Os Sete Pecados



Há algum tempo, venho pensando em escrever sobre esse tema que tomou força na exibição da novela global que tem o mesmo nome. Aliás, é justo admitir que foi a novela a inspiradora desse pequeno arrazoado.

Essa idéia dos sete pecados capitais foi introduzida desde o ano de 400, com João Cassiano, e culminou em torno de 604 com o Papa Greogório Magno. A história mostra que Tomás de Aquino (1225-1274) propulsor de grande acuidade e perspicácia teológica, é que dá corpo a essa doutrina. Outro personagem importante na divulgação é Dante Alighieri (1265-1321), com sua obra literária: A Divina Comédia. Essa obra, que já foi chamada antes de Comédia ou apenas de Dante, recebeu esse nome atual por “Boccaccio, o do Decamerão, que iniciou suas leituras no domingo, 23 de outubro. E foi Boccaccio, dos primeiros ardorosos intérpretes e divulgadores do poema, que lhe alterou o nome entendendo-a imensurável pelo nível artístico, pelo tema, pela ambientação, pela atualidade e o endereçamento certo à imortalidade, carimbou-o com o adjetivo que lhe pareceu mais cabível: Divina, Divina Comédia. A primeira edição veneziana, de Giolito, impressa em 1555, traz esse título. E assim ficou sendo” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. XIII).

Certamente, a Divina Comédia inspirou o diretor da novela Sete Pecados. No mínimo, quanto a alguns nomes dos personagens. Para lembrá-los um pouco da obra de Dante, ela nos fala da viagem de Dante (personagem com o mesmo nome do autor do livro) que percorrerá o seguinte itinerário: Inferno-Purgatório-Paraíso. Nessa viagem, ele terá três guias: “Virgílio, o maior dos Poetas para o poeta Dante, ao longo do Inferno e pelo Purgatório; Beatriz, do paraíso terrestre, subindo pelas esferas celestes, até o Empíreo; São Bernardo, que vai postar o peregrino à face de Deus” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. XIII).

A novela não segue todos os detalhes do Poema, mas, tenta chegar a alguns pontos de convergência, como é o caso da luta de Dante contra um dos sete pecados. Na Divina Comédia, isso é tipificado pela viagem do personagem principal, assim como na novela. Os sete pecados da Divina Comédia encontram sua purificação no Purgatório em suas três divisões. “No primeiro círculo purificam-se os soberbos; no segundo, os invejosos; no terceiro, os coléricos, e pelos círculos seguintes: os preguiçosos, os avarentos e os pródigos, os gulosos, os luxuriosos” (Hernani Donato in: Dante Alighieri, A Divina Comédia, São Paulo, Abril Cultura, 1979, p. 20).

Bom, como a novela fará paralelo ao poema ou se fará, eu não sei. O que sei é que algumas coisas devemos perceber nessa “inocente novela”: ela quer passar uma mensagem ou várias mensagens. E parece-nos certo dizer que a novela faz uma apologia ao pecado. Talvez mude no seu decorrer. Todavia, a própria música de abertura cantada por Zélia Duncam, Carne e Osso, ressalta a “alegria que o pecado dá ao ser humano”. Essa alegria é cantada nos versos da música que diz que quem encontrou um “jeito de ser perfeito, encontrou um jeito insosso para não ser de carne osso”.

Vamos à análise desse tema:
1) a Bíblia não nos dá nenhum respaldo para a doutrina dos sete pecados. Apesar de serem pecados horríveis, a Bíblia só nos autoriza a dizer que existem pecados mais hediondos que outros. Isso é retratado pelo nosso Catecismo Maior na pergunta 150, cf. Jo 19.11, Ez 8.6,13,15; 1Jo 5.16; Sl 78.17,32,56. Entretanto, todos são pecados merecedores de castigo e carentes do perdão de Deus. A doutrina Católica Romana fala de pecado mortal e pecado venial, contudo isso não encontra eco na Bíblia. Johannes Geerhard Vos, falando sobre pecado para morte retratado em 1Jo 5.16, diz: “entende-se comumente que o ‘pecado para morte’ significa uma forma de pecado que resulta inevitavelmente na morte eterna, pois exclui qualquer possibilidade de arrependimento; isto é: a rejeição deliberada, definitiva e continuada do evangelho de Jesus Cristo, quando o Espírito Santo, por fim, deixa de pleitear com a pessoa e a abandona à dureza pecaminosa do seu próprio coração. Somos ordenados a nem mesmo orar por alguém assim. Esse ‘pecado para morte’ não pode se cometido por um verdadeiro crente em Cristo, nascido de novo, mas pode ser cometido por crentes nominais, que jamais nasceram de novo de verdade” (Johannes Geerhard Vos, Catecismo maior de Westminster Comentado, São Paulo, Os Puritanos, 2007, p 469). A doutrina dos setes pecados e do pecado mortal e venial são acréscimos da tradição e devem ser rejeitados;

2) devemos avaliar que a viagem de Dante reflete o pensamento medievalista de sua época tomista e romanista e que é um poema e deve ser lido como tal. Mas, a novela, de maneira demoníaca, faz uma apologia subversiva ao pecado. Dizer que o pecado faz parte da essência humana é acusar a Deus de pecado. A música e a novela mostram uma confusão típica de nossa época enfronhada na maldade. Deus fez o homem puro, perfeito e à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Após o pecado, é que o homem passa conviver com a malignidade (Gn 3). A novela fala de relacionamentos de anjos com seres humanos, típicos de Homero e comuns na mitologia grega. Isso deixa claro que ninguém consciente ou inconscientemente está livre de pressupostos. A novela é um atentando à moral e uma exaltação aos vícios. Só tem uma coisa acertada na música e na novela; é que, após o pecado ninguém é perfeito e que nossa sociedade vive destituída da moral e preocupação com Deus. Contudo, o remédio para o pecado não é alegria em praticá-lo. Não é a constatação de que todos erram que justifica meus atos pecaminosos e maléficos. O que a humanidade precisa é de tristeza pela desobediência a Deus, conversão. Precisa confessar a Deus seus e pecados para que tenha a verdadeira a alegria, e não o prazer infernal do pecado. “Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniqüidade e em cujo espírito não há dolo. Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado. Sendo assim, todo homem piedoso te fará súplicas em tempo de poder encontrar-te. Com efeito, quando transbordarem muitas águas, não o atingirão. Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento. Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho. Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem. Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia o assistirá. Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração” (Sl 32).

Queridos, que a nossa alegria seja de uma vida santa a Deus! “Porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16).

Rev. Ricardo Rios Melo.


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