sábado, 29 de março de 2008

Evangelização urbana, o que é isso?



Existe um tipo de evangelização que cresce quanto a popularidade. Esse tipo de evangelização é a Evangelização Urbana, que nada mais é do que evangelizar os grandes centros e metrópoles. Inicialmente, essa definição tão simples pode disfarçar a complexidade do assunto.

O êxodo rural fez com que as metrópoles crescessem assustadoramente. “Hoje mais de 50% da população do mundo vive nas cidades, enquanto que em 1950 a população urbana mundial era de apenas 16%. Em 1900, apenas a cidade de Londres tinha mais de um milhão de habitantes, agora já são 405 cidades com mais de um milhão de habitantes”[1]. No Brasil, essa realidade não é diferente. De 1940 ao ano 2000, houve um crescimento urbano de 81,23%, enquanto a população rural cresceu apenas 18, 77%. Existe uma clara migração da população rural para os grandes centros – o que faz com que a desigualdade social também cresça, pois muitas dessas pessoas que saíram do campo não encontram emprego e nem vida digna nos grandes centros.

Esse urbanismo, como é comumente chamado, trouxe desafios enormes para a igreja moderna. Hoje se fala de evangelização urbana em quase todas as denominações, inclusive na Igreja Católica Apostólica Romana.

A necessidade de se planejar um método evangelístico para os grandes centros deve-se ao novo desenho da sociedade hodierna. Os grandes centros são produtores das grandes aglomerações, mas também de grandes facções. É comum se falar hoje de tribos sociais. As pessoas, por motivos intrínsecos, tendem a se agruparem. Esses grupos são formados por áreas de interesses diversos: os jovens não são sempre unidos, como era de se esperar, pois eles mesmos são divididos em grupos e subgrupos. Existem os roqueiros; dentre os roqueiros, existem os que gostam de hard rock, metal, e o mais novo grupo, os EMOs. Segundo a definição de Douglas Romero, “Emo vem de ‘emotional hardcore’, que é um gênero de música. Contudo, Emo virou um rótulo para adolescentes que usam meia franja caindo sobre os olhos, roupas pelo menos dois números menores. Usando uma mochila horrível, cheia de bottons da Hello Kitty, um Ipod no bolso e chaveiros de bichos pendurados na Mochila. Ainda definem os Emo como Emocionais, chorando a todo momento. Com isso, algumas pessoas recriminam essa tribo”.[2]

Essa diversidade de tribos e de cultura mostra que o desafio dos grandes centros é grande! Se você pertence a uma tribo social, provavelmente será olhado com desconfiança pela outra. Essa separação de tribos não se restringe apenas a tribos de jovens, mas revela a tão comum separação socioeconômica e cultural. Soma-se a toda essa divisão tribal, a própria igreja, que é definida por muitos como tribo evangélica.

As tribos são facilmente observadas. Elas têm um mesmo linguajar, vestem as mesmas roupas, freqüentam os mesmos lugares e conversam invariavelmente o mesmo assunto. Por isso, caracterizar os evangélicos modernos como mais uma tribo não está muito longe da realidade; até o “evangeliquês” (linguajar evangélico) foi criado para a comunicação interna de seus adeptos.

Juntamente com as tribos e com o crescimento assombroso da população urbana, existe um outro fator que dificulta a evangelização: a insegurança. Cada vez mais, a população se cerca de câmeras de segurança, grades altas, cercas elétricas, segurança privada e coisas do gênero. Bater na porta de uma pessoa desconhecida para ser atendida por ela é, no mínimo, uma aventura. Entregar folhetos dentro de um prédio? Se conseguirmos passar pela portaria, já é um sucesso. Sem falar que a quantidade de impressos de propagandas que recebemos faz com que a leitura de um folheto seja uma raridade. Isso tudo deve ser acrescido à poluição visual e sonora que os grandes centros têm. Existe ainda mais um complicador: o bombardeio de alguns programas evangélicos na televisão com sua diversidade doutrinária e com abusos criticados pela mídia e pelos homens de bom senso.

Bom, você deve ter vislumbrado um pouquinho da dificuldade evangelística de nossos tempos; isso porque não falamos do relativismo moderno, do amoralismo, agnosticismo e da visão ateísta.
Para derrubarmos esse muro que nos separa da sociedade, é preciso nos prepararmos melhor. Precisamos conhecer a nossa cidade, nosso bairro, nossos amigos, nosso país. É necessário um preparo completo e uma dose de paciência, pois, na evangelização urbana, nada é tão rápido como queremos. Sobretudo, a conversão pertence a Deus.

Existem diversos métodos de evangelização urbana: encarte em jornais, literatura, internet e entre outros. Contudo, os autores contemporâneos são categóricos ao dizer que uma das melhores formas de propagar o Evangelho é a evangelização pessoal. Para que façamos esse tipo de evangelização, é necessário modificar o pensamento separatista. “A reação de muitos cristãos à nossa sociedade ímpia é a separação pessoal. Insistimos que devemos manter nós mesmos e as nossas crianças separadas de relacionamentos pessoais com incrédulos. Nós queremos ser puros, santos, separados dos pecadores, e pensamos que a única maneira de fazer isso é nos mantermos separado deles. Mas se queremos nos manter separados, então, disse Paulo, teríamos que deixar o mundo de vez (1 Co 5.9-13). (...) Como poderemos ter comunicação verdadeira com as pessoas a respeito do Evangelho de amor, autodoação, e a Palavra encarnada se nos distanciamos daqueles que precisam ouvir a mensagem? Um amigo que ainda não é crente se expressou assim: ‘O problema dos cristãos é que vocês vivem num casulo. Todos os seus amigos íntimos são cristãos. E o que acontece com pagãos como eu? Quem irá me alcançar?”.[3]

“Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9.12).

Que Deus nos dê sabedoria para não sermos um gueto!

Rev. Ricardo Rios Melo



[1] http://www.pime.org.br/missaojovem/mjevanggeralarte.htm
[2] http://www.dsromero.com.br/noticias/definicao/definicao_de_emo.html
[3] Jerram Barrs, A Essência da Evangelização, São Paulo, CEP, 2004, p.138, 139.

sábado, 1 de março de 2008

Os limites entre o sagrado e o profano




Sagrado e profano, o que significaria isso em pleno século 21? Uma das características da pós-modernidade é esvaziar ou dar um novo significado às palavras. Esse tipo de atitude foi chamado por Francis Schaeffer de falácia semântica. O significado da palavra sagrado vem do latim sacratu. Segundo o Aurélio, significa o que se sagrou ou que recebeu a consagração; concernente às coisas divinas, à religião, aos ritos ou ao culto; sacro, santo, inviolável, puríssimo, santo, sacrossanto, profundamente respeitável; venerável, santo, que não deve ser tocado, infringido, violado. Já a palavra profano, oriunda do latim profanu, significa o oposto do sagrado: não pertencente à religião. Contrário ao respeito devido às coisas sagradas, não sagrado, secular, leigo.

Na era “pós-moderna”, as palavras já não dizem o que querem dizer. Esse tipo de comportamento é fácil de entender: quando uma pessoa quer que algo ou que alguma palavra perca o sentindo pretendido, é só usá-la constantemente em seu dia-a-dia e fazê-la passar do uso restrito para o uso comum. Talvez isso explique a acusação que nos é feita pela Igreja Católica Apostólica Romana acerca da doutrina do sacerdócio de todos os santos formulada por Lutero. Nessa doutrina, Lutero afirma que não é necessário mais nenhum mediador entre Deus e os homens que não Cristo; o único mediador é Jesus Cristo (At 4.12). A doutrina do sacerdócio de todos os santos fala exclusivamente de acesso a Deus por intermédio de Cristo. Conseqüentemente, a confissão auricular aos padres (vicários ou vigários: substituto ou aquele que faz as vezes de outro) foi substituída pela oração individual direta a Deus na mediação de Jesus.

Esse tipo de doutrina, deflagrada na Reforma Protestante em 1517, foi uma revolução teológica sem precedentes na história, pois trouxe para o indivíduo “comum”, a possibilidade de achegar-se a Deus sem uma mediação do clero. Entretanto, o entendimento errôneo dessa doutrina gera aquilo que poderíamos chamar de invasão do profano no sagrado ou, de maneira atual, secularização. Percebam a tênue linha entre o sagrado e o profano. Se o indivíduo pode achegar-se a Deus sem a mediação de um sacerdote religioso, eis a óbvia pergunta: para que sacerdote? Para que igreja? Todos os indivíduos tornam-se “profanos” ou “sacros”. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais cresce tanto o número de igrejas evangélicas. Se, supostamente, não precisássemos de uma “ordenação” (colação de ordem eclesiástica ou consagração), prescindiríamos de um ministro religioso ou pastor. Qualquer pessoa, nesse caso, poderia arvorar-se em transforma-se em um líder religioso. Contudo, não nos parece que isso encontre respaldo nas Escrituras. Paulo descreve em 1 Tm 3.1-7 algumas qualidades morais e individuais que os líderes deveriam ter. Em Tito 1.7-9, Paulo nos fala: “Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância. Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”. Existem aspectos que diferenciam os ministros dos demais. E umas dessas características, além da conduta, é a habilidade no ensino e na persuasão correta pelas Escrituras. O texto de Tito revela-nos que existia uma oposição deflagrada pelos judaizantes. Contornar essa situação demandava habilidade de ensino e da retórica. Logo, os líderes devem ser diferenciados no sentido de seus dons e preparo para saber responder os questionamentos dos inimigos da fé.

A doutrina do sacerdócio de todos os crentes significa a liberdade que cada um de nós tem de se aproximar do Pai na mediação do filho sem intermediários. Todavia, essa doutrina nunca excluiu a autoridade eclesiástica, pelo contrário, ela interpretou de maneira correta quais são as atribuições de cada crente no corpo de Cristo e, inclusive, a função da Igreja.

O esvaziamento do significado das palavras traz-nos prejuízos incalculáveis. Vejamos a idéia da morte de Deus em Nietzsche. A idéia difundida popularmente é um equívoco desastroso do que Nietzsche falou. Em verdade, ele estava tratando exatamente sobre o que estamos abordando neste arrazoado: do esvaziamento do sentido das coisas. “Nietzsche não estava interessado em reeditar a crítica ateísta ou naturalista contra a idéia teísta de Deus. Aceitava, como Marx já o fizera, a crítica da religião de Feuerbach. Afirmava, porém que quando cai a idéia tradicional de Deus, algo mais também cai com ela. A conseqüência mais importante do símbolo da morte de Deus é a queda do sistema de valores éticos em que se baseava a sociedade. Trata-se, naturalmente, de um símbolo, pois só pode dizer que Deus morreu na consciência do homem. A idéia da morte de Deus em si, querendo dizer que Deus se transformara num cadáver, seria absurda. A idéia quer dizer que morreu na consciência do homem a idéia tradicional do absoluto ou supremo. Como resultado disso, alguém precisa ocupar o lugar de Deus enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores. Assim, confirma-se a minha interpretação. Quem deve ocupar esse lugar é o próprio homem. No passado, o homem se acostumara a ouvir ‘Farás’ e ‘não farás’, da parte de Deus ou do sistema objetivo de valores. Tudo isso terminou. Em seu lugar, Nietzsche colocou o homem que diz: ‘eu farei’. O homem não mais decide o que fazer impulsionado pelo mandamento divino, mas pelo que quer: ‘Faço o que quero porque decido o que é bom ou mau’” (TILLICH, Paul, Perspectivas da teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo, 1999, p 209).

Quando as pessoas passam a tratar o sacro sem reverência, daí a idéia americana em chamar os pastores de reverendo, passam a esvaziar o significado e, posteriormente, secularizar o que é sacro. Um exemplo clássico disso é quando uma estrela global passou a tratar Deus como o “cara lá de cima”. Por que o “cara”? Essa aproximação do transcendente (Deus distante em essência de suas criaturas) ao imanente (Deus presente e relacionando-se com suas criaturas), faz bem ao indivíduo. É claro que Deus se relaciona com suas CRIATURAS, mas nunca se mistura em essência com elas. Isso quer dizer que, quando chamamos Deus de “o cara lá de cima”, trazemos Deus para uma realidade próxima de nós, contudo esvaziamos o significado sacro de Deus, colocando-o no mesmo patamar que o nosso. Seria uma repetição da mitologia grega, onde os deuses são iguais aos homens em seus sentimentos e defeitos.

Se imaginássemos que, todas as vezes que tratamos o culto a Deus como mais uma reunião social, profanamos o culto, talvez mudássemos o nosso comportamento no culto e na própria preparação para participar dele. Quantas pessoas ficam com telefones celulares ligados no culto sem objetivamente terem necessidade? Algumas pessoas precisam de seus telefones por causa da profissão ou de uma emergência. Todavia, existe um descaso geral. O sacro está tão próximo do profano em um culto que, muitas vezes quando ouvimos uma mensagem, sequer percebemos que o indivíduo que está ao púlpito, chamado reverendo, dedicou-se em oração e labor teológico para pregar o que o texto disse na época em que foi escrito e diz hoje para nós. Sem falar dos anos que passou no seminário e de sua ordenação, consagração. Essa mensagem, quando é a expressão real do que está no texto, pode-se chamar “da boca do próprio Deus”, aliás, esse é o significado de profeta no AT. Hoje, infelizmente, o respeito às autoridades tão enfatizado nas Escrituras, de tal maneira que Davi não ousou tocar em Saul em 1Sm 24. 5-7 e a Bíblia nos fala em tantos textos do NT, não é corrente hoje. É comum o desrespeito reinante em nossa sociedade (que não reverencia seus líderes políticos, por causa de seus atos) passar para a vida eclesiástica. É comum ouvirmos crentes falando mal dos pastores e de maneira totalmente irreverente. Mais comum ainda é ouvir a justificativa: “esse é o seu pensamento”, quando não se quer seguir uma orientação da liderança.

Caríssimos irmãos, façam uma auto-avaliação e perguntem-se: quem é Deus para você? Quem é o pastor para você? Quem são os presbíteros e diáconos? O que é o culto? O que são os dízimos, cânticos, hinos, santa ceia, batismo? Cuidado! Pois, dependendo de sua resposta, você poderá “matar Deus” em sua consciência e, fatalmente, em sua vida, pois a amoralidade é um reflexo da morte de Deus nas consciências humanas. Dependendo de sua resposta com relação ao culto e às pessoas consagradas por Deus, você poderá tornar profano algo que é sacro. Não se esqueça que um erro cúltico ou dos líderes da igreja não invalida o respeito que devemos ter por eles. Muitas vezes, a frieza espiritual que passamos nada mais é que uma secularização do sagrado. Devemos ter cuidado para não ultrapassarmos a linha limítrofe entre o sagrado e o profano.

Que Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo.



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