Os limites entre o sagrado e o profano




Sagrado e profano, o que significaria isso em pleno século 21? Uma das características da pós-modernidade é esvaziar ou dar um novo significado às palavras. Esse tipo de atitude foi chamado por Francis Schaeffer de falácia semântica. O significado da palavra sagrado vem do latim sacratu. Segundo o Aurélio, significa o que se sagrou ou que recebeu a consagração; concernente às coisas divinas, à religião, aos ritos ou ao culto; sacro, santo, inviolável, puríssimo, santo, sacrossanto, profundamente respeitável; venerável, santo, que não deve ser tocado, infringido, violado. Já a palavra profano, oriunda do latim profanu, significa o oposto do sagrado: não pertencente à religião. Contrário ao respeito devido às coisas sagradas, não sagrado, secular, leigo.

Na era “pós-moderna”, as palavras já não dizem o que querem dizer. Esse tipo de comportamento é fácil de entender: quando uma pessoa quer que algo ou que alguma palavra perca o sentindo pretendido, é só usá-la constantemente em seu dia-a-dia e fazê-la passar do uso restrito para o uso comum. Talvez isso explique a acusação que nos é feita pela Igreja Católica Apostólica Romana acerca da doutrina do sacerdócio de todos os santos formulada por Lutero. Nessa doutrina, Lutero afirma que não é necessário mais nenhum mediador entre Deus e os homens que não Cristo; o único mediador é Jesus Cristo (At 4.12). A doutrina do sacerdócio de todos os santos fala exclusivamente de acesso a Deus por intermédio de Cristo. Conseqüentemente, a confissão auricular aos padres (vicários ou vigários: substituto ou aquele que faz as vezes de outro) foi substituída pela oração individual direta a Deus na mediação de Jesus.

Esse tipo de doutrina, deflagrada na Reforma Protestante em 1517, foi uma revolução teológica sem precedentes na história, pois trouxe para o indivíduo “comum”, a possibilidade de achegar-se a Deus sem uma mediação do clero. Entretanto, o entendimento errôneo dessa doutrina gera aquilo que poderíamos chamar de invasão do profano no sagrado ou, de maneira atual, secularização. Percebam a tênue linha entre o sagrado e o profano. Se o indivíduo pode achegar-se a Deus sem a mediação de um sacerdote religioso, eis a óbvia pergunta: para que sacerdote? Para que igreja? Todos os indivíduos tornam-se “profanos” ou “sacros”. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais cresce tanto o número de igrejas evangélicas. Se, supostamente, não precisássemos de uma “ordenação” (colação de ordem eclesiástica ou consagração), prescindiríamos de um ministro religioso ou pastor. Qualquer pessoa, nesse caso, poderia arvorar-se em transforma-se em um líder religioso. Contudo, não nos parece que isso encontre respaldo nas Escrituras. Paulo descreve em 1 Tm 3.1-7 algumas qualidades morais e individuais que os líderes deveriam ter. Em Tito 1.7-9, Paulo nos fala: “Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância. Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”. Existem aspectos que diferenciam os ministros dos demais. E umas dessas características, além da conduta, é a habilidade no ensino e na persuasão correta pelas Escrituras. O texto de Tito revela-nos que existia uma oposição deflagrada pelos judaizantes. Contornar essa situação demandava habilidade de ensino e da retórica. Logo, os líderes devem ser diferenciados no sentido de seus dons e preparo para saber responder os questionamentos dos inimigos da fé.

A doutrina do sacerdócio de todos os crentes significa a liberdade que cada um de nós tem de se aproximar do Pai na mediação do filho sem intermediários. Todavia, essa doutrina nunca excluiu a autoridade eclesiástica, pelo contrário, ela interpretou de maneira correta quais são as atribuições de cada crente no corpo de Cristo e, inclusive, a função da Igreja.

O esvaziamento do significado das palavras traz-nos prejuízos incalculáveis. Vejamos a idéia da morte de Deus em Nietzsche. A idéia difundida popularmente é um equívoco desastroso do que Nietzsche falou. Em verdade, ele estava tratando exatamente sobre o que estamos abordando neste arrazoado: do esvaziamento do sentido das coisas. “Nietzsche não estava interessado em reeditar a crítica ateísta ou naturalista contra a idéia teísta de Deus. Aceitava, como Marx já o fizera, a crítica da religião de Feuerbach. Afirmava, porém que quando cai a idéia tradicional de Deus, algo mais também cai com ela. A conseqüência mais importante do símbolo da morte de Deus é a queda do sistema de valores éticos em que se baseava a sociedade. Trata-se, naturalmente, de um símbolo, pois só pode dizer que Deus morreu na consciência do homem. A idéia da morte de Deus em si, querendo dizer que Deus se transformara num cadáver, seria absurda. A idéia quer dizer que morreu na consciência do homem a idéia tradicional do absoluto ou supremo. Como resultado disso, alguém precisa ocupar o lugar de Deus enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores. Assim, confirma-se a minha interpretação. Quem deve ocupar esse lugar é o próprio homem. No passado, o homem se acostumara a ouvir ‘Farás’ e ‘não farás’, da parte de Deus ou do sistema objetivo de valores. Tudo isso terminou. Em seu lugar, Nietzsche colocou o homem que diz: ‘eu farei’. O homem não mais decide o que fazer impulsionado pelo mandamento divino, mas pelo que quer: ‘Faço o que quero porque decido o que é bom ou mau’” (TILLICH, Paul, Perspectivas da teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo, 1999, p 209).

Quando as pessoas passam a tratar o sacro sem reverência, daí a idéia americana em chamar os pastores de reverendo, passam a esvaziar o significado e, posteriormente, secularizar o que é sacro. Um exemplo clássico disso é quando uma estrela global passou a tratar Deus como o “cara lá de cima”. Por que o “cara”? Essa aproximação do transcendente (Deus distante em essência de suas criaturas) ao imanente (Deus presente e relacionando-se com suas criaturas), faz bem ao indivíduo. É claro que Deus se relaciona com suas CRIATURAS, mas nunca se mistura em essência com elas. Isso quer dizer que, quando chamamos Deus de “o cara lá de cima”, trazemos Deus para uma realidade próxima de nós, contudo esvaziamos o significado sacro de Deus, colocando-o no mesmo patamar que o nosso. Seria uma repetição da mitologia grega, onde os deuses são iguais aos homens em seus sentimentos e defeitos.

Se imaginássemos que, todas as vezes que tratamos o culto a Deus como mais uma reunião social, profanamos o culto, talvez mudássemos o nosso comportamento no culto e na própria preparação para participar dele. Quantas pessoas ficam com telefones celulares ligados no culto sem objetivamente terem necessidade? Algumas pessoas precisam de seus telefones por causa da profissão ou de uma emergência. Todavia, existe um descaso geral. O sacro está tão próximo do profano em um culto que, muitas vezes quando ouvimos uma mensagem, sequer percebemos que o indivíduo que está ao púlpito, chamado reverendo, dedicou-se em oração e labor teológico para pregar o que o texto disse na época em que foi escrito e diz hoje para nós. Sem falar dos anos que passou no seminário e de sua ordenação, consagração. Essa mensagem, quando é a expressão real do que está no texto, pode-se chamar “da boca do próprio Deus”, aliás, esse é o significado de profeta no AT. Hoje, infelizmente, o respeito às autoridades tão enfatizado nas Escrituras, de tal maneira que Davi não ousou tocar em Saul em 1Sm 24. 5-7 e a Bíblia nos fala em tantos textos do NT, não é corrente hoje. É comum o desrespeito reinante em nossa sociedade (que não reverencia seus líderes políticos, por causa de seus atos) passar para a vida eclesiástica. É comum ouvirmos crentes falando mal dos pastores e de maneira totalmente irreverente. Mais comum ainda é ouvir a justificativa: “esse é o seu pensamento”, quando não se quer seguir uma orientação da liderança.

Caríssimos irmãos, façam uma auto-avaliação e perguntem-se: quem é Deus para você? Quem é o pastor para você? Quem são os presbíteros e diáconos? O que é o culto? O que são os dízimos, cânticos, hinos, santa ceia, batismo? Cuidado! Pois, dependendo de sua resposta, você poderá “matar Deus” em sua consciência e, fatalmente, em sua vida, pois a amoralidade é um reflexo da morte de Deus nas consciências humanas. Dependendo de sua resposta com relação ao culto e às pessoas consagradas por Deus, você poderá tornar profano algo que é sacro. Não se esqueça que um erro cúltico ou dos líderes da igreja não invalida o respeito que devemos ter por eles. Muitas vezes, a frieza espiritual que passamos nada mais é que uma secularização do sagrado. Devemos ter cuidado para não ultrapassarmos a linha limítrofe entre o sagrado e o profano.

Que Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo.



Comentários

osx disse…
Caro Ricardo,
é uma explanação em que envolveu vários aspectos observados, entretanto, revoluções e mudanças em qualquer tipo de sistema, seja ele biológico, humano, cultural, etc... deriva de um processo de adaptação e evolução do mesmo, do qual busca-se adaptar ao meio de uma maneira que seja possível se sentir bem ou melhor. Só uma observação, quando escrevemos, buscamos passar nossa visão sobre uma determinada situação ou acontecimento, como um observador, porém devemos tomar cuidado para que sentimentos pessoais não se misture com a análise racional dos fatos analisados. O texto ficou bom, mas é necessário revisar alguns pontos em que vc deixou-se levar mais pelo sentimento da própria experiência de vida, do que por uma visão mais ampla do todo, do qual pode ser possível evitar o lado pessoal e deixar alguns dados e informações entre os aspectos observados, para que o próprio leitor possa aprofundar no assunto e escolher a partir da sua própria busca, o caminho que sinta melhor e venha a tomar consciência de aspectos mais amplos que permeiam nossa vida.
Caro osx ,

Obrigado por suas considerações! Acredito que suas críticas em relação a parcialidade e os sentimentos do autor no texto são verdadeiros. Esses textos são pastorais que escrevo para a igreja que pastoreio, portanto, são recheados de sentimentos e impressões pessoais, pastorais. Apesar de entender que um texto precisa ficar o mais limpo possível de sentimentos e de conduções claras, não acredito em textos totalmente livre deles, pois apesar de partimos de uma mesma realidade, as percepções são diversas e subjetivas. Mas, entendi o que você escreveu e agradeço, pois como disse Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”.
Obrigado!
Deus o abençoe!

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