Tudo bem!


Em uma das inúmeras propagandas de carro de uma marca famosa, foi retratado um personagem interessante: uma jovem que se contentava com tudo. Ela queria algo maior e melhor, mas, quando recebia menos do que queria, dizia; “tudo bem!”. Eu fiquei pensando nessa propaganda e achei boa para retratar o perfil de alguns irmãos. Esses irmãos são bem interessantes. Quando perguntamos para eles: você está bem? Eles dizem “tudo bem”, quando de fato, não está nada bem. Geralmente, seu casamento está um fardo; suas tribulações deixaram que se afastasse de uma vida mais devotada a Deus; alguns estão lutando contra o pecado de maneira derrotada e outros estão totalmente frios na fé. E sempre que perguntamos como estão, eles dizem: “tudo bem!”.

“Chega de tudo bem!”, diz a propaganda. E eu lhes digo também a mesma coisa! Quando as coisas vão mal, devemos encará-las de maneira séria e não tentando amenizá-las. Quando alguém não recorre à outra pessoa para pedir socorro é porque alguma coisa está de errado com sua percepção ou com sua compreensão cristã. Fomos colocados em um só corpo para sermos membros uns dos outros. Se não está bem para você, não pode estar bem para mim! “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Ef 4.25 ). Quando digo para uma pessoa que as coisas vão bem, quando na verdade nada está bem, eu estou mentindo. E o pai da mentira é o diabo! Se as coisas andavam ruins, agora é que piorou!

Certamente, você me dirá: “mas, pastor eu não vou contar minha vida para todo mundo!” Com certeza, não! Nem é isso que estou querendo. Você deve buscar auxílio do seu pastor e dos presbíteros, para poder compartilhar suas dores. Suas dores não são suas, são nossas. Se você não está bem com seu cônjuge, isso certamente refletirá em sua adoração e em sua recepção da mensagem bíblica, como em toda a igreja, pois todos estaremos sofrendo. A igreja é um reflexo de nossas famílias! Se não estamos bem em casa, como ficaremos bem na igreja? Se você briga direto com seus filhos e se há um desentendimento em casa, como você falará de amor, compreensão, respeito e perdão na igreja?

Antes de continuarmos, tenho que fazer uma advertência. Falar a verdade não quer dizer machucar o irmão a qualquer custo. Devemos falar a verdade em amor (Ef. 4.15). Isso muda tudo! Se um irmão estiver errado, irei falar com ele a verdade, e essa verdade será temperada com amor! Contudo, meu assunto principal aqui nessa pastoral não se refere à verdade que você tem que dizer ao irmão que está errado, mas, à verdade que você tem que dizer quando está errado; doente, frio na fé, caindo, pecando. Muitas pessoas hoje estão frias na fé por causa dos seus pecados de estimação (pecados que nunca abandonaram) e estão dizendo: “tudo bem”! Tudo bem, nada! A Bíblia diz que os sem fervor, os mornos serão vomitados da boca do Senhor: “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.14-16).

O hino Vivificação (133) do Novo Cântico diz algo muito forte na sua terceira estrofe: “Quantos que corriam bem, de ti longe agora vão! Outros seguem, mas, também, sem fervor vivendo estão” (H. M. Wright). Essa é uma verdade! Muitos que corriam bem já não estão em nosso meio e muitos que estão em nosso meio estão vivendo sem fervor. E fervor aqui não significa gritos, mãos levantadas, euforia, pois muitos quando Jesus entrou em Jerusalém gritaram: “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21.9), e depois foram os mesmos que gritaram: “crucifica-o!” (Lc 23.21). Nunca confunda fervor com euforia. Cada pessoa tem um jeito. Conversando com membros da igreja e com meus alunos do seminário, reparei um certo equívoco em muitos deles. Por exemplo, ao falarem de pregadores bons, eles dizem que gostam dos pregadores fervorosos! E os fervorosos para eles são os que gritam! Fiquei preocupado com esse tipo de análise. Se olharmos para o exemplo de Jesus pregando, teremos sérias dificuldades de entender que Jesus andava gritando! Já pensou Jesus proferindo seu célebre Sermão do Monte gritando? Será que combina com Jesus? A propósito, eu acho que Paulo também não gritava, pois os Coríntios diziam que ela era fraco em sua oratória: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível” ( 2Co 10.10). Aliás, a Bíblia nos fala de ordem e decência para que os de fora não pensem que estamos loucos! O culto deve ser inteligível (1Co 14.23). Também não quero dizer que os nossos amados irmãos oradores que usam do recurso do grito estão errados. Errado é avaliar um pregador pelo grito. Nós não vamos ganhar no grito! Isso não confere espiritualidade a ninguém! O fervor é medido espiritualmente, tanto do pregador como do ouvinte. O irmão que está vivendo sem fervor é sentido em sua praxe; em sua rotina de vida, a sua frieza é demonstrada. Entretanto, quando perguntamos para ele se está tudo bem, ele responde: “está tudo bem”!

Esse jogo social de parecermos fortes para a sociedade adentrou a igreja e fez com que as pessoas usassem as máscaras da felicidade. Todo mundo está bem! O irmão diz sorrindo: “só umas enfermidades, falta de dinheiro e harmonia, mas, tudo bem!”. O sorriso no rosto virou uma máscara social para enganar os irmãos da igreja ou para dizer, esse irmão sempre sofre, mas nunca reclama! Ele é forte! Ele é o espiritual! Destarte, a Bíblia nos diz: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10 ). É quando reconhecemos nossas fraquezas que somos fortes, pois nossa força vem de Deus! Enquanto você achar que é o supercrente, você estará na realidade sendo o super-hipócrita! Por outro lado, não seja também o “crente dodói”, aquele que só faz reclamar da vida e não age nem faz nada para mudar sua inércia. Vive a vida toda do favor dos irmãos e da igreja e culpa a igreja, o sistema, o país de sua falta de sorte: “oh dia, oh hora, oh azar”. Esse é o lema do “crente dodói”: reclamar! Se ele está frio na fé, a culpa é do pastor, da igreja, do irmão que falou duramente com ele. Se ele está passando necessidade material, a culpa é dos irmãos que não lhe estenderam a mão! Entretanto, ele certamente vive nessa condição há muitos anos e nunca saiu, pois nunca encarou o problema com autenticidade! Nunca disse: “a começar em mim, quebra coração”; “a culpa é minha!”; “vou mudar”. Ele deve pensar assim, pois, no dia do juízo, seremos responsabilizados individualmente. Não adiantará dizer: “a culpa foi de fulano”, pois cada um dará conta de si!

Queridos, termino essa pastoral dizendo que devemos fazer o que Paulo nos orienta: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade (Rm 12.13); e “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15). Para que isso aconteça, precisamos saber se está tudo bem com você realmente! Como vai você? Está tudo bem?

Que Deus retire as nossas máscaras sociais e nos faça irmãos sinceros!

Rev. Ricardo Rios Melo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Igreja missionária, o que é isso?

“Sem lenço e sem documento” – uma análise do crente moderno