avaliar a humanidade como uma paixão inútil. Essa avaliação é bem diferente do positivismo de Conte ou com cores diversas do super-homem de Nietzsche. Todavia, a crítica é salutar no que tange à inconstância humana e sua natureza destrutiva, pois com o pecado adâmico em seu coração, fazer o bem é somente pela graça de Deus: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal” (Jr. 13. 23). Em Isaias, Deus fala para o profeta que o bem deve ser aprendido: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas” (Is 1. 16-17).

A conseqüência da confiança na natureza humana é desastrosa, pois não basta dar alimento, educação e cultura para as pessoas para elas deixarem a violência de lado, é preciso entender que dormimos com a violência e acordamos com ela: O Senhor Jesus nos ensina que do coração do homem é que procede todo mau desígnio (Mc 7.21). Assim, segue-se que, para se cortar o mal pela raiz, nós devemos apelar para quem pode cortar a raiz e plantar sementes diferentes, devemos clamar por Jesus.

Você poderia me perguntar, nesse momento: - Mas, se Deus controla todas as coisas, Ele não tem culpa do que acontece de ruim com as pessoas? Minha resposta é essa: “Por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados” (Lm 3.39); Em Tg 1.13, a Bíblia nos diz: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”.

Quando àqueles que deveriam nos proteger são nossos algozes, fica a pergunta, quem está no controle? Em quem devemos confiar? Deus está no controle de todas as coisas, mas os homens são responsáveis pelos seus atos, por isso, devemos apelar para que Deus faça uma obra em nossa nação e que a cada instante mude nossa vida, para que não durmamos com o inimigo.

Saber em quem você confia é essencial para saber quem controla sua vida. Deus está no controle de tudo. Contudo, muitas vezes esquecemos disso e confiamos em sistemas falidos de nascença, pois não levam em consideração a impureza e maledicência do homem caído. Por mais que você diga que domesticou uma cascavel, eu não me arrisco a dormir com ela em meu pescoço. Talvez não tenha tempo de ouvir o chocalho. “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 3.10-18).

Deus tenha misericórdia de nós!

Rev. Ricardo Rios Melo

Uma igreja relevante

Uma igreja relevante Há muito se fala de que a igreja precisa ser relevante. Arautos da Teologia da Missão Integral dizem que a igreja...